Números torturados
Essas matérias que saem, a cada quatro anos, após os Jogos Olímpicos, fazendo aquela continha de quanto se gastou para ganhar medalhas, sempre me fazem lembrar do coronel Rangel. Ele foi meu professor de Estatística, no segundo ano do curso técnico da ENCE (Escola Nacional de Ciências Estatísticas) do IBGE, lá pelo fim dos anos 70.
Rangel era oficial reformado do Exército, mas o irmão mais novo dele trabalhava (se é que aquilo se chama trabalho) no que era conhecido então conhecido como "porões da repressão", mais precisamente no quartel localizado na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, lugar muito citado, sem nenhuma saudade, por ex-guerrilheiros capturados no Rio. O coronel - cujo maior prazer em sala era meter o indicador do nariz e depois espalhar o produto das incursões nasais pela sala, esfregando aquele dedo no polegar - adorava ironizar aqueles que diziam que "os números não mentem jamais". Rindo, ele dizia que número era igual a ser humano. "Bota no pau-de-arara que ele diz o que a gente quiser", sentenciava.
Lendo a matéria de anteontem do Globo e confrontando-a com a do JB de ontem (essa, aliás, parecida um pouco demais com a primeira), e esta com a do Globo de hoje, a gente começa a achar que o cinismo do coronel Rangel tem razão de ser. O Globo de domingo informa, com o característico estardalhaço de "denúncia" de primeira página, que o país gastou, em quatro anos, pouco mais de R$ 53 milhões por cada medalha ganha nos Jogos de Pequim. Já o JB de ontem diz, meio desenxabidamente no meio de uma matéria, que o governo da Grã-Bretanha gastou algo próximo a R$ 52,8 milhões, no mesmo período com o mesmo objetivo. Aí, o Globo de hoje diz que os britânicos despenderam "apenas" R$ 17 milhões por cada uma de suas 47 medalhas.
Parece que os DOI-Codis aritméticos estão a pleno vapor nas redações dos jornais.
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