7.1.05

Código 46 (Michael Winterbottom)
Publicado no Multiply em 27/12/2004


Está em cartaz aqui no Rio um futuro cult. É Código 46, filme inglês estrelado por Tim Robbins e Samantha Morton, dirigidos por Michael Winterbottom. Como escreveu alguém, é um mistura de "Alphaville" com "Blade Runner", mas tem muito mais coisa e isso é o que dá um sabor tão especial aa fita.

Pra comecar a lí­ngua. Os creditos são apresentados em vários idiomas - inglês, chinês, árabe, espanhol eu consegui identificar, mas pode ter mais, a passagem é sempre muito rápida. Uma jogadinha interessante, pensei. Mas não era. Era sério. No comeco fiquei meio desorientado com o fato de as personagens falarem um inglês esquisitão. Aí­ vi que era um inglês enxertado de um monte de expressões em outras lí­nguas. Assim, a saudação normal não é "hello" ou "hi", mas "Ni-há" (chinês) ou "salam" (árabe); adeus não é "bye" é "a bientôt"; sinto muito não é "sorry", mas "lo siento". Dentro da história, essa mescla faz todo o sentido, pois o fí­sico das pessoas também é misturado, assim como seus nomes (Samantha Morton, por exemplo, com aquela cara de irlandesa desamparada, chama-se Maria Gonzalez; a chefe do Tim Robbins chama-se De Souza e se não for indiana é de pertinho). É a cultura da tal sociedade globalizada cristalizada na fala. O Professor Tolkien deve estar emocionado lá na Terra Média.

À mistureba de vocabulários, nomes e rostos vem se juntar a de sentimentos. Tim Robbins é um americano que só tem sentimentos em relação aos outros porque foi inoculado por um "ví­rus de empatia" para melhor desempenhar seu trabalho de investigador. Como não está acostumado com esse negócio de sentir, acaba se enrolando e se apaixona por Samantha e seus magníficos olhos azuis-esverdeados. Com isso simplesmente destrói a vida da menina da maneira mais cruel possí­vel - não vou dizer como, você vai ter que ver para descobrir. A miscelânea vai mais além e chega à gloria na trilha sonora, que une canções em chinês, trance, uma modinha brasileira ("Menina e moça"), Bob Marley, acabando com uma do Coldplay de despedaçar o coração.

Sabe aqueles filmes que você sai empolgado do cinema, anda 30 metros e já não se lembra direito nem do enredo? Pois Código 46 não é assim. Você sai impressionado do cinema também, mas, aos poucos, ele vai te impregnando. "Pô, tem a ver com a Teoria do Caos"; "Cara, o comportamento do Tim Robbins vai deixar as mulheres tiriricas"; "Os verdes vão vibrar com a devastação"; "Ih, rapaz...Será que aquilo é incesto? Será que os religiosos vão ficar putos?"; "E a exclusão?"; "E o racismo?" Esses foram alguns dos pensamentos que tive sobre o filme desde ontem.

Preciso dizer que vou ver outra vez?