ONDE ESTAVA DEUS?
William Safire
publicado em O Globo - 11/01/2005
Depois do cataclismo, com fotos de pais chorando sobre crianças mortas atingindo a consciência humana em todo o mundo, surgem questões que abalam a fé: onde estava Deus? Por que uma divindade boa e toda-poderosa permite que tanto mal e pesar caiam sobre milhares de inocentes? O que essas pessoas fizeram para merecerem tamanho sofrimento?
Depois de um desastre natural semelhante eliminar milhares de vidas em Lisboa, no século XVIII, o filósofo Voltaire escreveu “Cândido”, satirizando selvagemente otimistas que ainda encontravam conforto e esperança em Deus. Depois da tsunami do mês passado, o mesmo angustiado questionamento está nas mentes de milhões de fiéis.
Abra o Livro de Jó, na Bíblia. Foi escrito há cerca de 2.500 anos, durante o que deve ter sido uma crise da fé. O acordo com Abraão — adore o Deus único e seu povo será protegido — parecia não estar funcionando. Os bons morreram, o mau prosperou; onde estava a justiça prometida?
O poeta-pastor que escreveu esse livro começa com um diálogo entre Deus e Satã, um tipo de anjo que fazia exigências. Quando Deus se refere a Jó como seu servo “mais correto e devoto”, Satã sugere que Jó adorava Deus apenas porque recebera poder e riqueza. Numa aposta de que Jó se manteria fiel, Deus deixa o anjo tomar seus bens, matar seus filhos e afligi-lo com feridas repulsivas.
O primeiro ponto do Livro de Jó é de que sofrimento não é prova de pecado. Quando os amigos de Jó dizem que ele com certeza fizera algo terrível para merecer tamanho sofrimento, o leitor sabe que isto é falso. O sofrimento de Jó era um teste para sua fé: mesmo que ele tenha ficado zangado com Deus por ele ter sido injusto — desejando processá-lo num tribunal — nunca abandonou sua fé.
Quando Jó desafia a justiça divina, Deus diz a ele: “Onde estava você quando eu fiz as fundações da Terra?”. Recorrendo à imagem de um mítico monstro do mar que simboliza o Caos, Deus pergunta: “não consegue atingir Leviatã com um gancho?”. O que o poeta-pastor diz, acho, é que Deus está ocupado levando luz à escuridão e impondo ordem física ao caos, e deixa suas criações humanas livres para resolver a justiça moral à maneira delas.
A ira moral de Jó causada por Deus parece mostrar que o sofredor que crê nunca está sozinho. Abruptamente, Jó para de reclamar, e é recompensado.
Lições de Jó para hoje:
(1) Vítimas do cataclismo de modo algum “mereciam” um destino imposto pela força leviatânica da natureza.
(2) Questionar os impenetráveis caminhos de Deus tem seu exemplo na Bíblia, e não precisa minar a fé.
(3) A obrigação da Humanidade de reduzir a injustiça na Terra está sendo expressada na explosão de generosidade que refuta o cinismo de Voltaire.

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