Jornalista é quem quer ser jornalista
Jacob Weisberg
Publicado em O Globo - 13/03/2005
No caso Valerie Plame, dois conhecidos repórteres foram condenados à prisão por se recusarem a revelar a identidade de uma fonte — ou mais de uma — que lhes deu o nome de Valerie, agente secreta da CIA. Advogados dos dois jornalistas — Matthew Cooper, da “Time”, e Judith Miller, do “New York Times” — estão pedindo a tribunais que reconheçam o direito dos repórteres de se recusar a testemunhar sobre sua coleta de informações. Empresas de mídia insistem na necessidade de uma lei federal de proteção que criaria um privilégio para jornalistas semelhante aos de advogados, médicos e padres.
A maioria dos países tem mecanismos legais de proteção à mídia. Mas há um grande problema com as leis de proteção a jornalistas, que advogados ainda precisam explicar. Como se decide quem é jornalista? Se é criado um privilégio que se aplica a um grupo, alguém tem que decidir quem pertence ou não a esse grupo. Isto não é muito difícil no caso de advogados e médicos, credenciados por organizações profissionais e licenciados pelo governo.
Mas, como repórteres gostam de lembrar uns aos outros, eles estão juntos em algo mais parecido com um negócio ou uma arte do que com uma profissão. O jornalismo não requer treinamento específico, ou certificado institucional, ou sociedade organizacional, ou mesmo emprego regular. É apenas uma atividade em que algumas pessoas se engajam protegidas pela Constituição.
Mesmo antes do advento dos blogs, a questão sobre quem é qualificado para exercer o jornalismo era traiçoeira. Os panfletários da Revolução Americana eram jornalistas? O que dizer de Mark Twain? E Oprah Winfrey? Com a proliferação de novos modos de comunicação online, decidir quem é ou não jornalista se tornou praticamente impossível. Graças à internet, barreiras que separavam autores amadores de profissionais foram substituídas por desvios e sinais verdes. Até uma década atrás, praticar jornalismo era uma proposição intrinsecamente cara, que requeria a capacidade de obter lucro, ou subsídios de um velhote rico. Hoje, um numero ilimitado de pessoas sem qualquer apoio institucional pode se estabelecer como repórter, analista ou comentarista, obedecer à lei que preferir, encontrar públicos de vários tipos e tamanhos e, talvez, até conseguir um meio de vida. A liberdade de imprensa está disponível não apenas em teoria, mas na prática, a um número ilimitado de indivíduos.
Em resposta, muitos jornalistas da linha antiga tentaram definir seu trabalho de modos que excluem os novos aspirantes. Jornalistas institucionalizados argumentam que blogueiros não fazem reportagens convencionais, não são precisos, não são responsáveis, ou não são pagos — e portanto não são repórteres genuínos. Temem que o atual fluxo de amadores mine padrões profissionais ou que os profissionais maduros sejam injustamente derrubados por uma multidão de linchadores eletrônicos, como alguns dizem que aconteceu com Dan Rather, da CBS, e Eason Jordan, da CNN.
Desconsidere todas as reclamações motivadas por interesse próprio. A queda do que já foram terríveis barreiras no campo do jornalismo é uma boa notícia para a democracia como um todo e para a imprensa em particular. A grande cacofonia de vozes na esfera dos blogs significa que mais opiniões estão sendo representadas, que mais assuntos estão sendo examinados em detalhe e que entra mais luz solar em instituições de todos os tipos. Milhares de blogueiros falando alto significa que nossa cultura política abrange um debate saudável sobre tudo aquilo de que as pessoas discordam. Se você não gosta do rouco clamor que emana do ciberespaço, realmente não está confortável com a democracia.
Para o jornalismo, a internet está tendo efeito ainda mais imediato, e não menos benéfico. Blogs e publicações na internet essencialmente resolveram uma das maiores preocupações das últimas décadas: de que a consolidação da mídia estivesse diminuindo a independência e a pluralidade de vozes. Em outro nível, a capacidade de leitores de responder à grande imprensa está aumentando os padrões de precisão, cuidado e profissionalismo. Você já não pode ser preguiçoso ou descuidado porque muitos auto-intitulados patrulheiros estão tentando pegá-lo atravessando o sinal fechado.
É claro que blogueiros jogam com definições, escolhendo a identidade que se adequa a eles no momento. Num caso pendente na Califórnia, a Apple Computer indiciou judicialmente três blogueiros que relataram o que a empresa acredita serem segredos de negócios sobre seus futuros produtos. Os blogueiros querem ser admitidos pela classe jornalística protegida pela lei. Mas diante da perspectiva de serem regulados pela Comissão de Eleição Federal, assumem a posição de que não são nem mídia independente (que enfrenta restrições) nem defensores partidários (que enfrentam outras), e sim pertencentes a uma categoria privilegiada chamada internet, da qual o governo não pode cobrar impostos. Uma posição mais consistente seria afirmar que a Primeira Emenda deveria ser aplicada igualmente a todos que praticam jornalismo, e que a defesa política online deveria ser tratada consistentemente como defesa offline.
Nada disso é dizer que leis de proteção limitadas não são uma maneira razoável de proteger o público de promotores exaltados e corporações ameaçadoras. Também há casos em que órgãos do governo não podem evitar a discriminação entre jornalistas e o reconhecimento de uma hierarquia. O escasso recurso de credenciais para cobrir a Casa Branca ou cruzar linhas da polícia precisa ser distribuído de acordo com alguma fórmula. Mas aqueles que defendem um privilégio legal especial para jornalistas precisam aceitar que qualquer um que pense que é jornalista é jornalista, e descobrir como proteger a atividade, mais do que a um grupo definido de pessoas. Propriamente entendido, o jornalismo nunca foi simplesmente um negócio ou uma profissão. Numa democracia como a nossa, é um direito básico.
JACOB WEISBERG é editor da revista na internet “Slate”

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