MORTE DE BOBBIO; O PESSIMISMO CONTRA O DERROTISMO
Quem era, exatamente, esse Norberto Bobbio, que faleceu há pouco mais de uma semana?
A pergunta pode parecer tola, pois a obra desse autor é relativamente bem conhecida entre nós. Norberto Bobbio é, notoriamente, um dos nomes mais importantes e mais respeitados no campo da filosofia política contemporânea.
Nascido em 1909, no Piemonte, o pensador italiano lecionou filosofia do direito durante cerca de 40 anos na Universidade de Turim e foi designado senador vitalício pelo presidente da República em 1984.
O público leitor brasileiro que se interessa por filosofia política já o conhecia bem. Muitos dos seus livros foram traduzidos e publicados no nosso país. Entre eles, podemos lembrar: A teoria das formas de governo (1980) e Direito e Estado no pensamento de Kant (1987), da editora da Universidade de Brasília; Qual socialismo? (1983), O futuro da democracia (1986) e Estado, governo, sociedade (1987), da editora Paz e Terra; Sociedade e Estado na filosofia política moderna (1986), Liberalismo e democracia (1988) e Estudos sobre Hegel (1989), da editora Brasiliense; Thomas Hobbes (1991) e A era dos direitos (1992), da editora Campus; e O conceito de sociedade civil em Gramsci (1982), da editora Graal.
Mais recentemente, a editora Contraponto publicou uma excelente antologia de textos de Bobbio intitulada O filósofo e a política, e a editora da Unesp lançou Direita e esquerda, ensaio no qual o pensador nos adverte para o fato de que os dois pólos contrapostos continuam existindo na história política atual.
O livro mais influente de Bobbio é, provavelmente, o Dicionário de política, realizado com a colaboração de Matteucci e Pasquino, editado no Brasil pela UnB.
Mas a existência de tantas edições, de tantas traduções, não significa - é claro - que tudo de importante já seja conhecido a respeito do pensamento de Bobbio.
A morte do pensador é uma ocasião que nos incita, cada um de nós, a recordar o que lemos de sua autoria. Incita-nos a indagar o que lhe devemos, em que suas idéias mexeram conosco.
Bobbio se interrogou durante os últimos 60 anos, obsessivamente, a respeito de quais os caminhos práticos e jurídicos que poderiam proporcionar aos seres humanos o máximo de liberdade de que podem desfrutar.
Em seu compromisso com a liberdade, o filósofo insistiu em preservar os melhores valores presentes na trajetória do liberalismo, combinando-os, completando-os e corrigindo-os com os melhores valores criados pelo socialismo. Bobbio se concebia como um liberal que, em princípio, não recusava o socialismo, porém cobrava dos socialistas explicações relativas ao como pretendiam governar e solicitava que explicitassem que garantias dariam aos cidadãos em geral (incluídos no exercício da cidadania os não socialistas) para atuarem politicamente de maneira efetivamente livre.
Batalhava incansavelmente pelos direitos humanos, contra a opressão das minorias e contra o fanatismo. Lutava pelo pluralismo, pelos valores éticos, pelo diálogo, contra o dogmatismo.
Observando o mundo à sua volta, Bobbio não enxergava razões para ser otimista. Uma vez, ele foi interpelado por alguém que desejava saber em que esperança podia se apoiar. Respondeu: ''Não tenho nenhuma esperança. Como leigo, vivo em um mundo que desconhece a dimensão da esperança. Sim, a esperança é uma virtude teológica. Quando Kant afirma que um dos três grandes problemas da filosofia é 'o que devo esperar?', refere-se, com tal pergunta, ao problema religioso. As virtudes do leigo são outras: o rigor crítico, a dúvida sistemática, a moderação, a não prevaricação, a tolerância, o respeito pelas idéias alheias; virtudes mundanas e civis''.
Essa convicção - bastante polêmica - nos ajuda a compreender o programa implícito no trabalho intelectual de Bobbio. Havia na perspectiva filosófica do pensador uma disposição inabalável para a desconfiança ante qualquer transcendência, histórica ou religiosa, mística ou dialética, voltada para o além ou para o futuro. Bobbio se sentia radicalmente comprometido com o correto entendimento do presente, com uma compreensão realista (por isso, relativista) da verdade.
Realizou um enorme esforço para evitar ao máximo ceder a qualquer ilusão ou acolher teorias consoladoras. Sua observação sóbria e seca da realidade do nosso tempo levava-o, naturalmente, a uma visão pessimista.
Bobbio assumia esse pessimismo, mas fazia uma ressalva que muito o honra: distinguia pessimismo de derrotismo.
Defendendo a fecundidade do pessimismo, o filósofo escrevia: ''O pessimista constata que as coisas vão mal e fica profundamente perturbado com isso; o derrotista constata que as coisas vão mal e fica alegre com isso. O primeiro tem medo porque espera; o segundo não tem medo porque já perdeu toda a esperança e porque se desespera''.
O que Bobbio queria era que nós não recorrêssemos a esperanças frágeis, capazes de nos enganar. Queria que nós reconhecêssemos a implacável dureza da nossa situação e, não obstante, continuássemos a lutar.

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