Código 46 (Michael Winterbottom)
Publicado no Multiply em 27/12/2004
Está em cartaz aqui no Rio um futuro cult. É Código 46, filme inglês estrelado por Tim Robbins e Samantha Morton, dirigidos por Michael Winterbottom. Como escreveu alguém, é um mistura de "Alphaville" com "Blade Runner", mas tem muito mais coisa e isso é o que dá um sabor tão especial aa fita.
Pra comecar a língua. Os creditos são apresentados em vários idiomas - inglês, chinês, árabe, espanhol eu consegui identificar, mas pode ter mais, a passagem é sempre muito rápida. Uma jogadinha interessante, pensei. Mas não era. Era sério. No comeco fiquei meio desorientado com o fato de as personagens falarem um inglês esquisitão. Aí vi que era um inglês enxertado de um monte de expressões em outras línguas. Assim, a saudação normal não é "hello" ou "hi", mas "Ni-há" (chinês) ou "salam" (árabe); adeus não é "bye" é "a bientôt"; sinto muito não é "sorry", mas "lo siento". Dentro da história, essa mescla faz todo o sentido, pois o físico das pessoas também é misturado, assim como seus nomes (Samantha Morton, por exemplo, com aquela cara de irlandesa desamparada, chama-se Maria Gonzalez; a chefe do Tim Robbins chama-se De Souza e se não for indiana é de pertinho). É a cultura da tal sociedade globalizada cristalizada na fala. O Professor Tolkien deve estar emocionado lá na Terra Média.
À mistureba de vocabulários, nomes e rostos vem se juntar a de sentimentos. Tim Robbins é um americano que só tem sentimentos em relação aos outros porque foi inoculado por um "vírus de empatia" para melhor desempenhar seu trabalho de investigador. Como não está acostumado com esse negócio de sentir, acaba se enrolando e se apaixona por Samantha e seus magníficos olhos azuis-esverdeados. Com isso simplesmente destrói a vida da menina da maneira mais cruel possível - não vou dizer como, você vai ter que ver para descobrir. A miscelânea vai mais além e chega à gloria na trilha sonora, que une canções em chinês, trance, uma modinha brasileira ("Menina e moça"), Bob Marley, acabando com uma do Coldplay de despedaçar o coração.
Sabe aqueles filmes que você sai empolgado do cinema, anda 30 metros e já não se lembra direito nem do enredo? Pois Código 46 não é assim. Você sai impressionado do cinema também, mas, aos poucos, ele vai te impregnando. "Pô, tem a ver com a Teoria do Caos"; "Cara, o comportamento do Tim Robbins vai deixar as mulheres tiriricas"; "Os verdes vão vibrar com a devastação"; "Ih, rapaz...Será que aquilo é incesto? Será que os religiosos vão ficar putos?"; "E a exclusão?"; "E o racismo?" Esses foram alguns dos pensamentos que tive sobre o filme desde ontem.
Preciso dizer que vou ver outra vez?

0 Comments:
Postar um comentário
<< Home