5.7.05

O dragão da moralidade


DANIEL AARÃO REIS
Publicado no Globo em 05/07/2005

   Os mais velhos recordam quando o bicho atacou pela primeira vez: foi em 1954. Chafurdando em mares de lama, suicidaram o velho no Catete, não porque houvera sido tirano, muito pelo contrário, mas por estar lidando com demandas sociais de um modo que já não agradava mais. Vargas se matou com um tiro no peito. Ponto para o dragão.

   No segundo ataque, em 1960, o bicho veio na forma de um líder histriônico, com uma vassoura na mão. As maiorias, como os ratos da lenda, seguiram aquele flautista quase até o abismo. O pesadelo não chegou a durar oito meses.

   O bicho voltou à carga em 1964. Em baforadas quentes, veio defender o país da podridão da corrupção e salvar a democracia. Não houve São Jorge que o detivesse. Empolgou novamente as multidões e venceu, impondo um reinado longo, onde se misturaram prosperidade material, desigualdades escabrosas, medo e tortura. A sociedade custou a se livrar dele, mas, afinal, conseguiu. O dragão saiu com o rabo entre as pernas.

   Retornou em 1989, com a velha cantilena: limpar o país da sujeira da corrupção. Travestira-se então num caçador de marajás, esbelto, branco, limpo, enérgico. Os olhos vidrados o traíam, mas a maioria preferiu acreditar nas promessas mágicas que fluíam daquelas ventas feridas pela quentura do fogo que passava normalmente por ali. Prometia a limpeza, em vez da sujeira, o branco, ao negro, a salvação, à perdição. A pátria, enfim, redimida e imaculada como as botas lustrosas dos nazistas.

   Venceu uma vez mais o dragão, conduzindo as pessoas, convertidas em rãs, ansiosas por um rei másculo, forte, salvador.

   Foi um desastre. Mais uma vez. O mágico fora uma fraude. O dragão saiu corrido pela porta dos fundos, só escapou da cadeia graças a bons advogados e a um deficiente sistema jurídico.

   Agora, o dragão reapareceu novamente. Para escarmento da sociedade, não se metamorfoseou desta vez em nenhum príncipe. Preferiu vestir a pele do sapo. De um sapo escroque. Que não nega as falcatruas cometidas, ao contrário, afirma-as, e as mostra com vaidade suicida, comprometendo a todos. E urra: sou horrendo, mas todos o são também, da mesma forma que eu.

   Em torno dele reúnem-se senhoras e senhores honrados e de bom senso. E ponderam as denúncias e as informações, revirando-as pelo avesso, concordando com elas, incensando o escroque, tratando-o por excelência, incentivando-o, tentando instrumentalizá-lo. Reúnem-se ali as cores mais diversas, um verdadeiro congresso de fariseus: a extrema-esquerda se faz representar por nossa St. Just de calça jeans, sempre com a blusa branca, a cor da limpeza e da reação, a todos ameaçando com o fogo purificador de sua ira. A direita autoritária vem com os líderes tradicionais, habituados aos jogos em que podem tudo perder, menos os interesses e os privilégios. E ainda há personagens que se querem novos, instauradores de sinistros marcos zeros. E discursam mergulhados até o pescoço no charco: estamos todos mesmo muito sujos, menos eu, é claro, diz cada um quando fala.

   As gentes assistem medusadas ao espetáculo. E vão tomando gosto pelo circo da grande caçada aos corruptos, que transbordam pelos bueiros e poros da pobre sociedade.

   A freqüência com que o dragão reaparece é um atestado de força histórica e social. A rigor, Lacerda, Jânio, Collor e Jefferson não passam de ventríloquos, respeitada a eficácia de seus papéis, em cada momento. Ganharam e ainda ganham notoriedade porque exprimem sentimentos que vicejam nas águas profundas da sociedade: o ressentimento, a inveja, o nivelamento por baixo, o conservadorismo, a ânsia por salvadores da pátria que venham tudo ordenar e redimir. As esquerdas brasileiras, desde os anos 80, incentivaram estas tendências, às vezes por convicção, outras, por puro oportunismo. Não sem razão, líderes petistas, e o próprio Lula, foram chamados de udenistas de tamanco. Hoje pagam o preço por terem trilhado um caminho conservador.

   Mas o dragão, como evidencia a História, também já foi vencido. Porque na sociedade há forças que não engolem o falso moralismo, as puras vestais, os fariseus imaculados, não pretendem cortar nós com a espada, nem matar a inflação com um tiro. E desconfiam de pessoas hipócritas e solenes, sem jaça e sem mácula. As pessoas hesitam.

   Se o dragão vencer, não haverá escapatória. Melhor hipótese: todos comerão uma grande pizza, servida acompanhada de meia dúzia de cabeças ilustres. E ficará na boca um sentimento amargo de frustração, o caldo de cultura que o dragão aprecia, sinal certo de que voltará. Pior hipótese: cairemos sob o domínio de algum salvador da pátria, acompanhado ou não da Força Armada, esta impoluta e virtuosa instituição que já nos brindou com a tortura como política de Estado duas vezes em menos de cinqüenta anos.

   A alternativa é menos espetáculo, mais justiça e democracia: um regime miserável, impuro, tortuoso e instável como a liberdade, sem atalhos, de construção lenta, difícil e contraditória.

DANIEL AARÃO REIS é professor de história contemporânea da Universidade Federal Fluminense.