30.9.05

Como se manipula um apito

   A cobertura das Organizações Globo sobre a máfia do apito está fazendo muito mal à minha paranóia. O jornal e a tevê abraçaram totalmente a tese de que os 11 jogos apitados por Edílson Pereira de Carvalho devem ser jogados de novo. Que o veículo tenha opinião a respeito de qualquer assunto, tudo bem. Bota lá no editorial e estamos conversados. O problema é o "jornalismo de tese", como o que está sendo posto em prática na cobertura da máfia do apito, e que, além disso, deixa nas sombras questões embaraçosas.

   Para fazer valer a sua tese, os veículos das Organizações Globo não hesitam em lançar mão da manipulação mais rasteira. Vejamos a matéria principal de hoje do caderno de esportes (os grifos são meus). Ela começa assim:

      Edílson Pereira de Carvalho pode não ser apenas uma peça do esquema de manipulação de resultados de jogos do Campeonato Brasileiro. Dados surgidos na investigação conduzida pelo Ministério Público Estadual de São Paulo e pela Polícia Federal indicam que, além de receber pagamento do empresário Nagib Fayad, o Gibão, pela venda de determinadas partidas, o árbitro pode ter adotado um procedimento paralelo para aumentar seus ganhos: apostar dinheiro do próprio bolso em sites clandestinos na internet, beneficiando-se de suas atuações e até mesmo enganando quem o corrompia.

   Ou seja, é uma possibilidade, apenas uma conjectura (em princípio, tudo pode, não é mesmo?). Há indícios, não fatos, aspectos concretos.

   A matéria prossegue assim:

      (...) A possibilidade de o Edílson também se beneficiar das apostas não é descartada - disse o promotor José Reinaldo Guimarães Carneiro, do MP de São Paulo, que ouvirá nos próximos dias o juiz Romildo Correa.

   Ainda é uma possibilidade. Segue-se na linha do "tudo pode". Nada concreto, só conjectura.

   De repente, no quarto parágrafo...:

      A nova denúncia reforça a tendência de anulação dos 11 jogos apitados por Edílson, idéia defendida também pelo presidente da CBF, Ricardo Teixeira.

   OPA!!! Denúncia?! Que denúncia?! Quem deu a informação - denúncia é informação, no mínimo informe, sobre algo concreto - de que o Edílson apostava nos jogos? Não foi o promotor que não denunciou nada, apenas não descartou a possibilidade, o que qualquer detetive de tevê faz. Não foi também a PF, nem mesmo em off. O que aconteceu entre o segundo e o quarto parágrafo?

   Tem mais. Um colunista diz que não acredita em palavra de ladrão "que agora diz que em determinadas partidas, não 'atuou'". Tudo bem. Só que o Edílson não diz isso agora. Ele disse isso já nas gravações feitas pela PF e publicadas pela Veja. Ou seja, ele não tinha motivos para mentir porque não sabia que estava sendo gravado, não é? Por princípio, o que ele disse nessas ocasiões é a verdade, pois não estava pressionado por ninguém e ignorava que estava sendo flagrado. Isso sei eu e quem mais leu a matéria da Veja, mas e quem não leu, ou leu e esqueceu, como fica? Acreditando que o Edílson montou a história agora para se livrar de penas maiores e que toda as 11 partidas devem mesmo ser anuladas, não é?

   Mas o que ganhariam as Organizações Globo com a anulação de todas as partidas? Aí temos que entrar em grandes negócios. Como se sabe a Rede Globo tem a exclusividade para vender o Campeonato Brasileiro em todas as mídias até 2010. As negociações para alguns mercados já estão fechadas, outras em andamento em diversas fases. Ora, que comprador de evento esportivo levaria um produto suspeito de marmelada? Detonar os 11 jogos é necessário para o bom andamento das negociações, mesmo que para isso sejam punidos aqueles times que não só venceram seus jogos limpamente, como o fizeram mesmo contra o juiz. Seria um novo recorde em matéria de injustiça? Seria. Mas e daí? Business are business. Isso é o que importa.

   Você acredita que tudo o que apontei é fruto apenas de uma grossa incompetência combinada com uma coincidência capaz de rasgar todos os compêndios já escritos sobre a Teoria das Probablidades?

   É. Pode ser. Mas você vai perdoar um pobre paranóico de não concordar com isso, né?


6 Comments:

At Sábado, 1 de Outubro de 2005 12h14min00s BRT, Anonymous jornalocorreio@terra.com.br said...

Olá. Claro que o sistema Globo não joga para perder, inclusive em se tratando de dinheiro. No entanto, vi na noite de sexta-feira, no Olhar 2005, uma entrevista com alguém ligado a arbitragens (peguei apenas um pedaço e não fiquei para ver o restante) e, em dado momento, Carlos Minc levanta a questão de se refazer todos os jogos ou apenas os suspeitos, e o árbitro (acho que era um) deixou claro que o Código (desculpem-me, eu estava com sono e indo dormir, por isso não anotei muita coisa) determina que, em caso de irregularidade ou apenas de suspeita de, o jogo, ou jogos, têm de ser refeitos na íntegra.
Acho que é por aí que o sistema Globo está se infiltrando.
Abs!

 
At Domingo, 2 de Outubro de 2005 13h18min00s BRT, Blogger Raphael said...

IVson, paranóias à parte, a anulação é a melhor, ou menos pior, medida. Um juiz que assume ter influenciado o andamento de partidas por má-fé não merece a menor credibilidade. Mesmo a partida Juventude 1 x 4 Figueirense, na qual ele teria que ajudar o time gaúcho, deve ser anulada porque as outras apitadas pelo Edílson com maior clareza de armação também precisam sê-lo. Haverá prejudicados? Sim. Cruzeiro que o diga. Haverá favorecidos? Sim. Os paulistanos devem estar reclamando de algum complô pró-Corinthians. Mas qualquer outra medida, por mais justa que parecesse, seria vantajosa para uns e prejudicial para outros. "Desviciar" as partidas disputadas é a melhor solução. Se o campeonato já tivesse encerrado, aí, sim, não haveria mais o que fazer.

Mesmo assim, compreendo que há problemas com a anulação. A decisão de abrir os portões pode ser catastrófica na realização de um São Paulo x Corinthians. E, se entendi direito, os jogadores que têm condições de atuar hoje poderão entrar em campo mesmo que estivessem suspensos na época dos jogos originais. Isso permitirá ao Figueirense enfrentar o Vasco com uma força maior do que aquela que entrou em campo no jogo que o Edílson apitou, quando o time de Santa Catarina estava muito desfalcado e perdeu.

No fim das contas, acho que a anulação dá mais lisura à competição.

 
At Domingo, 2 de Outubro de 2005 19h38min00s BRT, Blogger Ivson said...

Bem, então nada nas fitas pode ser considerado. Por que só as partes em que ele diz que não conseguiu mudar os resultados de três jogos são passíveis de dúvidas? Por que não o resto? Afinal, ele não sabia que estava sendo gravado e portanto estava falando livremente.
E, se seu raciocínio estivesse correto, ninguém poderia levar em consideração testemunhos de bandidos arrependidos ou que fizeram acordo para denunciar cúmplices. Não se poderia acreditar, por exemplo, em Dom Tomaso Buschetta, correto?

O que houve foi uma confluência de interesses entre as Organizações Globo - interessadas em manter as aparências de um campeonato que é o seu maior produto de exportação no esporte - e um dos ramos da máfia russa, que precisa ter o Curíntia campeão brasileiro para poder vender as estrelas da companhia em com bons lucros a fim de lavar o dinheiro obtido sabe Deus (e todo mundo) como foram obtidos.

Como dá vergonha de ser brasileiro...

 
At Domingo, 2 de Outubro de 2005 19h42min00s BRT, Blogger Ivson said...

Esta postagem foi removida pelo administrador do blog.

 
At Domingo, 2 de Outubro de 2005 19h44min00s BRT, Blogger Ivson said...

Ornal O Correio, se for assim qualquer jogo terá que ser jogado "ad infinitum". Hoje, por exemplo, no fim de Inter x Flu, o árbitro Héber Roberto Lopes deu um cartão amarelo para Petkovic por ele ter chutado a bola para longe. Mereceu? Talvez. Só que durante o jogo inteiro, jogadores de ambos os times fizeram o mesmo e não foram advertidos. Pet foi. Onde a suspieta? É que ele tinha dois cartões amarelos e não joga a próxima partida. Contra queme será? Contra o Corinthians, time sustentado pela mágfia russa e que - certamente por "coincidência" - foi o maior beneficiado com a virada de mesa montada pela Rede Globo.

 
At Segunda-feira, 3 de Outubro de 2005 23h27min00s BRT, Blogger Ivson said...

Adendo: além de Pet, Héber Lopes deu mais quatro cartões amarelos a jogadores do Fluminense. Três dos quatro punidos também estavam com dois cartões amarelos. Ou seja, dos cinco cartões dados aos tricolores, quatro tiraram jogadores da partida contra o Corinthians. Quem quiser que acredite em coincidência.

 

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