16.2.04

O CREPÚSCULO DO UOL

Portal acumula prejuízos, perde clientes e corrida da banda larga

Joaquim Castanheira e Manoel Fernandes


Há um vírus consumindo as entranhas daquela que já foi a maior promessa da internet brasileira, o portal Universo On Line, o UOL. No código genético desse vírus manifesta-se uma equação letal: um desequilíbrio insustentável entre receitas e despesas, cujo sintoma mais visível é um prejuízo renitente que não cede nem mesmo aos remédios mais amargos. A saúde debilitada é resultado de um modelo de negócios cujas contas não fecham. No balanço de 2002, o último publicado pela companhia, ele pode ser visto em toda sua trágica dimensão. Naquele ano, a companhia apresentou uma receita de R$ 441 milhões. Desse total, 90%, ou seja R$ 397 milhões, vieram de assinaturas ? os outros 10% tiveram origem na publicidade. No mesmo período, o prejuízo bateu em R$ 317 milhões. Para compensá-lo, portanto, o UOL teria de praticamente dobrar as receitas oriundas dos assinantes em 2003, exigindo por conseqüência o aumento de sua base de internautas em pelo menos um milhão de novos usuários. Agora, a má notícia. Ocorreu exatamente o inverso. A carteira de internautas que atingira o pico de 1,5 milhão desabou para 1,2 milhão no ano passado, segundo informações da própria empresa. A saída seria apostar na banda larga, para onde os consumidores estão correndo. Agora, outra má notícia. Nesse serviço, o provedor tem apenas 170 mil assinantes, contra 500 mil do concorrente Terra. Em outras palavras: o UOL está perdendo a corrida para o futuro.

Assim, os déficits sucessivos transformaram-se numa bola de neve que carrega montanha abaixo o valor da companhia. O UOL, que já havia sido cotado na casa dos US$ 2 bilhões, hoje é avaliado por analistas e potenciais compradores em menos de US$ 100 milhões. É o mais dramático sinal de uma situação financeira deteriorada por prejuízos acumulados desde 1996, quando o portal foi ao ar pela primeira vez. Hoje, o rombo atinge a estonteante cifra de R$ 603 milhões ? desse volume, segundo a empresa, 64% são referentes à integração do Zip.Net comprado pela Portugal Telecom, hoje dona de 40% do UOL, ao empresário Marcos Moraes. Por seu lado, a empresa garante que encerrou 2003 com as contas positivas. Trata-se de um caso clássico de contar o milagre e não revelar o santo. Pois em 2003, justamente quando, pela primeira vez em sua história, teoricamente teria boas notícias para anunciar, o UOL fechou seu capital. ?Nossos concorrentes não divulgavam números e sabiam de cada passo nosso?, afirmou à DINHEIRO Marcelo Epperlein, diretor-geral do UOL. ?Fechar o capital foi uma decisão dos acionistas.?

O balanço passou por mais sessões de limpeza. Em um movimento habitual de companhias com dívidas impagáveis, o UOL transferiu seu passivo de R$ 388 milhões para a Folhapar, a holding que controla o portal, pertencente à família Frias. O que permanece no passivo do UOL é uma briga judicial com a Embratel, em virtude do cancelamento, por parte do provedor, do contrato de fornecimento de serviços telefônicos. Outro duro golpe ocorreu no final do ano passado, quando o antigo parceiro de empreitada, o Grupo Abril, decidiu desembarcar da sociedade. Foi uma saída litigiosa, depois de um acordo financeiro que sangrou ainda mais o combalido caixa da empresa.

Mergulhado numa crise permanente e com a sobrevivência ameaçada, os acionistas passaram a agir como um clube de futebol ameaçado pelo rebaixamento. A cada duas derrotas troca o técnico. Nos últimos 18 meses, a direção geral da companhia tornou-se um cargo de alta rotatividade. No período, quatro executivos diferentes ocuparam a cadeira. A comissão técnica também foi vítima de uma debandada. Oito vice-presidentes e diretores deixaram a empresa, entre eles o jornalista Caio Túlio Costa, um colaborador da família Frias, controladora do UOL, ao longo de 21 anos. Essa instabilidade coloca um enorme ponto de interrogação no futuro da empresa. De onde viria o dinheiro capaz de sanear a operação? Os sócios não estão dispostos a desembolsar um tostão a mais em uma operação que coleciona fracassos atrás de fracassos. Outra saída seria a venda. Mas quem compraria? No passado, os controladores do provedor assistiram um desfile de candidatos à aquisição do UOL. Nenhum lhes despertou a atenção. Resultado: hoje eles desapareceram. América On Line, Yahoo!, Terra, enfim todos, em algum momento, tentaram se associar ou até mesmo comprar o provedor. As conversas com os espanhóis do Terra foram as que mais avançaram. A empresa chegou a propor um negócio de US$ 2 bilhões para o UOL. Os controladores, porém, acreditavam que o valor estava em torno de US$ 4 bilhões. A venda, tanto para o Terra como para os demais portais, nunca aconteceu porque o grupo Folha não aceitava entregar o controle acionário da operação. Com a AOL as conversas chegaram a envolver até mesmo Steve Case. Em uma viagem a Nova York, Luís Frias, presidente do conselho de administração do UOL, e Caio Túlio sentaram-se à mesa com o fundador do portal americano, mas o encontro deu em nada.

Mesmo assim, a história continuou a se mostrar generosa com o UOL, e a companhia continuou sondada por possíveis compradores. Um deles foi o Yahoo!. Durante sua primeira e até agora única visita ao Brasil, Jerry Yang, o fundador da companhia americana, encontrou-se, em São Paulo, no Hotel Meliá, com os dois acionistas do UOL, Roberto Civita, da Abril, e Luís Frias, da Folha. Foi uma conversa animada e ao final Yang fez uma profética declaração: ?Há problema de foco nessa empresa pois os sócios professam religiões diferentes.?

Hoje, há tratativas com o Terra e a própria Portugal Telecom. Em conversas com a família Frias, os sócios portugueses deixaram claro que se interessariam em aumentar sua participação, desde que ficassem com o controle ? e aí a resistência do clã continua se manifestando. ?Não há negociação porque o UOL é estratégico para o Grupo Folhas?, afirma Epperlein. Há outro obstáculo no caminho do UOL. Muitos analistas acreditam que os provedores independentes, não ligados a uma operadora de telefonia, estão com os dias contados. O surgimento dos provedores gratuitos iG (Brasil Telecom e Telemar), Ibest (Brasil Telecom) e iTelefônica (Telefônica) apontam nessa nova direção. O UOL bem que tentou entrar nesse mercado. Desengavetou uma segunda marca, o BOL (herdada do Grupo Abril), e a lançou como provedor gratuito. Em seis meses a operação foi encerrada, após rotundo fracasso. ?Nosso negócio não é telefonia. Somos uma empresa de internet?, diz Victor Ribeiro, outro diretor do UOL. ?Esperamos ser tratados com isonomia por todas as operadoras.?

Em sua biografia, o UOL pode contabilizar pelo menos um ponto positivo, o pioneirismo ? mas para possíveis compradores a história não agrega valor. A internet brasileira seria bem diferente sem ele. A companhia alfabetizou os internautas brasileiros, como fez a AOL nos Estados Unidos. A qualidade dos seus produtos era similar e em alguns casos antecipou tendências mundiais. A associação entre o Grupo Folha e a Abril, por exemplo, aconteceu bem antes da fusão entre o grupo Time Warner e a AOL. Mas, como uma empresa de internet, o UOL também não resistiu ao canto da sereia da bolha das pontocom e se convenceu que a fonte de dinheiro jamais secaria. Era um mundo que permitia tal luxo porque o grande Olimpo estava à espera: a abertura de capital na Nasdaq, a bolsa americana das empresas de tecnologia.

O primeiro passo foi a transformação da companhia em uma sociedade de capital aberto. Em seguida, o UOL abriu operações em toda a América Latina. A idéia era criar a imagem de uma empresa latino-americana nos moldes da Starmedia, a primeira companhia de internet com perfil latino a vender ações nos EUA. A partir daí, a documentação começou a ser preparada e pela previsão inicial o IPO (Initial Public Offering, como é chamada a operação de abertura de capital nas bolsas americanas) do UOL aconteceria em março de 2000. Mas a bolha da internet estourou em fevereiro de 2000 e o IPO do UOL foi para o espaço. Outras oportunidades para chegar à bolsa não faltaram. A empresa El Site, ligada ao grupo venezuelano Cisneros, também interessado em fazer seu IPO, procurou o UOL. Sua proposta: unir as forças e, juntas, abrirem o capital na Nasdaq. A conversa não prosperou porque o UOL apostava que tinha fôlego para seguir sozinho.

O episódio do IPO teve para o UOL um efeito devastador. O dinheiro da venda de ações seria suficiente e sobraria para cobrir o prejuízo. Sem esses recursos, a empresa partiu para uma busca frenética pela lucratividade. O mercado já dava sinais de fragilidade, mas o dinheiro parecia não ter fim. A partir de 2001, quando iniciou um processo de profissionalização da estrutura, esse traço foi levado ao limite. Os executivos eram recrutados em grandes grupos, como Merryl Lynch, ABN, Pão de Açúcar, entre outros. As entrevistas eram marcadas na sede do grupo Folhas, no centro de São Paulo. Lá, diretores do UOL e o candidato embarcavam em um helicóptero rumo ao centro gráfico, em Tamboré. Eram recebidos em uma sala luxuosa, com chão de mármore, onde garçons de luvas brancas serviam café em bules e bandejas de prata. A seguir, assistiam a uma apresentação sobre o provedor. A apoteose era a proposta financeira, cujo ponto alto eram os famosos stock options, sempre na casa dos milhões de dólares. ?Não havia um que escapasse?, conta um dos ?fisgados?.

A própria estratégia de crescimento do UOL se transformou em sorvedouro de dinheiro. Um dos pontos de honra do provedor era ser caracterizado como o maior do País em page views, na época o índice mais utilizado para medir a audiência. Em função dessa política, a companhia obrigava que todos seus parceiros, os sites independentes, se hospedassem no provedor. ?Isso exigia um parque de servidores enorme e carentes de constante atualização tecnológica?, diz um especialista. Em certo momento, o organograma do UOL apresentava 11 diretores de tecnologia. Cada uma das áreas (e-commerce, publicidade, assinaturas, etc) possui seu próprio especialista. Mais dinheiro ainda foi consumido na estratégia de expansão internacional. Mais de US$ 80 milhões foram investidos na abertura de filiais na Argentina, Colômbia, Chile, Peru, Venezuela, EUA (Miami) e Espanha. Outro fracasso. Atualmente, apenas o escritório argentino está ativo. Em Miami, o UOL estava instalado em metade de um andar de um edifício localizado em uma região nobre da cidade ? a mesma onde o ex-juiz Nicolau dos Santos Neto possuía um luxuoso apartamento. Embora a filial local esteja desativada, a empresa continua pagando mensalmente o leasing, cujo vencimento só ocorre no início de 2005.

Segundo analistas, essas decisões eram tomadas ao sabor dos modismos que, como ondas, invadiam o mundo da internet. ?As decisões eram tomadas no calor da hora?, conta um ex-diretor. Para ele, existe aí um traço da cultura empresarial da família Frias, a agressividade no marketing. Assim a Folha de S. Paulo se transformou em um dos maiores e mais influentes jornais do País no final da década de 70 ? e até hoje mantém a posição. Assim eles transformaram o UOL no maior e mais valioso portal da internet brasileira ? só que desta vez o brilho se perdeu no próprio arrojo.

15.2.04

COMUNICAÇÃO

Com queda na receita publicitária e prejuízo de R$ 7 bilhões em 2002, setor já cortou 17 mil vagas em dois anos
Mídia nacional acumula dívida de R$ 10 bi
ELVIRA LOBATO
DA SUCURSAL DO RIO

Com uma dívida estimada de R$ 10 bilhões, a mídia brasileira enfrenta a maior crise da sua história recente. Em dois anos, segundo dados do Ministério do Trabalho, as empresas de comunicação -rádios, TVs, jornais, revistas e agências de notícias- cortaram 17 mil empregos.

Estima-se que as empresas de comunicação acumularam prejuízo de R$ 7 bilhões em 2002, dos quais R$ 5 bilhões foram registrados pela Globopar -holding das Organizações Globo. A receita líquida do setor naquele ano foi 20% menor, em valores reais (descontada a inflação), do que a de 2000.

As empresas apostaram no crescimento da economia e na estabilidade do câmbio, na segunda metade dos anos 90, e se endividaram em dólar para diversificar os negócios e aumentar a capacidade de produção. Segundo um relatório que o próprio setor enviou ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) em outubro último, 80% das dívidas são em dólar, e 83,5% têm vencimento em curto prazo.

Entre 2000 e 2002, a circulação de revistas caiu de 17,1 milhões para 16,2 milhões de exemplares/ ano, enquanto a de jornais caiu de 7,9 milhões de exemplares/dia para 7 milhões.

O bolo publicitário -dividido entre todas as empresas de mídia- diminuiu de R$ 9,8 bilhões em 2000 para R$ 9,6 bilhões em 2002 (em valores sem correção).
Para Nelson Sirotsky, presidente do Grupo RBS (Rede Brasil Sul, com 4.300 funcionários), a crise atingiu o fundo do poço em 2002.

No segundo semestre de 2003, segundo pesquisa de investimento em publicidade do Projeto Inter-Meios, começou uma recuperação. A receita de janeiro a setembro cresceu 7,9%, em relação a igual período do ano anterior.

Segundo o presidente da ANJ (Associação Nacional de Jornais) e do Conselho de Administração do Grupo O Estado de S. Paulo, Francisco Mesquita Neto, todos os jornais, em graus variados, haviam investido na informatização das redações e na compra de impressoras novas para aumentar a tiragem e ter edições coloridas.
Foram gastos entre US$ 600 milhões e US$ 700 milhões na compra de rotativas e no aumento do parque gráfico, a partir de 95.

O grosso da dívida acumulada vem de novos negócios: TV por assinatura, telefonia e internet. O setor imaginava que haveria uma rápida convergência entre a mídia tradicional e as telecomunicações e temia o fim da mídia impressa e a dominação do mercado pelas companhias telefônicas.

Sem capital próprio suficiente e sem linhas de crédito de longo prazo no país a juros compatíveis com o retorno dos investimentos, as empresas se endividaram em moeda externa.

As Organizações Globo respondem por 60% do endividamento total de R$ 10 bilhões. A Globopar tem uma dívida equivalente a US$ 1,9 bilhão (cerca de R$ 5,6 bilhões) e deixou de pagar aos credores em outubro de 2002.

Essa cifra não inclui as dívidas da Infoglobo -que edita os jornais "O Globo", "Extra", "Diário de S. Paulo" e é parceira do Grupo Folha (Folha da Manhã S.A.) no "Valor Econômico"- e das emissoras de rádio, que estão fora da estrutura da Globopar.

No dia 11 de dezembro último, três fundos de investimentos norte-americanos entraram com ação na Corte de Falências do Distrito Sul de Nova York, pedindo a intervenção da Justiça dos EUA na renegociação das dívidas da Globopar. O pedido ainda não foi julgado, mas a empresa sustenta que tem condições de conduzir sua reestruturação e de pagar aos credores.

Dinheiro farto
O endividamento da Globo vem dos investimentos feitos, a partir de 95, em TV a cabo (Net Serviços), em TV por satélite (o projeto Sky, em parceria com Rupert Murdoch) e na Globosat.

A abertura do mercado de telecomunicações, com o surgimento de novos serviços, e o fim do monopólio estatal da telefonia provocaram uma euforia de investimentos nesse setor, que se prolongou até a privatização da Telebrás, em 1998.

"Durante o boom, havia dinheiro sobrando. Todos os investidores estrangeiros queriam aplicar no Brasil, sem questionar os projetos", afirma o diretor de Planejamento e Controle da Globopar, Jorge Nóbrega.

O otimismo se estendia ao mercado da mídia impressa. Era época de câmbio estável (US$ 1 valia R$ 1), crédito estrangeiro farto, crescimento do mercado publicitário e otimismo com o aumento da circulação de jornais e revistas.

A circulação média diária dos jornais saiu de 4,3 milhões, em 90, para 6,6 milhões de exemplares, em 95, o que correspondeu a 53,5% de aumento.

Depois de uma pequena redução em 96, quando caiu para 6,5 milhões, a circulação de jornais continuou crescendo, até atingir o pico de 7,9 milhões de exemplares/dia em 2000, graças, principalmente, ao lançamento de novos jornais populares.

Em 95, o Grupo Folha inaugurou seu novo parque gráfico, em Tamboré (Grande São Paulo), que custou, na ocasião, US$ 120 milhões, investimento pago na época com recursos próprios. Em 96, lançou o provedor de acesso à internet UOL (Universo Online) e a Plural, gráfica comercial em parceria com a norte-americana Quad Graphics. Em 99, o Grupo Folha lançou o jornal "Agora" e, em 2000, associou-se às Organizações Globo para lançar o "Valor Econômico".

Embora o Grupo Folha tenha investido em internet e gráfica comercial, seu endividamento, de R$ 290 milhões, vem principalmente dos investimentos feitos nos jornais "Agora" e "Valor Econômico".

Segundo o presidente do Grupo Folha, Luís Frias, a dívida do grupo (Folha, UOL e Plural) "não é grande, se considerada a geração de caixa própria. O Ebitda ["earnings before interest, taxes, depreciation and amortization". Em português: Lajida, lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização] do grupo será superior a R$ 150 milhões em 2004. Isso representa uma relação dívida/Ebitda menor que duas vezes".

Em 98, as Organizações Globo lançaram, simultaneamente, o jornal popular "Extra", no Rio -para concorrer com "O Dia", que havia batido "O Globo" em circulação aos domingos-, e a revista "Época", em São Paulo. O jornal consumiu R$ 30 milhões em investimentos, e a revista, US$ 40 milhões. Em 2001, após o investimento no "Valor Econômico", o Grupo Globo comprou o "Diário Popular" (atual "Diário de S. Paulo") do ex-governador de São Paulo Orestes Quércia, pelo valor estimado de R$ 200 milhões.

O otimismo era geral. Em 98, o jornal "O Dia" tomou US$ 20 milhões de empréstimos no exterior para expandir seu parque gráfico e chegou a acumular uma dívida interna de R$ 20 milhões de capital de giro.

A presidente da empresa, Ariane Carvalho, diz que a dívida interna foi paga e a externa foi renegociada com o Eximbank, no ano passado, com adiamento do prazo para pagamento do principal de 2004 para 2007.

A Rede Bandeirantes, também em 98, emitiu US$ 100 milhões em eurobônus (títulos emitidos em euros) para quitar dívidas em reais, comprar novos equipamentos (câmeras e ilhas de edição) e para lançar a novela "Serras Azuis" e um humorístico em parceria com a Sony. A novela e o humorístico foram um fracasso de audiência.
Antonio Teles, consultor da presidência da Bandeirantes, diz que, além da fartura de recursos externos, a juros convidativos, havia a convicção de que a estabilidade do Plano Real e a paridade do dólar seriam "para sempre".

Segundo Teles, a Band suspendeu o pagamento da dívida externa em 2002 e estuda uma proposta de renegociação a ser apresentada aos credores.

Projeções irreais

As empresas que arriscaram investir em TV por assinatura dizem que o governo, os bancos, os consultores, os investidores e elas próprias superestimaram o potencial do mercado brasileiro.

A Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), responsável pela venda das concessões, previa 10,1 milhões de assinantes de TV por assinatura em 2003, quando o número real é de 3,5 milhões.

Roberto Civita, presidente do Grupo Abril, diz que os investimentos feitos em TV por assinatura foram a principal razão do endividamento da empresa, que fechou o balanço financeiro de 2002 com uma dívida de R$ 926 milhões.

"Fiz um esforço para esquecer o quanto investimos nessa área, mas foi bem mais do que a nossa dívida", resume o empresário. A Abril é acionista majoritária da TVA (sistema de TV paga com transmissão por cabo e por microondas) e foi acionista da DirecTV, via satélite.

Civita diz que o endividamento se deve ao custo do capital no Brasil, e não a erros estratégicos. "A dívida da Abril, comparada ao tamanho da empresa, seria pequena em qualquer país com custo financeiro razoável. Estamos sendo punidos pela ousadia, pela confiança e pela fé. Mas a gente vai sair da crise e voltar a crescer."

Telefonia
A Globopar poderia estar em situação pior, se não tivesse desistido das duas empresas de telefonia celular que comprou (Tele Celular Sul e Tele Nordeste Celular), no leilão de privatização da Telebrás, em julho de 98, em parceria com a Telecom Italia e com o banco Bradesco. Ela saiu, antes de colocar dinheiro no empreendimento, em dezembro de 98.

O investimento em telefonia foi uma das causas do endividamento dos grupos RBS e Estado (que edita o jornal "O Estado de S. Paulo"). A RBS declara ter US$ 125 milhões (cerca de R$ 370 milhões, pelo câmbio atual) de dívida. Estimativas do mercado, porém, calculam que esse montante atinja R$ 450 milhões. O Grupo Estado divulgou possuir dívida de R$ 384 milhões no balanço financeiro de 2002.

O presidente da RBS, Nelson Sirotsky, diz que a situação financeira do grupo está equacionada, mesmo se não houver liberação de recursos pelo BNDES. A RBS foi, segundo ele, a primeira empresa de mídia a apostar em TV a cabo (Net Sul) e em telefonia. Foi acionista da telefônica CRT (Cia. Riograndense de Telecomunicações) e da empresa de telefonia celular BCP, mas vendeu sua parte nas teles em 98 e passou o controle da Net Sul para a Globo Cabo em 2001.

"Fomos o primeiro grupo de comunicação a entrar em telefonia e o primeiro a sair. Voltamos a nos posicionar como um grupo regional", diz Nelson Sirotsky.
Para financiar os investimentos em telefonia e em TV a cabo, o grupo lançou US$ 175 milhões em títulos de dívida no exterior, dos quais, segundo seu presidente, US$ 50 milhões foram quitados.

O Grupo Estado foi acionista minoritário da empresa de telefonia celular BCP, que acabou vendida ao grupo mexicano Telmex, no ano passado, após passar por longa crise. Segundo informações do mercado, os acionistas teriam perdido 95% do capital investido.

O Grupo Estado tomou empréstimos de US$ 120 milhões no exterior para investimento no parque gráfico e na BCP.

"Havia um cenário estratégico que quase te obrigava a tomar essas decisões, mas as projeções foram frustradas depois da desvalorização cambial, da queda da economia brasileira e do ataque terrorista de 11 de setembro", diz Francisco Mesquita Neto.

"A crise provocou um atraso no vôo de crescimento que imaginávamos. Há dois anos estamos olhando apenas para dentro das empresas", diz ele. O Grupo Estado anunciou a conclusão da renegociação com seus credores, em dezembro do ano passado. Foi um longo processo, que resultou no afastamento da família Mesquita dos cargos executivos. Francisco Mesquita Neto, ex-diretor-superintendente do grupo, assumiu a presidência do Conselho de Administração. A família participa da orientação estratégica e editorial, mas saiu do dia-a-dia.

Entidades do setor pedem ao banco estatal cerca de R$ 5 bi para dívidas e R$ 1,2 bi para a compra de papel-jornal
BNDES estuda financiar dívidas e papel
DA SUCURSAL DO RIO

O presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Carlos Lessa, informou que está em análise a criação de uma linha de financiamento para a compra de papel de imprensa. Será um empréstimo de médio prazo, para aliviar a situação financeira dos grupos de mídia impressa.

Lessa defendeu o socorro ao setor, mas demonstrou desconforto com a situação. Disse que o financiamento para a compra de papel é uma operação típica de capital de giro, "que o banco não gosta de fazer", e que as empresas de comunicação têm capital fechado e um "peso muito grande das personalidades que as dirigem".

Representantes de alguns dos principais grupos do setor -entre eles, a Folha da Manhã S.A., que edita a Folha- estiveram com Lessa, em outubro, para pedir a criação de linhas de crédito para a compra de papel e para recomposição de dívidas.

Na ocasião, foi apresentado um estudo com a estimativa de endividamento total do setor, de R$ 10 bilhões. O estudo foi encomendado pela ANJ (Associação Nacional de Jornais), pela Abert (Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão) e pela Aner (Associação Nacional das Editoras de Revistas). As associações pediram crédito equivalente a um ano de consumo de papel, cerca de R$ 1,2 bilhão, com três anos de prazo para pagamento, dois anos de carência e pagamento semestral dos juros. As beneficiárias seriam empresas de jornais e revistas. O programa teria duração de um ano e meio, até a regularização das linhas de financiamento.

Segundo Carlos Lessa, o pedido implicaria um desembolso muito alto e deve ser atendido em parte. O quanto disso será atendido ele não esclareceu: "O financiamento é parecido com o cobertor e a fogueira. Se o cobertor for menor do que a fogueira, ela reacende. Tem de ser grande o suficiente para abafar o fogo".

Em entrevista à Folha, ele disse que o setor fez dívidas em dólar nos anos 90 para modernizar e expandir instalações e, depois, foi frustrado pela falta de crescimento econômico. Segundo ele, o choque cambial desequilibrou financeiramente as empresas, que recorreram aos bancos a curto prazo. No caso da mídia impressa, segundo Lessa, houve um outro agravante: com o aumento do risco Brasil, reduziu-se o crédito para financiamento da importação de papel, e as empresas tiveram de comprar à vista.

Refinanciamento

As três entidades pediram uma linha especial de crédito, cerca de R$ 5 bilhões, de longo prazo, para substituir dívidas com bancos e mercado de capitais, no Brasil e no exterior, contraídas ou garantidas por empresas de comunicação. A maior devedora é a Globopar, cuja dívida no exterior é garantida pela TV Globo.

O documento entregue ao BNDES, em outubro, sugere que sejam refinanciados 50% das dívidas existentes em 31 de dezembro de 2002, o que significaria uma linha de crédito de R$ 5 bilhões, com dez anos para pagamento.

Segundo Carlos Lessa, o BNDES é favorável a auxiliar a mídia -"uma nação que não tenha sua própria mídia não sustenta sua identidade nacional a longo prazo", diz-, mas o assunto foge à alçada do banco e exige decisão superior, da Presidência da República, por envolver a indústria de comunicação e pelo fato de o setor se encontrar em situação "muito especial, muito grave".

"Um programa desse tipo tem de ser muito bem desenhado, para que não seja instrumento de interferência e de manipulação. Não podemos construir nada que seja interpretado como favorecimento a grupo, grupos ou segmento do setor", completou.

Empresas divergem sobre pedido ao banco estatal
DA SUCURSAL DO RIO

O pedido de socorro financeiro do BNDES tem sido objeto de discussão, e de críticas, dentro do próprio setor de mídia. Há consenso de que as empresas de mídia são pouco transparentes no que se refere à divulgação de seus próprios números, embora cobrem transparência dos outros setores.

A Folha ouviu dirigentes dos principais grupos de comunicação sobre o pedido de empréstimo ao BNDES. Há duas questões em jogo: se o empréstimo vai afetar a independência da mídia e se representa privilégio ao setor. A posição das empresas pode ser vista a seguir:

Jorge Nóbrega, diretor de planejamento e controle da Globopar: "Achamos o empréstimo importante. As empresas se endividaram em dólar. O câmbio triplicou, e a receita do setor caiu, por causa da redução da atividade econômica. Não queremos subsídio, mas o alongamento da dívida. Se o projeto for aprovado, é claro que as condições dos empréstimos serão de conhecimento público".

Roberto Civita, presidente do Grupo Abril: "O BNDES é a única fonte de recursos de longo prazo do Brasil. Se todos os setores básicos da economia recebem recursos, não sei por que a mídia deveria ser excluída. O tratamento às empresas sérias não pode ser diferente de um setor para outro. [...] Se o BNDES exigir "full disclosure" [abertura total de informações] das empresas, não vejo problema. [...] Transparência de informações é bom. Mas acho que está se esperando demais do BNDES. Há gente sonhando, se iludindo".

Luís Frias, presidente do Grupo Folha: "A posição da empresa e do jornal é favorável à participação da mídia nos programas de financiamento do BNDES, desde que em condições iguais às dos demais setores da economia e desde que haja rigor total em relação à transparência e à qualidade dos números das empresas".

Francisco Mesquita Neto, presidente do Conselho de Administração do Grupo O Estado de S.Paulo: "O BNDES entendeu a importância do setor para o país, do ponto de vista institucional, e vai fazer uma análise transparente do assunto, como nós gostaríamos. A preocupação em preservar a autonomia da imprensa está na cabeça de todos. Não vi nenhum sinal de que o BNDES queira influir na linha editorial das empresas. Acho que vai exigir que as empresas passem a publicar balanços e sejam mais transparentes. Se o setor não estiver preparado para isso, é melhor se preparar. E vai ser extremamente positivo".

Luiz Sandoval, presidente do Grupo Silvio Santos: "A indústria de radiodifusão tem de ter uma linha de financiamento. É justo, correto. Não somos diferentes de uma fábrica de sabonetes, mas sou contra financiamento para recomposição de dívidas, pois o BNDES é um banco de fomento. O SBT não tem dívida externa".

Ariane de Carvalho, presidente do jornal "O Dia": "Qualquer banco de fomento tem de atender às indústrias que necessitam de capital. Os grupos de mídia investiram em parque gráfico e em tecnologia. Houve uma forte desvalorização cambial, e nosso principal insumo, que é o papel, é dolarizado. O projeto encaminhado ao BNDES faz sentido. O que eu não acho correto é a forma como a ANJ, a Abert [associação das emissoras comerciais] e a Aner [Associação Nacional das Editoras de Revistas] encaminharam a questão. A iniciativa de um grupo foi apresentada em nome das associações. Estou entre os cinco maiores jornais do país, faço parte da ANJ e não tive acesso ao projeto. [...] A mídia tem de dar sua contrapartida e profissionalizar a administração. Os grupos são muito fechados, tentam esconder informações, não falam realmente a verdade sobre os preços que praticam. [...] Não acho que o dinheiro do BNDES vá colocar a imprensa de joelhos".

Jayme Sirotsky, vice-presidente da Associação Mundial de Jornais e acionista do Grupo RBS: "Estamos [a RBS] há 47 anos no mercado, preocupados em prestar o melhor serviço, e isso pressupõe independência. Se as empresas têm sua missão clara e condição de operação sadia, não vejo por que um empréstimo do BNDES afetaria sua independência editorial. O alijamento de uma indústria pelo BNDES não é coerente".

Dennis Munhoz, presidente da TV Record de São Paulo: "A Record vai ficar muito atenta e não vai tolerar que uma emissora seja beneficiada em detrimento de outra. Precisamos saber por que vai ser dado o empréstimo, a quem e em que condições, para depois manifestarmos nossa opinião. [...] A coisa está sendo tratada sem a transparência que merece, porque é dinheiro público. Se for empurrada goela abaixo, a Record não vai aceitar. A sociedade precisa participar do debate. [...] Não tive acesso à proposta entregue ao BNDES. [...] Se for para gerar emprego, para estimular o setor e para ele se defender do capital estrangeiro, o empréstimo é válido. Mas não se pode premiar quem administrou mal. Quem não está para quebrar não pode ser punido para que outro não quebre".

Antonio Teles, consultor da presidência da Rede Bandeirantes: "O BNDES foi criado para financiar a indústria. E é legítimo, e justo, que ele coloque recursos à disposição da mídia para que ela refinancie suas dívidas e incremente os negócios. [...] Não acho que um empréstimo público vá afetar a imparcialidade da imprensa. Se o governo quisesse ter a mídia de joelhos, a publicidade seria uma forma de pressão muito mais efetiva".

Walter de Mattos Júnior, presidente do jornal "Lance": "O Estado não deve refinanciar as dívidas nem fazer a mudança estrutural de custos sem exigir contrapartidas, como a publicação de balanços e a governança corporativa. O BNDES discriminou negativamente a mídia. [...] Como cidadão, quero discutir que mídia, principalmente a impressa, queremos ter. Não há país desenvolvido sem grande penetração da mídia impressa. Vivemos um apartheid da informação".

Políticas de financiamento excluíram o setor até 97
DA SUCURSAL DO RIO

As empresas de comunicação sustentam que foram discriminadas durante muitos anos pelo BNDES. Até 1990, as políticas operacionais do banco não admitiam nenhum nenhum tipo de financiamento ao setor. Em 90, passou a ser admitida a concessão de crédito apenas para a compra de equipamentos fabricados no Brasil, sendo que o setor depende, basicamente, de equipamentos importados. Só em 97, acabaram-se os vetos.

Não se sabe por quanto tempo durou a discriminação. A pedido da Folha, o banco fez um levantamento das políticas operacionais (documento que define a estratégia de ação) e das atas das reuniões da diretoria, para tentar identificar quando e por que motivo o setor foi excluído dos empréstimos, mas não foi possível identificar como a prática começou, porque só foi localizada a documentação a partir de 86. O BNDES foi criado em 52.

Na política operacional de 86 consta que gráficas, editoras, jornais, revistas, emissoras de rádio e de televisão estavam excluídas do POC (Programa de Operações Conjuntas), que abrangia os financiamentos concedidos por intermédio dos agentes financeiros.

Em 88, foi criado um programa de financiamento de bens de capital e bens de consumo, das indústrias de transformação e farmacêutica e de setores tecnológicos de ponta. Três setores ficaram excluídos do programa: usinas de açúcar, construção civil e indústrias gráficas para impressão de jornais e revistas.

As empresas de rádio e televisão eram tratadas como entretenimento e diversão. Na política operacional aprovada em 94, por exemplo, a radiodifusão aparece ao lado de motéis, saunas e termas como segmento que não poderia ser financiado.
Apesar de não haver mais restrições, o setor de mídia continua com participação inexpressiva dentro das operações de crédito do BNDES.

De janeiro de 98 a setembro de 2003, o BNDES emprestou R$ 111,6 milhões ao setor (o que representa cerca de US$ 0,04 bilhão), enquanto o setor de eletricidade, gás e água recebeu US$ 14,1 bilhões, as indústrias de equipamentos de transporte, US$ 7,7 bilhões, a agropecuária obteve US$ 6,9 bilhões, e a indústria metalúrgica, US$ 4 bilhões.