30.6.05

A revanche

   O que vai abaixo saiu hoje (30/06/2005) na página 4 do Globo:

      O pior do BrasilA PRAGA do patrimonialismo é tão forte na política brasileira que mesmo o PT tem misturado o dinheiro público com interesses privados.

      ESSA DOENÇA nacional chega a inverter a visão ideológica da militância petista. Assim não fosse, o ministro Luiz Gushiken não teria patrocinado a injustificável por qualquer razão técnica veiculação de publicidade de estatais em revistas do cunhado.

      ACONTECEU O seguinte: alguém oriundo de um partido construído com base em forte discurso estatizante chegou ao poder e privatizou o dinheiro público, do contribuinte, a favor de um parente.


   O artiguete joga um pouco de luz sobre o que realmente anda por trás do comportamento da imprensa diante da atual Administração desde meados de 2003. Foi nessa época que a Secom, administrada com mão de ferro pelo China, definiu que os veícculos regionais e setoriais iriam receber uma parte maior da verba de publicidade institucional oficial, tirando uma fatia considerável da grande mídia.

   Essa decisão motivou várias matérias com críticas em veículos especializados, como a Meio&Mensagem, e até uma romaria dos barões das Cinco Famílias que dominam a mídia no país (Marinho, Mesquita, Frias, Civita e Sirotsky) ao Nove-Dedos (na época, divulgouse com mais alarde que fora para pedir aquela ajudinha da Viúva, via BNDES, para tirar as empresas do buraco financeiro que estavam metidas. A questão do patrocínio foi mencionada apenas de leve nos principais jornais, quando o foi).

   Os barões argumentavam (e ainda argumentam) que a verba deveria continuar a ser distribuída por critérios técnicos. Quer dizer: quem tem maior audiência/circulação leva mais grana. É um bom critério, mas para firmas de varejo como as Casas Bahia, cujo negócio necessita de escala e por isso a publicidade precisa atingir um público gigantesco. Nem todos os negócios/serviços são assim. No mais das vezes, o importante éfalar com um público muito menor, mas que seja o principal interessado naquele negócio/serviço. Assim, para atingir seu nicho, uma campanha do Banco Popular do Brasil deve privilegiar pequenos jornais do interior, que élido, e levado em conta, pelo Zé do Armazém, de Pirapora do Brejo.

   Baseado nessa doutrina - aliás, um beabá das Relações Públicas num mundo cada vez mais fragmentado - Gushiken, manteve-se firme na sua política (como, ébom lembrar, o doutor Carlos Lessa se manteve na dele de não emprestar a nossa grana a juros de mãe-para-filho aos barões) e com isso atraiu o ódio eterno das Cinco Famílias. Agora está sofrendo a revanche.