16.4.05

Manipulação racista

   A íntegra do artiguete publicado na página 10 do Globo de hoje:

      Perdão mais amplo


      TALVEZ INSPIRADO no mea-culpa de João Paulo II por causa das perseguições empreendidas pela Igreja no passado, Lula não se conteve ao visitar a Ilha de Gorée, entreposto de escravos no Senegal, e, em nome do Brasil, pediu perdão pela escravidão.

      O NOBRE gesto infelizmente não reflete a complexidade do ciclo escravocrata no mundo pré-século XIV, em que negros africanos eram capturados por outros negros e vendidos para as Américas.

      MESMO NO Brasil, houve negros senhores de escravos envolvidos nesse comércio odioso. O pedido de desculpas precisaria ser mais amplo e despido de racismo.


   O bacana no textículo é que ele usa a verdade a serviço da torpeza. Realmente havia, como sempre houve (e ainda há), escravidão no continente africano feito por negros contra negros. Mas há diferenças essenciais que fazem essa escravidão - pré-século XIV, como diz o texto - diferente daquela referida por Lula:

      1. O tráfico intra-africano era efeito de guerras e os escravos eram, em geral, trocados por resgates. Durante as negociações, eram escravos e podiam ficar assim para sempre, mas havia sempre a perspectiva de voltar para casa. Nem que fosse depois de uma outra guerra (havia muitas) ou mudança diplomática;
      2. O escravo que tivesse alguma habilidade era usado neste trabalho preferencialmente. O eito era uma obrigação muitas vezes, mas nada que se comparasse ao trabalho realmente escravo no Brasil, onde era o destino certo.
      3. O tráfico intra-africano de mais longo curso era ínfimo. Se o reino que capturasse os escravos tivesse relação com os árabes, os mais habilidosos ou belos poderiam ir parar na África do Norte ou mesmo na Europa. Mas isso não foi estatisticamente relevante durante séculos.

   Mas não foi a essa escravidão que Lula se referiu (e que é uma das fases do desenvolvimento das forças econômicas, como ensina Marx), e O Globo sabe muito bem disso, como demonstra ao se referir ao tráfico pré-século XIV. Ele pediu perdão pela escravidão havida depois que os portugueses chegaram às costa d'África. Com eles chegou o tráfico em ritmo capitalista, de escala. Depois de os barcos europeus aparecerem no horizonte, os reinos da região passaram a ir à guerra exclusivamente para praticar a escravidão. E venciam as guerras com facilidade, obtendo mais escravos, devido ao armamento superior fornecido pelos brancos. É por esse tipo de escravidão que o presidente brasileiro muito justamente pediu perdão.

   E é exatamente das características capitalistas, em série, racionais, da escravidão montada pelos brancos que O Globo quer desviar o olhar dos seus leitores, nem que, para isso, acabe por prestar um grande serviço à causa racista ao dizer que se os negros também fizeram escravos, o pedido de perdão de Lula não atinge o seu alvo.

   Se você não quiser ser levado no bico pelos editorialistas do Globo, recomendo a leitura dos livros de Alberto da Costa e Silva. A enxada e a lança e A manilha e o libambo são meio demais com suas mil páginas, mas Um rio chamado Atlântico e Francisco Félix de Souza, mercador de escravos dão uma visão das melhores sobre o assunto, inclusive sobre a questão de negros escravizando negros (especialmente o segundo). Técnico como os dois primeiros de Costa e Silva, mas muito menor é A África e os Africanos na formação do mundo atlântico , do americano John Thornton, que, claro, tende a enfocar o assunto sob a ótica de lá. Todos os do autor brasileiro saíram pela Nova Fronteira e o do americano pela Campus.

   Já sobre o comportamento moral dos editorialistas do Globo, recomendo Eichmann em Jerusalém, de Hannah Arendt (Cia. das Letras)