29.5.05

A despedida do ombudsman

Daniel Okrent
Publicado no Globo em 29/05/2005

   E então todas as coisas boas (e tensas e terríveis e animadoras) precisam ter um fim. Quando comecei esse trabalho, em dezembro de 2003, tinha uma lista de 20 temas que queria abordar. Nos meses seguintes, tinha metade daquilo, e dediquei o resto do meu tempo e espaço a assuntos que explodiram nas páginas do jornal e na minha caixa de e-mail. Os dez que nunca abordei estão agora pendurados no armário com 50 outros. O que se segue é uma seleção aleatória.

   1. Na minha primeira coluna, identifiquei-me como “um absolutista” sobre a Primeira Emenda. Aparte a percepção de que o absolutismo como autodefinição pode ser algo um pouco precipitado, meus pensamentos sobre jornalismo e a Primeira Emenda mudaram consideravelmente. Ainda prezo a Primeira Emenda, ainda a considero a pedra fundamental da democracia. Mas adoraria ver jornalistas justificarem seu trabalho não se embrulhando no manto da lei, mas invocando defesas mais persuasivas: precisão, por exemplo, e lealdade.

   2. O colunista Paul Krugman tem o hábito perturbador de moldar, fatiar e seletivamente citar números de um modo que agrada a seus acólitos, mas o deixa aberto a ataques substantivos. Maureen Dowd ainda estava escrevendo que Alberto Gonzáles chamou a Convenção de Genebra de esquisita quase dois meses depois de uma correção nas páginas ter aplicado o termo a provisões de Genebra sobre privilégios de uniformes de atletas e instrumentos científicos. Antes de se aposentar em janeiro, William Safire me irritou com sua crônica afirmação sobre ligações entre a al-Qaeda e Saddam Hussein, baseada em provas que aparentemente só ele tem.

   Ninguém merece a vituperação pessoal que regularmente vem à maneira de Dowd, e alguns dos inimigos de Krugman são tão ideológicos (e conseqüentemente injustos) quanto ele. Mas isso não significa que seus chefes, o editor Arthur O. Sulzberger Jr., não deva levar seus colunistas a padrões mais altos.

   Não dei a Krugman, Dowd ou Safire a chance de responder antes de escrever os dois últimos parágrafos. Decidi personificar um colunista.

   3. Pergunta: O que essas caracterizações têm em comum?

   “Ao primeiro som de sua voz peremptória e de seu salto alto, pessoas se lançam atrás das portas e apagam as luzes.” Crítica de TV Alessandra Stanley sobre Katie Couric. “Lakshmi pode ser uma prostituta semi-celebrada.” Redator de moda Guy Trebay sobre Padma Lakshmi. ”A expressão exata é ‘burro.” Crítico de livros Joe Queenan sobre o escritor A. J. Jacobs.

   Resposta: Cada uma delas é gratuitamente nojenta, e inadequada para um jornal que muitos vêem como um guardião da discussão civil.

   4. Em julho passado, quando critiquei o título “O ‘New York Times’ é um jornal liberal?” acima de minha coluna e a abri dizendo “é claro que é”, não estava fazendo favor algum a qualquer pessoa — ao jornal, a seus críticos, ou a mim mesmo. Reduzi um assunto complexo a uma citação. Ainda acredito que o jornal é um produto inevitável da experiência e da visão de sua equipe, e que a cobertura reflete uma aceitação generalizada de posições liberais sobre a maioria das questões sociais.

   Para os detratores de direita do “Times” ideologicamente abastecidos, porém, não havia motivo para invocar esta análise mais complexa quando eles poderiam pintar minhas palavras mais incendiárias no quadro de avisos: “De acordo com Daniel Okrent do ‘Times’... ” Eu talvez desejasse que eles tivessem os mesmos padrões que pedem ao “Times” — a justa representação de opiniões controversas. Mas lhes dei uma metralhadora quando uma pistola seria suficiente.

   5. Há poucos traços mais valiosos para um grande crítico de cultura do que um ponto de vista estético consistente. Mas um ponto de vista estético consistente inevitavelmente estimula manchas no campo de visão. Se um crítico apenas não gosta de um autor de teatro (ou um pintor ou um romancista), tanto o autor quanto os leitores saem perdendo. Ele nunca tem uma chance justa, eles nunca têm uma visão fresca. Que tal um limite para os críticos — digamos, dez anos?

   6. Se você tem notado cada vez mais assinaturas não familiares no jornal, não é por acaso. Seções adicionais, exigências do site do “Times” e pressões econômicas espalharam os finitos recursos da equipe pelas exigências de uma missão bem mais ampla, e aumentaram a dependência do jornal de jornalistas freelancers.

   Nada tenho contra freelancers. Eu mesmo já fui um. E amanhã voltarei a ser. É um modo de vida respeitável (ainda que financeiramente absurdo). Embora os freelancers do “Times” concordem em obedecer as regras éticas do jornal e os padrões profissionais, não há jeito de alguém que esteja trabalhando para o “Times” hoje, alguma outra publicação amanhã e ainda outra terça-feira absorver e viver o complexo código do “Times” tão completamente quanto seus funcionários. Conflitos escondidos, violações de regras do “Times” e uma variedade de outros problemas repetidamente encontraram seu caminho para meu escritório nos últimos 18 meses.

   As pressões econômicas em todos os jornais são reais, é claro, e nenhum jornal moderno pode ter sucesso se não comprometer seus recursos com novas formas de distribuição. Estou certo de que o “Times” dedica uma parte maior de sua receita à reportagem do que qualquer outro jornal da nação. Mas o preço de esticar uma equipe magra demais, e de remendar essas áreas fracas com trabalho diário, pode ser muito, muito maior.

   7. Na seção de viagem da revista de domingo, por que os restaurantes são sempre prazerosos, os hotéis hospitaleiros, as paisagens gloriosas e a experiência compensadora? É uma forma estranha de jornalismo patrocinado secretamente. Se os críticos de teatro fossem tão cronicamente não críticos, seriam expulsos do palco.

   8. É uma história sobre, digamos, escolas públicas de Nova York. No primeiro parágrafo, um pai, aparentemente abordado aleatoriamente, diz que elas não melhoraram. Espera-se claramente que os leitores tirem conclusões disso.

   Mas não está claro se o pai foi abordado, não é possível determinar se o pai é representativo e não há como saber se ele tem conhecimento sobre o que está falando. Abordar uma pessoa na rua para fazer julgamentos conclusivos está abaixo da dignidade jornalística. Se pesquisas que ouvem centenas de pessoas indicam margem de erro, que tipo de advertência ao consumidor pode ser feita por um repórter que entrevistou quatro ou cinco pessoas?

DANIEL OKRENT acaba de deixar o cargo de ombudsman do “New York Times”