Barbárie histórica
Nas análises sobre a opção dos brasileiros pela barbárie, a imprensa aproveita para prestar mais um desserviço ao país. Dessa vez é botar na conta dos governos federal e dos estados pela escolha dos tupinambás pela selvageria. Eles teriam decidido pelo bangue-bangue apenas por causa da (falta de) política de segurança pública. Essa é parte da verdade, mas não toda ela. Uma outra, fundamental, está sendo escamoteada: a de que nós, os brasileiros, somos um povo muito, muito violento.
Nossa história demonstra isso com clareza. Aqui vão uns exemplos rápidos, e longe de completos, sobre essa verdade que procuramos esconder com todas as forças, pagando um mico megatônico diante de nós mesmos:
Canudos – Um filme meia-boca, uns documentários pouco vistos, alguns livros para iniciados e umas exposições quase clandestinas. Isso foi o máximo de reconhecimento a que a maior parte da sociedade brasileira se permitiu no que se refere ao massacre dos nordestinos no início da República. O Globo, em especial, teria boa razão para falar desse assunto. É que os soldados desmobilizados depois do morticínio e suas famílias formaram a primeira favela da cidade – onde hoje é o Morro da Providência - e cujo nome era uma homenagem à mandioca-brava que cresce na caatinga sob as condições mais adversas. Aliás, não foi a primeira vez que o Exército jogou assassinos treinados na rua após uma guerra – isso ocorreu também após o massacre do Paraguai (ver abaixo);
Contestado – A versão sulina de Canudos deu filme pior e é ainda mais desconhecida, embora as conseqüências sociais tenham sido melhores. Como a maior parte da elite local (fronteira entre PR e SC) era formada por descendentes de europeus, eles lembraram os avós e, após o banho de sangue regulamentar, cederam um pouco e distribuíram uma parte da riqueza, abrindo caminho para atual estabilidade e prosperidade da região.
Malês – Se Canudos e Contestado deram filmes, esse massacre aqui só foi lembrado em samba-enredo (ruim). Também, rebelião de negro culto e muçulmano é demais para a gente... Pelo menos sobrou alguma coisa: vem daí a importância que os negros baianos dão à educação, o que levou ao domínio da cultura negra em Salvador e a Gilberto Gil, Olodum, Ilê Aye...
Palmares - Bom, essa história todo mundo conhece, né? O filme deve ter feito Ganga Zumba dar cabeçadas no túmulo.
Paraguai – Ok, não éramos apenas joguetes nas mãos dos ingleses e o Solano Lopez era um ditador à sul-americana com certeza. Isso, porém, não obscurece os fatos: matamos quase todos os paraguaios com idade superior a 10 anos e estupramos o maior número de mulheres que conseguimos. Um erro estratégico, aliás: se é para dizimar um povo, tem matar as mulheres e não os homens. Afinal, quem pare são elas, né? Mas não é nada para se envergonhar: Hitler cometeu o mesmo erro. Hoje, Dráuzio Varela, Ronaldo Caiado e outros próceres aprenderam a lição e defendem a esterelização das pobres (não precisa mais necessariamente matar. A ciência evolui, você sabe).
Como escrevi acima, os soldados desmobilizados após a guerra voltaram ao Rio e formaram uma série de gangues, dando início aqui no Rio à tradição das milícias usadas como braço armado por políticos e que, fora de período eleitoral, faziam frilas roubando os cariocas.
Tem bem mais, mas acho que já deu pra pegar a idéia geral, não?
Era para a mídia estar analisando isso em artigos e reportagens, mas que nada. Menos espinhoso é botar a culpa nos governantes da época, que realmente têm folha corrida imensa e crescente, do que confrontar os leitores que acham que votaram em seus direitos e contra os governos, quando, na verdade, apenas avançaram mais uma casa na direção de arruinar de vez a sociedade em que vivem.

2 Comments:
Ives, querido, você sabe que eu concordo em gênero, número e grau com sua posição. Mas acho que a gente não deve perder a ternura jamais e reconhecer que a manipulação política que faz o povo acreditar na necessidade de estar armado não é a mesma violência que levará cada um a buscar uma arma para se "defender". Não é o brasileiro o violento. O homem é violento. Em qualquer guerra se cometem barbaridades. O triste é vivermos uma situação de não-guerra (de paz é que não é) e acompanharmos tanta barbárie em nossa cidade. Mas ainda acredito que esta vitória esmagadora do Não é um pedido de tomar tenência na vida, sim.
Olguinha, minha flor... "Mas ainda acredito que esta vitória esmagadora do Não é um pedido de tomar tenência na vida, sim"...Querida, uma dessas não leio desde que fechei "Polyana", há uns 35 anos...:)
Mas falando sério agora...O Homem é violento? É, claro. Mas você já viu alguém falar do "americano cordial" ou do "francês hospitaleiro"? Por que? Porque esses povos sabem o que são, pois olham para si mesmos por meio da História e lembram dos rios de sangue que correram por ela. Por isso, visando uma vida em sociedade, criaram leis e modos de convivência para se afastarem o mais possível da barbárie. Nós não. Insistimos em não nos ver como somos e por isso abrimos a porta da selvageria no domingo. Afinal, você não crê seriamente que o lobby da morte vai parar por aqui, não é? Eles vão querer facilitar o acesso às armas em nível próximo do americano e, depois, permitir que todos andem armados pelas ruas. Serão os próximos passos lógicos, para ser bem franco. Dizer que o brasileiro não é violento é o mesmo que dizer que ele não racista. É não querer enxergar o povo boçal que somos.
Postar um comentário
<< Home