Jornalismo sobre pilotis
A década de 90 foi uma época de mudanças fundamentais no jornalismo brasileiro. Em meio à consolidação da democracia, os donos dos veículos de comunicação realizaram dois movimentos importantes que definiram a face do que hoje lemos, vemos e ouvimos. Baseados na moda da reengenharia que grassou em todo mundo desde fins da década de 80, os donos dos veículos fecharam milhares de postos de trabalho – não há números consolidados, mas no Rio, segundo cálculos do Sindicato, teriam sido extintas entre 30% e 40% das vagas, algo em torno de 2 mil postos de trabalho. Os jornalistas demitidos não foram escolhidos ao acaso. Eles tinham dois perfis definidos – mais velhos e com posições ideológicas claramente de esquerda. Os primeiros traziam na memória - e para a prática - o tempo em que os jornalistas, em sua maior parte, enfrentaram unidos a ditadura militar, enquanto os segundos tinham uma posição política que, já naquele momento, não era mais útil ao patronato, como o fora durante a ditadura.
Nos jornais, esses movimentos levaram a um terceiro: a proliferação das colunas. Até meados da década de 80, havia relativamente poucas colunas nos jornais. No entanto, com a diminuição do número de repórteres, redatores, diagramadores (esses quase extintos) e mesmo editores, ficou difícil fechar um jornal na hora (o principal objetivo de uma redação não é a informação correta, mas fechar na determinada pelo departamento industrial. Um mandamento sintetizado por Matinas Suzuki Jr, ex-Folha: “A melhor notícia é aquela que o leitor pode ler”). A solução dos donos dos jornais foi aumentar o número de colunas, criando assim o “jornalismo sobre pilotis”. Boa idéia. Afinal duas ou três pessoas garantiam o fechamento de pelo menos um terço de página num horário bem definido, quase imune ao vaivém dos fatos.
Essa solução tinha ainda um bônus. É bem mais difícil controlar as cinco pessoas envolvidas na produção de uma matéria – repórter, fotógrafo, redator, diagramador e editor – do que uma só, o responsável pela coluna (que tem sempre “apoios”, os bagrinhos que realmente caçam as notas, têm seu nome posto nos pés da coluna e são controlados pelo titular). E se essa pessoa for ainda aquinhoada com um salário maior do que pelo menos quatro das antigas, então, nem precisa haver um controle direto, pois a própria se manterá na linha sem necessidade de pressão.
Para o leitor, a troca foi péssima. Em vez de se beneficiar com uma possível, embora nunca garantida, multiplicidade de opiniões de uma matéria, ele passou a contar apenas com a opinião ou a notinha descontextualizada (e tão editorializada quanto um texto de uma coluna de opinião). Pior. Com o salário alto, os convites para palestras (hoje a maior fonte de renda dos colunistas mais especializados) e a atenção dispensada por pessoas poderosas (a egolatria nunca deve ser subestimada quando se trata de jornalistas), os colunistas, em sua esmagadora maioria, passaram a se considerar (e serem considerados) semideuses, que, como tal, não aceitam ser contraditados.
É uma situação que dificilmente mudará nos próximos anos. Isso porque ela só seria alterada por uma pressão do público. Esse, porém, acredita que está sendo bem-informado por um jornalista confiável e por isso não teria motivos para pressionar os jornais.

2 Comments:
O pior Gilson é vermos a redação da vênus platinada ler o editorial do NYT no Jornal Nacional (sobre a vitória dos franceses em relação a lei do primeiro emprego) e o fanzine de hoje do O Globo, onde o repórter(?!) João Cuenca, partícipe das manisfestações de 68 e das semanas passadas, relata que o jovem francês só quer o bem-bom, só está a fim de arruaças e que os jovens, do mundo, não têm mais pelo o quê lutar. Para a obviedade dele, que deve ter um belo e polpudo salário. Saco ....
Pior, Diogo, é que não. Se fosse pela grana, ainda dava pra entender. O pior é que não é.
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