26.4.05

Memórias quarentonas

   Nesse auê da Globo pelos seus 40 anos - com direito a um jogo da seleção inteirinho pra ela - sinto falta de uma pessoa muito importante para mim: a Tia Fernanda.

   Tinha acabado de chegar ao Rio, vindo do Nordeste e ainda não tinha me acostumado com aquela caixa estranha que pontificava na sala do apartamento do meu primo Edmílson e dentro da qual pessoas cinzentas andavam e falavam. A estranheza, porém, era menor nas manhãs com a Tia Fernanda. Era uma moça muito simpática, diferente, mas parecida com as professoras que eu tinha na escola (nunca chamei ao vivo e a cores uma professora de tia). Ela fazia uma série de brincadeiras com crianças pequenas, brincadeiras que eu reconhecia - como a dança das cadeiras - o que me deixava mais à vontade diante daquele quadrado de madeira e vidro ("e se eu quebrar esse vidro, o que acontece? As pessoas saem lá de dentro?"). O relaxamento só não era total por causa de um detalhe ainda mais estranho que o caixote: a maneira como Tia Fernanda falava.

   Certo, aquele rapaz que aparecia na caixa em outro canal - e do qual também gostava a ponto de não perder programa nas tardes de domingo - vestia roupas que eu não via nas ruas, usava um cabelo grande e também palavras que eu não entendia bem - "brasa", "mora"... -, mas não tinha a maneira estranha de falar da Tia Fernanda. Era como se as palavras escorregassem da boca da Tia e ela não conseguisse dar-lhes forma, embora visivelmente se esforçasse por fazê-lo. Nada a ver com outro ídolo, o Capitão Furacão, a quem sempre assistia à tarde na mesma Globo, com seu vozeirão que parecia saber exatamente como dizer as coisas. Até a assistente dele, a Elisângela, embora apenas uma menina parecida com algumas coleguinhas da escola, sabia falar melhor que minha querida tia.

   Só muitos anos mais tarde entendi qual era o problema com a fala da Tia Fernanda. A descoberta veio ao ouvir pela primeira vez um americano falar português. Isso aí: minha primeira paixão televisiva, a simpática professora que brincava com crianças dentro da caixa era americana. Foi um choque, que se ampliou anos mais tarde quando soube do acordo de Roberto Marinho com o grupo Time-Life. "Poxa, Tia Fernanda era parte do acordo!", compreendi, consternado.

   Não me recuperei totalmente do baque, devo reconhecer, mas - caramba! - Tia Fernanda foi importante pra mim - e provavelmente para um monte de gente - e merecia ser lembrada pela Globo! Tá certo que seus programas porvalvelmente se perderam naquele incêndio esquisito da década de 70. Mas podiam pelo menos lembrá-la. Quem sabe não tem alguém com um VT daquela época? Certo, ele iria fazer muita gente lembrar da origem escusa da emissora, mas teria uma sugestão para não dar muito na pinta: dublar a tia. Não ia ser a mesma coisa, mas já serviria para matar as saudades.

25.4.05

Holocausto armênio

por Isaac Bigio
publicado na conciencia.net

LONDRES, 24/4/2005. El 24 de Abril de 1915 Turquía arrestó y ejecutó a cientos de líderes armenios iniciando lo que muchos llaman el holocausto de al menos la mitad de los 2 millones de armenios que vivían bajo su imperio.

Ellos fueron el primer pueblo en abrazar el cristianismo pero vivían como ciudadanos de segunda en el califato otomano. En 1884-97 100 a 300 mil de ellos fueron masacrados. En 1915-17 posiblemente hasta 1,5 millón de ellos murieron, padeciendo formas de deportaciones, campos de concentración y gasificación que luego inspirarían a Hitler contra judíos, gitanos, gays e izquierdistas.

Mientras Alemania y Japón formalmente reconocen culpas en masacres en la II guerra mundial, Turquía insiste en negar el genocidio. EEUU e Israel tampoco aceptan ello pues no quieren herir al aliado musulmán. El asunto cobra particular relevancia hoy pues ello y la actitud dura de Turquía ante sus minorías es algo que genera objeciones para ser admitida en la UE.

19.4.05

Mobilidade

Nelson Vasconcelos
Publicado no Globo em 19/04/2005

   Rupert Murdoch é um cidadão bilionário que controla poderosas empresas de mídia nos EUA, na Europa e na Austrália, sua terra natal. Semana passada, em Washington, reconheceu que andou vacilando em relação à internet. Teria demorado a descobrir todas as potencialidades da rede para seu ramo de negócio. Disse que a internet não era sua linguagem nativa. Muita gente pensa assim — mas, assim como ele, haverá de mudar. Demorou.

   Poucos setores foram tão afetados pelo crescimento da rede quanto o setor de comunicação. TV, rádio, jornais, revistas: tudo ganhou na rede não somente sua versão digital, como também poderosos concorrentes. E há quem diga que mesmo os baratíssimos blogs incomodam muito as empresas de mídia. Não só porque vivem de acesso gratuito, mas porque estariam livres de preconceitos e pré-concepções editoriais. Não estão, claro. Todo editor tem suas amarras, institucionais ou não, conscientes ou não. Nos blogs, certo é que o relacionamento mais direto provoca maior identificação, maior fidelidade. E Murdoch disse: leitor quer controlar a mídia, não quer ser controlado. Tem a ver, mas essa é outra conversa.

   Certo é que a produção de conteúdo para a rede é um caminho sem volta. E a palavra-chave, aqui, é convergência de mídias, estrelada pelo celular. É com este aparelho nos nossos bolsos que o mercado está cada vez mais preocupado em ganhar dinheiro. Afinal, tudo que você recebe no seu celular — inclusive os irritantes spams de promoção das operadoras — vira fonte de renda para as próprias operadoras e desenvolvedores.

   Isso vale até para as palavras do Papa: em países como Itália, Irlanda e EUA, um serviço de mensagem de texto para celulares que transmite frases de João Paulo II é um tremendo sucesso, e continuará sendo. Nos EUA, por exemplo, custa US$ 0,30 por mensagem.

16.4.05

Manipulação racista

   A íntegra do artiguete publicado na página 10 do Globo de hoje:

      Perdão mais amplo


      TALVEZ INSPIRADO no mea-culpa de João Paulo II por causa das perseguições empreendidas pela Igreja no passado, Lula não se conteve ao visitar a Ilha de Gorée, entreposto de escravos no Senegal, e, em nome do Brasil, pediu perdão pela escravidão.

      O NOBRE gesto infelizmente não reflete a complexidade do ciclo escravocrata no mundo pré-século XIV, em que negros africanos eram capturados por outros negros e vendidos para as Américas.

      MESMO NO Brasil, houve negros senhores de escravos envolvidos nesse comércio odioso. O pedido de desculpas precisaria ser mais amplo e despido de racismo.


   O bacana no textículo é que ele usa a verdade a serviço da torpeza. Realmente havia, como sempre houve (e ainda há), escravidão no continente africano feito por negros contra negros. Mas há diferenças essenciais que fazem essa escravidão - pré-século XIV, como diz o texto - diferente daquela referida por Lula:

      1. O tráfico intra-africano era efeito de guerras e os escravos eram, em geral, trocados por resgates. Durante as negociações, eram escravos e podiam ficar assim para sempre, mas havia sempre a perspectiva de voltar para casa. Nem que fosse depois de uma outra guerra (havia muitas) ou mudança diplomática;
      2. O escravo que tivesse alguma habilidade era usado neste trabalho preferencialmente. O eito era uma obrigação muitas vezes, mas nada que se comparasse ao trabalho realmente escravo no Brasil, onde era o destino certo.
      3. O tráfico intra-africano de mais longo curso era ínfimo. Se o reino que capturasse os escravos tivesse relação com os árabes, os mais habilidosos ou belos poderiam ir parar na África do Norte ou mesmo na Europa. Mas isso não foi estatisticamente relevante durante séculos.

   Mas não foi a essa escravidão que Lula se referiu (e que é uma das fases do desenvolvimento das forças econômicas, como ensina Marx), e O Globo sabe muito bem disso, como demonstra ao se referir ao tráfico pré-século XIV. Ele pediu perdão pela escravidão havida depois que os portugueses chegaram às costa d'África. Com eles chegou o tráfico em ritmo capitalista, de escala. Depois de os barcos europeus aparecerem no horizonte, os reinos da região passaram a ir à guerra exclusivamente para praticar a escravidão. E venciam as guerras com facilidade, obtendo mais escravos, devido ao armamento superior fornecido pelos brancos. É por esse tipo de escravidão que o presidente brasileiro muito justamente pediu perdão.

   E é exatamente das características capitalistas, em série, racionais, da escravidão montada pelos brancos que O Globo quer desviar o olhar dos seus leitores, nem que, para isso, acabe por prestar um grande serviço à causa racista ao dizer que se os negros também fizeram escravos, o pedido de perdão de Lula não atinge o seu alvo.

   Se você não quiser ser levado no bico pelos editorialistas do Globo, recomendo a leitura dos livros de Alberto da Costa e Silva. A enxada e a lança e A manilha e o libambo são meio demais com suas mil páginas, mas Um rio chamado Atlântico e Francisco Félix de Souza, mercador de escravos dão uma visão das melhores sobre o assunto, inclusive sobre a questão de negros escravizando negros (especialmente o segundo). Técnico como os dois primeiros de Costa e Silva, mas muito menor é A África e os Africanos na formação do mundo atlântico , do americano John Thornton, que, claro, tende a enfocar o assunto sob a ótica de lá. Todos os do autor brasileiro saíram pela Nova Fronteira e o do americano pela Campus.

   Já sobre o comportamento moral dos editorialistas do Globo, recomendo Eichmann em Jerusalém, de Hannah Arendt (Cia. das Letras)

13.4.05

Dinheiro esperto

publicado em 13 de abril de 2005, no Globo

John Tierney

   Não se deixe enganar pelo falatório em Roma. As previsões de jornalistas sobre a eleição do novo Papa podem soar bem confiáveis, citando cardeais anônimos e fontes exclusivas na Opus Dei. Mas, nossa profissão vai mal. Um espectro está rondando a "retoritocracia" - o fantasma do Intrade.

   Trata-se de um mercado futuro de apostas online, com sede em Dublin, na Irlanda, e usado por mais de 50 mil especuladores do mundo inteiro. Espera-se que eles invistam até US$ 1 milhão em contratos futuros ligados ao resultado da eleição do novo Papa. E, se a História recente pode servir de guia, a sua percepção coletiva parecer ser mais apurada que a nossa.

   Se alguém ouvisse os jornalistas durante a campanha presidencial dos EUA, no ano passado, veria uma corrida eleitoral com tendências oscilando e alternância dos candidatos como favoritos nas pesquisas. Na semana anterior à eleição, nós analisamos a guerra voto a voto nos estados americanos e bravamente decretamos que os resultados eram muito próximos para definirmos um vitorioso.

   Mas quem consultou o mercado Intrade durante a corrida eleitoral viu que os investidores serenamente apostaram na vitória de Bush. E o mais impressionante é que, no fim de semana anterior à eleição, os investidores corretamente previram a vitória de Bush em cada um dos 50 estados.

   Tudo bem, é mais fácil prever como Ohio vai votar do que um conclave de cardeais que nunca responderam a uma pesquisa de opinião. Mas considerando o histórico da mídia noticiosa, qualquer sistema um pouco mais científico do que a análise das entranhas de uma galinha sacrificada pode ser considerado melhor.

   Por enquanto, os especuladores do Intrade estão apostando que a fumaça branca vai sinalizar a escolha de um papa italiano. Os contratos futuros, que pagarão prêmio no caso da vitória de qualquer italiano, estavam sendo negociados a 41,9 pontos, o que significa que 41,9% dos investidores acham que um italiano vencerá, seguido pela Nigéria, com 13%. O cardeal favorito nas apostas individuais é Dom Dionigi Tettamanzi, de Milão, com 23%, seguido por Dom Francis Arinze, da Nigéria, com 14%.

   A maioria dos apostadores é composta por investidores lúdicos. Mas esses amadores exercem uma função-ecossistema do mercado. Eles são as ovelhas que atraem os lobos. O dinheiro dos amadores leva os investidores profissionais a perderem tempo analisando as últimas declarações dos cardeais e outras fontes. O dinheiro das ovelhas também é uma tentação de lucro para aqueles com íntimo conhecimento do processo sucessório no Vaticano, embora isso seja contra as regras do Intrade.

   Mas suponha que um burocrata do Vaticano ouça uma informação importante antes ou mesmo durante o conclave. Ele a repassaria a um jornalista, sabendo dos riscos de se comprometer? Ou ele vai, na privacidade de seu lar, fazer alguns poucos cliques lucrativos no seu computador? O jornalista em mim torce para que ele vaze a informação para a imprensa, ou pelo menos fique fora do Intrade, deixando-nos às escuras, mas com espaço para as mais variadas teorias e previsões. Espero, por razões meramente egoístas, que o Intrade erre seus prognósticos dessa eleição.

JOHN TIERNEY é jornalista e colunista do "New York Times"

12.4.05

A Santa Madre contra a Meretriz da Babilônia

   Finalmente, depois de muitos dias, apareceu uma notícia digna do nome naquela Saturnália que ora acontece em Roma. A determinação do Colégio de Cardeais de que os “capa-púrpuras” permaneçam sem falar com a mídia durante o conclave que elegerá o novo Papa sinaliza que a Igreja finalmente resolveu fazer parte importante de seu trabalho que tem estado a negligenciar, qual seja combater a Meretriz da Babilônia.

   (De todas aquelas imagens fantásticas do Evangelho de São João – que não sei porque o George Lucas não filma. Seria Oscar certo em efeitos especiais – a mais clara é essa: a Meretriz poderosa, bela e corrupta, com um monte de adoradores-escravos mamando em suas muitas tetas fartas).

   Bom, voltando a Roma. O silêncio cardinalício é ato cheio de mensagens tranversas, como adora a Igreja. O mais evidente, e, portanto, o mais importante por ser entendido por mais gente, é que nos momentos que se vai fazer realmente algo importante – escolher Papa, casar, ter filho, dar atenção à família, sofrer com doenças próprias ou de entes queridos – o essencial é a interiorização que permite a reflexão que leva ao aprendizado e à melhoria espiritual por meio de um comparação entre o que é transitório e o que é eterno (ou se pretende como tal). Ou seja, exatamente o que mídia não quer que nós façamos em momento algum.

   Essa mensagem, que já seria forte por si, ganha ainda maior ressonância por vir junto com a escolha do substituto de um Pontífice denominado – adivinha por quem - como “o Papa da mídia”, que fez questão de fazer seu sofrimento um espetáculo midiático (daí porque ter achado grotesca, mas lógica aquela seqüência de fotos em que o JP2 aparece tentando falar para a multidão). A atitude – unânime, segundo se informa – dos cardeais de preservarem a sua tranqüilidade em busca de inspiração no momento de uma decisão essencial, se seguida pelos crentes, poderia ser um golpe no poder da mídia.

   É claro que seria um golpe apenas e talvez, diante da situação, não decisivo, mas as matérias mostram que a mídia acusou-o. O tom geral tem sido de que “o povo foi alijado da escolha do novo Papa”. Uma bobagem, claro, porque há uns doze séculos o povo não participa de escolha de papas, mas e daí? Quantas bobagens como essa os meios de comunicação não impingem a gente todos os dias?

   Outra variante de ataque à decisão do Colégio dos Cardeais é a que pode ser vista hoje na matéria que o Globo traduziu do El País. A idéia é dizer que o voto de silêncio é uma manobra dos conservadores (como se a mídia fosse progressista...) para alijar o povo da eleição do Papa. A matéria do El País, como manda a boa técnica, escolhe um alvo, no caso do Cardeal Ratzinger, insinuado como um semi-demônio sedento de poder – o que está longe de ser uma mentira, no máximo um exagero. O problema com essa versão é que por mais força que tenham os conservadores – força essa vitaminada pelo falecido Sumo Pontífice, uma ação política que a mídia faz questão de minimizar – eles não teriam poder suficiente para impô-la (como está na matéria do Globo) a todo o Conclave.

   Assim, pode ser – vai depender essencialmente do novo Papa e do que decidir o Conclave politicamente - que se esteja iniciando um sensacional combate opondo de um lado a Santa Madre, seus dois mil anos de experiência em enfrentamento/conciliação com os poderes e sua liderança moral – hoje bastante abalada - , e, de outro, a Meretriz da Babilônia, seu dinheiro, sua capilaridade e seu enorme – e a cada dia crescente - exército de zumbis.

   São João Evangelista deve estar se divertindo muito.