26.8.08

Números torturados

   Essas matérias que saem, a cada quatro anos, após os Jogos Olímpicos, fazendo aquela continha de quanto se gastou para ganhar medalhas, sempre me fazem lembrar do coronel Rangel. Ele foi meu professor de Estatística, no segundo ano do curso técnico da ENCE (Escola Nacional de Ciências Estatísticas) do IBGE, lá pelo fim dos anos 70.

   Rangel era oficial reformado do Exército, mas o irmão mais novo dele trabalhava (se é que aquilo se chama trabalho) no que era conhecido então conhecido como "porões da repressão", mais precisamente no quartel localizado na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, lugar muito citado, sem nenhuma saudade, por ex-guerrilheiros capturados no Rio. O coronel - cujo maior prazer em sala era meter o indicador do nariz e depois espalhar o produto das incursões nasais pela sala, esfregando aquele dedo no polegar - adorava ironizar aqueles que diziam que "os números não mentem jamais". Rindo, ele dizia que número era igual a ser humano. "Bota no pau-de-arara que ele diz o que a gente quiser", sentenciava.

   Lendo a matéria de anteontem do Globo e confrontando-a com a do JB de ontem (essa, aliás, parecida um pouco demais com a primeira), e esta com a do Globo de hoje, a gente começa a achar que o cinismo do coronel Rangel tem razão de ser. O Globo de domingo informa, com o característico estardalhaço de "denúncia" de primeira página, que o país gastou, em quatro anos, pouco mais de R$ 53 milhões por cada medalha ganha nos Jogos de Pequim. Já o JB de ontem diz, meio desenxabidamente no meio de uma matéria, que o governo da Grã-Bretanha gastou algo próximo a R$ 52,8 milhões, no mesmo período com o mesmo objetivo. Aí, o Globo de hoje diz que os britânicos despenderam "apenas" R$ 17 milhões por cada uma de suas 47 medalhas.

   Parece que os DOI-Codis aritméticos estão a pleno vapor nas redações dos jornais.

Marcadores:

21.2.08

Os rapazes de chápeu preto

   O ponto dessa briga entre IURD e os jornalões O Globo e Folha é que as portas da Justiça estão permanentemente abertas para todos. É direito de todo cidadão ou empresa processar alguém por qualquer coisa. Se a ação é para atingir um objetivo oculto, que não aquele expresso na inicial, é outra coisa - é litigação de má-fé, que pode ser invocada pelos advogados da ré e, caso aceita pelo juiz, "virar" o processo.


   Essa argumentação do Globo, da Folha e da ANJ que os processos são para intimidar os jornalistas e os jornais e que isso ameaça a liberdade de imprensa apresenta alguns problemas:

   1. Descrê da democracia brasileira - Afinal, se uns tantos processos, regularmente impetrados no Judiciário, ameaçam uma instituição básica da democracia, então essa democracia é muito fraca.

   2. Descrê do Judiciário - O argumento dá como certo que os impetrantes vão ganhar a ação, ou seja, que não há juiz, em nenhuma instância - nem no Supremo - capaz de enxergar a suposta intimidação.

    3. Descrê dos próprios advogados das empresas - Se a intimidação é tão evidente, mas os jornais crêem que seus advogados não serão capazes de a demonstrar em nenhuma das instâncias, então eles devem ser muito incompetentes, né? Não deveriam ser demitidos, então?


   O que na verdade ocorre é que:

   1. A ação, impetrada por pessoas físicas, aponta um caminho para todos os cidadãos, mesmo os não evangélicos: achou que não foi tratado corretamente pela imprensa, vá a Justiça. Imaginou o que isso significaria para as empresas? Teriam que melhorar a qualidade das informações prestadas para diminuir a possibilidade de processos e aumentar as chances de vencê-los, caso eles sejam impetrados. Isso significaria mais investimentos na reportagem e na checagem de informações, ou seja, menores lucros. E isso seria só o começo.

   2. No decorrer do processo, há o perigo de aparecer a questão de fundo: a briga é comercial. O Império (a Folha entrou nessa meio de gaiata, para a IURD disfarçar o real objetivo) está vendo com péssimos olhos a agressividade da Universal no campo da mídia e tem tentado barrar o avanço usando aquelas armas comerciais conhecidas e um tanto sujas, como os descontos para "vendas casadas" do tipo anuncie na Globo e ganhe inserção no Infoglobo por 10% do preço original, desde que não anuncie em nenhum veículos da IURD. É um esquema muito usado pelo Infoglobo contra O Dia e o JB, por exemplo (no caso, usando só os veículos da casa). Esse lindo sistema, que é proibido por todas as normas éticas da propaganda (se é que propaganda tem ética...), poderia ser posto a nu no processo.

   Enfim, como sempre nesse tipo de briga, não tem mocinho. Todo mundo usa chapéu preto.

Marcadores: ,

20.1.08

Preocupação

   Ando preocupado com a segurança de Dona Míriam. É que ela está se arriscando muito ao insultar a inteligência do pessoal que a lê e acredita. No sábado, por exemplo, ela quis comparar a ameaça de pacote do Bush Jr. ao aumento dos impostos do Nove-Dedos. Lá, segundo ela, houve respeito ao Congresso, que foi chamado a participar da confecção do pacote, ao contrário daqui, onde houve autoritarismo.

   Ora, Bush Jr. agiu assim apenas porque o que ele está propondo é um imenso Bolsa-Família para os americanos e, para dar esse cavalo-de-pau de 180º no que sempre pregou (que o governo não devia se meter na economia porque o mercado resolve tudo), tem que contar com os democratas, maioria nas duas Casas do Congresso. Até porque os fundamentalistas do mercado (com os quais Dona Míriam sempre se alinhou) já estão contra a proposta do pacotão (o editorial do Waal Street Journal, mencionado na matéria do próprio Globo sobre o anúncio bushiano mostra já foi um declaração de guerra).

   O leitor que acredita em Dona Míriam não é lá muito esperto, mas, caramba!, um dia vai perceber que ela manipula dessa maneira descarada suas análises e muda de posição a cada estação, dependendo do que lhe soprarem os economistas tucanos. Por exemplo, no fim da coluna de ontem, ela diz que pesquisas já mostram que os americanos, mesmo com a corda no pescoço, vão pegar as oitocentas pratas que lhe virão diretamente do IRS (a Receita deles) e comprar qualquer coisa, e não para pagar as dívidas. Dona Míriam comemora isso, pois recuperaria a economia. É, verdade, mas e cadê aquele discursos ecológico que ela passou a defender depois que o Ali Kamel mandou ela parar de falar sobre a exclusão dos negros no Bananão? Consumir por consumir não é a coisa mais anti-ecológica possível?

É por essas e aquelas que, um dia, um leitor bobo vai entender que Dona Míriam o tem sacaneado há anos. E aí...Bom, quem não é muito esperto em geral de3sconfia disso, tem vergonha do fato, e não gosta quando abusam dessa fraqueza.

Marcadores:

2.12.07

Pensamento para 2008

   Na edição de hoje, o jornal dos Marinho tenta vender (esse é o verbo e tomado na pior acepção que você possa dar) três idéias aos leitores:

      1. O Estatudo da Criança e do Adolescente não presta e precisa acabar: Gastou-se um ano, o tempo de três profissionais e, certamente, alguma grana para realizar uma série atacar o ECA e, de passagem, criminalizar os jovens pobres. Para atingir os objetivos manipulou descaradamente a amostra. Dos 4.086 processos selecionados, a reportagem pegou apenas 2.363 (57,83%, também sei fazer continha). Os outros 42,17% foram simplesmente ignorados. Não poderiam ter sido, pois eles também fazem parte do ECA já que foram processados. Por que foram deixados de lado? Para que a amostra desse o resultado pretendido, ou seja, chegar-se à conclusão que os rapazes (principalmente) são praticamente irrecuperáveis e portanto ou deviam ser jogados nas masmorras para sempre ou, quem sabem simplesmente exterminados (oficialmente,quer dizer, pois na prática já são mesmo e até isso é usado contra eles na matéria). Botar aqueles 42% muito provavelmente mudaria muito - com toda a probabilidade inverteria - o resultado.

      Há outro lado triste na história. Na mesma edição do Globo, uma simpática matéria do correspondente Fernando Duarte mostra que os islandeses, campeões mundiais de IDH, acham que essa posição não foi alcançado por causa de dinheiro, mas pela sua coesão social. Coesão essa que nunca foi uma característica nacional nossa e que matérias como essa do Globo deixam ainda mais distante, se não completamente impossível, de ser atingida.

      2. O Governo do N-D inchou a máquina pública: Como a outra, essa é uma idéia obsessiva do Globo. Só que na matéria de hoje que nos tenta empurrar essa idéia, há um erro de edição. O gráfico que a acompanha mostra exatamente o contrário. Em 1995 - no início do governo FHC, que as Organizações Globo consideram a Era de Ouro do Brasil - o número de vagab...quer dizer, de funcionarios públicos federais era de 18,4% e, em 2004, um ano depois do inicio da Era das Trevas, segundo as OG, os vad...funcionários eram 17,9%. Ou seja, caiu 0,5% (o Ipea diz que são 10,9%, mas esse percentual é jogado, perdido, lá no meio da matéria)

      3. Compre TV Digital, pelamordedeus: Prosseguiu a contribuição do Globo ao fazer jornalístico mundial, o estilo Casas Bahia. Quatro páginas dedicadas exclusivamente à venda da jabuticaba digital (só tem no Brasil). Se as páginas viessem pintadas de amarelo, também poderiam parecer os anúncios da Casa&Vídeo.


   Essas três matérias (não vou falar da campanha Seu Madruga contra o Chavez, da qual já me ocupei quando começou à vera, há uns quatro meses) me fizeram tomar minha primeira decisão de ano novo: pensar cuidadosamente paraa ver se vale a pena continuar pagando para receber um prospecto de propaganda disfarçado em jornal.

Marcadores:

21.9.07

Rajada no pé

   Os veículos de comunicação parecem que adoram dar tiro no pé quando se trata do Nove-Dedos. É um troço completamente maluco: o objetivo da mídia brasileira claro é impedir o sujeito de governar direito e, se possível, desestabilizar a administração dele para impedi-lo de sair nos braços do povo e, portanto, como candidato fortíssimo em 2014. Tudo bem. Então por que essa mania de armar o cenário para transformá-lo em herói?

   Vejam esses casos do PAC e da inflação. Nos dois, os coleguinhas vaticinam o Juízo Final, dizendo que o primeiro é um fracasso irremediável e a segunda vai voltar "di cum força". Aí o PAC tem um resultado qualquer que não seja o fracasso absoluto. Meia dúzia de obras mais ou menos vistosas servem. O que acontece? O cara vira herói. O mesmo a inflação - ela desce de novo (o que, aliás, já está acontecendo) e o que ocorre? Lá vai o N-D posar de São Jorge Guerreiro, que venceu o dragão de novo. Isso explica o porquê o pessoal identifica o sujeito como quem domou a inflação, quando, na verdade, quem o fez mesmo foi o FHC - a custa do dólar a preço de banana na marra, mas isso é outra coisa.

   Homessa! Será que os coleguinhas não percebem que se o objetivo é detonar alguém, você exige que o otário faça o máximo - de preferência o impossível - para chamá-lo de fracassado quando ele não tiver atingido a meta? Se afirmar que o mané vai conseguir zero e o cara obtiver 0,1, pronto! A previsão fracassa e o zoió, mesmo não tendo chegado perto sequer do aceitável em termos absolutos, parece que foi um sucesso diante da previsão catastrófica.

   Malandro é tão incompetente que não sabe fazer nem a coisa mais fácil do mundo: crítica destrutiva.

Marcadores: