Um sistema político barato
O capital financeiro e a corrupção – o caso do Banco Rural e as intermediações de Marcos Valério
Publicado no site Oficina de Informações
A abertura da economia brasileira aos capitais internacionais a partir dos anos 1990 deu início a uma nova fase na influência do capital financeiro sobre o País. É o que parecem provar os últimos acontecimentos da CPMI que investiga o uso ilegal de dinheiro pelos políticos. Para se provar essa afirmação é preciso caracterizar a nova fase da abertura financeira do Brasil: a que transformou os títulos da dívida brasileira em junk bonds, papéis de dívida do mercado internacional com preços muito voláteis e que podem render muito dinheiro.
Junk bond, em inglês, é algo como título lixo. A negociação com esses títulos se tornou prática corrente a partir da reforma financeira dos EUA de final dos anos 1980. O mercado de títulos de longo prazo, de 20 a 30 anos, era restrito aos lançamentos do governo americano e das grandes corporações, como IBM, General Motors, etc. No começo dos anos 1980, um financista que se tornaria famoso, Michael Milken, começou a trabalhar com esses junk bonds, que pagavam 11% ao ano contra 5% dos títulos tradicionais. Milken usava esses papéis nas operações de leveraged buy outs, compras alavancadas.
Antes, a boa empresa era a que tinha muita liquidez, bom dinheiro em caixa, pouca dívida e grande programa de pesquisa e investimento. Nas novas condições econômicas criadas pela reforma financeira americana, a empresa nessas condições tornou-se o coelho gordo e lento na mira da serpente especulativa. Executivos da empresa se associavam a investidores de fora para comprá-la na bolsa; usavam para pagamento o próprio caixa da empresa e todo o tipo de títulos, inclusive os junk bonds.
Normalmente um investimento é feito quando o capitalista faz o chamado fluxo de caixa descontado: quando compara a serie de lucros y que obteria construindo uma empresa com uma série de custos x; e o que obteria se emprestasse essa serie x de desembolsos a juros. Se o juro era baixo, de um modo geral sempre se ganhava mais fazendo o capital-dinheiro seguir seu processo de metamorfoses clássico, começando por tornar-se capital produtivo.
Mas o juro passou a ser alto, o capital-dinheiro, mesmo na forma de junk bonds, passou a ter um preço alto; o capital-produtivo se desvalorizou relativamente, portanto; e tudo mudou. Nas novas condições, o investidor preferia comprar uma empresa que tivesse um grande caixa, para ser usado no próprio pagamento. Uma vez comprada, os novos executivos usavam o dinheiro em caixa para liquidar as dívidas, depois de reestruturar a empresa, cancelar investimentos, pesquisas, demitir empregados.
Para vender suas empresas, governos neoliberais de países do Terceiro Mundo continham os investimentos de suas estatais para que tivessem caixas gordos e se tornassem atraentes para compra. E, nesse processo, os financistas globais começaram a se voltar para a dívida externa dos países do Terceiro Mundo, no começo dos anos 1990. Ela podia se transformar em outro tipo de junk-bond, que serviria para a valorização financeira de seus capitais.
É quando surge a securitização dessas dívidas. Os EUA comandaram esse processo, que mudou a natureza das dívidas externas do Terceiro Mundo: antes, elas eram dos governos com os bancos; e se transformaram em papéis negociáveis no mercado. Foi o chamado Plano Brady, nome do então secretário do Tesouro dos EUA.
Nada mais parecido com um junk bond do que um papel de dívida de país do Terceiro Mundo, no final dos anos 1980, dizia Michel Milken, referindo-se ao risco dos empréstimos e ao fato de esse risco maior ser compensado com rendimentos muito maiores. Milken contratou para seus negócios Tony Gebauer, o primeiro negociador da dívida externa brasileira por parte do comitê de bancos, quando o país quebrou em 1982. O Brasil tinha tomado dinheiro emprestado de cerca de 1.000 bancos. Eram contratos assinados entre o País e cada banco. Com a crise, centenas desses bancos passaram a vender seus créditos por uma fração do seu valor. Brady praticamente deu apoio estatal americano às idéias de Milken: propôs soltar esses papéis no mercado, transformando-os em títulos ao portador.
Regras foram mudadas: no Brasil, por exemplo, para tomar dinheiro no Exterior era necessário autorização do Banco Central, que queria saber como o dinheiro seria pago, se haveria divisas suficientes. Com a mudança, a contratação de empréstimos passou a ser livre para quem tinha crédito lá fora – grandes grupos evidentemente. O Tesouro dos EUA ajudou oferecendo algumas garantias. E em 1990, os Brady bonds começaram a ser assinados. O México que tinha sido o primeiro a quebrar, em 1982, foi o primeiro a assinar. Depois, vieram Venezuela, Costa Rica, Filipinas, Nigéria, Uruguai. Somadas todas as dívidas antigas do Terceiro Mundo se chegaria a US$ 1,0 trilhão. Era uma dívida ameaçada de virar pó. Na nova conjuntura do começo dos anos 1990, virou ouro. Passou a pagar mais que todos os outros papéis, mais até que os junk bonds. Papéis que valiam 15 cents para cada dólar de valor de face – o preço contratado inicialmente – passaram a valer 60 cents, 70 cents.
Com a securitização das dívidas, o patamar de recursos enviados ao exterior como rendimento dos capitais aplicados no Brasil pulou de menos de US$ 5,0 bilhões nos anos 1970, para cerca de US$ 10,0 bilhões no período entre a primeira e a segunda renegociação da dívida externa (1982 a 1994) e para mais de US$ 15,0 bilhões nos anos de 1995 a 2004.
No contexto do enorme movimento de divisas dos últimos tempos, que não teve praticamente nenhuma influência sobre a taxa de desenvolvimento do país – que se manteve baixíssima para os padrões históricos – o poder do capital financeiro cresceu. E cresceu também a corrupção que o acompanha.
Um cálculo indicativo desse poder de corrupção pode ser feito a partir de duas comissões parlamentares: a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito realizada entre meados de 2003 e o final de 2004, sobre as remessas ilegais de divisas para aplicações no exterior no período 1998-2003, através das chamadas contas CC5; e a atual CPMI dos Correios, que investiga, basicamente, dinheiro distribuído ilegalmente aos políticos brasileiros e cujo personagem principal é o publicitário mineiro Marcos Valério.
Com base na quebra de sigilo bancário das contas CC5, a Receita Federal calculou e iniciou a cobrança de R$ 224 bilhões de créditos tributários. A partir das quebras de sigilo bancário na CPMI dos Correios foram divulgados documentos que provariam que Valério repassou para o PT cerca de R$ 75 milhões, através dos bancos Rural e BMG. E que por esse mesmo esquema teriam sido repassados cerca de R$ 12 milhões o PSDB mineiro, em 1998. Na soma, seriam perto de R$ 90 milhões que teriam chegado a algumas dezenas de políticos, a se acreditar nas denúncias feitas.
As duas investigações se ligam pelo fato de o Banco Rural ser um dos grandes envolvidos na evasão de divisas. E pelas declarações do deputado Roberto Jefferson, do PTB, que abriu o escândalo atual, que diz explicitamente que R$ 20,0 milhões que o PT lhe devia e não teria pago não vieram porque os contribuintes não puderam internar dinheiro no país (Jefferson disse isso em entrevista à Folha de S. Paulo; disse ainda que foi o ex-ministro José Dirceu quem deu a informação sobre a causa do calote).
Resumindo a história pode-se dizer o seguinte: a nova abertura da economia brasileira gerou uma gigantesca sonegação de impostos; parte do dinheiro que seria sonegado e não foi, foi internado no País para pagar políticos; e a fração de dinheiro que foi para esse processo de corrupção da política brasileira é mínima, comparada com a que se desvia. Mesmo que se dobre a quantia que se diz que teria sido recebida pelos parlamentares, o dinheiro da corrupção política está na casa de um milésimo do desvio de divisas. Ou ainda, para concluir: custa muito pouco para os ricos que participam do mercado financeiro global corromper o processo político brasileiro.
