25.4.06

Mitos da imprensa sobre a Amazônia

Paulo França*

   O desconhecimento e a má informação que temos sobre a região amazônica nos leva a aceitar e a propagar mitos sobre ela que, na verdade, prejudicam muito mais do que ajudam. Em recente curso na Escola Superior de Guerra, ficou claro para os participantes que o Brasil tem a mais rica área do planeta. Especula-se no mercado internacional que ela valha 3 trilhões de dólares. Porém, se fosse regulamentada sua exploração, industrialização e comercialização, o país ganharia algo em torno de 33 trilhões de dólares.

   Contudo, a Amazônia é pessimamente utilizada por nós. Enquanto a maioria pensa que o Sul e o Sudeste é que produzem as grandes riquezas do Brasil, ignora que Manaus é o terceiro PIB do país! Uma das capitais com os melhores salários, inclusive do setor público, e uma das mais caras do Brasil. Com a chegada da Copa do Mundo, as montadoras de TVs já estão rejeitando encomendas. O porto de Manaus está abarrotado de conteiners.

   Em Urucu, na Amazônia Ocidental (Pará, Amapá, Roraima, Amazonas, Acre e Rondônia), está a maior reserva de gás do mundo. E só agora a Petrobrás foi se instalar lá. Em breve, com os royalties, o estado do Amazonas seráum dos mais ricos da federação. E Evo Morales terá de parar de birrinha com seu gás para o Brasil.

   Os programas espaciais dos EUA e da Rússia dependem de um mineral que temos de sobra: o nióbio, essencial por sua formidável resistência à pressão e à temperatura. Sem falar nas minas de diamantes, ouro e demais minerais, inclusive o petróleo. Porém, o mais importante mineral para o mundo, tanto dos que vão ao espaço quanto dos que nem espaço têm para dormir, é a água. E a Amazônia legal é repositária de aproximadamente 20% da água potável existente na Terra, sendo que 14% deste total estão em subsolo brasileiro.

   Como os EUA não têm mais fonte de água natural, fica fácil entender um dos motivos ocultos do Plano Patriota, lançado por Bush, que levou militares americanos à Colômbia numa situação tipo casa da mãe Joana. Pelo acordo, os militares têm imunidade diplomática ampla, geral e irrestrita. Podem até matar um sujeito na rua que nem para a delegacia vão. E por que a Colômbia teria aceitado esta parceria? Para garantir ajuda contra os narcoguerrilheiros das Farc?

   Segundo o general de brigada Villas-Boas, chefe do Estado-Maior do Comando Militar da Amazônia, os caras ficaram apenas no ramo do tráfico de cocaína mesmo. Não se envolvem mais com a causa dos pobres colombianos. Mas acredito que a coisa não é só por aí. Além de conhecer muito bem seu lado da Amazônia, os narcoguerrilheiros são protegidos pelo espoliado povo colombiano na floresta. Servem como referências de uma justiça pela qual anseiam. Grosseiramente, algo como acontece nas favelas cariocas.

   Para nossa tranqüilidade, o general garante que raras vezes gente da Farc se arrisca a entrar em nosso quintal. Há pouco tempo, três tentaram. Um foi morto e dois, presos. Pelo ar não vêm mais. Um áudio veiculado na ESG pelo coronel-aviador Reis, comandante do Comando Aéreo Regional da Amazônia Ocidental, mostra o medo que os traficantes tinham dos nossos caças: nenhum! Perseguidos no ar, eles trocavam informações pelo rádio. Tem um tucano colado na gente! Fica calmo, cara, fica calmo, respondia o receptor em terra. Eles vão derrubar a gente. Vou jogar o material fora. Joga não. Joga não! Os caras não atiram. Eles só tiram fotos! Fica calmo.

   Segundo o coronel, depois da Lei do Abate não passa um só avião sem se identificar direitinho. Assim, as rotas aéreas do tráfico foram substituídas pelas terrestres. O que também não é bom negócio. Conforme o professor Amorim, do Instituto Militar de Engenharia (IME), não há pedra brita na Amazônia. Claro, se não há montanhas desse mineral, ele tem de vir de outros estados. Daí porque é muito caro e difícil a construção de estradas lá. Todos apostam nas ferrovias ali como solução de transporte.

   Mas a Amazônia tem os maiores rios navegáveis do mundo! Errado. O chefe do Estado-Maior do 9º Distrito Naval informa que as dificuldades são enormes. Na época das vazantes, mal passam as canoinhas. Os rios são rasos (de baixo calado), têm muitas corredeiras e fazem tantas curvas que mais parecem nós de marinheiros. Não há navio de grande porte capaz de trafegar por eles. A Marinha conta com uma meia dúzia de helicópteros, navios de médio porte e lanchas ligeiras que carregam até 13 fuzileiros navais. Este transporte é todo de tecnologia nacional.

   Portanto, o melhor meio de locomoção na Amazônia Ocidental é por via aérea. E a FAB já dispõe de mais de 60 aeronaves naquele espaço, assim como de uma centena de pistas de pouso, a maioria sendo ampliada de 1.200 metros para 1.500 metros, a fim de receber os aviões maiores que estão chegando ainda este ano. E já está terminando a segunda base aérea na Amazônia. Diversas pistas clandestinas foram explodidas.

   O Exército cercou com pelotões de fronteira toda a linha que nos separa da vizinhança. Este ano deve receber mais alguns milhares de soldados, visto que 50 mil deles estão garantidos nos R$ 600 milhões destinados às Forças Armadas no novo Orçamento da União. Ou seja: estamos com uma razoável proteção militar no Norte. Mesmo assim, estamos sendo invadidos por estrangeiros.

   O pior é que a invasão é legal, amparada por leis brasileiras! Biopiratas e outros de igual tope agrupam-se em ONGs. Existem, claro, organizações que prestam bons serviços aos amazônidas. Entretanto, háalgumas bem preocupantes, como a Consolata e a USAids. A Consolata reúne padres em Roraima que atiçam índios contra índios e índios contra brancos. É em Roraima que fica a Raposa Serra do Sol. Esta reserva ocupa mais de 60% do território daquele estado.

   Interessante que índios mais esclarecidos, como o cacique e professor de Matemática Jonas Marcolino, são contra as enormes extensões de terra sob posse dos indígenas, embora o terreno continue pertencendo à União. Na Raposa Serra do Sol, o prazo legal para os brancos saírem de lá expirou no dia 15 de abril, mas quem os orienta, os índios não expulsam. Sombrio, o experiente general Villas-Boas prevê graves conflitos ali.

   A Usaid enviou recentemente 50 milhões de dólares direto para o caixa do seu pessoal, sem passar pelo controle do governo brasileiro, segundo informações na ESG. A montanha de dinheiro financia a demarcação de toda a bacia hidrográfica da Amazônia Ocidental. Aqui, voltamos ao Plano Patriota de Bush. Mas bancos alemães também contribuem para outros projetos.

   De acordo com os governadores Jorge Vianna, do Acre, e Eduardo Braga, do Amazonas, só existe extração ilegal de madeira, principalmente do mogno, porque não é permitida sua industrialização e comercialização. Uma tonelada de mogno sai da Amazônia por 100 dólares, chega aos portos no Sul/Sudeste por 700 e, beneficiada no formato de móveis etc., gera um lucro na faixa de 30 mil dólares na Europa. Quanto o país perde apenas neste trajeto?

   Índios e garimpeiros fazem mineração quase artesanal de ouro e diamantes e os revendem a preço de banana a contrabandistas. A Polícia Federal faz apreensões quase que diárias de pedras preciosas em portos e aeroportos do Norte.

   Ao dar muita cobertura aos ambientalistas da Amazônia, deixando de apurar o que as cabeças pensantes do Norte têm a dizer, a imprensa do Sul/Sudeste apóia o ambientalismo profundamente equivocado daquela região. Semconseguir viver da selva, tê-la como fonte de renda, o Estado nacional, os governadores, a população e os índios estão perdendo a Amazônia para os estrangeiros. E cada um tira o que pode e como pode.

   As políticas públicas para a Amazônia, ditadas por ambientalistas que não vivem in loco, têm impedido o aproveitamento das folhas, das seivas, das árvores, do solo e do subsolo. O látex, extraído da seringueira, voltou a ser produzido em grande escala no Amazonas. Retornará à comercialização junto com a borracha mineral. E nenhuma árvore é derrubada por isso. Para o uso da madeira, jáexistem florestas que, depois de utilizadas, estão sendo postas para descansar por 25 anos.

   É patente para os amazônidas que a falta de exploração regulamentada, comercial e industrial, dos bens da Amazônia só serve aos financistas das ONGs. Algo parecido com nossa Educação. Pão e circo para manter o povo alienado enquanto os ratões fazem a limpa. Se nós, brasileiros, não redirecionarmos nosso conhecimento sobre aquela região, ela continuaráa ser degradada, dando argumentos aos governantes estrangeiros que semeiam o terreno da tomada de posse alegando que a Amazônia é um bem da humanidade. Bem da humanidade, uma conversa! É bem do Brasil e devemos aprender a ganhar dinheiro com ela. Temos de parar de sermos ingênuos e bonzinhos com o que é nosso. A Turquia vende água em conteiners, sabiam?

   A Amazônia Ocidental continua sendo cotada em cerca de 3 trilhões de dólares, mas, para o Brasil, é um fardo, uma despesa e uma preocupação constantes. E a imprensa daqui de baixo tem contribuído muito para isso.

   Na verdade, tem feito o jogo dos invasores.

   Paulo França - Jornalista e pós-graduado em História e em Marketing.

17.4.06

Jornalismo sobre pilotis

   A década de 90 foi uma época de mudanças fundamentais no jornalismo brasileiro. Em meio à consolidação da democracia, os donos dos veículos de comunicação realizaram dois movimentos importantes que definiram a face do que hoje lemos, vemos e ouvimos. Baseados na moda da reengenharia que grassou em todo mundo desde fins da década de 80, os donos dos veículos fecharam milhares de postos de trabalho – não há números consolidados, mas no Rio, segundo cálculos do Sindicato, teriam sido extintas entre 30% e 40% das vagas, algo em torno de 2 mil postos de trabalho. Os jornalistas demitidos não foram escolhidos ao acaso. Eles tinham dois perfis definidos – mais velhos e com posições ideológicas claramente de esquerda. Os primeiros traziam na memória - e para a prática - o tempo em que os jornalistas, em sua maior parte, enfrentaram unidos a ditadura militar, enquanto os segundos tinham uma posição política que, já naquele momento, não era mais útil ao patronato, como o fora durante a ditadura.

   Nos jornais, esses movimentos levaram a um terceiro: a proliferação das colunas. Até meados da década de 80, havia relativamente poucas colunas nos jornais. No entanto, com a diminuição do número de repórteres, redatores, diagramadores (esses quase extintos) e mesmo editores, ficou difícil fechar um jornal na hora (o principal objetivo de uma redação não é a informação correta, mas fechar na determinada pelo departamento industrial. Um mandamento sintetizado por Matinas Suzuki Jr, ex-Folha: “A melhor notícia é aquela que o leitor pode ler”). A solução dos donos dos jornais foi aumentar o número de colunas, criando assim o “jornalismo sobre pilotis”. Boa idéia. Afinal duas ou três pessoas garantiam o fechamento de pelo menos um terço de página num horário bem definido, quase imune ao vaivém dos fatos.

   Essa solução tinha ainda um bônus. É bem mais difícil controlar as cinco pessoas envolvidas na produção de uma matéria – repórter, fotógrafo, redator, diagramador e editor – do que uma só, o responsável pela coluna (que tem sempre “apoios”, os bagrinhos que realmente caçam as notas, têm seu nome posto nos pés da coluna e são controlados pelo titular). E se essa pessoa for ainda aquinhoada com um salário maior do que pelo menos quatro das antigas, então, nem precisa haver um controle direto, pois a própria se manterá na linha sem necessidade de pressão.

   Para o leitor, a troca foi péssima. Em vez de se beneficiar com uma possível, embora nunca garantida, multiplicidade de opiniões de uma matéria, ele passou a contar apenas com a opinião ou a notinha descontextualizada (e tão editorializada quanto um texto de uma coluna de opinião). Pior. Com o salário alto, os convites para palestras (hoje a maior fonte de renda dos colunistas mais especializados) e a atenção dispensada por pessoas poderosas (a egolatria nunca deve ser subestimada quando se trata de jornalistas), os colunistas, em sua esmagadora maioria, passaram a se considerar (e serem considerados) semideuses, que, como tal, não aceitam ser contraditados.

   É uma situação que dificilmente mudará nos próximos anos. Isso porque ela só seria alterada por uma pressão do público. Esse, porém, acredita que está sendo bem-informado por um jornalista confiável e por isso não teria motivos para pressionar os jornais.