Memórias quarentonas
Nesse auê da Globo pelos seus 40 anos - com direito a um jogo da seleção inteirinho pra ela - sinto falta de uma pessoa muito importante para mim: a Tia Fernanda.
Tinha acabado de chegar ao Rio, vindo do Nordeste e ainda não tinha me acostumado com aquela caixa estranha que pontificava na sala do apartamento do meu primo Edmílson e dentro da qual pessoas cinzentas andavam e falavam. A estranheza, porém, era menor nas manhãs com a Tia Fernanda. Era uma moça muito simpática, diferente, mas parecida com as professoras que eu tinha na escola (nunca chamei ao vivo e a cores uma professora de tia). Ela fazia uma série de brincadeiras com crianças pequenas, brincadeiras que eu reconhecia - como a dança das cadeiras - o que me deixava mais à vontade diante daquele quadrado de madeira e vidro ("e se eu quebrar esse vidro, o que acontece? As pessoas saem lá de dentro?"). O relaxamento só não era total por causa de um detalhe ainda mais estranho que o caixote: a maneira como Tia Fernanda falava.
Certo, aquele rapaz que aparecia na caixa em outro canal - e do qual também gostava a ponto de não perder programa nas tardes de domingo - vestia roupas que eu não via nas ruas, usava um cabelo grande e também palavras que eu não entendia bem - "brasa", "mora"... -, mas não tinha a maneira estranha de falar da Tia Fernanda. Era como se as palavras escorregassem da boca da Tia e ela não conseguisse dar-lhes forma, embora visivelmente se esforçasse por fazê-lo. Nada a ver com outro ídolo, o Capitão Furacão, a quem sempre assistia à tarde na mesma Globo, com seu vozeirão que parecia saber exatamente como dizer as coisas. Até a assistente dele, a Elisângela, embora apenas uma menina parecida com algumas coleguinhas da escola, sabia falar melhor que minha querida tia.
Só muitos anos mais tarde entendi qual era o problema com a fala da Tia Fernanda. A descoberta veio ao ouvir pela primeira vez um americano falar português. Isso aí: minha primeira paixão televisiva, a simpática professora que brincava com crianças dentro da caixa era americana. Foi um choque, que se ampliou anos mais tarde quando soube do acordo de Roberto Marinho com o grupo Time-Life. "Poxa, Tia Fernanda era parte do acordo!", compreendi, consternado.
Não me recuperei totalmente do baque, devo reconhecer, mas - caramba! - Tia Fernanda foi importante pra mim - e provavelmente para um monte de gente - e merecia ser lembrada pela Globo! Tá certo que seus programas porvalvelmente se perderam naquele incêndio esquisito da década de 70. Mas podiam pelo menos lembrá-la. Quem sabe não tem alguém com um VT daquela época? Certo, ele iria fazer muita gente lembrar da origem escusa da emissora, mas teria uma sugestão para não dar muito na pinta: dublar a tia. Não ia ser a mesma coisa, mas já serviria para matar as saudades.
