A atualidade dos velhinhos de Frankfurt
A edição da matéria de capa do caderno de Economia do Globo de hoje demonstra como os velhinhos da Escola de Frankfurt são mais tuais hoje do que na época em que pensaram suas teses. Como você deve saber se prestou atenção às aulas na faculdade (eu não prestei, tive que aprender bem depois), Horkheimer e Adorno diziam que a mídia - aí incluído o jornalismo - fazia parte intrínseca (do DNA diríamos hoje) do capitalismo e que era um dos seus pilares por fazerem com que os supostamente livres cidadãos "se decidissem" a manter, até com armas na mão, um sistema que explora a quase totalidade da população - inclusive aqueles que o defendem - em benefício de uma minoria.
A matéria do Globo repercute a de ontem, na qual o Bird afirma que o governo deveria investir mais em infra-estrutura. O título é Na contramão da receita, com um subtítulo que diz Bird recomenda mas governo investe pouco na infra-estrutura. Especialistas criticam.
Primeiro comentário. O Banco Mundial existe, precipuamente, para arrumar negócios para as empresas norte-americanas em países pobres. Cumpre sua tarefa fazendo recomendações para que se invistam em obras que, direta ou indiretamente, venham a beneficiar o país que o mantém financeiramente, e forçando os países a cumprirem suas recomendações em troca de dinheiro (uma idéia de como funciona o esquema você pode ver aqui). Assim, recomendação do Bird é, antes de tudo, lobby para ajudar empresas dos EUA. Nada contra essa atitude. O Bird faz o seu trabalho. Não faz o mesmo é o governo que toma decisões estratégicas baseados nos palpites do banco.
Segundo comentário. Que especialistas criticam? Raul Velloso é citado logo de cara, óbvio. Ele é um dos "arroz de festa" das páginas de economia, além de pertencer ao Instituto Futuro Brasil, "think tank" (entidades privadas que formulam propostas supostamente apolíticas, mas sempre direcionadas para seus patrocinadores), cujo Conselho Técnico conta com figuras carimbadas da Era FHC, como André Lara Rezende e José Roberto Mendonça de Barros. Outro especialista ouvido é Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura, que, apesar do nome, é especializada em energia, até porque tem como sua eminência parda David Zylbersztajn, presidente da Agência Nacional de Petróleo até que se separou da mulher, filha do cara que ocupou o Palácio do Planalto de 1º de janeiro de 1995 a 31 de dezembro de 2002 (o que, aliás, jamais foi chamado de nepotismo pela imprensa).
Justiça seja feita, o outro lado foi ouvido. José Graziano, assessor da Presidência, teve espaço para defender o Bolsa-Família, e Marcelo Néri, especialsta da FGV em estudo da pobreza e entusiasta do programa, também falou. Só que - e aí entra a malícia da edição -, o intertítulo que remete às palavras de Néri fala apenas que ele diz que "água e esgoto" reduzem a pobreza. Ele realmente diz isso. O que não é dito é que quem cuida de água e esgoto são estados e municípios, por meio de empresas. O governo federal pode apenas financiá-las, desde que elas não estejam devendo à União - uma regra editada na época do governo FHC. Desde então se discute que a para o impasse, mas com apenas uma proposta na mesa: a privatização do sistema de água e esgoto. Essa saída segue a recomendação de quem?...Ah, moleque!...Isso! Do Bird!
Assim a a matéria do Globo - reforçada por um artiguete cabuloso ao lado - foi editada de maneira a fazer com que o pobre do leitor pense que é mesmo melhor para o país investir em obras em vez de tirar as pessoas da pobreza o mais rápido possível. Ou seja, que é mais jogo botar dinheiro nas mãos de quem já tem muito e não nas de quem tem pouco ou nada.
Naquela Grande Academia lá do Céu, Horkheimer e Adorno devem estar tomando uma steinhaeger comemorando o acerto de suas análises.

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