A "guerra dos biocombustíveis", a mídia brasileira e o muro
A imprensa brasileira está a ponto de ser forçada a tomar uma posição muito importante, provavelmente histórica, sobre a guerra em torno dos biocombustíveis que tomou ritmo de escalada neste ano. A luta põe de um lado o Brasil e, de outro, as grandes petroleiras internacionais, apoiadas pelos países ricos- de cujos governos são grandes financiadoras - e, conseqüentemente, das instituições multilaterais (FAO, FMI, Bird, etc), todas dependentes financeiramente dos países ricos.
Esse coalizão recebe amplo apoio da mídia internacional, cujo exemplo mais recente é o artigo do jornal The Independent (aqui). Nada de novo aqui. A mídia dos países centrais sabe muito bem quais e onde estão os interesses de seus países e não hesitam em defendê-los em momentos que consideram chaves. No caso do The Independent, por exemplo, ele faz parte de um grupo sediado na Inglaterra, mas espalhado por quatro continentes e 22 países, como orgulhosamente afirma em seu site (aqui)
Se não é novidade essa tomada de posição da imprensa em defesa dos interesses econômicos maiores de seus países, aqui essa questão nunca foi colocada. Afinal, o Brasil sempre foi colônia dos outros, um país pobre-coitado, periférico, com quase nenhum poder (e mesmo esse pouco, regional, sempre contestado). No entanto, esse quadro começa a mudar e muito por causa do setor energético.
Como se sabe, a Petrobras está em vias (daqui a uns cinco anos, no máximo) de começar a explorar megacampos petrolíferos, como os de Tupi e Carioca. Essa seria uma ótima notícia para as petroleiras internacionais. Afinal, os megacampos brasileiros aumentariam as reservas imediatamente, e por um bom período, e ainda provariam que a exploração do ouro negro em campos ultraprofundos são viáveis economicamente.
A má notícia para as companhias estrangeiras é que a Petrobras é uma petroleira esquisita. Ela não se contenta em estar montada em reservas gigantescas, mas fica pensando em alternativas ao uso do petróleo. Isso já seria ruim o suficiente se a mais promissora dessas alternativas não tivesse sua tecnologia dominada, em nível mundial, apenas pela própria empresa brasileira. Agora, quando essa companhia estranha, tocada por um governo semiesquerdista liderado por um sujeito que resolveu bancar o líder mundial, começa a admitir abrir essa tecnologia para os países pobres, aí é demais. É guerra.
No meio dessa briga, a mídia brasileira tem conseguido, até com certo sucesso, fingir que não tem nada com isso, ao contrário de suas congêneres estrangeiras. No entanto, o tempo de olhara para o outro lado está acabando. Demonstração clara desse futuro imediato é o "por que não te calas?" que o chanceler Celso Amorim deu em Dominique Strauss-Kahn, diretor-gerente do FMI semana passada, após este ter dado uma entrevista à Europe 1, rádio (et pour cause) francesa (veja aqui).
Como a imprensa tupiniquim vai se comportar? Francamente, não tenho certeza. Historicamente, ela tem se postado docilmente ao lado dos países ricos contra os interesses nacionais. Mas em outros tempos isso era mais fácil. Hoje, o Brasil está avançando celeremente ? mesmo que aos trancos e barrancos no âmbito interno ? para se tornar um jogador de classe mundial, do tipo que tem lugar na mesa principal (algo reconhecido pela própria The Economist, aqui). Esse fato tende a mudar as coisas, pois o empresariado nacional é parte integrante ? uma das principais mesmo - desse movimento e vai cobrar outra postura dos seus colegas donos de empresas de comunicação.
O diabo, para os barões da mídia, é que todo esse movimento ascendente está ocorrendo exatamente durante o Governo Lula. É um problema muito sério para os barões (e mesmo para boa parte dos jornalistas) ter que admitir que o sujeito ? por sorte, talento ou uma provável mistura dos dois ? vai levar o Brasil a um novo nível. A admissão desse fato vai contra todo um discurso, usado durante anos, mas mais especificamente nos últimos cinco, que aponta Lula como inepto.
E, muito provavelmente, a definição terá que ser rápida, pois, como demonstra o bate-boca entre Amorim e Strauss-Kahn, a pau já começou a comer. A resposta, então, se impõe para já e não admite pulo para cima do muro: e aí, mídia brasileira? Vai ficar do lado do Brasil ou dos gringos?
