23.3.08

Além do jornal

   Antes de tudo, creio ser muito meritória a tentativa de O Globo mensurar a realidade, por meio de pesquisas próprias ou veiculando outras, de fontes diferentes, a fim tentar limpar algumas das discussões que atravessam a sociedade brasileira do "achismo". Essa, acredito, é uma das funções que a imprensa pode e deve ter.

   Mesmo sendo uma missão essencial, o jornalismo, no entanto, possui limitações no que diz respeito à análise dos números. A primeira é ideológica. Como veremos adiante, quando falar a matéria de hoje sobre a pesquisa a respeito do que pensa a favela sobre alguns assuntos, o recorte jornalístico tende a ser parcial, quer por determinadas crenças defendidas pelas publicações, quer por motivos mais comezinhos, como o interesse direto. Outro ponto é mais prosaico - a falta de espaço para uma discussão mais aprofundada -, que só piora com a obrigação de "personificar" as matérias com depoimentos que pouco acrescentam à análise.

   Essas limitações podem ser bem vistas tanto na matéria principal da edição de hoje, sobre o que pensa a favela, quanto na da Revista de Domingo sobre cultura. Na primeira, a matéria não menciona no texto, embora o faça nos gráficos (parte que só tarados como eu lêem com atenção), que 65,4% dos entrevistados disseram que a imprensa cobre sensacionalista e preconceituosamente o que ocorre nas favelas. Se houvesse imparcialidade, seria um ponto importante de ser enfocado por ter influência na parte da pesquisa que aponta que a maioria esmagadoras dos moradores das favelas se acha excluída da sociedade.

   A matéria também dá excessiva importância ao número que aponta que as comunidades apóiam o Caveirão quando a PM invade as comunidades. A matéria explica, mas sem dar o devido destaque, que o apoio é quase o dobro na Zona Oeste do que na Zona Norte. Qual o motivo para essa impressionante discrepância? A única explicação - que, na verdade, não explica a questão, por usar uma visão militar - é do coordenador do Core, ou seja um policial diretamente interessado na questão. Por que não se foi mais fundo?

   Um erro mais básico ainda pode ser visto na matéria da Revista de Domingo sobre a posição do brasileiro sobre a Cultura. O erro é que o vídeo e a TV por assinatura não são considerados como itens de consumo de cultura pela pesquisa da Fecomércio. A TV por assinatura não tem lá grande penetração de massa, mas o vídeo certamente mudaria substancialmente o índice de consumo de cinema no país, devido à penetração do equipamento nos lares brasileiros, e, por tabela, alguns outros resultados.

   O tipo de erro apontado acima - bem como a parcialidade evidente no caso do esquecimento sobre a crítica à imprensa - pode comprometer as boas intenções apontadas no primeiro parágrafo. Um maneira de se contornar o problema - caso a empresa realmente queira contorná-lo, bem entendido - seria que O Globo se dispusesse a confrontar os dados das pesquisas que divulga com outras sobre os assuntos em pauta (no caso da matéria da revista isso é feito, mas muito em passant. em relação à pesquisa - não censo como está escrito - sobre cultura do IBGE). Essa confrontação poderia ser realizada em livros já que o jornal apresenta aquele problema de espaço. Os livros não precisariam ser de luxo, até para poderem ser tornados disponíveis a baixo preço, e abririam, necessariamente suas páginas a estudiosos de diversos matizes de pensamento e pontos de vista.

   Uma ação como essa - ou outras que poderiam ser pensadas - elevaria o patamar de discussão dos problemas enfocados e colocaria a empresas realmente como um ator importante na sociedade. Do jeito que acontece agora, fica bacana no fim de semana em que a matéria sai, de repente dá até prêmio, mas ajuda pouco na resolução das questões.

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3.3.08

O bom pastor

   Que Dom Eugênio Salles, arcebispo do Rio de Janeiro, era peça-chave na proteção de brasileiros e estrangeiros perseguidos e presos durante a ditadura militar , todo mundo que militava na esquerda, lá pelo fim dos anos 70, qualquer que fosse o escalão, sabia. Eram muitas as histórias que se ouviam nas reuniões ou enquanto se colavam por aí cartazes pela anistia ampla. geral e irrestrita sobre o vaivém no Palácio São Joaquim e de como o espanhol tinha virado segunda língua ali. O grande mérito histórico das matérias de José Casado em O Globo, pois, não é a revelação desse fato, mas o esclarecimento de quão importante foi o papel de Dom Eugênio.

   Para este modesto blogueiro, na época soldado raso ("tarefeiro") do PCB , serve para refletir um pouco sobre a política e as pessoas (e vice-versa). Quando ouvia as narrativas, em geral de segunda ou terceira mão, ficava intrigado: como é que aquele bispo reacionário poderia ajudar pessoas de esquerda, boa parte notórios comunistas ateus? Parte da resposta política - óbvia hoje para mim - é que reacionário e conservador são coisas bem diferentes.

   Havia também uma questão pessoal. Como é que esse sujeito, me perguntava ainda, poderia ser o mesmo adorado pela minha mãe? Ela jamais se esqueceu ter sido ele que alfabetizara algumas amigas suas, ainda mais pobres do que ela, por meio dos cursos de alfabetização popular - com método Paulo Freire e tudo - que promoveu em seus tempos de bispo de Natal. A resposta aí, acredito hoje, é como você encara sua missão (vocação, trabalho, o nome que você preferir). O nível de sua entrega determina a maneira como você vai agir em momentos de crise. Dom Eugênio acredita, do fundo de sua alma, que sua missão (vocação, trabalho. etc) é ser pastor de almas. O que fez, em todos os casos, foi conseqüência dessa crença.

   No fim, para mim, nessas matérias do Casado esclareceram algumas dúvidas e mantiveram uma certeza: continuo discordando de 90% das idéias de Dom Eugênio, mas os 10% com os quais concordo são muito mais importantes. Nem sei se ele gostaria desse relativismo todo, mas tenho certeza de que entenderia.

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