Mídia e direita: que sejam felizes
Gilson Caroni Filho
Muito se tem escrito sobre a reeleição do presidente Luiz Inácio da Silva e a derrota dos chamados "formadores de opinião". Sem dúvida, o segundo mandato de Lula pôs a nocaute o campo jornalístico brasileiro, seus estatutos de verdade e a crença nos dispositivos que regulam a relação entre os responsáveis pela produção e difusão do noticiário.
Um misto de perplexidade e consternação já havia tomado conta de nove entre 10 colunistas quando, em meados de abril, o instituto Datafolha publicou pesquisa sobre intenção de votos para presidente. Lula, apesar do bombardeio midiático, mantinha estável sua liderança. Em artigo para o Observatório da Imprensa ("Datafolha rasga fantasia iluminista da Imprensa", edição 376, 10/4/2006) alertamos para o fato de estarmos diante de algo que merecia reflexão mais séria da própria imprensa sobre seu papel na sociedade.
Destacamos que "mais que a inviabilidade eleitoral do ex-governador paulista, o instituto talvez tenha capturado um dado de extrema importância: a deslegitimação do discurso jornalístico e das representações que estão por trás dele. Salientamos também que "da seleção e organização de informações à edição, temos visto, em quase todos os veículos, a orientação editorial condicionar o conteúdo da reportagem. A negligência investigativa transformou-se no foco adequado a um jornalismo marcadamente de campanha. Ora, a crise do atual governo é, em grande parte, uma realidade produzida por recortes de mídia. Não poucas vezes, o dado concreto cedeu lugar à imaterialidade midiática. Indícios viraram manchetes. E, não tenham dúvida, estas reaparecerão na campanha eleitoral. O resultado é a saturação que deslegitima o fazer jornalístico como práxis ética". Mas o ódio classista não comportava inflexões.
A forma como o discurso noticioso se organizou e se reproduziu é algo que talvez só encontre paralelo nos episódios que levaram Getúlio Vargas ao suicídio, em 1954. Ou ao golpe militar, 10 anos depois. Redações e ilhas de edição se transformaram em trincheiras do udenismo redivivo. Articulistas, colunistas e jornalistas-blogueiros disputavam entre si quem melhor reencarnaria Carlos Lacerda. Ainda não haviam percebido que se lhes sobrava a determinação do colunista e parlamentar golpista, faltavam-lhes a substância e os recursos estilísticos daquele que ficou conhecido como o "Corvo". Mas havia uma aposta, e ganhá-la transformou-se em questão pessoal, depois que o patronato liberou a besta-fera que havia em cada um.
O que não perceberam é que a empreitada estava fadada ao fracasso por um motivo simples. A sociedade patrimonialista, cordata e gelatinosa que o colosso midiático julgava ter em mãos ficara em algum lugar do passado. A democracia ampliada já não comportava alternância intraelites. O componente classista estava pronto para ingressar no jogo político. O apoio a Lula não era expressão de um consenso passivo e os que provaram o gosto da cidadania recém-adquirida não estavam dispostos a chancelar retrocessos. As classes populares queriam algo além de uma participação vicária, isto é, exercida por representantes que não pertenciam a ela. A inserção direta na esfera política estava sendo consolidada por movimentos sociais que, sem perder autonomia, dialogavam com o governo. Os setores mais lúcidos da esquerda não alimentavam ilusões rupturistas. Erros passados não se repetiram. Não houve quem confundisse chegada ao governo com tomada do poder.
Talvez esteja aí o equívoco capital do campo jornalístico. Embevecido com a centralidade que desempenha no processo político, ignorou as mudanças ocorridas na formação social em que atua. A maioria dos articulistas ainda se julgava membros de um "parlamento sem voto". Senhores da informação, tutores da opinião. Quanta ilusão perpassou o facciosismo, o ódio de classe e a índole golpista desses respeitáveis senhores e senhores das mais conceituadas publicações brasileiras.
No auge da crise, em 2005, julgavam que o PT e Lula estavam feridos de morte. Apostavam na obstrução de canais políticos e em crise institucional. Enquanto CPIs disputavam holofotes, os principais analistas vaticinavam que, sobrevivendo ao turbilhão, Lula chegaria a 2006 sem base partidária e, se tentasse a reeleição, o faria apoiado por seu carisma e um populismo que lhe traria votos dos grotões.
Um ano depois, vêem o presidente reeleito, com excelente desempenho eleitoral da sigla. Lula conta com o apoio de 16 governadores (eram três em 2002) e amplo respaldo dos principais movimentos organizados. Se o PT precisa investigar os responsáveis por procedimentos internos que chamuscaram seu capital simbólico, a imprensa deve afinar sua banda antes de querer impor ao governo reeleito a agenda dos derrotados.
Na edição de 28/12/2005, de Veja, Diogo Mainardi escrevia "Passei o ano todo amolando Lula. Dediquei-lhe mais de trinta artigos. Fracassei. Prometo derrubá-lo em 2006". O bolor udenista do inculto colunista de Veja demonstra o quanto a direita empobreceu estilisticamente. Mas o que talvez mais incomode a mídia brasileira esteja no rescaldo da crise. Clóvis Rossi, Eliane Cantanhêde, Josias de Souza, Fernando Barros, Merval Pereira, Dora Kramer e Ricardo Noblat, entre tantos outros, sofreram um sério revés. Ao "maianardizarem" parecem não ter notado que seus leitores cativos ficariam restritos à direita mais reacionária, ressentida e atrasada. Como afirmava Herbert de Souza, o saudoso Betinho, "toda informação é uma proposta ou elemento de formulação de proposta". Quando aceita, a união é estável e duradoura. Que sejam felizes. Por que não? Jornalistas e leitores militantes também merecem a felicidade. Mesmo que ela surja de um pequeno ruído.
Gilson Caroni Filho é professor universitário. Texto publicado no site Consciencia.net

2 Comments:
Francamente, Ivson!!! Houve exageros nas edições? Houve. Direcionamento de títulos, de cobertura? Também. Excrescencias, como o espaço dado a gente como esse colunista da Veja? Claro, não é nem novidade. Mas esse texto do Gilson parece inventado para ilustrar algum, romance do George Orwell. Novilíngua perde. O fato é que os eleitores escolheram Lula APESAR da corrupção no governo e dos desvios éticos no partido, e não apesar de invenções não confirmadas e tentativas de manipulação da midia. Quem falou em 'quadrilha" não foi o Merval pereira, mas o procurador geral da República, nomeado por Lula.
Houve erros crassos de avaliação política dos colunistas, muitos não por estarem engajados em uma campanha da direita contra o PT (chega a soar hilária uma acusação dessas contra um cara como o Clóvis Rossi), mas porque não acreditavam que o cidadão comum não rejeitasse o governo e a complacência de Lula com os "desvios éticos" de petistas próximos.
Não conheço o Gilson, e por preconceito, acredito que ele escreve crendo sinceramente nessa tese de conspiração da midia contra as forças verdeiramente populares. Mas só alerto a ele que esse tipo de análise rasa, martelada nas Escolas de Comunicação, podem ter efeito contrário ao que ele gostaria, e formar cidadãos cínicos, crentes de que não há espaço para pessoas honestas intelectualmente na imprensa tradicional, e que nos grandes jornais o que vale é participar da farra da direita e mesmo atender aos interesses da elite. Nada mais falso, como dezenas de amigos meus, repórteres em grandes jornais como eu, poderiam contar aos alunos dele.
Oi, Sérgio!
1. Quer dizer que você admite os erros? Beleza. Então poderia me explicar por que eles aconteceram pela quinta vez em cinco eleições presidenciais, todas as vezes contra o mesmo candidato?
2. Como não estamos (ainda) no livro do Orwell, o discurso do professor Gilson cairia no vazio se não fosse corroborado nos fatos que você mesmo admite que existem, que se repetem sempre durante as eleições presidenciais contra o mesmo candidato.
3. Quer ver como é necessária alguma relação entre os discursos e a realidade vivida? Exemplo é o discurso pró-privatização. A privatização de ativos do Estado brasileiro foi julgada no segundo turno da eleição e fragorosamente recusada pela população. Por quê? Porque todo brasileiro, inclusive você teve, ou conhece alguém próximo que teve, pelo menos um problema com alguma empresa privatizada, nos últimos seis meses. Foi vendida - e continua sendo - a idéia de que a privatização é a panacéia para todos os males do Brasil, incluindo a gripe, a saúva e a o bicho-de-pé. Como isso não corresponde a verdade - e a imprensa não é o Grande Irmão (embora ainda ache que é) - deu no que deu.
4. A realidade do que escreveu o professor Gilson escreveu foi quantificada pelo Observatório Brasileiro de Mídia, que analisou a cobertura dos colunistas de alguns dos principais jornais do país. O link para a pesquisa está no blog Cascata!, também de minha humilde lavra.
Postar um comentário
<< Home