Como Felt virou o ‘Garganta Profunda’
Publicado no Globo em 03/06/2005
Bob Woodward
Do Washington Post
WASHINGTON - Em 1970, quando eu servia como tenente na Marinha dos EUA e me reportava ao almirante Thomas H. Moorer, chefe de operações navais, algumas vezes agia como emissário, levando documentos à Casa Branca.
Certa noite, eu fora despachado com um pacote para o nível menor da Ala Oeste da Casa Branca, onde havia uma pequena área de espera perto da Situation Room (de onde o governo monitora crises mundiais). Poderia ser uma longa espera até que a pessoa certa saísse e assinasse pelo recebimento do material, às vezes uma hora ou mais. E depois de esperar um tempo, um homem alto de cabelo grisalho cuidadosamente penteado veio e se sentou perto de mim. Seu terno era escuro, a camisa branca e a gravata discreta. Era provavelmente de 25 a 30 anos mais velho do que eu e carregava o que parecia ser uma pasta de arquivos ou documentos. Parecia muito distinto e tinha um ar de confiança estudado, a postura e a calma de alguém acostumado a dar ordens e tê-las cumpridas imediatamente.
Eu poderia dizer que ele estava assistindo à situação muito cuidadosamente. Nada havia de predominante em sua atenção, mas seus olhos se mexiam, num tipo de vigilância sutil. Depois de alguns minutos, eu me apresentei:
— Tenente Woodward — disse, cuidadosamente acrescentando um diferencial “senhor”.
— Mark Felt — ele disse.
Comecei a lhe contar sobre mim, que aquele era meu último ano na Marinha e que trazia documentos do escritório do almirante Moorer. Felt não tinha pressa alguma para explicar qualquer coisa sobre ele próprio ou por que estava ali.
Aquele foi um período de minha vida de considerável ansiedade, e até mesmo consternação, em relação ao futuro. Eu me formara em 1965 em Yale, onde tive uma bolsa da Unidade de Treinamento de Oficiais da Reserva Naval que exigia que eu ingressasse na Marinha depois de me formar. Depois de quatro anos de serviço, eu ganhara involuntariamente um ano adicional devido à Guerra no Vietnã.
Durante aquele ano em Washington, gastei muita energia tentando encontrar coisas ou pessoas interessantes. Tinha um colega de faculdade que iria trabalhar como secretário do juiz Warren E. Burger, presidente da Suprema Corte, e me esforcei para ficar amigo dele. Para vencer minha angústia e meu sentimento de falta de direção, fazia cursos de graduação na Universidade George Washington. Um dos cursos era sobre Shakespeare e outro sobre relações internacionais.
Quando mencionei a graduação, Felt se animou imediatamente, dizendo que ele estudara direito à noite na GW nos anos 30, antes de entrar — e foi a primeira vez que mencionou aquilo — para o FBI. Enquanto estava na escola de direito, disse, trabalhara em tempo integral para um senador de Idaho. Eu disse que andara fazendo algum trabalho voluntário no escritório de meu congressista, John Erlenborn, um republicano do distrito de Wheaton, Illinois, onde eu crescera.
Portanto tínhamos duas conexões — graduação na GW e trabalho com deputados eleitos por estados natais.
Felt e eu éramos como dois passageiros sentados perto um do outro num longo vôo, sem lugar para ir e nada realmente a fazer a não ser nos resignarmos a matar o tempo. Ele não mostrou interesse algum em iniciar uma longa conversa, mas minha intenção era esta. Finalmente extraí dele a informação de que era um diretor-assistente do FBI encarregado da divisão de inspeção, um cargo importante sob a direção de J. Edgar Hoover. Aquilo significava que ele liderava equipes de agentes que circulavam em escritórios do FBI para assegurar que eles estavam cumprindo procedimentos, e ordens de Hoover.
Ali estava alguém no centro do mundo secreto e eu estava apenas cumprindo minha missão na Marinha, então eu o cutuquei com perguntas sobre seu trabalho e seu mundo. Quando eu lembro daquele encontro acidental, mas crucial — um dos mais importantes de minha vida — vejo que minha tagarelice era provavelmente de adolescente. Como ele não dizia muito sobre ele, tornei aquilo uma sessão de aconselhamento sobre carreira.
Eu era respeitador, mas devo ter parecido muito carente. Ele era amigável, e seu interesse em mim parecia meio paternal. Mas a impressão mais viva que tenho é de seu modo distante e formal, em grande parte um produto do FBI de Hoover. Pedi a Felt seu número de telefone, ele me deu o da linha direta para seu escritório.
Acho que o encontrei apenas uma outra vez na Casa Branca. Mas havia ficado o gancho. Ele seria uma das pessoas que eu consultaria profundamente sobre meu futuro, que se tornava mais preocupante com a aproximação da data de minha dispensa na Marinha. Em determinado ponto o procurei, primeiramente no FBI e depois em sua casa na Virgínia. Eu estava um pouco desesperado, e tenho certeza de que abri meu coração. Havia me inscrito em várias escolas de direito, mas, aos 27 anos, pensava se poderia realmente passar três anos numa escola de direito antes de começar a trabalhar de verdade.
Felt parecia simpático às perguntas de uma alma perdida. Disse que depois de se formar em direito seu primeiro trabalho fora com a Comissão Federal de Comércio. Sua primeira missão fora determinar se o papel higiênico da marca Cruz Vermelha estava em injusta vantagem na competição do mercado porque as pessoas achavam que era endossado ou aprovado pela Cruz Vermelha Americana. A Comissão era uma burocracia federal clássica — lenta e pesada — e ele a odiava. Em um ano, se inscrevera no FBI e fora aceito. Escolas de direito abriam muitas portas, ele parecia dizer, mas não seja apanhado por um equivalente à investigação sobre papel higiênico.
Em agosto de 1970, fui dispensado da Marinha. Eu me inscrevera no “Washington Post”, que, sabia, era dirigido por um editor vibrante e exigente chamado Ben Bradlee. Ali estava uma tenaz e incisiva cobertura jornalística de que eu gostava; parecia adequada àqueles tempos; adequada à percepção geral de onde o mundo estava, e muito mais do que uma escola de direito. Talvez reportagem fosse algo que eu pudesse fazer.
Durante minha luta e procura por um futuro, enviara uma carta ao “Post” pedindo um emprego de repórter. De alguma maneira — não me lembro exatamente como — Harry Rosenfeld, o editor de cidade, concordou em me ver. Ele me fitou através de seus óculos, meio confuso. Por que, imaginou, eu queria ser um repórter? Minha experiência era zero — zero! Por que, ele perguntou, o “Washington Post” contrataria alguém sem qualquer experiência? É loucura demais, disse Rosenfeld finalmente, que façamos essa tentativa. Mas faremos com você um teste de duas semanas.
Depois de duas semanas, eu havia escrito talvez umas doze reportagens ou fragmentos de reportagem. Nenhuma fora publicada, ou chegara perto disso. Nenhuma sequer fora editada.
“Está vendo, você não sabe fazer isso”, disse Rosenfeld, dando a meu treinamento um final misericordioso. Mas deixei a redação mais cativado do que nunca. Embora eu tivesse fracassado no treinamento — foi uma desastre espetacular — percebi que encontrara algo que amava. O senso de urgência no jornal era impressionante para mim, e consegui um emprego no “Montgomery Sentinel”, no qual Rosenfeld disse que eu poderia aprender a ser um repórter. Disse a meu pai que a escola de direito estava descartada e que eu estava me empregando, a US$ 115 por semana, como repórter de um jornal em Maryland.
— Você está louco — disse meu pai, num dos raros julgamentos que ele fez de mim na vida.
Também telefonei para Mark Felt, que, gentilmente, indicou que também achava aquilo uma loucura. Disse que achava jornais superficiais e rápidos demais. Jornais não se aprofundavam e raramente chegavam ao fundo dos acontecimentos.
Bem, disse, eu estava animado. Talvez ele pudesse me ajudar com reportagens.
Ele não respondeu, lembro-me.
Durante o ano que passei no “Sentinel”, mantive contato com Felt telefonando para seu escritório e sua casa. Estávamos nos tornando amigos de alguma maneira. Ele era o mentor, mantendo-me afastado de investigações sobre papel higiênico, e eu continuei pedindo conselhos. Num fim de semana, dirigi até sua casa na Virgínia e conheci sua mulher, Audrey.
Para meu espanto, Felt era um admirador de J. Edgar Hoover. Apreciava sua organização e o modo como dirigia a agência com procedimentos rígidos e mão-de-ferro. Felt disse admirar que Hoover chegasse ao escritório às 6h30m toda manhã e que todos sabiam o que os esperava. A Casa Branca de Nixon era outro assunto, disse. As pressões políticas eram imensas, afirmou sem ser específico. Acho que ele a chamou de corrupta e sinistra. Hoover, Felt e a velha guarda eram o muro que protegia o FBI, disse.
Em suas memórias, “A pirâmide FBI: do lado de dentro” — que quase não receberam atenção quando foram publicadas em 1979, cinco anos depois da renúncia de Nixon — Felt irritadamente chamou isto de “intriga Casa Branca-Departamento de Justiça”.
Na época pré-Watergate, havia pouco ou nenhum conhecimento sobre a vasta, forte e clara animosidade entre a Casa Branca de Nixon e o FBI de Hoover. Mais tarde, as investigações de Watergate revelaram que, em 1970, um jovem assessor da Casa Branca chamado Tom Charles Huston havia aparecido com um plano para autorizar a CIA, o FBI e unidades da inteligência militar a intensificar a escuta eletrônica de “ameaças à segurança interna”, autorizar a abertura ilegal de cartas e suspender restrições a entradas clandestinas ou arrombamentos para obter informações.
Há pouca dúvida de que Felt achou que a equipe de Nixon era nazista. Naquele período, ele teve que interromper esforços de outros na agência para “identificar cada membro de cada comunidade hippie” na área de Los Angeles, por exemplo, ou para abrir um arquivo sobre cada membro do grupo Estudantes por uma Sociedade Democrática.
Nada disso veio à tona diretamente em nossas discussões, mas claramente ele era um homem sob pressão, e a ameaça à integridade e independência da agência era real e parecia em primeiro lugar em sua mente.
Em 1 de julho de 1971 — um ano antes da morte de Hoover e da invasão do Watergate — Hoover promoveu Felt a número três do FBI. Embora Clyde Tolson, próximo de Hoover, fosse tecnicamente o número dois, Tolson estava doente e faltou ao trabalho muitos dias, o que significava que não tinha qualquer controle operacional sobre a agência. Assim, meu amigo se tornou no dia-a-dia o gerente de todos os assuntos do FBI enquanto mantinha Hoover e Tolson informados, ou buscava aprovação de Hoover para assuntos políticos.
Em agosto, um ano depois de meu fracassado treinamento, Rosenfeld decidiu me contratar. Comecei no “Post” no mês seguinte. Embora estivesse ocupado em meu trabalho, mantive Felt na minha agenda telefônica e checava informações com ele. Ele se sentia relativamente livre comigo, mas insistia que ele, o FBI e o Departamento de Justiça ficassem fora de tudo que eu pudesse usar indiretamente ou passar para outros.
Ele era severo e rígido em relação àquelas regras com uma voz estrondosa e insistente. Prometi — e ele disse que era essencial — ser cuidadoso. A única maneira de assegurar isso era não dizer a ninguém que nos conhecíamos ou nos falávamos ou que eu conhecia alguém no FBI ou no Departamento de Justiça. A ninguém.
Por volta de 9h45m de 2 de maio de 1972, Felt estava em seu escritório no FBI quando um diretor-assistente entrou para relatar que Hoover morrera em casa. Felt ficou chocado. Por motivos práticos, ele era o próximo da linha a assumir a agência.
Mas Felt logo teria um imenso desapontamento. Nixon nomeou L. Patrick Gray III diretor. Gray era leal a Nixon há anos. Renunciara à Marinha em 1960 para trabalhar para o candidato Nixon durante a disputa presidencial em que Nixon perdeu para John F. Kennedy.
Eu poderia dizer que Felt fora esmagado, mas ele mostrou uma cara boa. “Se eu tivesse sido mais sábio, teria me aposentado”, escreveu.
Em 15 de maio, menos de duas semanas depois da morte de Hoover, um pistoleiro sozinho atirou no governador do Alabama, George C. Wallace, candidato a presidente, num shopping center. Os ferimentos foram sérios, mas Wallace sobreviveu.
Wallace tinha um forte eleitorado no Sul, que era uma fonte crescente de apoio a Nixon. A candidatura intrujona de Wallace quatro anos antes, em 1968, poderia ter custado a Nixon a eleição naquele ano, e Nixon monitorava de perto cada movimento de Wallace durante a disputa presidencial de 1972.
Naquela noite, Nixon telefonou para Felt, e não para Gray, que estava fora da cidade — em casa, para se atualizar. Era a primeira vez que Felt falava diretamente com Nixon. Felt relatou que Arthur H. Bremer, que seria o assassino, estava sob custódia, mas num hospital, porque havia sido tratado com dureza e sofrera algumas contusões ao ser detido depois de atirar em Wallace.
— Bem, é pena que não tenham realmente espancado aquele filho da p... — disse Nixon a Felt.
Felt ficou ofendido com a observação do presidente. Nixon estava tão agitado e preocupado, tratando com tanta urgência o atentado, que disse que queria de Felt atualizações a cada 30 minutos com qualquer informação nova que fosse descoberta na investigação sobre Bremer.
Nos dias que se seguiram, telefonei para Felt várias vezes e ele muito cuidadosamente me deu orientações enquanto tentávamos descobrir mais sobre Bremer. Descobriu-se que ele havia espreitado outros candidatos, e fui a Nova York seguir o rastro. Isto levou a várias notícias de primeira página sobre as viagens de Bremer, montando um retrato de um louco que não selecionara Wallace, mas procurava qualquer candidato a presidente para atirar. Em 18 de maio, fiz uma reportagem de primeira página que dizia, entre outras coisas, “altos funcionários federais que têm analisado relatos investigativos sobre o atentado contra Wallace disseram ontem que não há provas de que Bremer era um matador contratado.”
Foi insolente de minha parte. Embora tecnicamente eu protegesse minha fonte e falasse com outras além de Felt, não fiz o bom trabalho de esconder o lugar de onde a informação vinha. Felt me castigou suavemente. Mas a notícia de que Bremer agiu sozinho e sem cúmplices era uma notícia que tanto a Casa Branca como o FBI não queriam.
Um mês depois, num sábado, 17 de junho, o supervisor noturno do FBI telefonou para a casa de Felt. Cinco homens de terno, bolsos cheios de notas de US$ 100 e carregando equipamentos de escuta e de fotografia haviam sido presos dentro da sede nacional dos democratas, no edifício Watergate, por volta de 2h30m.
Às 8h30m, Felt estava em seu escritório no FBI, buscando mais detalhes. Mais ou menos à mesma hora, o editor de cidade do “Post” me acordou em casa e me pediu que cobrisse um arrombamento pouco comum.
O primeiro parágrafo da notícia de primeira página que saiu no dia seguinte no “Post” dizia: “Cinco homens, um deles dizendo-se ex-funcionário da Agência Central de Inteligência, foram presos às 2h30m de ontem no que autoridades descreveram como um golpe elaborado para espionar os escritórios do Comitê Nacional Democrata aqui.”
No dia seguinte, Carl Bernstein e eu escrevemos nossa primeira reportagem juntos, identificando um dos arrombadores, James W. McCord Jr., como o assalariado coordenador de segurança do comitê de reeleição de Nixon. Segunda-feira, fui investigar E. Howard Hunt, cujo número de telefone fora encontrado na agenda de dois dos arrombadores junto a pequenas anotações: “Casa Branca” e “C.B.”
Aquele era o momento em que uma fonte ou um amigo nas agências de investigação do governo seria de valor inestimável. Telefonei para Felt no FBI, alcançando-o por meio de sua secretária. Seria nossa primeira conversa sobre Watergate. Ele me lembrou que não gostava de telefonemas para seu escritório, mas disse que o caso do arrombamento do Watergate esquentaria por motivos que não podia explicar. Em seguida desligou abruptamente.
Em julho, Carl foi a Miami, onde viviam quatro dos arrombadores, no rastro do dinheiro. E engenhosamente seguiu a pista de um promotor local e seu investigar-chefe, que tinham cópias de cheques mexicanos no valor de US$ 89 mil e de um cheque de US$ 25 mil que fora para a conta de Bernard L. Barker, um dos arrombadores. Conseguimos verificar que o cheque de US$ 25 mil era de dinheiro de campanha que fora dado a Maurice H. Stans, chefe da arrecadação de fundos de Nixon, num curso de golfe na Flórida. A notícia de 1 de agosto sobre isto foi a primeira a ligar diretamente dinheiro da campanha de Nixon a Watergate.
Tentei telefonar para Felt, mas ele não atendeu. Tentei sua casa na Virgínia e não tive melhor sorte. Então, certa noite, apareci em sua casa em Fairfax. Era uma casa de subúrbio perfeitamente arrumada, tudo no lugar. Seu jeito me deixou nervoso. Ele disse: nada de telefonemas, nada de visitas em casa, nada em aberto.
Eu não sabia então que nos primeiros dias de Felt no FBI, durante a Segunda Guerra Mundial, ele fora designado para trabalhar no escritório geral da Seção de Espionagem. Felt aprendeu bastante sobre espionagem alemã em seu trabalho, e depois da guerra passou algum tempo mantendo suspeitos de serem agentes soviéticos sob vigilância.
Portanto, em sua casa na Virgínia naquele verão, Felt sentiu que se fôssemos conversar, deveria ser face a face e onde ninguém pudesse nos observar. Eu disse que para mim qualquer coisa estava bem. Precisaríamos de um sistema planejado de notificação — uma mudança no ambiente que ninguém mais notaria ou que não relacionaria a algum significado. Eu não sabia sobre o que ele estava falando.
Se você mantém as cortinas de seu apartamento fechadas, abra-as e isto pode ser um sinal para mim, ele disse. Ele poderia checar a cada dia, e se elas estivessem abertas, poderíamos nos encontrar à noite num lugar determinado. Eu gostava de deixar a luz acesa às vezes, expliquei. Precisamos de outros sinais, ele disse, indicando que poderia checar meu apartamento regularmente. Nunca explicou como faria isso.
Sentindo-me sob alguma pressão, disse que tinha uma bandeira de pano vermelha — do tipo usada em advertências sobre cargas de caminhões — que uma namorada encontrara na rua. Ela a pusera num vaso de flores vazio na varanda de meu apartamento. Felt e eu combinamos que eu moveria o vaso com a bandeira, que normalmente ficava na parte de trás da varanda, se precisasse urgentemente de um encontro. Isto teria que ser em ocasiões importantes e raramente, afirmou severamente. O sinal, disse, indicaria que nos encontraríamos na mesma noite por volta de 2h, no andar de baixo de um estacionamento numa garagem perto da Ponte Key, em Rosslyn.
Felt disse que eu teria que seguir estritamente as técnicas de vigilância. Como saía do meu apartamento?
Caminhava para o lado de fora, até o hall, e tomava o elevador.
E assim você chega ao saguão?, perguntou ele.
Sim.
Há escadas na parte de trás do meu prédio?
Sim.
Use-as quando você for ter um encontro.
Sim.
Siga por uma viela. Não use seu carro. Tome um táxi até algumas quadras antes do hotel onde ficam alguns táxis depois da meia-noite, saia dele e então caminhe para tomar outro táxi até Rossyln. Não saia do táxi diretamente para o estacionamento. Caminhe pelo menos algumas quadras. Se você estiver sendo seguido, não vá para o estacionamento. Compreenderei se você não aparecer. Tudo isso foi uma palestra. A chave é levar o tempo que for necessário — uma ou duas horas para chegar lá. Seja paciente, sereno. Confie no que for combinado. Não há outro lugar ou outra hora para encontros de emergência. Se nenhum de nós aparecer, não haverá encontro.
Felt disse que se tivesse algo para mim, ele me enviaria uma mensagem. Ele me inquiriu sobre minha rotina diária, o que chegava ao meu apartamento, a caixa de correio etc. O “Post” era entregue à minha porta e eu tinha uma assinatura do “New York Times”. Várias pessoas no meu prédio, perto de Dupont Circle, também recebiam o “Times”. Os exemplares eram deixados no saguão com o número do apartamento. O meu era 617, e era escrito claramente a caneta. Felt disse que se houvesse algo importante, ele poderia usar meu “New York Times”. A página 20 estaria marcada e ele desenharia os ponteiros de um relógio na parte inferior da página para indicar a hora do encontro naquela noite, provavelmente às 2h, na mesma garagem de Rosslyn.
O relacionamento era baseado na confiança; nada deveria ser discutido ou compartilhado com qualquer outra pessoa, ele disse.
De onde ele observava diariamente minha varanda ainda é um mistério para mim. Na época, antes da era da segurança total, os fundos do prédio não eram cercados, então qualquer um podia ficar na viela de trás observando minha varanda. Além disso, a varanda e a parte de trás do prédio davam para uma área compartilhada com vários outros edifícios residenciais e de escritórios. Minha varanda podia ser vista de dezenas de apartamentos.
Várias embaixadas eram localizadas na área. A iraquiana era na mesma rua, e eu achava possível que o FBI tivesse postos de escuta ou vigilância na vizinhança. Será que Felt fez com que agentes de contra-inteligência o mantivessem informado sobre a posição de meu vaso com a bandeira? Isso me parece improvável, se não impossível.
Ao longo dessa e de outras discussões, fiquei meio na defensiva por estar chateando-o, mas expliquei que não tínhamos a quem recorrer. Carl e eu havíamos obtido uma lista de todos os que haviam trabalhado no comitê para a reeleição de Nixon, e com freqüência saíamos à noite batendo às portas dessas pessoas para tentar entrevistá-las. Expliquei a Felt que na maioria das vezes batiam a porta na nossa cara. Também havia um monte de olhares assustados. Eu estava frustrado.
Felt disse que eu não devia me preocupar por estar atrás dele. Ele já tinha sido agente de rua, entrevistando pessoas. O FBI, como a imprensa, tinha de contar com cooperação voluntária. A maioria das pessoas queria ajudar o FBI, mas o FBI sabia bem o que era rejeição. Talvez Felt tolerasse minha abordagem insistente porque tivesse sido como eu quando jovem. Uma vez abriu caminho até conseguir uma entrevista com Hoover para lhe contar sobre sua ambição de se tornar agente especial para trabalho de campo do FBI. Era uma mensagem incomum, incentivando-me enfaticamente a procurá-lo.
Com uma história tão sedutora, complexa, competitiva e explosiva como Watergate, havia pouca tendência ou pouco tempo para considerar os motivos de nossas fontes. O importante era confirmar as informações. Nadávamos em corredeiras muito rápidas. Não havia tempo para perguntar por que estavam falando ou se tinham questões a resolver.
Eu estava agradecido por qualquer pedacinho de informação, confirmação ou ajuda que Felt me desse enquanto Carl e eu estávamos tentando entender o monstro de muitas cabeças de Watergate. Devido a sua posição virtualmente no topo da agência investigativa, suas palavras, sua ajuda e sua orientação tinham autoridade incomensurável. O peso, a autenticidade e seu comedimento eram mais importante que seus desígnios, se é que tinha um.
Foi somente mais tarde, depois que Nixon renunciou, que comecei a me perguntar por que Felt falara quando isto implicava um risco considerável para ele e o FBI. Se tivesse sido desmascarado antes, não teria sido um herói. Tecnicamente, era ilegal falar sobre informação relativa a grandes júris ou arquivos do FBI — ou poderia ter sido feita parecer ilegal.
Felt acreditava estar protegendo a agência ao achar um jeito — clandestino que fosse — de levar ao público alguma informação sobre entrevistas e arquivos do FBI, para ajudar a aumentar a pressão e tornar Nixon e seu pessoal responsáveis. Só tinha desprezo pela Casa Branca de Nixon e pelos esforços deles para manipular a agência por motivos políticos. A jovem patrulha de filhotes zelosos da Casa Branca, cujo melhor exemplo era John W. Dean III, era odiosa para ele.
Sua reverência por Hoover e pelo estrito procedimento da agência tornou a indicação de Gray para diretor mais chocante. Felt obviamente concluiu que era o sucessor lógico de Hoover.
E o ex-caçador de espiões da Segunda Guerra Mundial gostava do jogo. Suspeito que em sua mente eu era seu agente. Ele pôs isso na minha cabeça: segredo a qualquer custo, nenhuma conversa frouxa, nenhuma conversa sobre ele, nenhuma indicação a qualquer pessoa de que tal fonte secreta existia.
Em nosso livro “Todos os homens do presidente”, Carl e eu descrevemos como havíamos especulado sobre o Garganta Profunda e sua abordagem fragmentada para fornecer informações. Talvez fosse para minimizar o risco. Ou porque uma ou duas grandes notícias — não importa quão devastadoras — poderiam ser enfraquecidas pela Casa Branca. Talvez fosse simplesmente para tornar o jogo mais interessante. Mais provavelmente, concluímos, o Garganta Profunda estava tentando proteger a agência, para efetuar uma mudança na conduta dela antes que tudo estivesse perdido.
Cada vez que eu levantava a questão para Felt ele me dava a mesma resposta:
— Tenho que fazer isso à minha maneira.
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BOB WOODWARD é editor-executivo-assistente do “Washington Post” e foi repórter no Caso Watergate

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