11.9.05

A indústria cultural e os jornalistas

   Levei um bom tempo para decidir se devia ou não escrever sobre essa questão. Não gosto de falar sobre mim, especialmente me queixar, em público e ainda menos neste blog, cuja idéia é fazer um contraponto ao que sai normalmente na nossa imprensa. Foi esse, no entanto, o argumento decisivo para que resolvesse, enfim, abordar esse assunto: a dificuldade de quem lida com patrocínio de divulgar as empresas que patrocinadoras na imprensa.

   A pensata é conseqüência da matéria que saiu hoje na página 2 do Segundo Caderno de O Globo sobre a pesquisa de um músico de Volta Redonda. Carlos Henrique Machado Freitas fez uma extensa e bela pesquisa sobre as raízes musicais do Vale do Paraíba e da importância dessa região fluminense no cenário musical brasileiro. O fruto dessa pesquisa foi uma caixa com dois CDs e um libreto, que foram produzidos garças a um patrocínio da Eletrobrás, empresa da qual sou empregado e na qual tenho, entre um monte de outras atribuições, divulgar, interna e externamente, os patrocínios culturais e sociais da empresa.

   Na matéria do Globo, porém, esse patrocínio não é sequer citado. Normalmente isso ocorre quando o patrocinador é uma empresa estatal - jornalistas de redação em geral têm preconceito contra estatais sempre identificadas como cabides de emprego. No entanto, esse é um comportamento que também atinge as empresas privadas. Os jornalistas se recusam a dar o crédito do patrocínio alegando basicamente que o patrocínio é uma jogada de marketing e, assim, mencionar o nome da empresa é fazer propaganda gratuita. Realmente, o patrocínio é marketing - no caso das estatais é mais coisa, mas falo sobre isso adiante -, o que, no entanto, não deslegitima o essencial: é graças ao patrocínio que aquela obra está alcançando o público. No caso da pesquisa retratada pelo Globo, se não houvesse o patrocínio da Eletrobrás, ela jamais teria sido dada a conhecer, pois o pesquisador não tem recursos para isso.

   Esse comportamento dos jornalistas é extremamente prejudicial para os produtores de cultura. Em toda a empresa privada - nas estatais, mais uma vez, a realidade é um tanto diferente -, há sempre um grupo na diretoria e no conselho de acionistas que defende que o dinheiro gasto em patrocínio em cultura deveria ser utilizado na atividade-fim da empresa. No máximo, admitem que se use o dinheiro em eventos que tenham ampla visibilidade para seu público-alvo e retorno quase imediato (no caso do esporte é mais fácil convencer o grupo opositor porque a marca sempre aparece mais, quase como se fosse num evento).

   Há, porém, um grupo que defende que a empresa deve investir em cultura por ser esta uma contribuição mais facilmente percebida como socialmente importante pela sociedade. O maior argumento que esse grupo tem - que a marca está sendo divulgada -, porém, é subtraído toda vez que um jornalista não põe três palavras - "patrocinado por ....." - na sua matéria. Sempre que isso ocorre, o grupo dos contrários ao "desperdício" de dinheiro com cultura ganha mais força e o jornalista acaba por prejudicar aquele a quem ele até admira, como no caso do músico de Volta Redonda.

   No caso das estatais, há um outro lado da questão: a empresa lida com dinheiro público e, ao escamotear uma informação básica, o coleguinha acaba por impedir que a sociedade brasileira, que é a maior acionista das estatais por meio da União, saiba que seu dinheiro está financiando essa ou aquela obra e esse ou aquele projeto social (sim, os projetos sociais também sofrem desse problema, embora com um pouco menos de intensidade). E a divulgação de que estou falando não é nada demais, não. São aquelas três palavrinhas que citei no parágrafo anterior.

   Não que Eletrobrás, Petrobras, Caixa, BNDES, Correios ou Banco do Brasil vão deixar de investir em cultura por causa da omissão de seus nomes nas matérias de jornal, tevês, rádios ou revistas. Todas essas empresas, como estatais, têm em sua missão e na própria cultura interna de seus empregados a noção de que devem valorizar o que for feito por brasileiros.

   Assim - no mínimo por questão de justiça, pelo bem público e pelo bom jornalismo, que não deve esconder informações relevantes do leitor/telespectador/ouvinte - creio que os coleguinhas deveriam dar a "césar o que é de césar" quando falassem sobre alguma obra de cunho cultural ou social feito por empresas, sejam elas privadas ou estatais.

7 Comments:

At Segunda-feira, 12 de Setembro de 2005 11h16min00s BRT, Anonymous Anônimo said...

O engraçado, Ivson, é que, quando se trata de fundação, todas são citadas, como que para dar "credibilidade" à notícia.

 
At Segunda-feira, 12 de Setembro de 2005 11h32min00s BRT, Anonymous Anônimo said...

Ivson, aqui escreve aquele que vc apelidou como "Jim das Selvas". Concordo com tudo que vc escreveu e vou mais longe. Na TV, os apresentadores têm a cara de pau de reclamar da falta de patrocínio de empresas privadas. Na maioria dos casos reclamam que faltam patrocínios para os atletas e oe eventos. O Glavão Bueno é craque em reclamar disso em quase toda a transmissão. Bem, mas é a própria rede Globo, que tem entre seus quadros apresentadores reclamões, que chega a mudar até nome de time. Um exemplo foi o time de basquete lançado pelo Oscar e patrocinado pela Telemar, que levou o nome da empresa de telefonia. Mas a TV Globo nas transmissões rebatizou o time de "Rio de Janeiro". Mesmo com o placar o estádio mostrando que o nome correto é "Telemar". E a gente sabe que na hora de bater eles fazem questão de citar o nome pelo menos três vezes....

 
At Segunda-feira, 12 de Setembro de 2005 21h31min00s BRT, Blogger Ivson said...

Anônimo, a Musa dos Blogs tem uma explicação: as fundações não teriam fins lucrativos, assim o comercial dos jornais e revistas não reclamariam.

Jim: a criatividade dos coleguinhas na hora de agradar aos patrões e chefias nunca pára de me surpreender...

 
At Terça-feira, 13 de Setembro de 2005 10h39min00s BRT, Anonymous Marcos said...

É, eu também trabalhei num jornal que inistiu em chamar o Telemar de Rio de Janeiro. Resultado: o time foi campeão e a Telemar só anunciou no concorrente.

Mas é isso mesmo, Ivson: pras empresas privadas a resistência é menor. Ninguém muda o nome do Tim Festival, por exemplo.

 
At Terça-feira, 13 de Setembro de 2005 14h13min00s BRT, Anonymous Anônimo said...

E quando o pobre coitado do atleta consegue um patrocínio, qual é a primeira atitude da Globo? Focar a câmera em sua testa, de modo a não mostrar o seu boné, que apresenta a marca do patrocinador. Deplorável...

 
At Quarta-feira, 14 de Setembro de 2005 16h44min00s BRT, Blogger Raphael said...

Já havia falado sobre essa revolução da linguagem televisiva deslanchada pelos programas esportivos da Globo. Pra evitar a propaganda gratuita, as câmeras focalizam os atletas num superclose que chega a ser cômico, se não fosse trágico.

 
At Quarta-feira, 18 de Outubro de 2006 15h16min00s BRT, Anonymous Alisson said...

Bom... não sou jornalista, não entendo muito sobre Industria Cultural, faço direito, mas gosto de expressar a arte através de documentários experimentais e vídeos experimentais. Estou tentando acabar o roteiro de um documentário que fala sobre a Indústria Cultural e a marginalização... então, pesquisando achei seu Blog... gostaria de saber se, talvez somente com sua ezperência de mercado, poderia me dar alguns toques de leituras, autores ou casos que seriam interessantes citar... o documentário é entitulado de ArteConsomeArte... onde falo do consumo da arte por pessoas marginalizadas que vivem nos perímetros urbanos, e o mito da transformação social através da arte... se puder ajudar fico agradecido..

 

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