Pensata
6.3.04
 
LEANDRO KONDER

Estamos sofrendo deterioração ética?

Na política, existem situações nas quais se contrapõem correntes de direita e de esquerda. É claro que nem todos os conflitos se deixam reduzir a esse esquema. No entanto, quando as divergências políticas se articulam com propostas econômicas e sociais, o contraste se torna evidente.

Norberto Bobbio, recentemente falecido, explicava para quem quisesse entender: aquele que se dispõe a lutar por transformações mais rápidas e mais profundas, empenhando-se em criar condições efetivas de certa paridade econômica, é de esquerda. E aquele que se dispõe a assegurar liberdades para que os indivíduos tenham espírito crítico e declara que está pouco ligando para a paridade econômica, desconfiando sempre da intervenção do Estado na economia, é de direita.

Existem diversas análises dedicadas às contradições internas do campo da direita. Menos convincentes têm sido, nos últimos tempos, as análises das vicissitudes do campo da esquerda.

Percebe-se que, quando se dispõe a ser radical, quando opta por um caminho revolucionário (que nem sempre está disponível), a esquerda é levada com freqüência a se encastelar em programas muito ''duros'' e tende a trabalhar com conceitos e categorias que não dão conta das complicações e sutilezas do combate.

Quando a esquerda se dá conta de que pode partilhar o poder com correntes liberais e centristas, fazendo - naturalmente - as concessões necessárias, então ela faz um esforço considerável no sentido de superar seu simplismo e encaminhar propostas programáticas mais sofisticadas.

Nos dois momentos dessa oscilação podem ser observados pontos fortes e pontos fracos. A posição radical, revolucionária, infunde ânimo e combatividade aos ativistas políticos. Se a época não for propensa a mudanças drásticas, porém, a posição radical se deixa isolar com facilidade e se torna inócua. A posição moderada, social-democrática, estimula a observação equilibrada, realista, das condições históricas, evita delírios, pode limitar os ímpetos voluntaristas.

Quando negociam com os eventuais parceiros liberais e centristas, entretanto, os representantes dessa esquerda podem ser levados a fazer tantas concessões que talvez cheguem a sacrificar sua identidade. E os socialistas indagarão: são, mesmo, socialistas? Ainda pertencem ao universo da esquerda?

Mais grave do que os riscos de deturpação ideológica política, contudo, são os riscos de deterioração ética.

Sem dúvida, todos nós estamos sempre - socialistas, comunistas, social-democratas, liberais, conservadores - vulneráveis ao cinismo, submetidos à tentação do comportamento antiético, sabendo que a sociedade que gira em torno do mercado só cobra de nós uma coisa: que a gente leve vantagem.

Determinados movimentos, porém, facilitam certo relaxamento ético.

Pode ser que eu me engane, mas um revolucionário radical que perde a fé na revolução e descobre que um programa moderado pode levá-lo ao poder, precisará redimensionar seu projeto inicial de transformação da sociedade. Esse redimensionamento pode ser um avanço do bom senso, como pode ser também uma diminuição amesquinhadora da ambição generosa que estava no ponto de partida.

Espero que os leitores me entendam: não estou acusando ninguém. Estou fazendo apenas uma reflexão teórica abstrata sobre um tema que poderia ser considerado psicológico.

Se o velho ideal revolucionário morre, o vácuo deixado por essa morte na consciência política pode ser ocupado por um certo cinismo. O militante pode decidir que não se deixará arrastar como um ingênuo pelo discurso sectário ou moralista de seus companheiros. Não estou dizendo que esse tipo de fenômeno acontece necessariamente. Ao contrário, uma coisa positiva que pode ser observada a respeito da condição humana é que essa deterioração ética, afinal, não seja um acontecimento freqüente.

O simples fato de que ela exista, no entanto, funciona como um alarme para nós.

Ao observarmos a migração de homens da esquerda radical que se deslocaram para posições de centro (ou mesmo de direita), não podemos deixar de formular hipóteses que vão além das análises histórico-políticas. E atravessam o campo da ética.

5.3.04
 

Uma outra versão sobre a origem do 8 de março

Queridos leitores das publicações da CUT Rio de Janeiro, durante muito tempo repetimos, todos os anos, no mês de março, a história de uma greve que seria a origem do Dia Internacional da Mulher.

Em 1996, levamos um susto ao ler, no Jornal do Brasil, artigo de Naumi Vasconcelos, que dizia que aquela greve nunca existira, e que a origem da data era outra. De lá para cá, diversas autoras têm repetido a versão apresentada por Naumi.

No ano passado, começamos a ser questionados, por mulheres que atuam no movimento sindical, sobre esta outra versão e decidimos publicá-la. É isso que vamos fazer novamente em 2004 em forma de perguntas e respostas, juntamente com a primeira versão sobre a origem da data.

Pedimos desculpas por involuntariamente, e total desconhecimento, termos privado nossos leitores desta segunda versão durante todos esses anos.

Acreditamos que a origem desta e de outras datas caras à classe trabalhadora devam ser sempre lembradas e por nós celebradas para impedir que elas caiam no esquecimento ou virem mercadoria. Recordar as origens do Dia Internacional da Mulher é impedir que, qualquer dia desses, as mulheres comecem a ganhar flores e presentes no 8 de Março, como ganham no dia das mães.

Independente de qual seja sua origem, o 8 de Março é um dia de luta pela revolução cultural, sexual e social.

Grande abraço a todas neste dia 8

Claudia Santiago
Editora do Rápido e do Conquista

. Qual a versão conhecida sobre a origem do 8 de Março até o início dos anos 90?
Durante uma greve em 8 de março de 1857, em Nova Iorque, 129 operárias têxteis morreram queimadas lutando pela redução da jornada de trabalho. Os patrões teriam incendiado a fábrica. O Dia 8 de Março foi instituído em 1910.

. Quando e como surge essa primeira versão?
Na década de 60, em boletins da CGT francesa e da Federação Internacional Democrática das Mulheres da República Democrática Alemã. Segundo essa versão, em 1910, durante a 2ª Conferência da Mulher Socialista, a dirigente do Partido Socialdemocrata Alemão, Clara Zetkin, em lembrança à data da greve das tecelãs americanas, de 53 anos antes, teria proposto o 8 de Março como o Dia Internacional da Mulher.

. Qual a nova versão difundida no Brasil na segunda metade da década de 90?
A origem do 8 de março é uma greve de tecelãs e costureiras que explodiu em 1917, em Petrogrado, na Rússia. Nesse dia, um grande número de mulheres operárias, na maioria tecelãs e costureiras, contrariando a decisão do Partido, que achava que aquele não era o momento, saíram às ruas em manifestação por pão e paz e declararam-se em greve. A manifestação foi o estopim da primeira fase da Revolução Russa, conhecida depois como a Revolução de Fevereiro. Em outubro, o Partido Bolchevique lidera a grande Revolução Russa.

. Quando o 8 de Março é instituído o Dia Internacional da Mulher na segunda versão?
A Conferência das Mulheres Comunistas, realizada em Moscou, em 1921, adota o dia 8 de Março como data unificada do Dia Internacional da Mulher, para celebrar a greve das costureiras de 1917. Até este ano, o Dia da Mulher não tinha data fixa. Em 1914, a França comemorou no dia 9 de março, os Estados Unidos no dia 19 de março. Alemanha, Suécia e Rússia comemoraram no dia 8. Nos Estados Unidos, o Dia da Mulher foi comemorado em 19/03, em 1914. Em 1913, a Rússia comemorara no dia 3.

Datas básicas sobre a origem
do 8 de Março

1904-1907
Movimento das Sufragistas pelo voto feminino nos EUA.

1907
Em Stuttgart, é realizada a 1ª Conferência da Internacional Socialista com a presença de Clara Zetkin, Rosa Luxemburgo e Alexandra Kollontai.
. Uma das principais resoluções:
Todos os partidos socialistas do mundo devem lutar pelo sufrágio feminino.

1908
Em Chicago (EUA), no dia 3 de maio, é celebrado, pela primeira vez, o Woman´s Day. A convocação é feita pela Federação Autônoma de Mulheres.

1909
Novamente em Chicago, mas com nova data, último domingo de fevereiro, é realizado o Woman ´s Day.
O Partido Socialista Americano toma a frente.

1910
A terceira edição do Woman.s Day é realizada em Chicago e Nova Iorque, chamada pelo Partido Socialista, no último domingo de fevereiro.
Em Nova Iorque, é grande a participação de operárias devido a uma greve que paralisava as fábricas de tecido da cidade. Dos trinta mil grevistas, 80% eram mulheres.
Essa greve durou três meses e acabou no dia 15/02, véspera do Woman.s Day.
- Em maio, o Congresso do Partido Socialista Americano delibera que as delegadas ao Congresso da Internacional, que seria realizado em Copenhague, na Dinamarca, em agosto, defendam que a Internacional assuma o Dia Internacional da Mulher.
Este deve ser comemorado no mundo inteiro, no último domingo de fevereiro, a exemplo do que já acontecia nos EUA.
- Em agosto, a 2ª Conferência Internacional da Mulher Socialista, realizada dois dias antes do Congresso, delibera que:
as mulheres socialistas de todas as nacionalidades organizarão (...) um dia das mulheres específico, cujo principal objetivo será a promoção do direito a voto para as mulheres.
Não é definida uma data específica.

1911
Durante uma nova greve de tecelãs e tecelões, em Nova Iorque, morrem 134 grevistas, a causa de um incêndio devido a péssimas condições de segurança.
Na Alemanha, Clara Zetkin lidera as comemorações do Dia da Mulher, em 19 de março.
(Alexandra Kollontai diz que foi para comemorar um levante, na Prússia, em 1848, quando o rei prometeu às mulheres o direito de voto).
Nos Estados Unidos, o Dia da Mulher é comemorado em 26/02 e na Suécia, em 1º de Maio.

1912
Nos Estados Unidos, o Dia da Mulher é comemorado em 25/02

1912 e 1913
Na Alemanha, o Dia da Mulher é comemorado em 19/3.

1913
Na Rússia é comemorado, pela primeira vez, o Dia da Mulher, em 3/3.

1914
Pela primeira vez, a Secretaria Internacional da Mulher Socialista, dirigida por Clara Zetkin, indica uma data única para a comemoração do Dia da Mulher: 8 de Março.
Não há explicação sobre o porquê da data.
A orientação foi seguida na Alemanha, Suécia e Rússia.
Nos Estados Unidos, o Dia da Mulher foi comemorado em 19/03

1917
No dia 8 de Março de 1917 (27 de fevereiro no calendário russo) estoura uma greve das tecelãs de São Petersburgo.
Esta greve gera uma grande manifestação e dá início à Revolução Russa.

1918
Alexandra Kollontai lidera, em 8/3, as comemorações pelo Dia Internacional da Mulher, em Moscou, e consagra o 8/3 em lembrança à greve do ano anterior, em São Petersburgo.

1921
A Conferência das Mulheres Comunistas aprova, na 3ª Internacional, a comemoração do Dia Internacional Comunista das Mulheres e decreta que, a partir de 1922, será celebrado oficialmente em 8 de Março.

1933
No dia 8/3, em Moscou, Clara Zetkin, no Dia da Mulher, toma a palavra em público pela última vez.

1966
A Federação das Mulheres Comunistas da Alemanha Oriental retoma o Dia Internacional das Mulheres e, pela primeira vez, conta a versão das 129 mulheres queimadas vivas.

1969
Nos Estados Unidos, o movimento feminista ganha força. Em Berkley, é retomada a comemoração do Dia Internacional da Mulher.

1970
O jornal feminista Jornal da Libertação, em Baltimore, nos EUA consolida a versão do mito de 1857.

1975
A ONU decreta, 75-85, a Década da Mulher.

1977
A Unesco encampa a data 8/3 como Dia da Mulher e repete a versão das 129 mulheres queimadas vivas.

1978
O prefeito de Nova Iorque decreta dia de festa, no município, o dia 8 de Março, em homenagem às 129 mulheres queimadas vivas.

No Brasil:

1945
- O PCB cria a União Feminina contra a carestia.

1947
- O 8 de Março é comemorado pela primeira vez no Brasil.

1948
- Com o PCB na ilegalidade, a passeata do 8 de Março é proibida, no Rio.

1949
- É editado, pela primeira vez, no Brasil, o livro de Alexandra Kollontai, A Nova Mulher e a Moral Sexual.

1950
- Em 8 de Março, a Federação das Mulheres do Brasil retoma a comemoração do Dia Internacional da Mulher.


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