12.4.05

A Santa Madre contra a Meretriz da Babilônia

   Finalmente, depois de muitos dias, apareceu uma notícia digna do nome naquela Saturnália que ora acontece em Roma. A determinação do Colégio de Cardeais de que os “capa-púrpuras” permaneçam sem falar com a mídia durante o conclave que elegerá o novo Papa sinaliza que a Igreja finalmente resolveu fazer parte importante de seu trabalho que tem estado a negligenciar, qual seja combater a Meretriz da Babilônia.

   (De todas aquelas imagens fantásticas do Evangelho de São João – que não sei porque o George Lucas não filma. Seria Oscar certo em efeitos especiais – a mais clara é essa: a Meretriz poderosa, bela e corrupta, com um monte de adoradores-escravos mamando em suas muitas tetas fartas).

   Bom, voltando a Roma. O silêncio cardinalício é ato cheio de mensagens tranversas, como adora a Igreja. O mais evidente, e, portanto, o mais importante por ser entendido por mais gente, é que nos momentos que se vai fazer realmente algo importante – escolher Papa, casar, ter filho, dar atenção à família, sofrer com doenças próprias ou de entes queridos – o essencial é a interiorização que permite a reflexão que leva ao aprendizado e à melhoria espiritual por meio de um comparação entre o que é transitório e o que é eterno (ou se pretende como tal). Ou seja, exatamente o que mídia não quer que nós façamos em momento algum.

   Essa mensagem, que já seria forte por si, ganha ainda maior ressonância por vir junto com a escolha do substituto de um Pontífice denominado – adivinha por quem - como “o Papa da mídia”, que fez questão de fazer seu sofrimento um espetáculo midiático (daí porque ter achado grotesca, mas lógica aquela seqüência de fotos em que o JP2 aparece tentando falar para a multidão). A atitude – unânime, segundo se informa – dos cardeais de preservarem a sua tranqüilidade em busca de inspiração no momento de uma decisão essencial, se seguida pelos crentes, poderia ser um golpe no poder da mídia.

   É claro que seria um golpe apenas e talvez, diante da situação, não decisivo, mas as matérias mostram que a mídia acusou-o. O tom geral tem sido de que “o povo foi alijado da escolha do novo Papa”. Uma bobagem, claro, porque há uns doze séculos o povo não participa de escolha de papas, mas e daí? Quantas bobagens como essa os meios de comunicação não impingem a gente todos os dias?

   Outra variante de ataque à decisão do Colégio dos Cardeais é a que pode ser vista hoje na matéria que o Globo traduziu do El País. A idéia é dizer que o voto de silêncio é uma manobra dos conservadores (como se a mídia fosse progressista...) para alijar o povo da eleição do Papa. A matéria do El País, como manda a boa técnica, escolhe um alvo, no caso do Cardeal Ratzinger, insinuado como um semi-demônio sedento de poder – o que está longe de ser uma mentira, no máximo um exagero. O problema com essa versão é que por mais força que tenham os conservadores – força essa vitaminada pelo falecido Sumo Pontífice, uma ação política que a mídia faz questão de minimizar – eles não teriam poder suficiente para impô-la (como está na matéria do Globo) a todo o Conclave.

   Assim, pode ser – vai depender essencialmente do novo Papa e do que decidir o Conclave politicamente - que se esteja iniciando um sensacional combate opondo de um lado a Santa Madre, seus dois mil anos de experiência em enfrentamento/conciliação com os poderes e sua liderança moral – hoje bastante abalada - , e, de outro, a Meretriz da Babilônia, seu dinheiro, sua capilaridade e seu enorme – e a cada dia crescente - exército de zumbis.

   São João Evangelista deve estar se divertindo muito.