26.10.06

O porta-voz dos Césares
Francisco Viana


A definição é de Luiz Fernando Brandão, da Aracruz, participante do primeiro Curso Internacional de Comunicação Empresarial, organizado pela Aberje e pela Universidade de Syracuse. O personagem em questão é o professor que falou no último módulo do evento, que, pela sua vasta experiência e convívio com o poder nos Estados Unidos, parece estar mais próximo para um personagem de cinema do que para a vida real. Chama-se F. William Smullen III. Mas tudo que ele viveu e contou é real.

William respondia pela comunicação da academia militar de West Point quando, em 1975, o governo americano resolveu que a partir de então as mulheres também seria admitidas como cadetes. Foi uma confusão abissal. A velha guarda reagindo. Pior: um mês depois aconteceu a primeira fraude de exames na escola, envolvendo mais de uma centena de alunos. Estava sendo quebrada uma tradição de 175 anos, e William deu conta do recado. Resolveu duas crises iniciando uma carreira que se confunde com a própria história recente dos Estados Unidos. Foi assessor do Pentágono e do Secretário de Estado, Colin Powell, com quem trabalhou por mais de uma dezena de anos. Ao todo, organizou mais de 600 entrevistas para o General Powell e o ajudou a redigir seu livro de memórias que vendeu 60 mil exemplares em apenas quatro meses, só em noites de autográfos em cidades americanas.

Quando o general resolveu anunciar que não se candidataria à presidência dos Estados Unidos, ele foi o comunicador por trás da decisão e da sua divulgação. Desse período lamenta apenas uma coisa. O general, segundo ele relata, foi induzido a anunciar uma mentira: a existência de armas nucleares no Iraque. Foi a única nódoa numa carreira erguida na linha reta da construção da confiança junto à opinião pública. William Smullen III é uma personalidade cativante. Firme, seguro de si, culto, mas muito simples, afável, despojado de traços de arrogância. Bem humorado, diz que conheceu todos os egos do mundo em Washington e não transige se o tema é a liberdade de expressão. Veterano do Vietnã, certa vez travou o seguinte diálogo com um oficial que respondia pela comunicação no exército:

O oficial (também um veterano do Vietnã):
- Perdemos a guerra por causa da mídia.

Ele (que era um dos homens fortes da comunicação):
- Como a mídia é responsável pela nossa derrota? Nós é que erramos. Levamos 11 anos repetindo, todo Natal, que iríamos retirar as tropas e nada. Nos desgastamos. Perdemos a confiança da opinião pública.

Agora, ele adverte que os EUA estão repetindo o mesmo erro no Iraque. Primeiro, porque o governo mentiu. Justificou a invasão com o fato de o Iraque vir construindo um arsenal de armas de destruição em massa e a realidade é que tais armas não existem. Depois porque vêm adiando, adiando, adiando a retirada das tropas. O resultado: a credibilidade americana está caindo em flecha e os custos da guerra se tornando cada vez mais altos. Não apenas os custos financeiros e de vidas. Vale lembrar, ele citou, que a invasão do Iraque já custa algo como US$ 480 bilhões (cerca da metade do PIB brasileiro), sem contar os milhares de civis e soldados mortos ou feridos, e os graves prejuízos sofridos pelos negócios americanos em todo o mundo. Em valores financeiros, só perde para a II Grande Guerra e para o próprio Vietnã.

Pesquisas indicam que depois da invasão do Iraque as vendas das empresas americanas vêm caindo e os jovens vêm se posicionando contra produtos do país. Ele contou inclusive um fato curioso: em Hamburgo, dez restaurantes se uniram para que não fossem mais vendidos Coca-Cola e o cigarro Malboro, nem aceito o cartão American Express. A saída que recomenda, do alto da sua experiência em meio aos césares modernos: diálogo, diálogo, diálogo. É uma receita válida para todas as situações de crise. Ou de conflito. O diálogo é a argamassa da reputação que é, na essência, o presente, o futuro e o passado da democracia. Ou, o presente do passado, o presente do presente e o presente do futuro, parafraseando o sábio padre Vieira.

Se a verdade factual deve ser o mantra do bom jornalismo, o diálogo é o mantra da boa comunicação. Todo o tempo, William assinalou o que profissionais brasileiros têm também assinalado à exaustão: comunicação exige respeito à opinião pública, busca da verdade factual, a transparência e ética. Exige que se condene a arrogância, que se admita os erros, que se evite o conflito, que se mantenha a dignidade mesmo nas situações mais difíceis. Recomendou que jamais se construa muros que separem pessoas, empresas e nações dos seus adversários. Admitiu a dificuldade de diálogo com as organizações não-governamentais, mas considerou prioritário que as portas para o entendimento estejam sempre abertas e a todo instante enfatizou o valor capital da liberdade de expressão.

Não fugiu a perguntas durante as 20 horas do curso. Personalidades como William Smullen demonstram que a jóia da sensibilidade da comunicação pode encontrar a armação adequada se houver a fusão de competência com a afirmação dos valores democráticos. Se a visão política aliar-se à arte da técnica e da sensibilidade. A Comunicação de qualidade é a utopia da democracia. E o diálogo, a construção da utopia.

O tema do curso de Smullen foi comunicação de crise. Poderia ser também o valor da ética na comunicação. Ele assinalou que hoje as pesquisas mostram que a balança da ética tende a pender para o lado das empresas. Em parte, porque o trabalhador americano, por exemplo, prefere empresas que assumam e respeitem seus compromissos com a sociedade; em parte, porque há forte rejeição contra tudo que não é ético e responsável. A imprensa trabalha 24 horas por dia, sete dias por semana, todos os dias do ano, ele lembrou. Quem mentir, errar ou cometer desonestidades vai ser descoberto e denunciado. Perderá a credibilidade e a reputação. Palavras que o dia-a-dia do Brasil tem demonstrado ser verdadeiras. William Smullen, como os demais professores do Curso Aberje-Syracuse encontraram nos alunos substancial apoio pela excelência do grupo que inspirou debates que corresponderam a um retrato autêntico e profundo do que há de melhor na comunicação no país. Hoje, equiparável ao que existe de avançado na América e na Europa. Vale lembrar que entre os participantes do Curso Internacional estavam representantes de destacadas empresas brasileiras, todos muito experientes e com visões muito claras e construtivas do papel que exercem. Em 2007, haverá a segunda edição do Curso.

Francisco Viana é jornalista, consultor de empresas e autor do livro "Hermes, a divina arte da comunicação". Texto publicado no Terra Mgazine

11.10.06

Porque vou votar no Lula

Ziraldo

   Segundo o Mauro Santayana, que não nasceu em Minas - como o Itamar, que nasceu no mar -, mas é uma instituição mineira, a gente tem que ter muito cuidado com paulista.

   É claro que estou tratando a coisa como uma brincadeira, somos todos brasileiros (meus seis netos nasceram em São Paulo, a esposa do meu filho e os maridos de minhas filhas são paulistas e estou muito feliz com essa arrumação).

   Como em nossa História, porém, nós, mineiros, andamos de pinimba revolucionária com a paulistada, as lendas correm soltas. Os cariocas diziam que mineiros compravam bondes. Compravam, sim, confirmam alguns mineiros mais espertos; mas pra vender pra paulistas. Conta-se também que mineiros nunca se importavam de ver seus times sempre perdendo para os times paulistas.E explicavam: "Futebol nós perde; o que nós num perde é revolução." Segundo o Mauro, que explica como a frase que vou citar surgiu - história da qual me esqueci -, a rapaziada de Minas mais próxima da fronteira com São Paulo avisa pro resto da mineirada: "Paulista, nem à prazo nem à vista!" Taí o Fernando Henrique Cardoso que não deixa a mineirada mentir, não é mesmo, Itamar? Bem, depois de ler esta introdução e ver lá em cima o título do artigo, os mineiros que me leêm neste instante e para quem um pingo é letra já perceberam onde quero chegar.

   Pra simplificar, antes de entrar em considerações é só lembrar ao meu povo - mineiro, como vocês sabem, chama o povo lá de casa de povo - que nós, o Brasil inteiro, ficamos, a esta altura, entregues a duas possibilidades paulistas: ou entra o Álck'min (cujo sobrenome é um desrespeito a Minas, terra dos alquimíns de Bocaiuva) ou entra o Lula que, no fundo, é um metalúrgico paulista que venceu na vida .Nunca podemos nos esquecer de que, quando FHC assumiu, o projeto deles era o de ficar 20 anos no poder. Dentro do plano, tiveram a cachimônia (adoro esta palavra!) de inventar o acontecimento mais antiético da história da República brasileira: a reeleição. Ela foi um sujo golpe às instituições, uma medida que nem os militares da ditadura tiveram a coragem de perpetrar, realizada em causa própria - com o principal beneficiário no poder - e conseguida da maneira mais desonesta de que se tem notícia: comprando, por preço nunca sabido, o voto dos deputados que, sem que a imprensa brasileira se escandalizasse ao nível do que se escandaliza hoje, começavam a desmoralizar mais ainda o nosso tão desmoralizado Congresso. Tudo começou com essa gente. E eles querem voltar ao poder.

   "Non pasarán!" - os mineiros têm a obrigação de dizer. A trajetória política do Lula serviu para provar que a alma humana é que atrapalha todos os mais nobres planos de salvação de um povo. A verdade é que ninguém, mas ninguém mesmo, ama o povo. É tudo conversa. As pessoas se movem em torno do poder e só depois é que descobrem uma causa para justificar sua luta por ele (o poder). Enquanto o ser humano, como indivíduo, mover-se em função do rancor, da carência afetiva e da inveja, não haverá possibilidade de êxito para qualquer causa coletiva.

   Mas isso é outra história. O Luis Fernando Veríssimo descobriu a pólvora: Lula é o sertão - vejam sua vitória no Norte e Nordeste; na alma do povo ele é mais de lá do que de São Bernardo - e o Alckmin é da Daslu.

   Delenda Daslu! Não é possível que nós, mineiros - depois de termos cometido o erro que o Itamar cometeu, este de inventar essa deletéria figura do Fernando Henrique - vamos agora eleger o Alckmin. "Um erro, nós admitimos, dois, não." - como diria o macaco que não devolveu o troco a mais na primeira compra e exigiu o troco a menos na segunda.

   Tenho certeza de que o Aécio está no palanque apoiando o Alckmin por uma questão de lealdade ao seu partido - onde ele me parece um estranho no ninho, mas já que está lá... - e não por convicção. Ele sabe que Lula tem que ganhar disparado em Minas neste segundo turno para evitar que Alckmin assuma a presidência e mele o projeto nacional de ter o Aécio como presidente do Brasil no próximo pleito.

   Então, é isto: o Aécio está falando que é pra gente de Minas votar no Alckmin. Mas, todo mineiro sabe que isto é como aquela velha anedota da rodoviária: "Ocê tá dizendo que vai pra Manhuaçu pra eu achar que ocê vai pra Manhumirim, mas, ocê vai é pra Manhuaçu, mesmo". Ou seja, ele tá dizendo pra nós votá no Geraldo, mas é pra nós votá no Lula, mesmo. Para aplacar a consciência dos possíveis eleitores do Lula que não votarão nele com muita alegria, prestem atenção: independente das razões que dei até agora pra nós, mineiros, votarmos no Lula, tenho outras razões mais consistentes.

   Todo mundo fala do escândalo da corrupção no governo Lula. É realmente assustador, nunca vimos pessoal mais incompetente, mais desastrado, mais canhestro e - vamos lá - mais desonesto.

   Quer dizer, mais desonestos já vimos, sim. É só lembrar que a maioria dos escândalos que são atribuídos a estes melancólicos sindicalistas da tropa do Lula, esses peleguinhos de quinta ordem, sempre foram frequentes em administrações anteriores, só não tiveram tanta visibilidade como têm agora. Muitos dos escândalos que se creditam à administração Lula começaram no governo anterior, como o escândalo dos sanguessugas - cujo teor de gravidade pode ser medido pelo valor atribuído ao dossiê que o denuncia - e a fabulosa aventura do Marcos Valério.

   Agora tudo se denuncia, tudo se apura, ainda que tudo vá ficar por isso mesmo, mas vejam um detalhe: a turminha do Lula, meus amigos, é descartável! Eles são ladrõezinhos de m. dos quais o país pode se livrar com um peteleco. Vai ser fácil ficar livre deles. O que nós nunca conseguiremos é livrarmo-nos da oligarquia brasileira, dos bornhauses da vida, dos jereissatis, dos ACMs, dos ricos paulistas que já tiveram a coragem de confessar: "Somos todos corruptos!"

   É essa gente que herdou as capitanias hereditárias e que está montada no povo desde que os portugueses chegaram aqui. É essa gente que construiu a parte indecente da história do nosso país. É essa gente que fala em ética, mas acha que aceitar voto de qualquer um é correto. É dssa gente farisaica que pensa que é melhor do que o povo do Lula. Mas, não é. Temos que dar mais uma chance a este segmento da sociedade que chegou ao poder com o Lula.

   Eles estão sendo minados o tempo todo, mas, pelo menos, são outra gente. Não quero de volta os hipócritas da paulicéia desvairada. Prefiro o messianismo sertanejo do Lula.

8.10.06

Nos EUA de Foley, no Brasil de Clodovil

Cenários parecidos mostram que não há lugar para santos no exercício do poder. Todo o cuidado é pouco com os iconoclastas de ocasião.

Eduardo Graça

O Congresso dos EUA vive uma de suas mais graves crises com a descoberta de que o deputado que comandava o programa federal dedicado à erradicação da pedofilia trocava picantes mensagens eletrônicas com estagiários adolescentes. O republicano Mark Foley, da Flórida, renunciou ao mandato esta semana quando o escândalo ganhou a primeira página dos jornais. O Foleygate tem tudo para ser a versão ianque da ‘compra do dossiê’ que faltava para os democratas tentarem virar o jogo e retomarem o controle do Congresso. Até porque ninguém sabe ao certo como a baixaria veio a público justamente há um mês das eleições.

O Foleygate é mais um de uma série de escândalos que levou os americanos, em pesquisas conduzidas por diferentes institutos, a considerar esta a pior legislatura da República. Aqui não se tem Waldomiro, Freud ou Marcos Valério, mas pululam os Jack Abramoffs, que compram boa parte dos congressistas e controlam seus votos. Um deputado da Califórnia processado por corrupção teve o desplante de dizer que era impossível resistir a iates, mansões e viagens internacionais proporcionadas por intermediários de certas corporações. E ainda buscou dividir a vergonha com a sociedade, perguntando, exatamente como Clodovil em sua primeira entrevista pós-eleição: e quem não faria o mesmo?

Nos EUA de Foley, não se ouviu sequer de um único congressista envolvido nos seguidos escândalos de corrupção nos últimos quatro anos um pedido de desculpas. Ninguém se disse arrependido por ter utilizado um cargo público para estabelecer seu balcão de negociatas. E o Foleygate só aumentou o tamanho da bronca. Líderes cristãos de extrema-direita agora disputam espaço com os progressistas na sessão livre de catiripapos contra os mandatários públicos. O Legislativo, denunciam, se reduziu a um ‘parque de diversões para predadores sexuais’.

Mas o que vem tirando mesmo o sono dos eleitores é a revelação de que alguns congressistas republicanos, incluindo a autoridade mais alta da Casa, J.Dennis Hastert, fiel aliado do presidente Bush, sabiam, desde junho, das investidas do deputado Foley aos ‘meninos do Capitólio’. E abafaram o caso de olho nas eleições do mês que vem, que vão decidir quem controlará o Senado e a Câmara Baixa nos próximos dois anos. Pior: o deputado Thomas Reynolds, de Nova Iorque, que enfrenta uma dura batalha em seu distrito, sabia do caso, calou-se e ainda recebeu de lambuja, dos bolsos de Foley, uma ajuda de US$ 100 mil para sua campanha.

Enquanto o escândalo vai ganhando dimensões gigantescas, com a imprensa pedindo as cabeças de Reynolds e Hastert, o ultra-conservador Foley, pressionado por seus próprios advogados, assumiu sua homossexualidade, revelou, a quem interessar possa, que foi molestado por um sacerdote quando tinha 13 anos, jurou ter ‘apenas’ trocado e-mails picantes mas jamais mantido relações sexuais com os meninos do Capitólio e prometeu abandonar a política.

No Brasil de Clodovil há quem se espante com o aparente paradoxo de o PT, justamente o PT, ungido árbitro da ética pela mídia, pela academia e pelas urnas, ter se envolvido em tanta falcatrua. Nos EUA de Foley, o Partido Republicano, que chegou ao poder pregando do púlpito o culto à moral e aos bons costumes e a defesa do cidadão comum, marca sua passagem por Washington com um ataque sem precedentes à família, aos direitos individuais, ao bolso da classe média, à liberdade de expressão e às minorias. Os cenários se assemelham quando revelam a corrosão do atual modelo de democracia representativa. Mas também nos mostram a necessidade de se desconfiar daqueles que almejam a canonização social através da política. Não há lugar para santos no exercício do poder.

Do mesmo modo, todo o cuidado é pouco com os iconoclastas de ocasião. Nos EUA de Foley, os republicanos acabam de desenterrar o caso do deputado democrata Mel Reynolds, de Chicago, que foi parar na prisão tanto pelo recebimento de propinas de lobistas quanto por seu envolvimento com um menor de idade, voluntário em sua campanha. Reynolds foi vergonhosamente perdoado pelo presidente Bill Clinton. No Brasil de Clodovil o solo também é fértil para os que quiserem fuçar o passado dos novos paladinos da decência nacional – ou alguém reza de olhos fechados na igreja de Antônio Carlos Magalhães, César Maia, Eduardo Azeredo, Fernando Henrique, Anthony Garotinho e Geraldo Alckmin?

Eduardo Graça é jornalista free lancer e mora em Nova York

5.10.06

"Candidatos virtuosos." Um debate equivocado sobre a política.

Por Jorge José da Costa*

   Às vésperas das mais amplas eleições brasileiras, envolvendo a presidência da República, governadores dos Estados, além dos proporcionais (Senado, Câmara e Assembléias Legislativas), a mídia, as entidades, os partidos e representantes da chamada opinião pública insistem em tratar a política pelo viés da dicotomia entre o virtuoso e a malvadeza, mais a iniqüidade, espoliação e expropriação.

   O enfoque veiculado em ampla escala pela mídia, reproduzindo ou não expectativas dos setores organizados ou mais informados da sociedade, é equivocado, pois parte de pressupostos que não existem na política moderna, por querer que o representante seja o porta-voz de toda a sociedade, quando, na verdade, representa somente uma parcela da sociedade – classe social, setor econômico, cidade, região etc. Outro equívoco reside na expectativa de que o mesmo tenha um comportamento virtuoso, no qual o interesse público ou o bem comum sejam o fundamento das suas ações e posições políticas, de modo que interesses privados ou de grupos não se sobreponham ao interesse geral.

   A contribuição que a mídia poderia dar ao debate seria oferecer maior clareza ao eleitor de que quem elege o candidato é uma parcela da população, com seus respectivos interesses, e não toda a sociedade. Se alguém, por exemplo, ficar indignado com a reeleição de “mensaleiros”, é porque deseja um representante virtuoso eleito por um eleitor de igual virtude, não percebendo que há eleitores organizados e que agem em vista dos seus próprios interesses – e não do interesse geral – e sabem que aquele deputado “mensaleiro” pode ser melhor representante desses interesses.

   Uma nova legislatura, a ser eleita no próximo dia 1º de outubro, não irá alterar esse quadro, uma vez que os eleitores continuam a votar a partir de duas condições. A primeira é de quem é ligado a um candidato por qualquer motivo – parentesco, amizade, partido, associação, região, interesse econômico etc. – e sabe que esse candidato irá favorecê-lo se eleito. Esse eleitor é o "eleitor organizado". O segundo é o "eleitor não vinculado", que é a grande maioria que procura desesperadamente um candidato "virtuoso", ou, se preferir, honesto e preocupado com o bem comum.

   Como todos os candidatos se apresentam como honestos e defensores dos interesses gerais da população, o "eleitor não vinculado" acaba colaborando, em vista da dispersão dos votos, para a eleição dos candidatos do "eleitor organizado" e se frustra – no futuro – quando o eleito não é virtuoso e ainda volta a se reeleger. Setores organizados da sociedade e a mídia em geral tentam influenciar ingenuamente o "eleitor não vinculado", mostrando os candidatos segundo o critério equivocado da virtude política, enumerando quem são os "melhores" e "piores", e não consideram o modo como são de fato eleitos e os interesses que atendem.

   Os eleitores organizados sabem disso, por isso não votam em um candidato virtuoso, mas que lhes atenda aos interesses. Os não-organizados acreditam na fantasia da democracia e, por isso, sonham ingenuamente com candidatos virtuosos para votar. É fato basilar, na nossa sociedade calcada na cultura de massa, que de ilusão também se vive.

   
* Jorge José da Costa é advogado, mestre e doutorando em ética e filosofia politica pela USP. Texto publicado na edição de setembro da revista Caros Amigos