O triste papel de JF
Não se pode dizer que O Globo não dê prioridade à América Latina em cobertura internacional. Na Europa, por exemplo, mantém a Deborah Berlinck em Paris confundindo o sexo de escritores famosos, mas, para compensar, tem o bom Fernando Duarte em Londres. Na AL, porém, o jornal da Irineu Marinho enfia Janaína Figueiredo goela abaixo dos leitores sem nem um suquinho para ajudar a empurrar.
Hoje, a correspondente do Globo, a pretexto de analisar as vitórias esquerdistas por toda a América Latina nos últimos anos, faz o seu número favorito: atacar Hugo Chávez (Fidel Castro é citado também, mas apenas para ocupar o seu já consagrado papel de bicho-papão). O presidente da Venezuela apanha não por seus defeitos - como uma retórica que o faz parecer, para efeitos de marketing, mais belicoso do que realmente é -, mas pela sua maior qualidade: a preocupação com o bem-estar de seu povo e não com o das petroleiras norte-americanas.
Assim, Janaína afirma que o presidente venezuelano usa a "diplomacia do petróleo" vendendo o ouro negro a preços baixos a países pobres para aumentar o seu poder. A correspondente finge não saber que Chávez também vende petróleo barato a Massachussets, com uma cláusula de que ele seja revendido apenas aos mais pobres de um dos mais tradicionais estados americanos. Finge não saber também que "diplomacia do petróleo" também fazem/faziam os EUA, os países árabes e a antiga URSS. É parte do jogo geopolítico internacional, mas a qual, no parecer da repórter global, não podem recorrer os países latino-americanos.
O pior da matéria, porém, é a caracterização de todo e qualquer lider que, como Chávez, se preocupe em melhorar as condições de vida dos mais pobres de seu país em detrimento dos interesses dos mais ricos. Quem o faz não é chamado de "líder popular", mas de "líder populista". Assim, Chávez é populista, mas Ricardo Lagos (Chile) não é. Já o Nove-Dedos depende: quando faz do Bolsa Família um sucesso, é populista, mas quando deixa o Fust ser usado para engordar o superávit primário e não para universalizar o acesso à informática, é líder popular.
Evo Morales, por enquanto, foi posto no limbo por Janaína Figueiredo por não ter assumido ainda. Mas se realizar metade do que anda prometendo, vai se tachado de populista - no mínimo, pois não me admiro nada que, se for muito fundo em defesa dos índios bolivianos, seja chamado até de traficante. E, por via das dúvidas, no fim da matéria, a repórter do Globo já avisa que o próximo a entrar na sua alça de mira é o favorito para vencer as eleições mexicanas, Andrés Manuel López Obrador (guarde esse nome). Como mostra do que espera Obrador nas páginas do jornal dos Marinho, JF diz que ele "tem boas relações com outras lideranças populistas, como Chávez".
É ou não é muita preocupação do Globo com o futuro da América Latina? Vai que esses não-brancos descobrem que são tão gente quanto os brancos da AL e essa moda chega de vez ao Brasil... E aí, como ficariam as Organizações Globo? Melhor deixar a JF lá fazendo seu triste papel a arriscar botar algum joralista de verdade que cause problemas, né?
