Central Al-Jazeera (Jehane Noujaim)
Publicado no Multiply em 25/09/2004
A objetividade é uma miragem. Não, não sou eu que estou dizendo isso (certo, certo...Repetindo pela enésima vez...). A autora da constatação é uma das produtoras da rede árabe Al-Jazeera que fala a frase ao ser entrevistada por uma repórter com a maior cara e sotaque de americana no filme Central Al-Jazeera (tradução ruim - Control room, o título em inglês, define melhor o assunto tratado), de Jehane Noujaim, uma americana criada no Cairo. Realmente, depois de assistir à obra, quem ainda acreditar que objetividade - e isenção e imparcialidade - jornalística existe vai entrar no rol daqueles que crêem em Papai Noel, Coelhinho da Páscoa e Mula Sem-Cabeça.
Em sua hora e meia de duração, o filme de Noujaim enfoca o funcionamento da maior rede de televisão do mundo árabe, criada em 96 e que se tornou um fenômeno de popularidade entre os árabes e islâmicos de todas as partes do mundo, durante a invasão do Iraque em 2003. O documentário mostra a fórmula simples usada pela tevê para atingir o sucesso nesta e em outras coberturas: botar na telinha tudo o que as tevês ocidentais escondem quando falam do mundo árabe.
Essa estratégia funcionou tão bem na invasão do ano passado que a "CNN árabe" foi considerada um perigo militar pelo secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, e assim tratada: o escritório da rede em Bagdá foi atacado pela força área americana, resultando na morte do câmera Tarek Ayoub (o mesmo, aliás, havia ocorrido em Cabul, quando da invasão do Afeganistão, mas sem vítimas). O governo dos EUA não gostava de ver a guerra que vendia como "limpa" e de "libertação" ser mostrada como era na realidade: montes de cadáveres de civis, casas destruídas e gente pobre ferida, chorando e dizendo querer ver seus libertadores feitos em tirinhas.
O filme centra-se na maior parte do tempo em três personagens que só quem fica para ver os créditos finais desconfia quem são (por motivo que só Alá sabe, não aparece o nome de ninguém na tela): o diretor da "CNN árabe" Hassan Ibrahim, o repórter Shamir Khader - um negão com o tamanho e a forma do Michael Moore, mas com humor britânico (trabalhou na BBC) - e o competente capitão Josh Rushing, um dos assessores de imprensa do Comando Militar das tropas invasoras. São eles que, por meio de suas falas, revelam a visão dos americanos sobre a Al-Jazeera (Rumsfeld também contribui muito neste quesito), a da rede de tevê sobre o conflito entre os EUA e seus aliados e o mundo árabe, e a que ela possui de si mesma.
Jehane Noujaim não apela para o ritmo frenético à la Michael Moore e por isso não deixa dúvidas sobre o seu recado: a idéia de objetividade jornalística só é defendida ou por gente tola ou por gente metida a muito esperta. E esse tipo, mostra a cineasta, não está apenas do lado americano - o próprio Hassan Ibrahim afirma, em dado momento, que a Al-Jazeera faz um jornalismo autêntico ("único no mundo", afirma), querendo dizer com isso jornalismo equilibrado. Realmente, a rede árabe dá mais voz ao lado americano do que as redes americanas dão ao lado árabe, mas o olhar lançado aos fatos, que é quem em última análise define o tal equilíbrio, não engana ninguém - cada um puxa a sardinha para o seu lado e a "CNN árabe" não foge à regra. Central Al-Jazeera, coerentemente, deixa patente de que lado está e com essa atitude Jehane Noujaim demonstra seu respeito pelo distinto público. Não dá pra pedir mais do que isso, eu creio.

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