Após reeleição, onda conservadora invade EUA
Helena Celestino - Correspondente
Publicado em 16/01/2005 em O Globo
NOVA YORK - Alguns querem reescrever a História, virou moda não acreditar na teoria da evolução da espécie, protestos contra a imoralidade explodem em portas de cinema, redes de lojas recusam-se a vender livros críticos. Uma onda conservadora vem crescendo pelos EUA, impulsionada por grupos religiosos que ajudaram a reeleger George W. Bush e acham que agora está na hora de impor uma “agenda moral”.
Filmes sobre direitos civis são alvo de conservadores
Antes mesmo de Bush ser reempossado, quinta-feira, começou um movimento para reeditar parte do passado político americano. Pressionado por líderes religiosos, o Serviço Nacional de Parques revê filmes de marchas dos direitos civis, protestos contra guerras, passeatas do movimento feminista e homossexual que entraram para a história de Washington e são exibidos aos visitantes do Memorial Lincoln. Conservadores pediram a retirada de cenas de militantes gritando palavras de ordem e empunhando cartazes de defesa do direito ao aborto e à liberdade de escolha dos parceiros sexuais.
O reverendo Lou Sheldon, presidente da Coalizão por Valores Tradicionais, não gostou do que viu e ficou particularmente irritado com a cena de um militante homossexual segurando um cartaz com os dizeres: “O senhor é meu pastor e ele sabe que sou gay”.
— Só mostram movimentos a favor do aborto e do homossexualismo — protesta o reverendo, valendo-se da recente influência do seu grupo cristão na administração Bush. — Por que não mostram procissões?
Os funcionários do Serviço Nacional de Parques foram os primeiros a denunciar as manobras para “limpar” a História e também fizeram chegar aos ouvidos de cientistas a informação de que um livro vendido num dos parques nacionais americanos defende a tese criacionista de que o Grand Canyon foi formado pelo dilúvio de que fala a Bíblia ao contar a história da Arca de Noé — criacionismo é uma corrente de pensamento que prefere explicar a criação do mundo através da Bíblia e refuta veementemente a Teoria da Evolução de Darwin.
O livro “Grand Canyon: a Different View” (“Grand Canyon, uma visão diferente”) foi escrito por Tom Vail, guia florestal membro do movimento cristão ao qual é ligado Bush. Segundo o autor, ele deixou de acreditar que o Grand Canyon existe há milhões de anos após seu encontro com Deus.
Numa carta, sete presidentes de associações científicas pediram que o livro fosse retirado das livrarias do Grand Canyon pois poderia dar a impressão de as teses serem endossadas pelo Serviço Nacional de Parques. Mas nada aconteceu e o livro continuou à venda. “Não é um livro sobre geologia mas uma estreita visão religiosa sobre a Terra”, criticaram os cientistas.
Programas com informações falsas sobre sexo
Os religiosos também estão influenciando a distribuição de verbas para programas de controle da natalidade. No fim do ano passado, o Congresso destinou US$ 131 milhões a grupos que pregam abstinência sexual como a melhor forma de contracepção — menos US$ 100 milhões do que o Executivo pediu. Apesar do apoio oficial, um estudo do Partido Democrata denunciou que esses programas passam informações falsas sobre contracepção, aborto e doenças sexualmente transmissíveis: entre outros absurdos, os livros dizem que o uso de preservativos não impede a Aids em 31% das relações heterossexuais e alerta adolescentes para o perigo de gravidez ao tocarem os órgãos genitais.
Nestes tempos de patrulha sexual, até Hollywood é considerado um agente provocador. A estréia do filme “Dr. Kinsey”, superprodução estrelada pelo ator Liam Neeson, provocou protestos de grupos conservadores nas portas do cinema e uma estação de televisão pública — a WNET — recusou-se a pôr no ar a propaganda do filme. A história do professor que nos anos 40 e 50 fez uma grande pesquisa sobre o comportamento sexual dos americanos ainda causa escândalo.

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