16.11.06

Mídia e direita: que sejam felizes

Gilson Caroni Filho


   Muito se tem escrito sobre a reeleição do presidente Luiz Inácio da Silva e a derrota dos chamados "formadores de opinião". Sem dúvida, o segundo mandato de Lula pôs a nocaute o campo jornalístico brasileiro, seus estatutos de verdade e a crença nos dispositivos que regulam a relação entre os responsáveis pela produção e difusão do noticiário.

   Um misto de perplexidade e consternação já havia tomado conta de nove entre 10 colunistas quando, em meados de abril, o instituto Datafolha publicou pesquisa sobre intenção de votos para presidente. Lula, apesar do bombardeio midiático, mantinha estável sua liderança. Em artigo para o Observatório da Imprensa ("Datafolha rasga fantasia iluminista da Imprensa", edição 376, 10/4/2006) alertamos para o fato de estarmos diante de algo que merecia reflexão mais séria da própria imprensa sobre seu papel na sociedade.

   Destacamos que "mais que a inviabilidade eleitoral do ex-governador paulista, o instituto talvez tenha capturado um dado de extrema importância: a deslegitimação do discurso jornalístico e das representações que estão por trás dele. Salientamos também que "da seleção e organização de informações à edição, temos visto, em quase todos os veículos, a orientação editorial condicionar o conteúdo da reportagem. A negligência investigativa transformou-se no foco adequado a um jornalismo marcadamente de campanha. Ora, a crise do atual governo é, em grande parte, uma realidade produzida por recortes de mídia. Não poucas vezes, o dado concreto cedeu lugar à imaterialidade midiática. Indícios viraram manchetes. E, não tenham dúvida, estas reaparecerão na campanha eleitoral. O resultado é a saturação que deslegitima o fazer jornalístico como práxis ética". Mas o ódio classista não comportava inflexões.

   A forma como o discurso noticioso se organizou e se reproduziu é algo que talvez só encontre paralelo nos episódios que levaram Getúlio Vargas ao suicídio, em 1954. Ou ao golpe militar, 10 anos depois. Redações e ilhas de edição se transformaram em trincheiras do udenismo redivivo. Articulistas, colunistas e jornalistas-blogueiros disputavam entre si quem melhor reencarnaria Carlos Lacerda. Ainda não haviam percebido que se lhes sobrava a determinação do colunista e parlamentar golpista, faltavam-lhes a substância e os recursos estilísticos daquele que ficou conhecido como o "Corvo". Mas havia uma aposta, e ganhá-la transformou-se em questão pessoal, depois que o patronato liberou a besta-fera que havia em cada um.

   O que não perceberam é que a empreitada estava fadada ao fracasso por um motivo simples. A sociedade patrimonialista, cordata e gelatinosa que o colosso midiático julgava ter em mãos ficara em algum lugar do passado. A democracia ampliada já não comportava alternância intraelites. O componente classista estava pronto para ingressar no jogo político. O apoio a Lula não era expressão de um consenso passivo e os que provaram o gosto da cidadania recém-adquirida não estavam dispostos a chancelar retrocessos. As classes populares queriam algo além de uma participação vicária, isto é, exercida por representantes que não pertenciam a ela. A inserção direta na esfera política estava sendo consolidada por movimentos sociais que, sem perder autonomia, dialogavam com o governo. Os setores mais lúcidos da esquerda não alimentavam ilusões rupturistas. Erros passados não se repetiram. Não houve quem confundisse chegada ao governo com tomada do poder.

   Talvez esteja aí o equívoco capital do campo jornalístico. Embevecido com a centralidade que desempenha no processo político, ignorou as mudanças ocorridas na formação social em que atua. A maioria dos articulistas ainda se julgava membros de um "parlamento sem voto". Senhores da informação, tutores da opinião. Quanta ilusão perpassou o facciosismo, o ódio de classe e a índole golpista desses respeitáveis senhores e senhores das mais conceituadas publicações brasileiras.

   No auge da crise, em 2005, julgavam que o PT e Lula estavam feridos de morte. Apostavam na obstrução de canais políticos e em crise institucional. Enquanto CPIs disputavam holofotes, os principais analistas vaticinavam que, sobrevivendo ao turbilhão, Lula chegaria a 2006 sem base partidária e, se tentasse a reeleição, o faria apoiado por seu carisma e um populismo que lhe traria votos dos grotões.

   Um ano depois, vêem o presidente reeleito, com excelente desempenho eleitoral da sigla. Lula conta com o apoio de 16 governadores (eram três em 2002) e amplo respaldo dos principais movimentos organizados. Se o PT precisa investigar os responsáveis por procedimentos internos que chamuscaram seu capital simbólico, a imprensa deve afinar sua banda antes de querer impor ao governo reeleito a agenda dos derrotados.

   Na edição de 28/12/2005, de Veja, Diogo Mainardi escrevia "Passei o ano todo amolando Lula. Dediquei-lhe mais de trinta artigos. Fracassei. Prometo derrubá-lo em 2006". O bolor udenista do inculto colunista de Veja demonstra o quanto a direita empobreceu estilisticamente. Mas o que talvez mais incomode a mídia brasileira esteja no rescaldo da crise. Clóvis Rossi, Eliane Cantanhêde, Josias de Souza, Fernando Barros, Merval Pereira, Dora Kramer e Ricardo Noblat, entre tantos outros, sofreram um sério revés. Ao "maianardizarem" parecem não ter notado que seus leitores cativos ficariam restritos à direita mais reacionária, ressentida e atrasada. Como afirmava Herbert de Souza, o saudoso Betinho, "toda informação é uma proposta ou elemento de formulação de proposta". Quando aceita, a união é estável e duradoura. Que sejam felizes. Por que não? Jornalistas e leitores militantes também merecem a felicidade. Mesmo que ela surja de um pequeno ruído.

Gilson Caroni Filho é professor universitário. Texto publicado no site Consciencia.net

10.11.06

Formadores de opinião se descolaram da opinião pública nestas eleições

Entrevista de Marco Aurélio Garcia à Agência Carta Maior

   Nesta entrevista, o presidente do PT e assessor de Lula diz que 'gostaria de ter uma imprensa mais diversificada no Brasil'. 'Um espanhol, de manhã, quando se levanta, pode ir a uma banca e comprar o El Pais, de centro-esquerda, ou o ABC, de direita. No Brasil, essa opção não existe', diz.

   Gilberto Maringoni - Carta Maior

   Em fins de setembro, durante a chamada crise do dossiê e num dos momentos mais tensos da campanha eleitoral, o Partido dos Trabalhadores afastou o presidente Ricardo Berzoini de suas funções. Assumiu o posto o assessor especial de política externa da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia. Em quase dois meses no comando da agremiação, Garcia foi alvo de pesados ataques por parte de determinados órgãos de imprensa, que chegaram a acusá-lo de "truculento" e a compará-lo com Osama Bin Laden.

   É difícil crer que este gaúcho de 64 anos, culto e afável, possa corresponder àquelas imagens. Formado em direito e filosofia e pós-graduado na Escola de Altos Estudos e Ciências Sociais de Paris, Marco Aurélio é professor licenciado do Departamento de História da Unicamp. Por mais de dez anos foi secretário de Relações Internacionais do PT, além de ser um dos coordenadores do programa de governo do presidente Lula. No ano passado, foi eleito 1º vice-presidente do PT.

   Na noite da quarta-feira (8), após uma exaustiva jornada de trabalho, Marco Aurélio falou por telefone com a Carta Maior. A entrevista será publicada em duas partes. Abaixo segue a primeira delas, na qual ele fala da campanha, do partido e das relações com a imprensa. Na segunda, que será divulgada nesta sexta (10), ele conversará sobre privatizações, desenvolvimentismo e relações internacionais.

   Carta Maior - O sr. assumiu a presidência do PT num momento de extrema tensão. Como vê esta experiência de tornar-se presidente em meio a uma crise interna e sob fogo cerrado da mídia, numa hora decisiva da campanha?
   Marco Aurélio Garcia - Num primeiro momento, havia uma situação crítica por conta dos ataques feitos ao coordenador de campanha. Naquela hora, tanto o Lula, quanto o Berzoini avaliaram ser melhor que o presidente do PT se afastasse e que houvesse uma troca no comando da legenda. Foi uma atitude muito prudente e sensata. Berzoini deu-se conta de que permanecer como presidente e coordenador atrairia um fogo desnecessário sobre a campanha. Isso nos deu possibilidade de enfrentar os últimos dez dias antes do primeiro turno, quando se avolumaram as pressões sobre o governo, feitas de maneira vil. Houve toda aquela manipulação na divulgação das fotos e a censura que a imprensa exerceu sobre a informação naqueles dias. No fim, o resultado foi positivo. Todos aqui, inclusive o presidente, avaliam agora que a realização do segundo turno foi a melhor coisa que poderia ter ocorrido.

   CM - Por quê?
   MAG - Se nós tivéssemos ganhado no primeiro turno, levaríamos por uma margem de um ou dois pontos de diferença em relação à soma de todos os outros candidatos. Sempre ficaria pendente aquela questão: "Ah, se tivesse se realizado o segundo turno, a oposição poderia ganhar..." Com a nova rodada, tivemos um resultado muito mais expressivo, do ponto de vista eleitoral, e, sobretudo, do ponto de vista político. Houve uma nitidez inexistente anteriormente. Fizemos uma campanha mais politizada, houve uma distinção e uma oposição radical entre os dois projetos. O Alckmin não teve mais condições de dizer, de um lado, que faria cortes de gastos, e, de outro, que era desenvolvimentista. Na tentativa de resolver esse dilema insolúvel, ele teve de dar explicações todo o tempo. A questão do "risco-Alckmin" colou nele, não por terrorismo marqueteiro ou ideológico. Colou porque a grande maioria do eleitorado brasileiro se deu conta de o que estava em jogo. Ele chegou a se valer de artifícios ridículos para se colocar. O caso mais emblemático foi o daquelas fotos nas quais ele apareceu com uma jaqueta e um boné cheio de logotipos de estatais brasileiras. Parecia mais um piloto de Fórmula 1 do que qualquer outra coisa. Mas seu carro não conseguiu sequer acelerar no boxe de partida. No primeiro turno isso não estava claro.

   CM - O sr. atualmente desempenha uma dupla função: é presidente do partido e ao mesmo tempo é assessor presidencial. Isso não prejudica a autonomia partidária em relação ao governo?
   MAG - Não sofri, até agora, nenhum constrangimento por estar numa ou noutra função. No momento em que isso ocorrer, terei de fazer uma opção. Mas eu já era vice-presidente do partido e só estou na atual posição por ser anteriormente vice-presidente do PT. Minha presença na presidência é transitória. Se o Berzoini voltar amanhã, deixo a função; se ele não voltar, estudaremos uma solução duradoura. Acho que o partido dispõe de quadros com muito mais qualidades que eu para enfrentar essa tarefa. Não estou alheio aos problemas que o PT tem pela frente e vou me empenhar, como presidente ou militante, na resolução desses problemas.

   CM - Como o sr. viu o desempenho da imprensa, durante a campanha?
   MAG - A opinião não é só minha. Vários jornalistas, formados em órgãos de grande imprensa, somados a entidades acadêmicas, mostraram a existência de uma pronunciada parcialidade dos meios de comunicação. Acho muito normal a existência de uma imprensa partidária. Mas penso que ela deve se assumir como tal. Outro dia, em conversa com jornalistas, eu disse que gostaria de ter uma imprensa mais diversificada no Brasil. Um espanhol, por exemplo, de manhã, quando se levanta, pode ir a uma banca e comprar o El Pais, de centro-esquerda, ou o ABC, de direita. No Brasil, essa opção não existe. Aqui, a imensa maioria dos órgãos de imprensa está afinada com determinada posição. Isso é natural, mas existe uma enorme parcialidade.

   CM - Qual a decorrência disso?
   MAG - É que o eleitorado não seguiu os que se intitulam "formadores de opinião". Houve uma separação entre eles e a opinião pública propriamente dita. Este é um tema relevante. Eu, se fosse dono de uma rádio, de um jornal, ou de uma emissora de TV, tendo algum compromisso com o público leitor, eu estaria preocupado e tentaria fazer uma reflexão. Isso seria urgente. A única coisa que recomendei foi isso. Mas alguns setores da imprensa estão tão auto-suficientes que não conseguem admitir isso. E quiseram estigmatizar essa opinião, tentando identificá-la como cerceamento ou patrulhamento. Nada disso! Se eles não fizerem, não terão problema algum comigo, com o PT ou com o governo. Terão problemas com seus leitores, ouvintes ou telespectadores. Eu também falei - e isso foi visto como suprema heresia - que há mal-estar nas redações e entre os assinantes das publicações. Alguém tentou identificar meu comentário como estímulo à violência contra jornalistas. É absurdo. Eu me oponho a violência contra qualquer pessoa, seja jornalista, jogador de futebol, trabalhador etc. Sou particularmente contra agressões a jornalistas. Eles muitas vezes sequer têm responsabilidade sobre o que é publicado por seus jornais. Mesmo em relação aos proprietários dos meios, a sociedade tem de ter uma atitude respeitosa. Pode-se criticá-los e, no limite, até vaiá-los. Mas jamais fazer qualquer tipo de violência física, como parece ter ocorrido em alguma circunstância.

   CM - Em que muda a relação do governo com a imprensa neste segundo mandato?
   MAG - O presidente, durante a campanha, e em tom quase de auto-crítica, disse que gostaria de ter uma relação mas fluida com a imprensa. Eu também acho. Ele deve conversar mais, dar entrevistas, coletivas etc. Mesmo se a imprensa mantiver essa posição amarga e, em alguns casos, injusta e injuriosa, ele deve conversar. Acho que se mudar a relação com a imprensa, será para melhor.