18.5.03


Presidente tem 222 pedidos de entrevista, nenhum atendido; fez 74 discursos e já convocou cadeia de rádio e TV

Lula discursa muito, mas evita a imprensa
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva completou quatro meses e meio de governo sem conceder entrevistas. Apesar dos 222 pedidos feitos à Secretaria de Imprensa do Planalto, por jornalistas brasileiros e estrangeiros, o presidente optou por comunicar-se com a sociedade por meio de discursos -ele fala sobre o assunto que quer e como quer, sem correr o risco de ser questionado.

A assessoria do Planalto nega que o presidente adote comportamento esquivo. Segundo seu núcleo de comunicação, Lula está "conversando o tempo inteiro" com a sociedade por discursos.

O professor Mauro Porto, coordenador do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política da UnB (Universidade de Brasília), avalia que essa estratégia visa eliminar a mediação dos jornalistas na comunicação, porque "o presidente e seus assessores sabem que, em uma entrevista, ele vai ser confrontado com perguntas difíceis".

Para Porto, a estratégia do "diálogo direto" com a sociedade é ruim para a qualidade do debate político, já que pontos de vista divergentes ficam prejudicados. "É muito clara a preocupação deste governo em gerenciar o noticiário. A intenção é garantir o maior controle possível das notícias sobre o governo", diz.

Porto cita um precedente histórico: o do ex-presidente americano Ronald Reagan (81-89), que interrompeu uma tradição de entrevistas na Casa Branca, induzindo jornalistas a gritar perguntas para ele nas ocasiões em que estava acessível, inclusive em trânsito.

No governo Lula, as tentativas de entrevista durante as aparições públicas do presidente têm sido motivo de tensão. Durante a visita de Lula a Itinga (MG), na caravana do primeiro escalão do governo a regiões miseráveis do país, um assessor do presidente chegou a bater no braço de um repórter, tentando derrubar seu gravador.

Há duas semanas, um assessor impediu outro jornalista de dirigir perguntas ao presidente enquanto ele passava, chamando-o de "mal-educado" e "inconveniente". Na quinta-feira passada, o presidente desceu inesperadamente ao pátio do Planalto para conversar com anistiados políticos que reivindicavam indenizações. Formou-se um grande empurra-empurra, com a presença de repórteres, fotógrafos e cinegrafistas. No meio do tumulto, um funcionário da Secretaria de Imprensa gritava aos seguranças: "Se tiver gravador, tira da frente".

Antecessores

Cada governante cria um estilo e um padrão de relacionamento com a imprensa e a sociedade. Emílio Garrastazu Médici (1969-74) governou com a imprensa sob censura. Só concedeu entrevistas para falar de futebol. Ernesto Geisel (1974-79) era um túmulo. Limitou-se a conceder duas únicas entrevistas durante seu governo.

A redemocratização do país alterou muito esse quadro. Desde José Sarney (1985-90), o presidente mais informal no relacionamento com a imprensa foi Itamar Franco (92-94). Costumava chamar os jornalistas que faziam a cobertura do Planalto para comer pão-de-queijo em seu gabinete.

Fernando Henrique Cardoso (1994-2002) convocou uma grande entrevista ao completar 100 dias de governo. Lula, que em 98 protestou muito pelo fato de FHC recusar-se a debater com ele na TV durante a campanha presidencial, optou por convocar uma cadeia nacional de rádio e TV ao atingir 100 dias de mandato.

No último dia 9, em Rio Branco (AC), incluiu nos agradecimentos os "os jornalistas que nem sempre escrevem o que a gente diz".

11.5.03

MÃE-RESISTÊNCIA

Dona Olga conta que, desde os 10 anos, o atual ministro-chefe da Casa Civil dizia que seria presidente

Mãe de Dirceu ficou dez anos sem notícias
CLÁUDIA TREVISAN


12 de outubro de 1968. A família Oliveira e Silva se reúne na sala para a "estréia" do televisor que o patriarca, o sr. Castorino, havia recebido de um consórcio algumas horas antes. O noticiário da noite traz para a casa da pequena Passa Quatro (MG) a imagem que marcou a vida de dona Olga Guedes da Silva: a de seu filho José Dirceu de Oliveira e Silva entrando em um camburão, depois de ser preso com 920 pessoas que participavam do congresso clandestino da UNE (União Nacional dos Estudantes) em Ibiúna (SP).

Quase um ano depois, a televisão também foi o veículo pelo qual da. Olga soube que o filho seria trocado pelo embaixador americano Charles Elbrick e deixaria o país por tempo indeterminado. O hoje ministro-chefe da Casa Civil tinha 23 anos e integrava o grupo de 15 presos políticos que foi libertado em 6 de setembro de 1969 em troca de Elbrick, sequestrado por organizações de esquerda.

A liberdade veio acompanhada do banimento, que levou Dirceu a mergulhar no exílio e na clandestinidade por 10 anos. Nesse período, da. Olga não falou com o filho e teve poucas notícias de seu paradeiro. Soube que ele foi para o México e, depois, para Cuba. Mas com o tempo deixou de ter a certeza de que ele estava vivo, apesar de dizer que nunca perdeu a esperança de que ele voltaria.

Como dezenas de "mães-resistência", da. Olga esperou no Brasil, sempre em Passa Quatro, pelo momento de rever o filho. Alguns não sobreviveram, como lembrou o ministro em seu discurso de posse, que dedicou à sua geração, marcada pelo movimento estudantil da década de 60. O seu filho, da. Olga reencontrou em 18 de dezembro de 1979, no aeroporto de Congonhas, em São Paulo.

A certeza da volta foi se formando aos poucos, à medida que a família lia nos jornais e via na televisão as imagens dos exilados que retornavam ao país depois da aprovação da Lei da Anistia, em agosto daquele ano.

"Começaram a voltar alguns exilados e, claro, achamos que ele também viria", disse da. Olga à Folha na sua casa em Passa Quatro, cidade mineira de 15 mil habitantes encravada na Serra da Mantiqueira, onde nasceu Dirceu. Prestes a completar 83 anos no dia 17 de maio, da. Olga também viu pela televisão a posse do filho na Casa Civil.

A imagem da prisão no congresso da UNE também abalou sr. Castorino, que morreu no dia 5 de outubro de 1998, um dia depois de o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, ser derrotado na reeleição de Fernando Henrique Cardoso. "Foi a primeira vez que vi meu pai chorar", lembra Ana Maria, a quinta dos seis filhos de da. Olga. O ministro tem mais uma irmã, Neide, filha do primeiro casamento de sr. Castorino.

O fascínio pela política Dirceu herdou do pai, tipógrafo que foi um udenista apaixonado. "Em casa sempre tinha cartaz e uma porção de coisas da UDN", lembra da. Olga. A mãe diz que percebeu cedo a inclinação do filho. "Quando ele tinha 10 ou 11 anos, ele me disse "mãe, o seu filho ainda vai ser presidente da República". Você acredita?", lembra.

Não é uma frase rara em crianças dessa idade, mas no caso dele, a profecia quase se concretizou. Dirceu dá expediente no 4º andar do Palácio do Planalto, um acima do gabinete do presidente Lula.

Na volta ao Brasil, em 79, Dirceu trouxe na bagagem uma história de 10 anos, 4 dos quais passados como clandestino em Cruzeiro d'Oeste, no Paraná, com o nome de Carlos Henrique Gouveia de Mello. "Já pensou? Ele esteve no Brasil e a gente não ficou sabendo."

Antes de assumir a identidade de Carlos Henrique Gouveia de Mello, Dirceu realizou uma cirurgia plástica em Cuba, que mudou seu nariz e deixou as maçãs do rosto mais salientes. Com a anistia, ele voltou a Cuba, desfez a cirurgia e retornou ao Brasil como se tivesse passado os 10 anos realmente fora do país.

Católica praticante, da. Olga rezava a Nossa Senhora Aparecida e a São Sebastião para pedir proteção ao filho durante o período em que ele esteve ausente. E sempre que fala com Dirceu, diz que continua a rezar, "porque em política, assim como você está bem em um dia, no outro pode estar mal".

Da. Olga diz que ela e o marido nunca tentaram dissuadir o ministro a abandonar a política, nem mesmo depois do exílio. "Era a vida dele. É a vida dele. Ele sempre gostou, sempre liderou." Com a fundação do PT, o casal acompanhou a opção política do filho e passou a votar nos candidatos do partido. "Sou petista, meu voto é do PT", afirma da. Olga, que apesar disso não faz campanha para o partido em Passa Quatro.

A mãe do chefe da Casa Civil também nunca votou no filho, que sempre se candidatou pelo Estado de São Paulo. Na última eleição, Dirceu recebeu 556.563 votos e foi o segundo deputado federal mais votado do país.

Quando o filho-criança falou que queria ser presidente, da. Olga foi rápida: "Nossa meu filho, eu não quero isso para você não".
Hoje é menos enfática e repete o que parece ser um de seus bordões preferidos: "Fazer o quê?".


SEGUNDA ONDA

Presidente impõe à equipe meta de crescimento de 3,5% para 2004

Medo de repetir FHC leva Lula a exigir "virada" na economia

JOSIAS DE SOUZA
DIRETOR DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Luiz Inácio Lula da Silva acha que chegou a hora de planejar a "virada" na economia. Em discussões reservadas com um seleto grupo de ministros, o presidente mostra-se obcecado pelo vocábulo "crescimento". Impôs à equipe uma meta: quer que o PIB do país cresça pelo menos 3,5% em 2004.

Lula impacienta-se com a tese de que o seu governo repete no essencial a administração de Fernando Henrique Cardoso. Daí a obsessão pela retomada do desenvolvimento. O ânimo mobiliza a Esplanada dos Ministérios.

Monta-se nos subterrâneos uma estratégia chamada por algumas autoridades de "fase dois". Não se trata de nenhuma ruptura em relação à política do ministro Antonio Palocci Filho (Fazenda). Ao contrário. Parte-se da avaliação de que, em quatro meses, Palocci construiu uma atmosfera de "estabilidade" que faculta vôos mais ambiciosos.

A intenção é usar o resto de 2003 para armar a "plataforma" do crescimento. Envolve basicamente iniciativas para: 1) tonificar a poupança interna do país; 2) financiar micro, pequenos e médios empreendedores; 3) incrementar as exportações; 4) direcionar a aplicação de incentivos fiscais; 5) seduzir aplicadores estrangeiros para o investimento de risco; e 6) estabelecer parcerias entre o governo e a iniciativa privada nacional.

Sob reserva, Lula reconhece uma lacuna na sua formação: não domina como gostaria os meandros da macroeconomia. Empenha-se para superar a deficiência. Encomenda relatórios. Dá preferência a textos curtos. Devora-os. Grifa trechos que julga relevantes. Faz anotações à margem dos papéis. Criva os auxiliares de perguntas.

Debate

O estabelecimento da meta de 3,5% do PIB para 2004 foi precedido de um debate entre Planalto e Ministério da Fazenda. Armaram-se diferentes cenários. Embalados pela maré de boas notícias -arrefecimento do chamado risco-país, queda do dólar e inflação cadente-, os técnicos da equipe econômica julgavam factível chegar a 4%.

Coube a Lula a opção pelo percentual mais modesto. Argumentou que prefere caminhar a um ritmo mais lento a ter que dar passos para trás. De resto, abomina a hipótese de deitar sobre o papel objetivos que não possam ser convertidos em realidade.

A taxa de 4% foi jogada para 2005. Para 2006, previu-se crescimento de 4,5% do PIB. Os números foram à LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias). As condicionantes que envolvem a economia emprestam à sequência de percentuais a aparência de um exercício de adivinhação. Mas Lula trata os dados como imperativos de governo.

A história recente dá uma medida da confiabilidade de previsões do gênero. Sob FHC, registraram-se diferentes previsões. Em 2000, o próprio Fernando Henrique anunciou, em três ocasiões diferentes, o percentual de 4% como "piso" para o crescimento. No mesmo ano, Armínio Fraga, então presidente do Banco Central, previu 6,5% para 2001. Vencidos os oito anos de tucanato, a média de crescimento econômico ficou em modestos 2,3% do PIB.

Compõem o núcleo de análises desenvolvimentistas de Brasília os seguintes ministros: Antonio Palocci Filho (Fazenda), José Dirceu (Casa Civil), Luiz Gushiken (Secretaria de Comunicação e Gestão Estratégica), Luiz Dulci (Secretaria geral da Presidência), Tarso Genro (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social) e Ciro Gomes (Integração Nacional).

Ciro Gomes

Ciro integrou-se ao grupo por iniciativa de Lula. O presidente foi cativado pela "lealdade" e "discrição" do auxiliar. Ao acomodá-lo no ministério, em janeiro, receava que houvesse nomeado um problema. Hoje, parece convencido do contrário.

Ciro esquiva-se de jornalistas. Por vezes, diverge de estratégias do governo. Mas guarda as críticas mais acerbas exclusivamente para os ouvidos de Lula. O presidente identifica na dissonância do ex-adversário um timbre "construtivo".

Em silêncio, Ciro remonta a engrenagem de incentivos fiscais do governo. A idéia é retirar-lhes o caráter aleatório, direcionando-os para empreendimentos que o Planalto julgue relevantes. O ministro tenta pôr de pé novos fundos de desenvolvimento regional. Simultaneamente, revolve as cinzas das extintas Sudam Sudene, autarquias voltadas respectivamente para inversões fiscais na Amazônia e no Nordeste.

A Gushiken foi confiada a tarefa de supervisionar uma iniciativa que Lula julga primordial: a "democratização" dos fundos de previdência. Novas regras vão abrir caminho para a constituição de fundos de pensão de categorias específicas.
Imagina-se que a proliferação de fundos irá vitaminar a poupança interna do país, cuja aplicação ajudaria a compensar a falta de dinheiro do Estado para investir, por exemplo, em infra-estrutura.

Tarso Genro recebeu a incumbência de abrir no CDES (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social) debate em torno de um projeto de desenvolvimento para o país. O encargo foi comunicado aos conselheiros pelo próprio Lula, em carta pessoal.

Conselheiros
Constituiu-se um subgrupo para tratar do tema. Integram-no 65 conselheiros, entre empresários, sindicalistas e acadêmicos. Funcionará longe de Brasília. Haverá reuniões no Rio e em São Paulo. A primeira delas, marcada para o próximo dia 28, ocorrerá na capital paulista, onde estava Genro na última quinta-feira, para cuidar dos preparativos.
Luiz Dulci percorre o país em missões oficiais. Inclui no roteiro visitas a entidades empresariais. Já esteve três vezes na CNI (Confederação Nacional da Indústria). Foi também a três federações estaduais: Fiesp (São Paulo), Fiemg (Minas Gerais) e Fiergs (Rio Grande do Sul).

Dulci reúne-se ainda com intelectuais ditos progressistas. Na última terça-feira, em São Paulo, encontrou-se em segredo com 18 acadêmicos. Portou-se com método.

Apresentando-se como enviado de Lula, fez uma exposição minuciosa. Foi do social à política externa. No trecho dedicado à economia, mencionou os planos de retomada do desenvolvimento, que serão explicitados, segundo disse, no PPA (Plano Plurianual). Trata-se do programa de investimentos para os próximos quatro anos, a ser fechado em junho.
Depois, Dulci abriu espaço para manifestações da platéia. Em três horas de reunião, ouviram-se mais críticas que elogios. Auxiliares do ministro tomaram nota das observações, repassadas a Lula. Ausente do encontro, Antonio Candido mereceu uma visita exclusiva de Dulci.

O presidente deseja antecipar-se a eventuais surtos de insatisfação de um público que julga formador de opinião. Haverá novos encontros. O próximo, ainda sem data marcada, reunirá a intelectualidade do Rio de Janeiro.
Todos os planos do governo pressupõem a aprovação pelo Congresso das reformas previdenciária e tributária. Na visão oficial, um eventual insucesso parlamentar envenenaria o cenário de calmaria econômica. Uma hipótese com a qual Lula prefere não trabalhar.

A pedido do presidente, Antonio Palocci ocupa-se inclusive da elaboração de projetos de lei que complementarão as reformas. A fase "infra-constitucional", como é chamada, deve ser ainda mais complexa do que a atual, segundo a previsão de Palocci.
José Dirceu joga a sua reputação de bom estrategista na aprovação das reformas até outubro, como deseja Lula. Responde à rebeldia petista com pulso de ferro. Seduz parlamentares com as armas de que dispõe, inclusive cargos e verbas.
Embora tenha se fixado na idéia de preparar o terreno para 2004, Lula tem pressa. Há um mês, convocou ao Planalto os presidentes do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Carlos Lessa; do Banco do Brasil, Cássio Casseb; e da CEF (Caixa Econômica Federal), Jorge Mattoso.

Pediu-lhes prioridade na concessão de empréstimos ao setor produtivo. Pediu que dessem atenção ao microcrédito (empréstimos para classes C e D) e às pequenas empresas. À CEF, recomendou também o incremento das inversões em saneamento básico e habitação popular.

SEGUNDA ONDA

Ministro diz que macroeconomia continuará "firmemente monitorada" e rebate acusação de Cacá Diegues

Gushiken anuncia foco na política industrial
KENNEDY ALENCAR
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O ministro Luiz Gushiken (Comunicação de Governo e Gestão Estratégica) diz que "haverá uma segunda fase na política econômica, mais focada para política industrial e comercial".
Na primeira entrevista exclusiva desde que virou ministro, Gushiken afirma: "Haverá, daqui para frente, a prevalência de atitudes de microeconomia, mas a macroeconomia continuará a ser monitorada firmemente" pelo ministro da Fazenda, Antonio Palocci Filho. Palocci, aliás, é classificado por Gushiken como "uma das maiores revelações da política brasileira, pela capacidade que demonstrou ao lidar com uma herança tão difícil na economia".
Segundo Gushiken, o cineasta Cacá Diegues não tinha razão ao acusar sua secretaria de tentativa de dirigismo cultural por querer fixar contrapartida social ao patrocínio de filmes. Diz, porém, ser preciso discutir o financiamento da produção cultural pelo Estado: "No Brasil, esse financiamento está muito vinculado às empresas estatais, e isso não é correto".
Ele deixa claro que acha que a disputa por recursos da BR Distribuidora são uma das causas das críticas que recebeu. O ministro conta que, na próxima semana, lançará uma licitação para centralizar em três agências a publicidade institucional do governo. Leia a seguir trechos da entrevista dada por Gushiken, 52, em seu gabinete, anteontem, em Brasília:



Folha - O cineasta Cacá Diegues disse que as regras do PT para financiamento cultural lembravam a ditadura. Dias depois, o sr. se reuniu com ele e suspendeu os critérios que deram origem à polêmica. O cineasta tinha razão?
Luiz Gushiken - Não. Achei mais prudente estancar um debate que colocou em suspeição o governo em relação a uma questão-chave, a liberdade de expressão, algo que o PT sempre prezou. As coisas estavam se dirigindo para um debate infrutífero. Sugeri estancar isso e que o ministro Gilberto Gil, de acordo com sua competência, no âmbito do Ministério da Cultura, tomasse a iniciativa de abrir amplo debate para discussão de política cultural.


Folha - Foi um recuo tático para o governo insistir nos critérios e na contrapartida social?
Gushiken - Não. A palavra contrapartida social não surgiu agora, já era orientação do governo anterior na própria BR Distribuidora e continuará a ser.


Folha - Um grupo de cineastas criticou Cacá Diegues? Um dos ingredientes desse debate é a briga por verbas na BR?
Gushiken - Existe um debate que precisa ser esclarecido sobre a maneira como se financia a produção cultural. No Brasil, esse financiamento está muito vinculado às empresas estatais e isso não é correto. É preciso que se abram outros mecanismos de financiamento, de natureza privada, sob pena de sobrecarregar demais as empresas do governo. Um pouco da tensão foi gerada por escassez de recursos e mais ainda por uma liberação de verbas contratadas no governo anterior, comprometendo recursos de 2003, 2004 e 2005. A BR foi colocada numa situação de muita dificuldade, já que basicamente é ela que oferece recursos na área de indústria do cinema. Daí a minha preocupação para que os dirigentes de estatais discutam forma mais adequada para atender a demandas legítimas, mas que não podem ficar concentradas numa só empresa.


Folha - Por que sua pasta centralizou a publicidade institucional?
Gushiken - Há três tipos de publicidade. A publicidade estatal continua com as empresas. A publicidade de utilidade pública, como campanhas de vacinação, permanece nos ministérios. A Secretaria de Comunicação no governo anterior era muito normativa. Não tinha recursos. Havia dispersão de agências de publicidade, havia várias marcas de governo. Cada ministério tinha suas agências, suas marcas. Centralizamos a publicidade institucional, que é de R$ 113 milhões no Orçamento, mas que virou
R$ 48 milhões após o contingenciamento, para dar uma linha única e coerente.


Folha - Há intenção de centralizar em poucas agências essa conta?
Gushiken - A idéia para a nova licitação que abriremos a partir da semana que vem é que apenas três agências fiquem incumbidas da publicidade institucional.


Folha - O publicitário que mais trabalha com o sr. é o Duda Mendonça, que fez a eleição do Lula. Qual o papel dele, que criou a campanha das reformas?
Gushiken - Até a posse, o Duda fez um intenso trabalho contratado pelo PT. Na campanha das reformas, a agência do Ministério do Planejamento, que tenho de usar porque não tenho agência contratada, achou por bem recorrer à ajuda do Duda. Segundo a Propeg, é prática normal do mercado. Não serei eu a me opor à contribuição do Duda Mendonça.


Folha - A Globo resiste a dar descontos a anúncios oficiais? O desconto pedido é de 70%?
Gushiken - Esse índice de 70% não existe. A Globo diz que tem uma sistemática de negociação com seus clientes. E nós colocamos que temos uma sistemática nova, que não colide com a maneira como ela pensa. É perfeitamente possível negociar. Estamos numa fase avançada com quase todos os veículos, negociando com zelo pelo dinheiro público.


Folha - O sr. se assustou quando descobriu os preços praticados? O governo pode economizar?
Gushiken - Pode economizar muito. Há uma multiplicidade de estatais e ministérios. Cada unidade discutia cada programa específico. O que fiz foi juntar todos num comitê e solicitar a cada unidade que fizesse uma programação de período relativamente grande, para planejar o gasto em um período. É bom para o governo e para as empresas de mídia, porque há programação. Todos estão gostando, no que pese, do ponto de vista dos veículos de comunicação, um desconto que não estavam acostumados a oferecer.

Folha - Em média, quanto o sr. está conseguindo de desconto?
Gushiken - É segredo comercial, mas é bastante significativo.


Folha - Esse sistema de compra se estenderá para todo o governo?
Gushiken - Já sugeri ao ministro da Casa Civil, José Dirceu, que juntasse os ministros para ver como cada um age nessa área. Compras governamentais têm sido objeto de atenção nas discussões da Alca (Área de Livre Comércio das Américas) e da OMC (Organização Mundial do Comércio). Grandes acordos comerciais entre países sempre envolvem compras governamentais. Em tempos de ajuste fiscal, é fundamental.


Folha - O governo ficará satisfeito apenas com os bons resultados colhidos até agora com a rígida política monetária e fiscal? Prepara algo diferente em termos de política de desenvolvimento? Haverá uma segunda onda na política econômica?
Gushiken - Os instrumentos de macroeconomia, que foram decisivos para o Brasil pudesse encontrar seu equilíbrio e produzir uma esperança no futuro, são fundamentais e serão monitorados diariamente. Entretanto, as políticas de microeconomia tem uma complexidade de outro tipo. Exemplo: é fazer com que os recursos para microempresários que saem do Banco do Brasil cheguem efetivamente ao cidadão, cheguem à ponta da linha. Essas políticas de microeconomia demoram mais a mostrar eficiência, mas há uma preocupação do governo em agilizá-las.
Sou sempre prudente, mas haverá uma segunda fase na política econômica mais focada para política industrial e comercial. Haverá, daqui para a frente, a prevalência de atitudes de microeconomia, mas a macroeconomia continuará a ser monitorada firmemente pelo Palocci, uma das maiores revelações da política brasileira, pela capacidade que demonstrou ao lidar com uma herança tão difícil na economia.
Já discuti com o ministro do Turismo, Walfrido Mares Guia, a necessidade de desencadear um processo de promoção do Brasil no exterior. Há uma crise mundial nesse área, desencadeada pelo 11 de setembro, pelas guerras e agora pela pneumonia na Ásia. O Brasil não tem esses problemas e pode dar um salto na área.


Folha - De onde sairão os recursos? Os bancos públicos têm limites para aumentar o financiamento.
Gushiken - Essa pergunta é importante. Na conversa com o ministro da Turismo, disse que o próximo passo seríamos procurar o Palocci e o BNDES e o Sebrae.

7.5.03

NO AR

Milhões

NELSON DE SÁ
EDITOR DA ILUSTRADA

Gilberto Gil ganhou o que queria. Dinheiro.
Como indicou na Globo um dos cineastas lobistas, a revolta dos produtores cariocas foi com a concentração de dinheiro nas mãos de Luiz Gushiken. Dele, Zelito Viana:
- São R$ 600 milhões. A secretaria (de Gushiken) fechou isso tudo em suas mãos.
Não mais. No dizer de Gil, "agora as políticas culturais voltam a ser conduzidas pelo Ministério da Cultura".
O produtor Luiz Carlos Barreto e seus porta-vozes também ganharam o que queriam. Dinheiro.
Gushiken anunciou que vai ordenar às estatais que "agilizem os projetos com contratos já firmados", em outras palavras, que retomem a liberação de dinheiro.
E assim o que a Globo vem chamando de "classe artística" saiu em paz com Lula, bradando "viva a cultura".
Só restou a interrogação sobre o que ganha a Globo. Desde o fim de semana, os artistas ouvidos nos telejornais da emissora se resumiram a três ou quatro, incluindo os citados.
E foram telejornais sobre telejornais, começando pelo Jornal Nacional, dando voz a um lobby avassalador.
O lobby venceu, de novo.

A piada do "dirigismo cultural" ficou ainda mais evidente com uma aberrante declaração de Zelito Viana:
- Que uma empresa privada, que me dá dinheiro para um filme, faça merchandising, vá lá. Agora, o governo querer?
É a diretriz cultural que imperou na última década e meia, transferindo aos gerentes de marketing -com dinheiro público- a decisão sobre a produção artística.
Lula foi eleito com a promessa de acabar com isso. Mas aí escolheu Gil para ministro.
*
Já que se fala tanto em dinheiro, vale lembrar: é hoje, em Brasília, o julgamento das contas de Norma Benguell.

5.5.03

A TOLICE DA APOSENTADORIA FORÇADA

Mesmo com mais expectativa de vida, companhias mantêm saída compulsória

WASHINGTON. Os investidores de Wall Street ficaram satisfeitos quando, há cerca de dez dias, George W. Bush sugeriu que Alan Greenspan, de 77 anos, deveria cumprir mais um mandato de quatro anos na presidência do Federal Reserve (Fed, o banco central americano). O gesto de Bush foi um golpe em uma das maiores tolices do mundo dos negócios: a aposentadoria compulsória dos altos executivos aos 65 anos. E mesmo que as empresas não se livrem de seus executivos idosos, investidores e analistas agem como se o lugar de um diretor de 65 anos fosse o Recreio dos Anciãos, não a mesa de reuniões.

É claro que nem todos os executivos devem passar a terceira idade à frente de uma grande corporação. A tarefa é exaustiva. As pessoas de 70 anos, em geral, não têm a mesma agilidade mental dos de 50. Mas há algo de arbitrário em uma idade de aposentadoria. O fato de o mercado ter ficado aliviado com o fato de que Greenspan vai completar 80 anos à frente da maior economia do mundo mostra que reputação e desempenho valem mais que a idade.

Os executivos estão mais jovens. Segundo uma pesquisa da consultoria Spencer Stuart, a média de idade dos diretores das 700 maiores empresas americanas caiu de 59 em 1980 para 56 em 2000. Mas juventude não é sinônimo de competência. Muitas empresas dirigidas por executivos jovens deram com os burros n’água recentemente, enquanto muitas pilotadas por tipos não tão jovens têm se agüentado bem.

Sob a direção de Sanford Weill, que completou 70 anos em março, o Citigroup está esmagando seus rivais. O diretor-executivo do American International Group (AIG), Maurice ?Hank? Greenberg, de 77 anos, ajudou a multinacional de seguros a sobreviver à crise mundial do setor. Na área de mídia, dois veteranos bem-sucedidos: Sumner Redstone, de 79 anos, da Viacom, e Rupert Murdoch, de 72 anos, da News Corp.

A aposentadoria compulsória também pode ter efeitos negativos para as empresas. Jack Welch, mais ativo aos 65 anos que muitos doutorandos de 25, teve de deixar a General Electric (GE) em 2001 devido à política interna da empresa. Apesar da competência de seu sucessor, Geoffrey Immelt, é certo que as ações da GE estariam melhores com Welch no timão.

A idade também não é sinal de dedicação. O quarentão Jeffrey Skilling jura que não sabia de nada do que acontecia na Enron. Mas Irwin Jacobs, de 69 anos, está intimamente envolvido com o desenvolvimento da tecnologia sem fio da Qualcomm.

A idade de 65 anos continua sendo um parâmetro para a aposentadoria, apesar dos avanços da área de saúde e dos cuidados que cercam os executivos. Afinal, com seus pacotes de benefícios, eles vivem cercados por nutricionistas e personal trainers para garantir a sua saúde.

Talvez a melhor razão para acabar com a aposentadoria compulsória seja o fato de que a História é uma boa professora. No momento em que lutamos contra uma recessão persistente, talvez seja bom termos líderes que ainda se lembrem ? ainda que vagamente ? da Grande Depressão dos anos 30.

4.5.03

JANIO DE FREITAS

Uma diferença imprevidente

A diferença entre uma reforma verdadeira da Previdência e o projeto apresentado pelo governo ao Congresso é igual à diferença entre o candidato Lula e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ao projeto não se pode negar, portanto, a coerência com a continuidade dada, no atual governo, às concepções ideológicas e administrativas do governo anterior.

A visita política de Lula à reunião da CNBB não impediu que os mais de 300 bispos emitissem uma avaliação devastadora do projeto governamental, nele identificando o erro original de considerar a Previdência apenas como "problema contábil", e não como problema administrativo, sim, mas com implicações sociais e econômicas gigantescas. Uma das muitas observações críticas da CNBB bastaria, por si só, para definir o projeto governamental: projeto de reforma previdenciária que desconsidera 57% da população ativa, hoje se virando sem registro de trabalho e sem os respectivos direitos, não toca nem no "grande desafio social". Logo, não é reforma.

Outra instituição que o antigo Lula e as ex-oposições tiveram como aliada contra a usurpação de direitos e projetos conservadores, a OAB agora está negando confiabilidade aos números do governo, relativos ao alegado buraco previdenciário. E lança a Lula o desafio de abrir a "caixa-preta" da Previdência com a auditoria indispensável, mas não realizada, a um projeto responsável de reforma.

A pretensa reforma do governo consiste, basicamente, em introduzir variadas reduções em salários e aposentadorias atuais, com ampliação ou aplicação de descontos para a Previdência; abolir direitos da maior parte dos servidores civis em atividade e reduzi-los para os futuros quadros do funcionalismo que continuará sem ter, sequer, algo como o FGTS para a hora do ocaso. Tal como prega o FMI, na "reforma" de Lula só há os cofres da Previdência. Não há assalariados, nem aposentados, nem servidores ativos, nem inativos.

As iniquidades da Previdência estão cuidadosamente preservadas. O médico que salva vidas nos hospitais públicos e o pesquisador que previne epidemias, por exemplo, continuam sendo seres inferiores, do ponto de visto do governo, em relação a militares, juízes, funcionários do Judiciário e do Legislativo. Mas o projeto não espera pela aprovação no Congresso para começar a produção dos seus efeitos.

O terrorismo praticado por Bresser Pereira, quando ministro da Administração no primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso, até hoje se reflete nos milhares de vagas em numerosos setores importantes do serviço publico, deixadas pelos que preferiram antecipar a aposentadoria. Só nas universidades, foram calculados em 8.000 os professores e pesquisadores que se aposentaram preventivamente.

Os que têm condições dessa antecipação, note-se, em geral são os de maior capacitação acumulada, cujo afastamento prematuro é uma perda para o Estado e para a sociedade. O terrorismo bressiano lançado no governo Lula aumentou, de imediato, os pedidos de aposentadoria em 55%. Em universidades de alto nível, o aumento já ultrapassa os 100%. E agora vai crescer mais. O projeto de Lula não conserta a Previdência e destrói ainda mais o serviço público.

Nos países desenvolvidos, a qualificação do serviço público é um cuidado especial do Estado. Estudos sobre os países asiáticos que deixaram o Brasil para trás, econômica e socialmente, identificam na qualificação do serviço público a base que propulsionou o avanço.

Sempre
O senador Antonio Carlos Magalhães incluiu, como anexos no livreto de sua pretensa defesa, artigos de jornalistas entre os quais está uma coluna aqui publicada. A pequena nota nem diz respeito ao crime de que Antonio Carlos é tido como suspeito, mas a afirmações, feitas por um de seus acusadores, sobre determinadas práticas do jornalismo.
Não seria preciso dizer que a transcrição não foi por mim autorizada. Trata-se, segundo a preferência de cada um, de apropriação indébita ou de mais uma atitude de abuso de poder.

Abandono
Passa-se alguma coisa estranha no setor de energia elétrica. Só do BNDES, as distribuidoras de energia receberam quase R$ 4,5 bilhões, entre a privatização e o fim do governo de Fernando Henrique Cardoso. Dos cofres do Tesouro Nacional, mais R$ 7 bilhões, sob o duvidoso título de compensação pelo racionamento de 2001 (a energia que não distribuída aos consumidores também não foi comprada pelas distribuidoras às usinas produtoras, como Itaipu, não havendo perdas, propriamente, a compensar).
Apesar da dinheirama transferida pelo governo para as distribuidoras (até para a privatização o governo passado concedeu-lhes mais de R$ 2 bilhões), os serviços são cada vez mais indecentes. Só para citar uma das tantas evidências agressivas, a Light, no Rio, dispensa cada vez mais funcionários. Mas, em certos bairros, chuva ou vento um pouco mais forte os deixa sem energia. Por tempo cada vez maior, porque falta interesse no reparo definitivo e pessoal para o reparo de emergência. O preço pago pelo consumidor, porém, já subiu coisa de 300%.
Cada vez mais numerosas, as atividades dependentes de computador ficam impedidas com as quedas de energia. Mas para os seus vários prejuízos - estes, verdadeiros - não há compensação do Tesouro nem das distribuidoras.