O Demolidor de Presidentes - A trajetória política de Carlos Lacerda: 1930-1968 (Marina Gusmão de Mendonça)
Publicado no Multiply em 23/09/2004
Sou um historiador frustrado, como muitos dos meus amigos sabem - até hoje não me perdôo ter seguido Comunicação em vez de História. Por isso, vira e mexe, compro livros sobre o assunto. Ano passado, por exemplo, adquiri O Demolidor de Presidentes - A trajetória política de Carlos Lacerda: 1930-1968, na Primavera dos Livros, mas só consegui lê-lo agora, na rede da varanda da casa de minha irmã, em Lauro de Freitas (BA).
É um ótimo livro sobre um dos mais controvertidos líderes políticos brasileiros do século passado. Amava-se ou odiava-se Carlos Lacerda. Dono de uma retórica tão fulgurante quanto agressiva, que deixava fascinados e furiosos tanto amigos quanto inimigos (que, aliás, ele trocava de papéis sem muita cerimônia), Lacerda saiu da militância do PCB para a direita mais ferrenha nos seus quase 40 anos de atividade política. É essa história que Marina Gusmão de Mendonça retrata, mas também, mesmo sem querer, ilumina um modo de fazer jornalismo (jornalismo e política eram as duas maiores paixões do Corvo) que existe até hoje em nossa imprensa, embora muito mitigado.
O discurso lacerdista ainda vive e pode ser visto na maneira obsessiva que a mídia brasileira busca indícios de falcatruas e erros na administração pública, embora na maior parte da vezes não com o fito único de destruir um inimigo específico, como fazia Lacerda, mas acabar com a confiança que ainda resta da população nas instituições do Estado. Outro traço lacerdista na nossa imprensa de hoje é a mania de afirmar que tudo de errado que ocorre no país é culpa da esquerda, estando ela no poder, como hoje, ou não.
Assim, é um livro que deve ser lido por quem se interessa pela história do país no Século XX. Mas há dois poréns:
1. A obra é derivada de uma tese de doutorado. Assim, nada tem daquele texto "jornalístico" carcterístico de coleguinhas que bancam historiadores, como tem sido moda há alguns anos. É livro pra quem está disposto a ver uma personalidade e um período serem analisados em profundidade, sem espaço para mexericos de bastidores. Não é chato, veja bem, mas é texto "duro", sem concessões - não tem aquelas fotos no meio do livro pra gente ficar sabendo como era a cara do Lacerda com quatro anos.
2. Outra decorrência de ter sido fruto de uma tese é que Marina Gusmão dá uma ou outra pincelada em eventos chaves da política pós-Revolução de 30, mas como é livro para quem conhece o assunto, ela não vai muito além disso. Portanto, é bom ter um razoável conhecimento prévio da politica brasileira da Era Vargas até o Golpe de 64 para não ficar perdido.

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