12.4.09

De volta à fortaleza

   A manchete do Globo de hoje, desencavando uma discussão morta há 30 anos - a da remoção de favelas -, para mim, é uma ilustrativa demonstração de como a crise econômica está fazendo os veículos recuarem em direção à segurança de suas antigas muralhas. No caso do diário dos Marinho, o retorno a sua histórica vocação de porta-voz da direita carioca mais empedernida, uma atitude que já se anunciava fortemente naquela manchete atacando o falecido Leonel Brizola há duas semanas.

   O recuo estratégico do Globo seria aplaudido por Sun Tzu, Shingen, Clausewitz, Napoleão, Nelson, Rommel, Montgomery, MacArthur e outros grandes estrategistas. Afinal, uma retirada bem-sucedida é considerada uma vitória. Mesmo o avanço anterior não seria motivo de crítica, pois tinha razão de ser. Durante a década de 90 e a primeira parte desta década, os tempos eram de bonança econômica e foi boa a ideia do Globo de tentar conquistar novos consumidores, mais liberais, flexibilizando sua linha editorial, passando um verniz para torná-la menos autoritária e direitista, caindo assim para a centro-direita.

   A estratégia deu certo e uma parte da classe média carioca mais bem-informada (e formada) passou a ler o jornal, até porque o Jornal do Brasil, seu diário do coração, na prática desapareceu como concorrente, enquanto O Dia jamais conseguiu avançar além da classe média baixa do estado. A crise atual, porém, obrigou o jornal a dar uma guinada forte à direita, retomando teses que fizeram sua (má) fama entre os liberais de classe média do Rio.

   É bem possível que a guinada tenha sido causada por alguma pesquisa mostrando que a direita carioca está se sentindo um pouco órfã, já que apenas a Veja é ostensivamente direitista na imprensa brasileira. Uma mostra desse vazio O Globo pode observar mesmo em casa, no caso no Globo on line, um antro do que há de mais hidrófobo e violento em termos de direita na cidade. Essa orfandade, devem ter raciocinado os estrategistas do Infoglobo, permitiria um flanco por onde alguma publicação poderia penetrar. A princípio, seria um raciocínio paranóico, já que não há nenhuma ameaça real no horizonte, mas, como sempre gosto de dizer, na maior parte dos casos, a paranóia é uma virtude.

   Interessante observar agora é a velocidade e âmbito dessa guinada do Globo e também como comportar-se-ão os liberais do Rio, que, pelo que se pode observar no horizonte, não têm para onde correr se quiserem continuar a ler jornal de manhã (ainda mais depois da "ditabranda" da Folha). Talvez o único caminho coerente seja mesmo o Google News.

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27.10.08

Pitacos pós-eleitorais

   Tão tradicional quanto as explicações de institutos de pesquisas sobre os erros de suas previsões são as pós-visões dos analistas políticos depois de qualquer eleição. Assim, como o negócio é dar palpite e eu gosto muito disso, aqui vou eu!


      Nove-Dedos: Perdeu onde sempre perde (Sampa), ganhou onde sempre ganha (Salvador, ainda mais correndo com os dois cavalos) e ainda no Rio, onde tinha o governador ao lado. Não foi derrotado, pois o crescimento PT no G-79 (ver abaixo), é muito importante porque nas cidades abaixo de 200 mil, vale a sabedoria política mineira ? "fogo morro acima, água morro abaixo, mulher quando quer dar e governo federal, ninguém segura". Mas também não foi vitorioso ? mesmo previsível, a derrota paulistana doeu, pela diferença. Nove-Dedos, porém, sabe aprender com as urnas e ver que não é imbatível pode até ajudá-lo em 2010.

      Serra: Ganhou jogando em casa e com o time mais forte. Não fez mais que a obrigação, pois. O problema é que seu partido está praticamente restrito a São Paulo e Paraná, tendo quase sumido no resto do país. E ter como aliado em 2010 o DEM e nada é quase a mesma coisa. Precisa atrair o PMDB inteiro e rapidamente. Mas isso não é nada fácil. Só terá chance se a crise apertar e o N-D ficar com menos 50% de aprovação. Além disso, ainda precisa livrar-se da fama de traidor do partido em Sampa e ainda compor-se com Aécio. Fazendo as contas, ficou melhor do que estava, mas vai ter que suar muito a camisa para chegar legal em 2010.

      PMDB: Teria se dado bem à beça, se fosse um partido de verdade. Como é uma federação de partidos regionais, corre o risco de a vitória ter sido meramente matemática. Quem faturou de verdade foram Geddel, Cabral, Quércia (apoiou a Serra e Kassab, não esqueçamos) e Fogaça. Deles dependerá o que a legenda fará, mas dificilmente seguirão juntos para onde quer que seja.

      PSDB: Ver Serra.

      PT: Caiu nas capitais, onde sua vida nunca foi das mais fáceis ? especialmente em Sampa -, mas cresceu bem no G-79. Terá que suar muito para não perder espaço para o PMDB no governo do Nove-Dedos e, ainda assim, não perder inteiramente esse partido para os tucanos em 2010.

      Cabral: Ficou bem na foto - pode sair para a reeleição ou, dependendo da famosa "correlação de forças", a vice da Dilma. Para ficar na boa mesmo, porém, terá que detonar Garotinho e sua cavalaria interiorana do PMDB.

      Dilma: No fim das contas, saiu ganhando. Afinal, a Marta não vai mais encher o saco e o Tarso não se deu bem em POA. Vai ter que mostrar jogo de cintura com o PMDB, mas pelo menos não estará sozinha nessa tortura.

      Gabeira: É candidato certo ao Senado e largou bem nessa corrida. Problema: se não consegue voto com os suburbanos da Zona Oeste, como é que vai conseguir com o pessoal do Interior e da Baixada? Ter voto só no Rio não é suficiente para eleição majoritária estadual, como Jandirão bem sabe.

      Aécio: Ganhou em casa, mas não fez mais que a obrigação também. Se souber ler urna que nem Nove-Dedos, pode extrair algo de bom. Só que vai ter que se decidir: ou é tucano mesmo e se alinha com Serra, ou se manda para seguir seu projeto pessoal. Se escolher a segunda opção, depara-se com mais um obstáculo: ir pra onde? Talvez o PR do Alencar, que é mineiro mesmo...

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