18.1.05

Bush adota estratégia da 'irrelevância da mídia'
Casa Branca ignora a imprensa, cuja credibilidade sofreu erosão com recentes fraudes
Paulo Sotero - Correspondente

Publicado no Estado de São Paulo em 16/01/2005

   WASHINGTON - Dez meses depois da revelação de uma sucessão de fraudes jornalísticas perpetradas por um jovem repórter do New York Times, as demissões punitivas de cinco produtores e executivos da Divisão de Jornalismo da TV CBS, na semana passada, estilhaçaram a reputação de outra instituição da grande imprensa americana. No NYT, o caso resultou na queda dos dois principais executivos do mais influente jornal dos EUA - o diretor de redação, Howard Raines, e o editor-chefe, Gerald Boyd.
Motivado pelo uso de documentos forjados para provar uma denúncia provavelmente verdadeira - a de que o presidente George W. Bush deixou de cumprir suas obrigações de piloto da Guarda Nacional do Texas no início do anos 70, onde prestou serviço militar, e safou-se de ser mandado para o Vietnã - , o episódio expôs os podres da CBS. A emissora foi pioneira no grande telejornalismo americano e pôs um triste ponto final da carreira de Dan Rather, seu o veterano âncora, que se antecipou à divulgação dos resultados da investigação interna feita pela CBS, anunciando a decisão de aposentar-se em março.

   As debacles do New York Times e da CBS News em menos de um ano, e outros casos semelhantes que ocorreram nesse intervalo, alimentam a perda de credibilidade da mídia tradicional entre os americanos.

   De acordo com um levantamento que o Pew Center for the People and the Press faz periodicamente há vinte anos, a proporção dos americanos que acham que a grande imprensa reporta os fatos corretamente caiu de 55% em 1985 - considerada baixa na época - para 36% hoje. A erosão da credibilidade da mídia obviamente tem facilitado a estratégia de comunicação hostil à imprensa do governo Bush.

   "No pós-guerra, esta Casa Branca é diferente das anteriores no sucesso que vem tendo em ignorar a imprensa tradicional", disse ao Estado Ronald Elving, editor sênior da National Public Radio e professor visitante da American University, onde dá um curso sobre as relações entre imprensa e governo. "Era difícil penetrar na Casa Branca de Reagan, mas sua estratégia de comunicação incluía o uso da mídia. Esta administração, com exceção dos cuidados que toma com os aspectos visuais do poder, não se importa muito com a imprensa: quase não usa os vazamentos de informações, não costuma antecipar anúncios de grandes iniciativas aos jornalistas que cobrem a Casa Branca e não demonstra interesse nos jogos que administrações passadas jogaram com a mídia."

   Segundo Elving, "a mentalidade de crise que se instalou no país depois do 11 de Setembro ajudou Bush a alijar a imprensa e apresentar a decisão como algo do interesse nacional e necessário até à segurança nacional". Com o mesmo argumento, o governo não apenas limitou o acesso da imprensa às suas decisões, como levantou novas barreiras à obtenção de documentos dos arquivos oficiais, garantida pela Lei de Liberdade de Informação (FOIA). Essa legislação foi adotada nos anos 70, em conseqüência do escândalo do Watergate, para tornar o governo mais transparente.

   A ordem, hoje, é negar, em princípio, todos os pedidos. E usar as oportunidades que se apresentam para manter jornalistas contra a parede, mesmo quando isso envolve profissionais da imprensa que simpatizam com a administração. É o caso de Judith Miller, uma veterana repórter do New York Times que ajudou a construir o falso argumento sobre a existência das armas de destruição em massa no Iraque, que Bush usou para justificar a invasão do país. Ela poderá passar meses na cadeia por resistir a revelar fontes de uma reportagem que nunca escreveu.

   Ken Auletta, o prolífico crítico de mídia da revista New Yorker, foi o primeiro a descrever a estratégia sobre a "irrelevância da mídia" adotada por Bush. Num extenso artigo que publicou em março, Auletta descreve um esclarecedor diálogo de Bush com jornalistas que cobrem a Casa Branca, durante um churrasco em seu rancho no Texas.

   O presidente começou a conversa dizendo que só lê as páginas de esportes dos jornais e nunca assiste aos noticiários da televisão. "Como, então, o senhor fica sabendo o que o público pensa?", perguntou-lhe um repórter. Bush respondeu: "Você está fazendo uma enorme suposição, a de que você (da imprensa) representa o que o público pensa."

   Tensão sempre existiu entre a Casa Branca e a imprensa. "O que parece novo na Casa Branca de Bush é a incomum capacidade que demonstrou de manter a maior parte da imprensa longe, ao mesmo tempo em que controla a pauta do noticiário", afirmou Auletta. "Talvez pela primeira vez a Casa Branca tenha passado a ver os repórteres como um advogado em busca de maior acesso e melhores manchetes, como se a imprensa fosse simplesmente um outro grupo de pressão, e um grupo de pressão que não é nem de perto tão poderoso como já foi."

   Para Elving, o desastre político e militar que se desenha no Iraque poderá forçar Bush a reavaliar sua relação com a imprensa. "Mas não há garantia, pois setores importantes da imprensa parecem persuadidos sobre os méritos da política da administração." Elving admite, porém, que, às vésperas de inaugurar seu segundo mandato, o ultraconservador presidente americano saboreia o sucesso de uma estratégia de ignorar a imprensa tradicional. Essa estratégia - diz ele - ironicamente muito deve à explosão dos novos meios de comunicação eletrônica, da televisão a cabo à internet e aos novos sistemas de difusão de informação baseados na telefonia celular, que, supostamente, levariam a uma democratização do poder.

   Richard Viguerie, o publicitário da ultradireita americana que ajudou a levar Ronald Reagan ao poder, em 1981, transformando a mala direta em arma de divulgação de propaganda política, descreveu o fenômeno num livro intitulado A Virada à Direita da América, no qual explica "como os conservadores usaram os meios novos da mídia e a mídia alternativa para tomar o poder".

17.1.05

Proposta de hino para o I Fórum Mundial de Informação e Comunicação

   Leia como se o poeta estivesse falando para a mídia (e muitos jornalistas).

Não Enche
Caetano Veloso


Me larga, não enche
Você não entende nada, eu não vou te fazer entender
Me encara de frente
É que você nunca quis ver, não vai querer, não quer ver
Meu lado, meu jeito,
O que eu herdei de minha gente, nunca posso perder
Me larga, não enche,
Me deixa viver (4x)

Cuidado, oxente!
Está no meu querer poder fazer você desabar
Do salto, Nem tente
Manter as coisas como estão porque não dá, não vai dar.
Quadrada, demente,
A melodia do meu samba põe você no lugar
Me larga, não enche
Me deixa cantar (4x)

Eu vou clarificar a minha voz
Gritando: nada mais de nós!
Mando meu bando anunciar
Vou me livrar de você

Harpia, aranha,
Sabedoria de rapina e de enredar, de enredar
Perua, piranha
Minha energia é que mantém você suspensa no ar
Pra rua!, se manda,
Sai do meu sangue, sanguessuga, que só sabe sugar
Pirata, malandra,
Me deixa gozar (4x)

Vagaba, vampira,
O velho esquema desmorona desta vez pra valer
Tarada, mesquinha,
Pensa que é a dona, eu lhe pergunto: quem lhe deu tanto axé?
À toa, vadia,
Começa uma outra história aqui na luz deste dia D
Na boa, na minha,
Eu vou viver dez,
Eu vou viver cem,
Eu vou viver mil,
Eu vou viver sem você

Vagaba, vampira,
O velho esquema desmorona desta vez pra valer
Tarada, mesquinha,
Pensa que é a dona, eu lhe pergunto: quem lhe deu tanto axé?
À toa, vadia,
Começa uma outra história aqui na luz deste dia D
Na boa, na minha,
Eu vou viver dez,
Eu vou viver cem,
Eu vou viver mil,
Eu vou viver sem você, eu vou viver sem você,
Na luz desse dia D
Eu vou viver sem você.

   Aqui o mp3 (em baixo bitrate para baixar mais rápido, mas, ainda assim, tem cerca de 2,5 megas)

A CIA de olho em nós

   Esses documentos que a CIA vazou e hoje são destaque no Globo, em matéria do Zé Meirelles, devem ser observados num contexto maior e nada melhor para isso do que aplicar a ANPLIAR (Análise Polilinear da Realidade, patente pendente).

   Como está num post lá na Coleguinhas, a CIA está praticamente sob intervenção do Governo Bush, que não gostou de a Companhia ter desmascarado há muito a farsa das armas do Saddam. Para botar a tal "guerra do terrorismo" em sua real perspectiva, a agência tenta mostrar nesse estudo que, no médio prazo, mais importante é investir contra China e Índia, em primeiro plano, e Brasil e Indonésia, em segundo, pois esses quatro têm potencial para mudar o panorama geopolítico e, unidos, barrar, ou pelo menos causar grandes problemas, o avanço do Império Americano.

   Com um aviso desses, a CIA tenta atingir alguns objetivos estratégicos:

   1. Mostrar ao establishment financeiro e industrial do Tio Sam que seria bom forçar os defensores do "Armagedon Já" no governo Bush a ver que tão importante quanto fazer o marketing da Al-Qaeda procurando terroristas embaixo da cama é dar dinheiro à agência para operações contra esses futuros oponentes antes que eles se unam e fique mais difícil.

   2. Como conseqüência do primeiro objetivo, aumentar a dotação da Companhia para as campanhas de contenção desses países. Afinal, os consultores das Tendências da vida vão cobrar mais caro para irem a jornais e tevês criticar as políticas econômicas desses governos, o mesmo ocorrendo com os colunistas de jornais e tevês, cujos cachês para falarem em encontros promovidos por empresas americanas também aumentam, etc.

   3. Como nem tudo na vida dá pra resolver na maciota, é bom também montar um hábeas-corpus preventivo para o público interno para as...Hããã..."operações de legalidade questionável" (aprendi essa no divertido filme-propaganda "A lenda do tesouro perdido", com o Nicolas Cage, que vi ontem). Será tudo pelo bem do país e na defesa dos empregos do pessoal de lá.

   4. Dar um toque nos serviços secretos da União Européia, da Rússia e do Japão para eles se mexerem e ajudarem a detonar esses emergentes malas. Claro que avisam os serviços de inteligência dos países-alvos também, mas esses já deviam estar prevendo isso.

   5. Pintar os líderes populares - tipo Hugo Chávez - como retrógrados, possíveis ditadores...Enfim, aquelas coisas de sempre.

   Enfim, diante desse documento da Companhia, em vez de começarmos a cantar o Hino Nacional como em tempos de Copa do Mundo, é bom botarmos as barbas de molho, que os caras estão mesmo de olho em nós. E não é por causa das nossas mulheres, né, Larry?

Escalada rumo ao poder

José Meirelles Passos -Correspondente

WASHIGNTON - A emergência de quatro países como influentes atores globais — China, Índia, Brasil e Indonésia — e, principalmente, uma potencial forte aliança entre eles farão surgir não apenas um novo e poderoso bloco como também provocará transformações significativas na geopolítica mundial ao longo dos próximos 15 anos.

Nesse período, a hegemonia dos Estados Unidos sofrerá desgastes, tornando-se mais vulnerável ao que acontecer em outros países na medida em que se aprofundarão as conexões no comércio global. A Europa terá de adaptar sua força de trabalho, sob o risco de enfrentar um período de prolongada estagnação econômica. E instituições como as Nações Unidas, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial correrão o risco de se tornarem obsoletas se não se ajustarem às mudanças que serão provocadas pelo surgimento desse novo pólo de poder.

Essa é a conclusão de um amplo e minucioso estudo que acaba de ser feito pelo Conselho de Inteligência Nacional dos Estados Unidos (NIC, na sigla em inglês), que reúne as 15 agências de inteligência do país e é coordenado pela CIA, a Agência Central de Inteligência. A coleta de dados e a sua interpretação foram realizadas para indicar ao governo americano os riscos que tem pela frente, e sugerir maneiras de se lidar com a nova ordem mundial.

Brasil em posição privilegiada

O documento final, sob o título “Mapeando o futuro global”, traça as perspectivas mundiais até 2020, apontando China e Índia como os dois principais fatores das mudanças que já estão se desenvolvendo, e que culminarão numa reviravolta sócio-político-financeira.

“As potências arrivistas — China, Índia, e talvez outras como Brasil e Indonésia — poderão promover um novo conjunto de alinhamentos internacionais, marcando potencialmente uma ruptura definitiva de algumas instituições e práticas pós-Segunda Guerra”, diz um trecho do estudo obtido pelo GLOBO, e que deverá ser divulgado esta semana pelo NIC. As sugestões dos analistas que servirão de base à reavaliação da política externa americana, diante das previsões contidas no estudo, permanecerão sigilosas.

A projeção da China, da Índia, do Brasil e da Indonésia no cenário mundial é apontada como algo semelhante ao advento da Alemanha unida no século XIX e ao poder obtido pelos EUA no século XX. O século XXI, segundo analistas, pode ser visto como a era em que a Ásia, liderada por China e Índia, passará a ser uma verdadeira potência — graças a uma combinação de alto crescimento econômico, expansão de suas capacidades militares e força de trabalho de suas grandes populações.

A avaliação diz ainda que embora China, Índia, Brasil e Indonésia tenham um impacto geopolítico mais limitado, o seu crescimento econômico e uma potencial aliança entre eles “vão criar uma nova paisagem”. China e Índia se tornarão líderes tecnológicos, e as corporações multinacionais terão suas principais bases em China, Índia e Brasil.

O documento diz ainda que “as empresas se tornarão globais e as corporações ficarão cada vez mais fora do controle de qualquer Estado”, acrescentando que elas serão responsáveis pela “disseminação da tecnologia, o que vai integrar mais a economia mundial e promover o progresso econômico no mundo em desenvolvimento”.

Outro trecho assinala que “China, Índia, Brasil e Indonésia têm o potencial de tornar obsoletas as antigas categorias de Leste e Oeste, Norte e Sul, alinhados e não-alinhados, desenvolvidos e em desenvolvimento. Tradicionais grupamentos geográficos cada vez mais perderão destaque nas relações internacionais.”

O Brasil é definido nesse quadro como “um país com vibrante democracia, economia diversificada e população empreendedora, um grande patrimônio nacional e sólidas instituições econômicas”. Os analistas do NIC insinuam que o Brasil estaria numa posição privilegiada pois continuará sendo encarado como “um parceiro natural tanto dos EUA quanto da Europa, quanto das potências emergentes China e Índia, “e tem ainda o potencial de aumentar a sua influência como um grande exportador de petróleo”.

Eles dizem que o sucesso ou o fracasso do Brasil “em equilibrar medidas pró-crescimento econômico com uma ambiciosa agenda social, que reduza a pobreza e a desigualdade de renda, terá um profundo impacto no comportamento econômico de toda a região e de seus governos durante os próximos 15 anos”.

O documento prevê que o Produto Interno Bruto da China será maior do que o de todas as potências ocidentais ao longo dos próximos 15 anos, ficando abaixo apenas do PIB dos EUA. O da Índia vai suplantar ou, no mínimo, será igual ao das economias européias. Em 2020, a China terá uma população de 1,4 bilhão de pessoas e a da Índia será de 1,3 bilhão, “mas o seu padrão de vida não precisará se aproximar dos níveis ocidentais para que estes países se tornem importantes potências econômicas”, diz um trecho do estudo.

A economia do Brasil poderá ser igual à dos países ricos da Europa, e a da Indonésia se aproximará desse índice. Assim como a Europa, o Japão e a Rússia sofrerão a crise do envelhecimento de sua população e do baixo índice de nascimentos. Segundo o estudo, apesar de a economia mundial continuar crescendo “de forma impressionante” até 2020 — ela deverá ser 80% maior do que a de 2000 e a média per capita será 50% mais alta —, os benefícios da globalização não serão gerais.

O estudo também faz um alerta: “governos frágeis, economias atrasadas, extremismo religioso e o crescimento da juventude vão se alinhar para criar uma tempestade perfeita para conflitos internos em várias regiões. Alguns deles, particularmente os que envolvem grupos étnicos além das fronteiras nacionais, criarão o risco de uma escalada de conflitos regionais”.

16.1.05

Após reeleição, onda conservadora invade EUA
Helena Celestino - Correspondente
Publicado em 16/01/2005 em O Globo

NOVA YORK - Alguns querem reescrever a História, virou moda não acreditar na teoria da evolução da espécie, protestos contra a imoralidade explodem em portas de cinema, redes de lojas recusam-se a vender livros críticos. Uma onda conservadora vem crescendo pelos EUA, impulsionada por grupos religiosos que ajudaram a reeleger George W. Bush e acham que agora está na hora de impor uma “agenda moral”.

Filmes sobre direitos civis são alvo de conservadores

Antes mesmo de Bush ser reempossado, quinta-feira, começou um movimento para reeditar parte do passado político americano. Pressionado por líderes religiosos, o Serviço Nacional de Parques revê filmes de marchas dos direitos civis, protestos contra guerras, passeatas do movimento feminista e homossexual que entraram para a história de Washington e são exibidos aos visitantes do Memorial Lincoln. Conservadores pediram a retirada de cenas de militantes gritando palavras de ordem e empunhando cartazes de defesa do direito ao aborto e à liberdade de escolha dos parceiros sexuais.

O reverendo Lou Sheldon, presidente da Coalizão por Valores Tradicionais, não gostou do que viu e ficou particularmente irritado com a cena de um militante homossexual segurando um cartaz com os dizeres: “O senhor é meu pastor e ele sabe que sou gay”.

— Só mostram movimentos a favor do aborto e do homossexualismo — protesta o reverendo, valendo-se da recente influência do seu grupo cristão na administração Bush. — Por que não mostram procissões?

Os funcionários do Serviço Nacional de Parques foram os primeiros a denunciar as manobras para “limpar” a História e também fizeram chegar aos ouvidos de cientistas a informação de que um livro vendido num dos parques nacionais americanos defende a tese criacionista de que o Grand Canyon foi formado pelo dilúvio de que fala a Bíblia ao contar a história da Arca de Noé — criacionismo é uma corrente de pensamento que prefere explicar a criação do mundo através da Bíblia e refuta veementemente a Teoria da Evolução de Darwin.

O livro “Grand Canyon: a Different View” (“Grand Canyon, uma visão diferente”) foi escrito por Tom Vail, guia florestal membro do movimento cristão ao qual é ligado Bush. Segundo o autor, ele deixou de acreditar que o Grand Canyon existe há milhões de anos após seu encontro com Deus.

Numa carta, sete presidentes de associações científicas pediram que o livro fosse retirado das livrarias do Grand Canyon pois poderia dar a impressão de as teses serem endossadas pelo Serviço Nacional de Parques. Mas nada aconteceu e o livro continuou à venda. “Não é um livro sobre geologia mas uma estreita visão religiosa sobre a Terra”, criticaram os cientistas.

Programas com informações falsas sobre sexo

Os religiosos também estão influenciando a distribuição de verbas para programas de controle da natalidade. No fim do ano passado, o Congresso destinou US$ 131 milhões a grupos que pregam abstinência sexual como a melhor forma de contracepção — menos US$ 100 milhões do que o Executivo pediu. Apesar do apoio oficial, um estudo do Partido Democrata denunciou que esses programas passam informações falsas sobre contracepção, aborto e doenças sexualmente transmissíveis: entre outros absurdos, os livros dizem que o uso de preservativos não impede a Aids em 31% das relações heterossexuais e alerta adolescentes para o perigo de gravidez ao tocarem os órgãos genitais.

Nestes tempos de patrulha sexual, até Hollywood é considerado um agente provocador. A estréia do filme “Dr. Kinsey”, superprodução estrelada pelo ator Liam Neeson, provocou protestos de grupos conservadores nas portas do cinema e uma estação de televisão pública — a WNET — recusou-se a pôr no ar a propaganda do filme. A história do professor que nos anos 40 e 50 fez uma grande pesquisa sobre o comportamento sexual dos americanos ainda causa escândalo.

14.1.05

Larry Rohter e a guerra simbólica

   Confesso que fiquei pê da vida com o Larry Rohter, correspondente do New York Times, quando ele chamou o Nove-Dedos de cachaceiro. Também não gostei da resposta boba do governo por ser a que ele queria para bancar a vítima e essa idéia ainda mantenho, ao contrário da que tinha sobre o Larry na época. Hoje, depois de analisar as ações dele pela ANPLIAR (Análise Polilinear da Realidade), vejo-o com um ótimo profissional.

   Veja bem, creio que temos que julgar o LH pelo trabalho para o qual ele foi escalado para fazer aqui. Como você sabe, o único país a enfrentar seriamente os americanos na questão da Alca é o Brasil, até aproveitando-se do fato de quem sem nosso mercado a existência dela deixa de fazer sentido. A Alca é essencial para os americanos porque asseguraria a eles um mercado cativo capaz de fazer frente às economias da União Européia e da China e ainda lhes permitiria estar com as mãos livres para atacar as fontes de petróleo das quais por muito tempo ainda dependerão (estão vendo algo para diminuir essa dependência e darei um link sobre o assunto na Coleguinhas em breve).

   Ora, numa guerra, como se sabe desde os tempos antigos (Sun Tzu fala disso na Arte da Guerra), a desmoralização do inimigo é das armas poderosas que se pode empregar, quando manejada por gente de talento, pois, se der muito vista, pode ter efeito contrário ao pretendido. Ridicularizar os símbolos dos quais inimigo tem orgulho é das técnicas mais eficientes e tem como exemplo claro as caricaturas que são feitas em tempos de guerra.

   Bem, Larry é empregado o NYT, grupo de mídia que tem estreitas, profundas e antigas ligações com o establishment americano do Leste, conforme mostra Gay Talese em O Reino e o Poder . E dado que a mídia é o campo de batalha simbólico por excelência na nossa sociedade, não é de espantar a determinação com que LH ataca símbolos caros ao nosso povo - um sujeito que, vencendo todas as barreiras e probabilidades, se tornou presidente do país, e a beleza das nossas mulheres.

   Como qualquer leitor de John Le Carré sabe, porém, um agente inimigo só consegue sucesso em seus objetivos se contar com ajuda interna. No caso de Larry Rohter, esse apoio é fornecido pelas Organizações Globo por motivos cuja origem podem ser traçadas até a criação da Rede Globo, há 40 anos, financiada pelo acordo Time-Life, e seguir até os atuais acordos com os credores das OG em Nova York e com a News Corpo, de Rupert Murdoch, que livraram as Organizações Globo do sufocamento financeiro vivido desde o estouro do Plano Real em 1999.

   É por dever tanto, literalmente, aos americanos que as Organizações Globo, de longte o mais poderoso grupo de mídia do país, reverberaram tanto as ações de Larry contra Lula e as mulheres brasileiras, este último um caso claramente sem a menor importância. Se houver ataques à música e ao futebol - os mais prováveis símbolos a serem alvejados por Rohter ou algum dos seus colegas - a situação tende a ser diferente, já que a empresa dos Marinho tem profundos interesses nestes dois campos (num post da Coleguinhas tentarei mostrar isso).

   Portanto, vamos ficar atentos aos próximos passos do nosso brilhante coleguinha gringo. Competente como ele é - e contando com tão poderoso apoio interno - será uma grande fonte de aprendizado da maneira com o Império trabalha no campo da mídia.

13.1.05

ONDE ESTAVA DEUS?

William Safire

publicado em O Globo - 11/01/2005


Depois do cataclismo, com fotos de pais chorando sobre crianças mortas atingindo a consciência humana em todo o mundo, surgem questões que abalam a fé: onde estava Deus? Por que uma divindade boa e toda-poderosa permite que tanto mal e pesar caiam sobre milhares de inocentes? O que essas pessoas fizeram para merecerem tamanho sofrimento?

Depois de um desastre natural semelhante eliminar milhares de vidas em Lisboa, no século XVIII, o filósofo Voltaire escreveu “Cândido”, satirizando selvagemente otimistas que ainda encontravam conforto e esperança em Deus. Depois da tsunami do mês passado, o mesmo angustiado questionamento está nas mentes de milhões de fiéis.

Abra o Livro de Jó, na Bíblia. Foi escrito há cerca de 2.500 anos, durante o que deve ter sido uma crise da fé. O acordo com Abraão — adore o Deus único e seu povo será protegido — parecia não estar funcionando. Os bons morreram, o mau prosperou; onde estava a justiça prometida?

O poeta-pastor que escreveu esse livro começa com um diálogo entre Deus e Satã, um tipo de anjo que fazia exigências. Quando Deus se refere a Jó como seu servo “mais correto e devoto”, Satã sugere que Jó adorava Deus apenas porque recebera poder e riqueza. Numa aposta de que Jó se manteria fiel, Deus deixa o anjo tomar seus bens, matar seus filhos e afligi-lo com feridas repulsivas.

O primeiro ponto do Livro de Jó é de que sofrimento não é prova de pecado. Quando os amigos de Jó dizem que ele com certeza fizera algo terrível para merecer tamanho sofrimento, o leitor sabe que isto é falso. O sofrimento de Jó era um teste para sua fé: mesmo que ele tenha ficado zangado com Deus por ele ter sido injusto — desejando processá-lo num tribunal — nunca abandonou sua fé.

Quando Jó desafia a justiça divina, Deus diz a ele: “Onde estava você quando eu fiz as fundações da Terra?”. Recorrendo à imagem de um mítico monstro do mar que simboliza o Caos, Deus pergunta: “não consegue atingir Leviatã com um gancho?”. O que o poeta-pastor diz, acho, é que Deus está ocupado levando luz à escuridão e impondo ordem física ao caos, e deixa suas criações humanas livres para resolver a justiça moral à maneira delas.

A ira moral de Jó causada por Deus parece mostrar que o sofredor que crê nunca está sozinho. Abruptamente, Jó para de reclamar, e é recompensado.

Lições de Jó para hoje:

(1) Vítimas do cataclismo de modo algum “mereciam” um destino imposto pela força leviatânica da natureza.

(2) Questionar os impenetráveis caminhos de Deus tem seu exemplo na Bíblia, e não precisa minar a fé.

(3) A obrigação da Humanidade de reduzir a injustiça na Terra está sendo expressada na explosão de generosidade que refuta o cinismo de Voltaire.

7.1.05

Código 46 (Michael Winterbottom)
Publicado no Multiply em 27/12/2004


Está em cartaz aqui no Rio um futuro cult. É Código 46, filme inglês estrelado por Tim Robbins e Samantha Morton, dirigidos por Michael Winterbottom. Como escreveu alguém, é um mistura de "Alphaville" com "Blade Runner", mas tem muito mais coisa e isso é o que dá um sabor tão especial aa fita.

Pra comecar a lí­ngua. Os creditos são apresentados em vários idiomas - inglês, chinês, árabe, espanhol eu consegui identificar, mas pode ter mais, a passagem é sempre muito rápida. Uma jogadinha interessante, pensei. Mas não era. Era sério. No comeco fiquei meio desorientado com o fato de as personagens falarem um inglês esquisitão. Aí­ vi que era um inglês enxertado de um monte de expressões em outras lí­nguas. Assim, a saudação normal não é "hello" ou "hi", mas "Ni-há" (chinês) ou "salam" (árabe); adeus não é "bye" é "a bientôt"; sinto muito não é "sorry", mas "lo siento". Dentro da história, essa mescla faz todo o sentido, pois o fí­sico das pessoas também é misturado, assim como seus nomes (Samantha Morton, por exemplo, com aquela cara de irlandesa desamparada, chama-se Maria Gonzalez; a chefe do Tim Robbins chama-se De Souza e se não for indiana é de pertinho). É a cultura da tal sociedade globalizada cristalizada na fala. O Professor Tolkien deve estar emocionado lá na Terra Média.

À mistureba de vocabulários, nomes e rostos vem se juntar a de sentimentos. Tim Robbins é um americano que só tem sentimentos em relação aos outros porque foi inoculado por um "ví­rus de empatia" para melhor desempenhar seu trabalho de investigador. Como não está acostumado com esse negócio de sentir, acaba se enrolando e se apaixona por Samantha e seus magníficos olhos azuis-esverdeados. Com isso simplesmente destrói a vida da menina da maneira mais cruel possí­vel - não vou dizer como, você vai ter que ver para descobrir. A miscelânea vai mais além e chega à gloria na trilha sonora, que une canções em chinês, trance, uma modinha brasileira ("Menina e moça"), Bob Marley, acabando com uma do Coldplay de despedaçar o coração.

Sabe aqueles filmes que você sai empolgado do cinema, anda 30 metros e já não se lembra direito nem do enredo? Pois Código 46 não é assim. Você sai impressionado do cinema também, mas, aos poucos, ele vai te impregnando. "Pô, tem a ver com a Teoria do Caos"; "Cara, o comportamento do Tim Robbins vai deixar as mulheres tiriricas"; "Os verdes vão vibrar com a devastação"; "Ih, rapaz...Será que aquilo é incesto? Será que os religiosos vão ficar putos?"; "E a exclusão?"; "E o racismo?" Esses foram alguns dos pensamentos que tive sobre o filme desde ontem.

Preciso dizer que vou ver outra vez?

A Batalha de Argel (Gillo Pontecorvo)
Publicado no Multiply em 28/09/2004


Como boa parte dos jovens de esquerda da minha geração, ouvi falar muito de A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo, principalmente que era um filme revolucionário na mensagem e na forma. Por isso, quando foi liberado pela censura, lá por 81, 82, estava lá para vê-lo, sentadinho naquelas desconfortáveis cadeiras de madeira do Ricamar. Não me decepcionei: o filme era mesmo revolucionário. Mais do que pela forma e pelo conteúdo, porém - por ser cheio de sangue nas veias, de vigor, de indignação e de humanidade. Pois bem, mais de 20 anos depois, revi-o, em excelente cópia restaurada, e digo - está envelhecendo lindamente, ainda mais poderoso do que quando nos encontramos da primeira vez, e certamente ainda mais pujante do que quando foi feito, em 65.

Você deve saber do que ele trata - da luta do povo argelino contra o colonialismo francês - e isso obviamente não mudou. O que foi alterado, é claro, foi minha visão dele ou, mais precisamente, de alguns temas que ele aborda. O terrorismo como método de ação política, por exemplo, era uma questão quase acadêmica e algo romântica para um brasileiro de 20 e poucos anos do início dos anos 80, mas duas seqüências sobre isso me abilolaram dessa vez: aquela na qual as mulheres vão realizar os primeiros atentados à bomba da FLN e a da ambulância sendo jogada contra o ponto de ônibus.

Na primeira, Gillo perguntava claramente, mas eu não entendi na época, o que aquelas pessoas legais - crianças e adolescentes entre elas - e nem tanto tinham a ver com a questão. Ele até responde que têm em outras cenas (como aquela em que um bando dessa gente maneira tenta linchar um menino árabe vendedor de doces após outro atentado), mas mereciam morrer sem chance de defesa por isso (e o menino merecia ser linchado)? Na segunda, a mesma questão, com uma constatação que fez meus olhos se arregalarem: "Meu Deus! É carro-bomba sem bomba em 57!", pensei.

Outro exemplo - a ação do comandante militar francês que desarticula a FLN em 57. Claramente, como só raros militares na vida real diriam na frente de jornalistas, ele confirma que usa mesmo tortura porque a sociedade francesa exigia ficar na Argélia (a maior parte da esquerda inclusive, lembra ele) e que se acabasse com aquela bagunça imediatamente. Assim, se os franceses queriam manter o domínio sobre um povo de qualquer maneira, teriam que assumir as conseqüências dessa decisão. Uma seqüência admirável vista hoje, mas que não pude enxergar dessa forma há 20 anos, tendo recém-saído de uma ditadura militar.

Por essas e outras (incluindo a cena final, que continua me parecer uma das melhores do cinema), o caminho da Batalha de Argel me parece longe de terminar. A esperança se baseia na troca de comentários entre uma moça gordinha, de uns 20 anos, com piercing na sobrancelha e no nariz, e uma amiga menorzinha, de idade semelhante:

- Que filmão! Pensei que ia ser chato, mas é bom à beça! - admirou-se.

- É um filme de ação! - vibrou a outra.

Daqui a 20 anos, a obra de Pontecorvo ainda vai surpreender muita gente, como tudo o que a Humanidade realiza em seus momentos de grandeza

Central Al-Jazeera (Jehane Noujaim)
Publicado no Multiply em 25/09/2004


A objetividade é uma miragem. Não, não sou eu que estou dizendo isso (certo, certo...Repetindo pela enésima vez...). A autora da constatação é uma das produtoras da rede árabe Al-Jazeera que fala a frase ao ser entrevistada por uma repórter com a maior cara e sotaque de americana no filme Central Al-Jazeera (tradução ruim - Control room, o título em inglês, define melhor o assunto tratado), de Jehane Noujaim, uma americana criada no Cairo. Realmente, depois de assistir à obra, quem ainda acreditar que objetividade - e isenção e imparcialidade - jornalística existe vai entrar no rol daqueles que crêem em Papai Noel, Coelhinho da Páscoa e Mula Sem-Cabeça.

Em sua hora e meia de duração, o filme de Noujaim enfoca o funcionamento da maior rede de televisão do mundo árabe, criada em 96 e que se tornou um fenômeno de popularidade entre os árabes e islâmicos de todas as partes do mundo, durante a invasão do Iraque em 2003. O documentário mostra a fórmula simples usada pela tevê para atingir o sucesso nesta e em outras coberturas: botar na telinha tudo o que as tevês ocidentais escondem quando falam do mundo árabe.

Essa estratégia funcionou tão bem na invasão do ano passado que a "CNN árabe" foi considerada um perigo militar pelo secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, e assim tratada: o escritório da rede em Bagdá foi atacado pela força área americana, resultando na morte do câmera Tarek Ayoub (o mesmo, aliás, havia ocorrido em Cabul, quando da invasão do Afeganistão, mas sem vítimas). O governo dos EUA não gostava de ver a guerra que vendia como "limpa" e de "libertação" ser mostrada como era na realidade: montes de cadáveres de civis, casas destruídas e gente pobre ferida, chorando e dizendo querer ver seus libertadores feitos em tirinhas.

O filme centra-se na maior parte do tempo em três personagens que só quem fica para ver os créditos finais desconfia quem são (por motivo que só Alá sabe, não aparece o nome de ninguém na tela): o diretor da "CNN árabe" Hassan Ibrahim, o repórter Shamir Khader - um negão com o tamanho e a forma do Michael Moore, mas com humor britânico (trabalhou na BBC) - e o competente capitão Josh Rushing, um dos assessores de imprensa do Comando Militar das tropas invasoras. São eles que, por meio de suas falas, revelam a visão dos americanos sobre a Al-Jazeera (Rumsfeld também contribui muito neste quesito), a da rede de tevê sobre o conflito entre os EUA e seus aliados e o mundo árabe, e a que ela possui de si mesma.

Jehane Noujaim não apela para o ritmo frenético à la Michael Moore e por isso não deixa dúvidas sobre o seu recado: a idéia de objetividade jornalística só é defendida ou por gente tola ou por gente metida a muito esperta. E esse tipo, mostra a cineasta, não está apenas do lado americano - o próprio Hassan Ibrahim afirma, em dado momento, que a Al-Jazeera faz um jornalismo autêntico ("único no mundo", afirma), querendo dizer com isso jornalismo equilibrado. Realmente, a rede árabe dá mais voz ao lado americano do que as redes americanas dão ao lado árabe, mas o olhar lançado aos fatos, que é quem em última análise define o tal equilíbrio, não engana ninguém - cada um puxa a sardinha para o seu lado e a "CNN árabe" não foge à regra. Central Al-Jazeera, coerentemente, deixa patente de que lado está e com essa atitude Jehane Noujaim demonstra seu respeito pelo distinto público. Não dá pra pedir mais do que isso, eu creio.

O Demolidor de Presidentes - A trajetória política de Carlos Lacerda: 1930-1968 (Marina Gusmão de Mendonça)

Publicado no Multiply em 23/09/2004

Sou um historiador frustrado, como muitos dos meus amigos sabem - até hoje não me perdôo ter seguido Comunicação em vez de História. Por isso, vira e mexe, compro livros sobre o assunto. Ano passado, por exemplo, adquiri O Demolidor de Presidentes - A trajetória política de Carlos Lacerda: 1930-1968, na Primavera dos Livros, mas só consegui lê-lo agora, na rede da varanda da casa de minha irmã, em Lauro de Freitas (BA).

É um ótimo livro sobre um dos mais controvertidos líderes políticos brasileiros do século passado. Amava-se ou odiava-se Carlos Lacerda. Dono de uma retórica tão fulgurante quanto agressiva, que deixava fascinados e furiosos tanto amigos quanto inimigos (que, aliás, ele trocava de papéis sem muita cerimônia), Lacerda saiu da militância do PCB para a direita mais ferrenha nos seus quase 40 anos de atividade política. É essa história que Marina Gusmão de Mendonça retrata, mas também, mesmo sem querer, ilumina um modo de fazer jornalismo (jornalismo e política eram as duas maiores paixões do Corvo) que existe até hoje em nossa imprensa, embora muito mitigado.

O discurso lacerdista ainda vive e pode ser visto na maneira obsessiva que a mídia brasileira busca indícios de falcatruas e erros na administração pública, embora na maior parte da vezes não com o fito único de destruir um inimigo específico, como fazia Lacerda, mas acabar com a confiança que ainda resta da população nas instituições do Estado. Outro traço lacerdista na nossa imprensa de hoje é a mania de afirmar que tudo de errado que ocorre no país é culpa da esquerda, estando ela no poder, como hoje, ou não.

Assim, é um livro que deve ser lido por quem se interessa pela história do país no Século XX. Mas há dois poréns:

1. A obra é derivada de uma tese de doutorado. Assim, nada tem daquele texto "jornalístico" carcterístico de coleguinhas que bancam historiadores, como tem sido moda há alguns anos. É livro pra quem está disposto a ver uma personalidade e um período serem analisados em profundidade, sem espaço para mexericos de bastidores. Não é chato, veja bem, mas é texto "duro", sem concessões - não tem aquelas fotos no meio do livro pra gente ficar sabendo como era a cara do Lacerda com quatro anos.

2. Outra decorrência de ter sido fruto de uma tese é que Marina Gusmão dá uma ou outra pincelada em eventos chaves da política pós-Revolução de 30, mas como é livro para quem conhece o assunto, ela não vai muito além disso. Portanto, é bom ter um razoável conhecimento prévio da politica brasileira da Era Vargas até o Golpe de 64 para não ficar perdido.

Os Últimos Dias (Bob Woodward e Carl Bernstein)

publicado no Multiply em 03/04/2004


Não chega a ser uma resenha. É mais uma comemoração e uma dica. No sebo Elizart (Mal. Floriano, 63), está à venda, por R$ 2,00, uma tremenda aula de jornalismo. É o livro "Os Últimos dias" (Francisco Alves), de Bob Woodward e Carl Bernstein. Nele, os dois coleguinhas do "Washigton Post" detalham o fim do governo Nixon, numa continuação da obra mais famosa da dupla, "Todos os homens do presidente".

É um jornalismo à antiga - não tem insinuação, tem acusação; não tem fitas editadas, tem diálogos relatados "ipso verbo"; não tem documentos recortados por efeitos gráficos, tem íntegra; não tem adjetivos, só substantivos. Ou seja, hoje dificilmente seria editado em qualquer jornal ou revista do Bananão (tevê e rádio, então, nem se fala) e talvez nem lá, na terra do Jorge Andarilho.

A comemoração fica por conta do fato que tinha perdido um exemplar na viagem de volta da Bahia, no primeiro dia de 2000. Botei no carrinho do aeroporto e na hora de pegar o táxi o esqueci lá. Quem perdeu um livro difí­cil de se achar e o reencontrou por acidente quando não tinha mais esperança, avalia como estou contente.

Cultura do medo (Barry Glasser)
publicado no Multiply em 09/07/2004

A mídia é a maior propagadora de medos da sociedade moderna. Essa é a tese do livro Cultura do medo, de Barry Glassner, editado pela W11, a mesma responsável pelo lançaamento dos livros do Michael Moore por aqui.

Glassner, que é entrevistado pelo documentarista peso pesado em Tiros em Columbine, faz um livro tipicamente americano: centrado nos fatos ocorridos no Grande Irmão do Norte e cheio de estatísticas e exaustivas (em todos os sentidos) citações. Apesar desses defeitos - pelo menos na minha visão brasileira - é uma obra muito boa para ser lida pelos não-jornalistas.

No livro, os que não fazem parte da confraria podem conhecer todos o truques usados por nós para elevar o nível de paranóia de nossas pobres vítimas aos altos íÃÃ?Â?ÂÃ?­ndices desejados. Estão lá as percentagens altas escondendo números reais baixíssimos em relação ao universo pesquisado; os personagens especialmente escolhidos para representar esses números; a utilização dos mesmos pseudocientistas - ou cientistas mesmo, mas comprometidos com organizações interessadas nos teses que eles realizam - por várias publicações para dar respaldo "cientíÃÃ?Â?ÂÃ?­fico" a afirmações as mais escalafobéticas; o uso da edição de imagens para provocar arrepios, acompanhado de narrativas empostadas para reforçar o efeito; a confusão de conceitos na mesma frase ou parágrafo para engrupir o leitor, o espectador e o ouvinte; a apresentação de uma tese para provar a si própria, mas com outras palavras...Em suma, um show room de como deixar um leigo aterrorizado com qualquer coisa, desde a gripe das galinhas em algum lugar remoto da Ásia até o gargalo da infra-estrutura que fará crescer a inflação.