O bom pastor
Que Dom Eugênio Salles, arcebispo do Rio de Janeiro, era peça-chave na proteção de brasileiros e estrangeiros perseguidos e presos durante a ditadura militar , todo mundo que militava na esquerda, lá pelo fim dos anos 70, qualquer que fosse o escalão, sabia. Eram muitas as histórias que se ouviam nas reuniões ou enquanto se colavam por aí cartazes pela anistia ampla. geral e irrestrita sobre o vaivém no Palácio São Joaquim e de como o espanhol tinha virado segunda língua ali. O grande mérito histórico das matérias de José Casado em O Globo, pois, não é a revelação desse fato, mas o esclarecimento de quão importante foi o papel de Dom Eugênio.
Para este modesto blogueiro, na época soldado raso ("tarefeiro") do PCB , serve para refletir um pouco sobre a política e as pessoas (e vice-versa). Quando ouvia as narrativas, em geral de segunda ou terceira mão, ficava intrigado: como é que aquele bispo reacionário poderia ajudar pessoas de esquerda, boa parte notórios comunistas ateus? Parte da resposta política - óbvia hoje para mim - é que reacionário e conservador são coisas bem diferentes.
Havia também uma questão pessoal. Como é que esse sujeito, me perguntava ainda, poderia ser o mesmo adorado pela minha mãe? Ela jamais se esqueceu ter sido ele que alfabetizara algumas amigas suas, ainda mais pobres do que ela, por meio dos cursos de alfabetização popular - com método Paulo Freire e tudo - que promoveu em seus tempos de bispo de Natal. A resposta aí, acredito hoje, é como você encara sua missão (vocação, trabalho, o nome que você preferir). O nível de sua entrega determina a maneira como você vai agir em momentos de crise. Dom Eugênio acredita, do fundo de sua alma, que sua missão (vocação, trabalho. etc) é ser pastor de almas. O que fez, em todos os casos, foi conseqüência dessa crença.
No fim, para mim, nessas matérias do Casado esclareceram algumas dúvidas e mantiveram uma certeza: continuo discordando de 90% das idéias de Dom Eugênio, mas os 10% com os quais concordo são muito mais importantes. Nem sei se ele gostaria desse relativismo todo, mas tenho certeza de que entenderia.
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