26.10.05

Sobre meninos, lobos e patetas

Rui Nogueira

   Estarrecido e irado. Foi assim que fiquei ao tomar conhecimento, por meio da coluna dominical do ombudsman da Folha de S. Paulo, o jornalista Marcelo Beraba, da decisão dos estudantes de jornalismo da USP de nada publicar no Jornal do Campus sobre o assassinato do estudante Rafael Alves pelo colega Fábio Nanni, no dia 14 de outubro. O cenário do crime foi a própria escola de jornalismo. Tudo aconteceu diante das barbas dos estudantes de jornalismo, que decidiram nada publicar em nome de um sentimentalismo travestido de altos ideais. Subiram no altar do pieguismo para fazer uma denúncia tão tosca quanto vazia.

   Publicaram apenas uma nota, dizendo que a ECA (Escola de Comunicação e Artes) estava de luto - óbvio - e um patético editorial intitulado Sobre meninos e lobos. Tamanha paralisia, eles confessam no editorial, deveu-se ao choque diante da maneira como teriam sido abordados pelos "jornalistas da grande mídia" atrás de informações sobre a facada no peito desferida por Fábio em Rafael, que morreu em uma das salas da rádio da USP. Esses jornalistas "da grande mídia" teriam se comportado como "lobos ávidos" por fotos e depoimentos. "Grande mídia"? Entendi tudo!

   Os estudantes confessaram ainda ter feito fotos e depoimentos exclusivos enquanto Fábio era preso. E acrescentaram que os "jornalistas da grande mídia", os tais "lobos ávidos", "usaram os meios mais baixos possíveis para tentar obtê-los". Avaliando isso tudo, suas senhorias só viram reportagens "sensacionalistas, maniqueístas e mal-apuradas". Para não alimentar uma imprensa "ávida por sangue", os estudantes de jornalismo, diante de um dos mais sérios testes da sua vida, decidiram nada publicar sobre o que haviam apurado.

   Entendo as posições individuais e entendo o imobilismo momentâneo provocado pela surpresa do fato e pela dor imposta pela tragédia, mas não posso nem respeitá-los nem deixar de comentá-los com amargura. São posições de patético denodo.

   Tenho a certeza de que a mídia tratou de todas as maneiras possíveis o assassinato na USP, inclusive com sensacionalismo, maniqueísmo e dados mal-apurados. Mas desafio-os, para ficar em apenas dois jornais, a me dizer onde encontraram esses defeitos nas edições da Folha de S.Paulo e do Estado de S. Paulo, as publicações que usei para me informar sobre o assunto. Não estou dizendo que as reportagens de Folha e Estado estão inteiramente livres de problemas. Tenho a certeza de que seus jornalistas reclamaram da falta de tempo e do atropelo do fechamento, mas não vi nenhum feitio na cobertura que se tenha transformado em defeito crônico.

   Os estudantes de jornalismo da USP, que também são cidadãos que lêem jornal (lêem?!), não conseguiram separar o que é bom do que não presta e, por conforto covarde, decidiram jogar tudo na vala da rotulagem sensacionalista. A saída medíocre os privou de mostrar aos lobos ávidos por sangue como se comportar profissionalmente diante de um fato sensacional... sem ser sensacionalista. Não precisavam fornecer carne fresca a lobos famintos, mas tinham a obrigação de, no ambiente acadêmico, provido, supostamente, de uma taxa absoluta de liberdade de agir, pensar, planejar, pautar, escrever e editar, de oferecer a diferença cabal entre o como deve ser feito e o que nunca se deve fazer.

   Exijo mais que isso. Deveriam ter, já que estão na universidade, o ambiente público sustentado pelos impostos em troca da produção de soluções e idéias críticas para a sociedade, oferecido uma análise do que foi publicado, separando equívocos e erros banais de dados mal-apurados por incompetência ou má-fé a serviço de um jornalismo de "títulos fortes e matérias carregadas de drama" barato. E o que os estudantes disseram para justificar a paralisia? Que, em "respeito" às fontes e à ética, decidiram não divulgar nada do que haviam apurado.

   O editorial do Jornal do Campus revela a matriz do efeito paralisante: a ojeriza à tal da "grande mídia" plantada por grupos de professores - não todos - que mal sabem escrever o lead de uma reportagem. Se soubessem, teriam incentivado os alunos da ECA a fazer a melhor cobertura do crime, a melhor cobertura de um fato sensacional... sem transformar o trabalho em produto sensacionalista.

   O que os estudantes de jornalismo da ECA (USP) fizeram foi provar à sociedade como a universidade pode ser inútil. Ao não se ocupar do que de mais importante havia acontecido na universidade, os estudantes comportaram-se como um bando de desocupados, críticos diletantes do trabalho alheio. Preferiam se esconder na crítica vazia e genérica, recheada de um falso bom-mocismo, para não submeter à sociedade a idealização de uma cobertura que eles apregoam, mas não conseguem praticar.

25.10.05

Barbárie histórica

   Nas análises sobre a opção dos brasileiros pela barbárie, a imprensa aproveita para prestar mais um desserviço ao país. Dessa vez é botar na conta dos governos federal e dos estados pela escolha dos tupinambás pela selvageria. Eles teriam decidido pelo bangue-bangue apenas por causa da (falta de) política de segurança pública. Essa é parte da verdade, mas não toda ela. Uma outra, fundamental, está sendo escamoteada: a de que nós, os brasileiros, somos um povo muito, muito violento.

   Nossa história demonstra isso com clareza. Aqui vão uns exemplos rápidos, e longe de completos, sobre essa verdade que procuramos esconder com todas as forças, pagando um mico megatônico diante de nós mesmos:

      Canudos – Um filme meia-boca, uns documentários pouco vistos, alguns livros para iniciados e umas exposições quase clandestinas. Isso foi o máximo de reconhecimento a que a maior parte da sociedade brasileira se permitiu no que se refere ao massacre dos nordestinos no início da República. O Globo, em especial, teria boa razão para falar desse assunto. É que os soldados desmobilizados depois do morticínio e suas famílias formaram a primeira favela da cidade – onde hoje é o Morro da Providência - e cujo nome era uma homenagem à mandioca-brava que cresce na caatinga sob as condições mais adversas. Aliás, não foi a primeira vez que o Exército jogou assassinos treinados na rua após uma guerra – isso ocorreu também após o massacre do Paraguai (ver abaixo);

      Contestado – A versão sulina de Canudos deu filme pior e é ainda mais desconhecida, embora as conseqüências sociais tenham sido melhores. Como a maior parte da elite local (fronteira entre PR e SC) era formada por descendentes de europeus, eles lembraram os avós e, após o banho de sangue regulamentar, cederam um pouco e distribuíram uma parte da riqueza, abrindo caminho para atual estabilidade e prosperidade da região.

      Malês – Se Canudos e Contestado deram filmes, esse massacre aqui só foi lembrado em samba-enredo (ruim). Também, rebelião de negro culto e muçulmano é demais para a gente... Pelo menos sobrou alguma coisa: vem daí a importância que os negros baianos dão à educação, o que levou ao domínio da cultura negra em Salvador e a Gilberto Gil, Olodum, Ilê Aye...

      Palmares - Bom, essa história todo mundo conhece, né? O filme deve ter feito Ganga Zumba dar cabeçadas no túmulo.

      Paraguai – Ok, não éramos apenas joguetes nas mãos dos ingleses e o Solano Lopez era um ditador à sul-americana com certeza. Isso, porém, não obscurece os fatos: matamos quase todos os paraguaios com idade superior a 10 anos e estupramos o maior número de mulheres que conseguimos. Um erro estratégico, aliás: se é para dizimar um povo, tem matar as mulheres e não os homens. Afinal, quem pare são elas, né? Mas não é nada para se envergonhar: Hitler cometeu o mesmo erro. Hoje, Dráuzio Varela, Ronaldo Caiado e outros próceres aprenderam a lição e defendem a esterelização das pobres (não precisa mais necessariamente matar. A ciência evolui, você sabe).
Como escrevi acima, os soldados desmobilizados após a guerra voltaram ao Rio e formaram uma série de gangues, dando início aqui no Rio à tradição das milícias usadas como braço armado por políticos e que, fora de período eleitoral, faziam frilas roubando os cariocas.

   Tem bem mais, mas acho que já deu pra pegar a idéia geral, não?

   Era para a mídia estar analisando isso em artigos e reportagens, mas que nada. Menos espinhoso é botar a culpa nos governantes da época, que realmente têm folha corrida imensa e crescente, do que confrontar os leitores que acham que votaram em seus direitos e contra os governos, quando, na verdade, apenas avançaram mais uma casa na direção de arruinar de vez a sociedade em que vivem.

18.10.05

A PEC e a voz do "dono"

   Novamente, a Rede Globo passou a agir como partido político. Dessa vez, ao invés de decidir quem vai ser o Presidente da República, resolveu ditar a política industrial do país. E faz isso em duas frentes. No Congresso Nacional, através de uma proposta de emenda à Constituição Federal (PEC) que altera pela segunda vez em três anos um mesmo artigo. No Executivo, através da portaria anunciada pelo ministro das comunicações, Hélio Costa, que vai garantir isenção de tarifas de importação para equipamentos e aparelhos digitais. As ações em curso são duas faces de uma mesma moeda. O caráter nacionalista da PEC nº 55, do senador Maguito Vilela, é mera aparência. Na verdade, serve apenas para a Rede Globo garantir seu negócios, impedindo a entrada das teles no mercado de produção e distribuição de conteúdo. Da mesma forma, a portaria anunciada não traz benefícios ao País; liquida a indústria nacional com a liberação de importações.

   Tanto a posição da Globo, expressa na emenda de Maguito, que na prática impede a confluência tecnológica, como a posição das teles, que criam “situações de fato” transmitindo conteúdos audiovisuais como se fossem emissoras de rádio e televisão, são danosas para o país. Por trás da disputa, os dois setores firmaram uma “santa aliança”: preservar seus lucros e liquidar a indústria nacional. Se depender da Globo, não teremos confluência tecnológica plena uma vez que a televisão digital de alta definição dificulta a entrada de novos atores e a oferta de novos serviços interativos. Isso trará um enorme atraso para o Brasil em relação a seus competidores – os demais países emergentes. Se prevalecer a posição das teles, assistiremos a uma rápida erosão e o aniquilamento do conteúdo nacional na programação do rádio e da TV (ao se negarem a ter o conteúdo que distribuem regulado, as teles afrontam o artigo 221 e 222 da Constituição Federal). A nenhum dos lados interessa o desenvolvimento da indústria nacional de semicondutores e componentes eletroeletrônicos.

   Em outro front, o ministro das Comunicações, Hélio Costa, está lutando com unhas e dentes para pôr em andamento a agenda da Globo e introduzir a tecnologia digital no Brasil colocando por terra os espaços públicos criados para a condução deste debate. Mais do que isso, ao acenar com a importação de equipamentos com isenção de tarifa, o ministro deixa claro que a indústria nacional deve se submeter à demanda da Globo pela TV Digital em alta definição.

   A mesma Globo que quer a PEC em nome da soberania nacional fechou acordo de cooperação tecnológica, em abril deste ano, com a multinacional Intel, maior fabricante mundial de semicondutores, para estudar formas de disponibilizar o conteúdo de seus canais em computadores e dispositivos móveis. Em setembro do ano passado, o principal executivo da multinacional americana, Craig Barret, declarou que o Brasil havia perdido a “janela” para sediar uma indústria de semicondutores.

   A PEC de Maguito, ainda que involuntariamente, serve ao propósito da portaria anunciada por Hélio Costa na medida em que vende para o país o engodo de que o conteúdo nacional estará assegurado na programação da grande mídia. Nada mais enganoso. A perda da capacidade em produzir semicondutores não remete só a radiodifusão ou as telecomunicações à mais absoluta dependência externa. Cria, na realidade, um efeito cascata de desindustrialização que, em virtude da confluência tecnológica, atingirá os demais ramos da indústria como é o caso da automobilística, de química fina e, mesmo, a do aço.

Elementos para tática

   Mas, ao contrário do que pensam o ministro, a Globo e a Intel, o fim de uma janela com os Estados Unidos não fechou todas as portas para o Brasil. Até os anos 70, a noção de desenvolvimento industrial era baseada na entronização dos centros de decisão. Vale dizer, significava trazer para dentro do País plantas industriais inteiras de empresas multinacionais e, a partir da presença de grandes indústrias, promover o desenvolvimento sustentado e a integração nacional através de indústrias menores nas mãos de brasileiros. Foi o caso, por exemplo, da indústria automobilística (multinacionais) e das indústrias de autopeças (nacionais). A partir da crise do fordismo, da produção por segmentos, houve uma desnacionalização da base industrial. O que era feito em uma única planta passou a ser produzido em diversos países simultaneamente. Aqui, a estratégia de desenvolvimento passou a dar-se mediante o sistema de “subcontratação”, pelo qual empresas e países integravam-se. Este, em suas linhas gerais, foi o modelo seguido pelos chamados tigres asiáticos.

   O desenvolvimento só não revelou-se uma desilusão para aqueles países que foram capazes de combinar as duas estratégias: a entronização dos centros de decisão, através do desenvolvimento de plantas industriais, e a participação ativa nos processos de “subcontratação” e de integração regional. Até o presente, este tem sido o caso da China que, de um lado, desenvolveu indústrias estatais de semicondutores e, de outro, junto com os países da Associação das Nações do Sudeste da Ásia (Ansean), participa de um esforço conjugado de desenvolvimento no Oceano Pacífico que une desde os Estados Unidos até os grotões da Rússia, passando pelo Japão e o sudeste Asiático.

   Já está mais do que hora de apredermos a combinar processos contraditórios. Se por um lado parece ilusória a proposta de um sistema exclusivamente brasileiro de digitalização (e não de TV Digital, pois o que está em jogo é a confluência de tecnologias), de outro lado a liberação de importações nos impede de integrarmos qualquer estratégia de desenvolvimento plausível. Entenda-se que desde os anos 70 poucos países são capazes de desenvolver plantas industriais inteiras. Mesmo os países industrializados recentemente só foram capazes de produzir desenvolvimento quando converteram atividades de baixo valor agregado, como a manutenção, em produção de equipamento e em industrialização de periféricos. Mesmo este caminho, tomado pela maior parte dos tigras asiáticos, ficaria interditado se simplesmente liberarmos as importações.

   Precisamos urgentemente seguir os exemplos que são bem sucedidos. Se nosso território é insuficiente para permitir a economia de escala que permita à Intel desenvolver uma planta de semicondutores no País, então precisamos associar-nos aos demais países sul-americanos, como é o caso da Argentina e da Venezuela, e desenvolvermos empresas em comum. Mas para isso precisamos também empreender um esforço comum de adoção de um modelo de negócios e de serviços integrado regionalmente.

   Por outro lado, não podem ser desprezados os esforços, ainda que incipientes, de produção de bens eletrônicos de consumo em nosso país. O exemplo dos tigres mais uma vez demonstra claramente como este tipo de indústria, aparentemente dependente de baixa tecnologia e pouco valor agregado, converte empresas de médio porte, pela própria lógica da “subcontratação”, em poderosas empresas capazes de alavancar a geração de emprego e renda em escala considerável. Isso é particularmente verdadeiro para o caso da Amazônia e do Nordeste brasileiro – regiões cuja integração ao centro de decisão nacional ainda não se efetivou completamente.

   A sociedade brasileira precisa se contrapor aos movimentos da Globo e das teles e garantir, simultaneamente, a produção e difusão de conteúdos nacionais e o desenvolvimento da indústria nacional. Assim como no episódio da “Guerra do Cabo”, ocorrido em meados da década de 90, somente um grande pacto entre a sociedade civil, os empresários e os trabalhadores brasileiros poderá produzir um modelo de serviços que sirva à Nação e ao povo brasileiro.

Constituição de borracha

   O texto do artigo 222 da Constituição, objeto da PEC de Maguito, é um exemplo prático do poder dos donos da mídia sobre o Congresso Nacional. De 2002 para cá é a segunda vez que ele será alterado. Nas duas ocasiões, os interesses das empresas estavam em jogo. A primeira mudança permitiu que as empresas jornalísticas e de radiodifusão passassem a ser controladas por pessoas jurídicas e investidores estrangeiros no limite de 30% do capital social. A PEC que promoveu esta alteração tramitava há seis anos no Congresso. Premidas pela crise financeira provocada por apostas malogradas no mercado de telefonia, TV a cabo e internet, as empresas de mídia pressionaram os congressistas e aprovaram em seis meses o novo texto. Era ano eleitoral e os parlamentares da situação e da oposição não criaram obstáculos. No mesmo mês em que a emenda foi aprovada, o governo Fernando Henrique Cardoso, em final de mandato, baixou a lei que a regulamentava revelando uma eficácia inédita em matérias de comunicação social.

   A alteração constitucional veio rápido, mas o dinheiro do exterior não. Ao que tudo indica, não parecia atrativo aos eventuais compradores investir em empresas deficitárias e sobre as quais dificilmente teriam controle. Agora, os potenciais sócios estrangeiros deixaram de ser aliados para virarem inimigos. Neste momento entram em cena argumentos nobres, como as questões de soberania nacional, para justificar a ação da borracha legislativa no texto do artigo 222 com o objetivo de se incluir salvaguardas na Constituição que sequer foram cogitadas em 2002.

Manobras no Conselho de Comunicação

   O Conselho de Comunicação Social foi a primeira vítima desta nova ofensiva contra a democracia. Para colocar a PEC 55 na ordem do dia do Legislativo, as empresas de radiodifusão promoveram no dia 10/10 um verdadeiro “tratoraço” no âmbito do Conselho de Comunicação Social (CCS), órgão auxiliar do Congresso Nacional para assuntos de comunicação. As manobras incluíram contrabandos na pauta da reunião, manipulação na distribuição das relatorias, pareceres entregues na véspera e interpretação casuística das normas do Conselho. O desespero foi tanto que o presidente do CCS, Arnaldo Niskier, chegou a propor a alteração do regimento interno do órgão, aprovado no início do ano passado, com o objetivo explícito de fortalecer seus poderes e evitar novas saias justas.

   As manobras tornaram-se evidentes pela forma como a PEC 55 foi introduzida na pauta da reunião. Sem solicitação de nenhum parlamentar ou comissão do Senado ou da Câmara, como prevê a lei, o presidente do Conselho incluiu a análise da alteração do artigo 222 dez dias antes da reunião e definiu, sem consultar os conselheiros, o nome de Paulo Tonet, representante das empresas de mídia impressa e executivo do grupo RBS (afiliada da Rede Globo no RS e SC), para relatar a matéria.

   Niskier fez isso mesmo sabendo que o artigo 31 do regimento interno do CCS prevê que o pleno do Conselho é que deve eleger relator ou constituir comissão de relatoria para cada matéria. O casuísmo no trato do regimento foi questionado até pelo conselheiro Roberto Wagner, ex-representante das empresas de televisão no CCS. Situações semelhantes foram identificadas pelos representantes dos trabalhadores nos demais pontos da pauta (coincidentemente, todos entregues para representantes das empresas relatarem sem consulta aos demais conselheiros).

   O comportamento pouco democrático do presidente forçou os trabalhadores a apresentarem contrapareces ou declarações de voto para cada item. As contribuições sequer foram analisadas ou apensadas à ata com o argumento de que chegaram fora do prazo. Tonet distribuiu seu parecer sobre a PEC 55 às 17h de sexta-feira, menos de um dia útil antes da reunião.

15.10.05

Levando na cabeça

   Certo, as pessoas civilizadas serão as maiores derrotadas caso o "Não" vença o referendo do dia 23 (apenas mais uma derrota dessa parcela da população, sempre minoritária aqui no Bananão), porém, não serão as únicas. Pelo que saiu hoje na pesquisa do Ibope publicada pelo Globo, este e a maior parte dos veículos das OG, também levarão na cabeça. É que os maiores apoiadores do bangue-bangue são os homens ricos e mais instruídos (o que demonstra que civilização, inteligência e cultura não andam sempre lado a lado), exatamente o público que as OG se sentem donas. Ou seja, as OG não têm essa bola toda nem com o seu público preferencial.

   A esperança das OG - e da pessoas sensatas que, incrivelmente, estão do seu lado (ironias da História...) - reside no fato de que, tradicionalmente, os que se apresentam como os maiores partidários do "SIM", já que são as maiores vítimas - os pobres com salário-mínimo - prestam atenção em eleição apenas nos últimos dias de campanha. Como os pistoleiros têm vantagem pequena, ainda dá pra virar.

   Agora, caso os "billy the kids" tupiniquins levem mesmo essa, as OG sempre poderão se consolar admitindo que o resultado será apenas a confirmação da inevitabilidade histórica da caminhada do Bananão rumo ao fundo da lata de lixo, o lugar onde nosso povo se sentirá, finalmente, à vontade no mundo.

3.10.05

Meditação sobre o jabá

   Luís Antônio Giron

   No Brasil, não vale o ditado "quem não deve não teme". Por aqui, de fato, quem não deve tem muito a temer. Vejam o que acaba de acontecer comigo. Eu, jornalista, com mais de 20 anos de carreira na área cultural, estou sentindo na carne o que muitos cidadãos sofreram: o ataque calunioso da imprensa e a diferença entre o espaço dado à acusação e o conferido à defesa. Fui vítima do próprio meio em que trabalho. É também uma oportunidade para refletir outra vez sobre o papel do jornalismo e para elaborar uma pequena meditação sobre o jabaculê, ou jabá, que é como a indústria da música a propina dada DJs e jornalistas em troca de espaço na mídia. Mesmo que minha consciência esteja limpa e eu não deva nada a ninguém, mesmo que minha honestidade continue preservada, tenho tudo a temer. Estou com medo da espetacularização da notícia a qualquer preço, notícia que chega ao leitor sem apuração, sem ouvir o outro lado, criando factóides que não se apóiam na realidade. É a síndrome da escolhina de Base (a escola e a reputação de seus donos destruída nos anos 90 em São Paulo por uma campanha unilateral da imprensa) aplicada aos intestinos do jornalismo.

   O fato é o seguinte: a revista Veja publicou nesta semana - edição '.925, ano 38 nº 40, datada de 5 de outubro de 2005 - uma matéria não-assinada com o título "O mensalão da filha de Elis". Ela conta como a cantora Maria Rita teria se valido de um expediente típico do jabaculê para divulgar seu novo CD, Segundo (Warner). Sua gravadora distribuiu duas ou três dezenas de aparelhos i-Pod shuffle para diversos veículos de comunicação brasileiros. Com isso, a cantora teria obtido matérias em revistas e jornais. Em uma passagem que me toca especialmente, a matéria afirma que a gravadora "matou dois coelhos de uma cajadada", valendo-se do jornalista de Época e colaborador da revista Bravo - ou seja, eu, Luís Antônio Giron - que ganhou um i-Pod e, em troca, fez dois favores à Warner: "ele escreveu uma matéria simpática na revista e outra msi elogiosa ainda na Bravo!, publicada pela Editora Abril, o mesmo grupo de Veja". Em seguida, afirma que "poucos veículos recusaram o jabá da gravadora". Ficou evidente que eu não havia devolvido o i-Pod.

   Mas se trata de uma grande calúnia, pois não apenas devolvi o aparelhinho, sem nem tocá-lo, à assessoria da cantora no dia 15 de setembro, dois dias depois de ter sido entregue a mim (sem que eu pedisse), como não fiz matérias "simpáticas" à cantora. Na matéria da Época, escrevi que Maria Rita "fracassa" ao tentar fugir da influência dos pais. Na da Bravo!, fiz uma reflexão em estilo de improviso sobre como não consigo ouvir Maria Rita com ouvidos inocentes. De fato, para mim, é impossível ouvi-la sem pensar na mãe. Portanto, as duas matérias,.cada uma para um fim, trataram críticamente e de forma independente em relação ao CD. Para a Época, fiz uma entrevista. Para Bravo!, uma "pensata" crítica. E, outra vez, devo dizer que o
aparelhinho com valor médio de R$ 240, enviado a título de material suplementar aos jornalistas ( o preço de uma caixa de 6 DVDs ou de muitos outros materiais enviados à imprensa a título de divulgação, sem
caracterizar o jabá, como veremos adiante), foi devolvido gentilmente à Warner. Achei que não era lá muito justo receber um objeto do desejo de consumo, mesmo que sem nenhum tipo de obrigação, embora não gostasse de causar qualquer constrangimento à gravadora com algo que soasse como uma
desfeita. Consultei o Diretor de Redação de Época, devolvi o aparelho à assessoria da Warner e fiquei tranqüilo. Não devia dar qualquer satisfação sobre isso. Mas, pelo jeito, nada disso tem importância. O fato mais importante no caso dos redatores da reportagem de Veja foi que nem sequer tomaram o cuidado de me ouvir, ou seja, conferir o famoso "outro lado" da investigação. Ao não fazer isso, incorreram em erro e praticaram uma calúnia, ao dizer que o jornalista de Época reteve o aparelho. Fiquei sabendo do caso ainda na sexta por meio da diretoria de Bravo! Fui informado que dois velhos amigos meus trataram de produzir a peça acusatória: um repórter de música que trabalhou no Notícias Populares na época do escândalo da Escola de Base e com quem tive ocasião de conviver fraternalmente em várias ocasiões e o redator-chefe de Veja, velho companheiro dos tempos de Folha e pessoa a quem devoto o maior respeito e admiração. Bom, dirão os incautos, com amigos assim a gente não precisa de inimigos.

   Pois, na sexta-feira 30 de setembro, passei o dia tentando falar com eles, ligando para a redação para que a matéria fosse corrigida. Eu havia devolvido o i-Pod. Depois de muito esforço, Martins me ligou para se desculpar, afirmando algo como "não sou policial, não tenho nada a ver com isso, foi matéria encomendada". Mas, Sérgio, porque você não ligou para mim ao menos para saber se era verdade? Não ligou, disse por vergonha. Tentei contactar Sabino o dia todo, sem sucesso. No final da tarde, Veja disse que a matéria estava fechada, sem possibilidade de correção. Sem saber do que se tratava, pois não me mostraram o seu conteúdo, escrevi uma carta à redação me defendendo. A carta saiu espremida na última página das cartas, evidentemente cortada na parte em que digo que Veja não me ouviu. Transcrevo aqui o email original
(grifando o que não saiu - N. da P: No emeio que recebi não veio o grifo):

      "Prezados Senhores,

      Quero esclarecer que o aparelho i-Pod, enviado para os jornalistas de música dos principais veículos da imprensa, inclusive para mim, colaborador da revista Bravo e editor de Cultura da revista Época, foi devolvido à
assessoria de imprensa da cantora Maria Rita, intacto. Meu trabalho como crítico sempre se pautou pela independência e jamais aceitei qualquer tipo de oferta em troca de minha liberdade de opinião. Mais: minha atitude me foi prejudicial em muitas ocasiões. Não fui ouvido por Veja.

      O CD Segundo (Warner) de Maria Rita é de ótima qualidade e a cantora obteve na impensa o espaço que lhe é merecido. Exijo que este esclarecimento seja publicado na edição atual. Caso contrário, tomarei as medidas legais cabíveis." O fato é que acabei servindo aos propósitos da Veja, que estampou o texto para se resguardar de um possível processo. Eu tentei me defender no escuro, pois não me foi dado o direito de ler a reportagem. E Veja não ouviu o outro lado, não me procurou para saber a verdade. Além de ferir uma regra do jornalismo, os jornalistas que não tiveram coragem de assinar o nome cometeram uma atrocidade, caluniaram um colega, sob pretexto de denunciar um jabá que não existiu. A defesa, como sempre, é bem menor que a acusação. Com amigos assim...

      Arrisco afirmar que a Veja atuou dessa forma inescrupulosa, chamando essa ótima cantora de "filha de Elis" e omitindo autores, porque, em 2003, segundo fui informado, a revista, como é de seu hábito, exigiu exclusividade sobre a matéria e a entrevista. Não obteve o privilégio, pois Maria Rita teve o bom senso de manter a democracia da informação. Com a negativa, a revista publicou apenas uma nota sobre o primeiro CD, que se tornou o maior fenômeno da MPB naquele ano, tendo vendido 700 mil exemplares. Agora, com o
segundo CD, a Veja resolveu retaliar a cantora com uma matéria supostamente de denúncia. Atingiu a reputação da cantora e dos jornalistas de outros veículos. Tudo para figurar como isenta.

      A prepotência dessa revista de grande circulação é já antiga. Várias personalidades do mundo cultural já foram vítimas de seus ataques irracionais. Mas jamais esperaria tamanha destemperança. Primeiro, porque
Maria Rita, ótima cantora, não precisa distribuir i-Pod para jornalista. Seu valor como intérprete é suficiente para ocupar os espaços que merece. Segundo, porque a questão do jabaculê é muito outra. Jornalistas de cultura
vivem recebendo produtos de gravadoras, distribuidoras e recebendo convites para viagens e outras mordomias. Isso não configura corrupção, se o veículo e o jornalista deixam evidente que a posição do veículo e do autor são invendáveis. Em geral, recebemos material de trabalho. Recebe centenas de livros, CDs e DVDs que são ruins e descarto - nas chamadas "feirinhas" da redação, quando tudo isso é distribuído. No Natal, parte desse material é doado para crianças pobres. O material acaba sendo útil de alguma forma. E guardo muito CD, DVD e livro que recebo. Minha obrigação é ser claro na opinião e honesto com o leitor. ´A gente chama de jabá por rincadeira o material recebido - mas ele é bem-vindo e útil. Empresas jornalísticas não têm como bancar tudo quanto é produto. Jabaculê mesmo é outra coisa, é o ato de corrupção de uma gravadora, interessada em promover uma música ou um artista, realizado em associação com emissoras de rádio, que exigem um dinheiro alto para executar faixas de música. Nada a ver com o i-Pod mandado aos jornalistas.

      Apesar de entender o gesto da gravadora, tratei de devolver porque seria reter um aparelho que não se esgota no produto - no caso, o CD Segundo, de Maria Rita. Houve jornalistas que receberam o i-Pod, ficaram com ele e falaram mal do CD de Maria Rita. Não vejo problema nisso. É uma questão de opção e consciência crítica. E a crítica tem que se pautar pela independência, como sempre me pautei. Jabaculê mesmo é coisa séria. E nunca testemunhei jabaculê real em redações de jornais e revistas onde trabalhei. O patrimônio do jornalista é o seu nome. Considero obviamente inestimável o valor do meu nome; jamais me vendi por um prato de lentilha, um aparelho de som ou mesmo por qualquer quantia. A calúnia de que fui alvo deverá ser reparada. Sinto-me como aqueles donos da Escola de Base, que não tiveram como se defender da sanha da grande imprensa. No meu caso, tudo vai passar, porque a verdade irá prevalecer sobre a calúnia. Quem não deve pode temer, mas precisa ir à luta. Estou pronto para polemizar mais uma vez. Até onde a grande imprensa pode avançar em supostas denúncias sem consultar as fontes, em nome de razões oculltas que o público desconhece? Calúnia continua sendo crime ou a imprensa tem o direito de fazer o que quer em nome do espetáculo?