LEANDRO KONDER
Estamos sofrendo deterioração ética?
Na política, existem situações nas quais se contrapõem correntes de direita e de esquerda. É claro que nem todos os conflitos se deixam reduzir a esse esquema. No entanto, quando as divergências políticas se articulam com propostas econômicas e sociais, o contraste se torna evidente.
Norberto Bobbio, recentemente falecido, explicava para quem quisesse entender: aquele que se dispõe a lutar por transformações mais rápidas e mais profundas, empenhando-se em criar condições efetivas de certa paridade econômica, é de esquerda. E aquele que se dispõe a assegurar liberdades para que os indivíduos tenham espírito crítico e declara que está pouco ligando para a paridade econômica, desconfiando sempre da intervenção do Estado na economia, é de direita.
Existem diversas análises dedicadas às contradições internas do campo da direita. Menos convincentes têm sido, nos últimos tempos, as análises das vicissitudes do campo da esquerda.
Percebe-se que, quando se dispõe a ser radical, quando opta por um caminho revolucionário (que nem sempre está disponível), a esquerda é levada com freqüência a se encastelar em programas muito ''duros'' e tende a trabalhar com conceitos e categorias que não dão conta das complicações e sutilezas do combate.
Quando a esquerda se dá conta de que pode partilhar o poder com correntes liberais e centristas, fazendo - naturalmente - as concessões necessárias, então ela faz um esforço considerável no sentido de superar seu simplismo e encaminhar propostas programáticas mais sofisticadas.
Nos dois momentos dessa oscilação podem ser observados pontos fortes e pontos fracos. A posição radical, revolucionária, infunde ânimo e combatividade aos ativistas políticos. Se a época não for propensa a mudanças drásticas, porém, a posição radical se deixa isolar com facilidade e se torna inócua. A posição moderada, social-democrática, estimula a observação equilibrada, realista, das condições históricas, evita delírios, pode limitar os ímpetos voluntaristas.
Quando negociam com os eventuais parceiros liberais e centristas, entretanto, os representantes dessa esquerda podem ser levados a fazer tantas concessões que talvez cheguem a sacrificar sua identidade. E os socialistas indagarão: são, mesmo, socialistas? Ainda pertencem ao universo da esquerda?
Mais grave do que os riscos de deturpação ideológica política, contudo, são os riscos de deterioração ética.
Sem dúvida, todos nós estamos sempre - socialistas, comunistas, social-democratas, liberais, conservadores - vulneráveis ao cinismo, submetidos à tentação do comportamento antiético, sabendo que a sociedade que gira em torno do mercado só cobra de nós uma coisa: que a gente leve vantagem.
Determinados movimentos, porém, facilitam certo relaxamento ético.
Pode ser que eu me engane, mas um revolucionário radical que perde a fé na revolução e descobre que um programa moderado pode levá-lo ao poder, precisará redimensionar seu projeto inicial de transformação da sociedade. Esse redimensionamento pode ser um avanço do bom senso, como pode ser também uma diminuição amesquinhadora da ambição generosa que estava no ponto de partida.
Espero que os leitores me entendam: não estou acusando ninguém. Estou fazendo apenas uma reflexão teórica abstrata sobre um tema que poderia ser considerado psicológico.
Se o velho ideal revolucionário morre, o vácuo deixado por essa morte na consciência política pode ser ocupado por um certo cinismo. O militante pode decidir que não se deixará arrastar como um ingênuo pelo discurso sectário ou moralista de seus companheiros. Não estou dizendo que esse tipo de fenômeno acontece necessariamente. Ao contrário, uma coisa positiva que pode ser observada a respeito da condição humana é que essa deterioração ética, afinal, não seja um acontecimento freqüente.
O simples fato de que ela exista, no entanto, funciona como um alarme para nós.
Ao observarmos a migração de homens da esquerda radical que se deslocaram para posições de centro (ou mesmo de direita), não podemos deixar de formular hipóteses que vão além das análises histórico-políticas. E atravessam o campo da ética.

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