A Batalha de Argel (Gillo Pontecorvo)
Publicado no Multiply em 28/09/2004
Como boa parte dos jovens de esquerda da minha geração, ouvi falar muito de A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo, principalmente que era um filme revolucionário na mensagem e na forma. Por isso, quando foi liberado pela censura, lá por 81, 82, estava lá para vê-lo, sentadinho naquelas desconfortáveis cadeiras de madeira do Ricamar. Não me decepcionei: o filme era mesmo revolucionário. Mais do que pela forma e pelo conteúdo, porém - por ser cheio de sangue nas veias, de vigor, de indignação e de humanidade. Pois bem, mais de 20 anos depois, revi-o, em excelente cópia restaurada, e digo - está envelhecendo lindamente, ainda mais poderoso do que quando nos encontramos da primeira vez, e certamente ainda mais pujante do que quando foi feito, em 65.
Você deve saber do que ele trata - da luta do povo argelino contra o colonialismo francês - e isso obviamente não mudou. O que foi alterado, é claro, foi minha visão dele ou, mais precisamente, de alguns temas que ele aborda. O terrorismo como método de ação política, por exemplo, era uma questão quase acadêmica e algo romântica para um brasileiro de 20 e poucos anos do início dos anos 80, mas duas seqüências sobre isso me abilolaram dessa vez: aquela na qual as mulheres vão realizar os primeiros atentados à bomba da FLN e a da ambulância sendo jogada contra o ponto de ônibus.
Na primeira, Gillo perguntava claramente, mas eu não entendi na época, o que aquelas pessoas legais - crianças e adolescentes entre elas - e nem tanto tinham a ver com a questão. Ele até responde que têm em outras cenas (como aquela em que um bando dessa gente maneira tenta linchar um menino árabe vendedor de doces após outro atentado), mas mereciam morrer sem chance de defesa por isso (e o menino merecia ser linchado)? Na segunda, a mesma questão, com uma constatação que fez meus olhos se arregalarem: "Meu Deus! É carro-bomba sem bomba em 57!", pensei.
Outro exemplo - a ação do comandante militar francês que desarticula a FLN em 57. Claramente, como só raros militares na vida real diriam na frente de jornalistas, ele confirma que usa mesmo tortura porque a sociedade francesa exigia ficar na Argélia (a maior parte da esquerda inclusive, lembra ele) e que se acabasse com aquela bagunça imediatamente. Assim, se os franceses queriam manter o domínio sobre um povo de qualquer maneira, teriam que assumir as conseqüências dessa decisão. Uma seqüência admirável vista hoje, mas que não pude enxergar dessa forma há 20 anos, tendo recém-saído de uma ditadura militar.
Por essas e outras (incluindo a cena final, que continua me parecer uma das melhores do cinema), o caminho da Batalha de Argel me parece longe de terminar. A esperança se baseia na troca de comentários entre uma moça gordinha, de uns 20 anos, com piercing na sobrancelha e no nariz, e uma amiga menorzinha, de idade semelhante:
- Que filmão! Pensei que ia ser chato, mas é bom à beça! - admirou-se.
- É um filme de ação! - vibrou a outra.
Daqui a 20 anos, a obra de Pontecorvo ainda vai surpreender muita gente, como tudo o que a Humanidade realiza em seus momentos de grandeza

2 Comments:
O filme é fantástico, realmente. A fotografia é excepcional...com grãos em PB que aumenta e nos aproxima da realidade. Mas é uma obra de ficção baseado em fatos reais. Muitas das cenas do filme foram tiradas das experiências do próprio Gillo Pontecorvo. É o cinema autoral. Merecedor de todos os prêmios que faturou. Um outro filme dele muito bom é o Queimados, com Marlon Brando.
Legal ter lido sua opinião. Vai passar hoje no Telecine Cult. Vou assistir!
Adriano
www.blogdoelemento.blogspot.com
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