19.6.08

Velhos e bons canalhas

   Vamos lá, admitamos: o Evandro CArlos de Andrade era um escroto, mas era competente à beça no ofício (e esse é um ponto de discordância que tenho com o mestre Nilson Lage). Não é fácil fazer jornalismo a favor, como ele fazia no tempo da ditadura, com uma certa classe. Ok, na eleição de 82 , O Globo esteve profundamente envolvido com a tentativa de golpe do Caso Proconsult, mas, veja, nesse momento o ECA foi coadjuvante - o esquema foi montado pela Rede Globo, o braço impresso do Império ficou no apoio só.

   Mas quando o Briza assumiu, memorável foi a campanha hidrófoba que o jornal moveu contra ele. E esse é meu motivo de saudade do ECA: a campanha não foi dissimulada pelas capas da objetividade, imparcialidade e neutralidade. Nada disso. A regra era clara: O Globo era contra o governo Brizola, fizesse ele o que fizesse. Para a campanha, porém, o jornal montava casos com base em informações - encaradas sob determinado ângulo, mas isso era parte do jogo, como escrevi acima. Não procurava dissimular.

   Hoje, infelizmente, não é mais assim no Globo, pelo menos na política (a Rio ainda mantém aquela tradição, fazendo suas campanhas contra e a favor sob as mesmas antigas premissas). O que mais acontece são coisas como a chamada da primeira de ontem "Varig: fraude teve genro de Teixeira". A matéria procura vincular o Nove-Dedos ao suposto escândalo da Varig via o genro do comprade. Até a doidivanas da minha estagiária pulou: "Querem pegar o Lula de qualquer jeito! Genro do compadre é demais", exclamou ela.

   Outra característica do Evandro - da qual não sinto saudades, mas vejo sob outra perspectiva - era que ele respondia às críticas diretamente. O problema é que xingava o crítico, mas, ainda assim, o fazia publicamente e assinando o que escrevia. Essa atitude desrespeitosa era odiosa, no entanto, ainda era melhor do que as tomadas por seus sucessores que fogem da discussão ou, pior, mandam as respostas por acólitos, muitas vezes anônimos. Do meu ponto de vista, esse é um baixo nível pior que xingamento.

   É, deve ser assim que a gente descobre que está ficando velho - quando começa a achar que até os canalhas do passado eram melhores do que os do presente.

6.6.08

Por que me censurei

   Recebi emails e telefonemas de antigos colegas pedindo que retirasse o post em que punha o nome dos colegas de O Dia torturados por policiais bandidos numa favela carioca. Uma das ligações foi da presidente do sindicato, Suzana Blass.

   Ela fez o pedido de que eu censurasse uma informação (seguindo a tradição de 12 anos da Coleguinhas, as coisas serão chamadas pelo nome nesse texto) argumentando que eu estava expondo a segurança dos colegas, que teriam pedido para terem seus nomes escondidos. Meus contra-argumentos:

   1.Meu único esforço de apuração foi levantar o fone do gancho, teclar um número e perguntar ao colega do outro lado da linha os nomes das vítimas. Alguém acredita que, depois de uma semana de cobertura constante e atos públicos, qualquer policial, bom ou mau, do Rio, se quisesse, não teria nome, telefone, endereço, CPF, número do celular e placa dos carros dos colegas?

   2.No momento em que começar o inquérito, os dados 1, 3 e 4 acima citados estarão no processo, que será acessado pelos advogados dos bandidos e, portanto, por eles. Ou seja, mais cedo ou mais tarde, a segurança deles estará exposta da mesma maneira. Afinal, mesmo que todos os milicianos daquela favela sejam presos, eles têm irmãos, pais, primos e amigos que poderão atentar contra a vida dos colegas e de suas famílias (ou pagar alguém para atentar).

   3.Os nomes estavam no blog há dois dias. Portanto, quem teria que ler, já leu.

   Suzana se convenceu e até disse que eu não devia tirar os nomes. Por que o fiz? Porque uma coleguinha me ligou no fim da tarde e insistiu para que eu o fizesse. Apresentei os mesmos argumentos que apresentara a Suzana. A coleguinha contra-argumentou que os colegas de O Dia mereciam privacidade.

   Foi definitivo. Não porque concorde com o argumento, mas porque me deu a dimensão de como ela estava abalada com o caso para apresentar essa idéia. Um jornalista (muito) inteligente como a colega precisaria estar quase fora de si para usar o argumento da privacidade para sonegar uma informação. Afinal, o que fazemos nós a não ser invadir a privacidade das pessoas e das instituições? Ah, o fazemos "no interesse do público", porque "o público tem o direito de saber" e outros argumentos, quase todos muito defensáveis (o melhor, concordo com Janet Malcom, é o que diz que precisamos pagar a conta do supermercado de alguma forma). Muito bem. Mas o fato é que invadimos e que os mesmos argumentos que embasam a invasão em outros casos podem ser usados nesse. Não são menos válidos (ou inválidos) só porque se refere a dois jornalistas (e um motorista, só para recordar alguém que ninguém lembra).

   A segurança dos colegas ficou comprometida no momento em que eles entraram naquela favela. Não há nada mais a fazer quanto a isso, nesse momento. O que me preocupa mesmo é o que vai ser da vida dos dois colegas e do motorista daqui a, vamos dizer, um ano, quando quase ninguém mais lembrar do assunto. Onde estarão? Não no Rio, certamente. Duvido muito que eles possam morar nesse aprazível estado outra vez, pois, como demonstrei acima, todos os policiais que quiseram já descobriram tudo sobre eles. Serão alvos eternos em terras fluminenses.

   Estarão trabalhando? Provavelmente. A não ser que O Dia se disponha a pagar uma pensão vitalícia aos três, eles vão ter que ganhar a vida de algum modo. Exercendo as suas profissões? O motorista sem problema. Pode dirigir um táxi em...sei lá...Pindamonhagaba. Ninguém vai estranhar se um cara do Rio for para a praça de Pinda e perguntas porventura feitas podem ser dribladas facilmente.

   Os jornalistas? Aí não sei. Se eles quiserem voltar ao jornalismo (há a possibilidade de não quererem), terão que fazê-lo fora do Estado do Rio e chamarão a atenção (mesmo em Sampa ou Brasília). Como jornalista é curioso vai querer saber de onde aquele rapaz ou aquela moça veio. E, como demonstrei, até com uma apuração canhestra se descobre o que aconteceu.

   Mais. Alguma empresa de comunicação aceitará ter em seus quadros jornalistas que passaram pelo que eles passaram? Serão vistos como potenciais fontes de problemas (e quem pensar isso não estará errado). Tornarem-se frilas pode ser uma saída. Mas para iniciar nesse duro caminho ? principalmente longe de sua terra ? vão precisar de muita solidariedade. Só que, para obtê-la, sua história precisará ser conhecida...

   Poderia me estender, mas creio que já mostrei o meu ponto: o que os colegas passaram não será alterado por terem seus nomes conhecidos agora. O seu futuro provavelmente também não, pois logo essa informação terá que estar ao alcance público. No ?provavelmente? reside a minha esperança. Afinal, ao terem seus nomes divulgados, pode ser que eles recebam a solidariedade que o anonimato hoje lhes nega completamente.

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