28.4.03



JEAN BAUDRILLARD

Conflito no Iraque só existiu para apagar o verdadeiro acontecimento: os atentados de 11 de setembro

Pensador diz que guerra é um "não-acontecimento"



FERNANDO EICHENBERG
FREE-LANCE PARA A FOLHA, DE PARIS

O filósofo e sociólogo Jean Baudrillard, 73, é um singular personagem da paisagem intelectual francesa contemporânea. Pensador inquieto e irrequieto, provocador e radical, irônico e paradoxal, ele exige daqueles que desejam acompanhar suas idéias o abandono de lógicas clássicas e raciocínios lineares.
Atento, a seu modo particular, às mudanças de seu tempo, ele define a recente guerra no Iraque como um "não-acontecimento", uma tentativa fracassada de apagar o verdadeiro e simbólico acontecimento: os atentados de 11 de setembro.

Para Baudrillard, o terrorismo é o suicídio do Ocidente, agente e metáfora da desintegração interna de uma superpotência mundial sem inimigos visíveis no front de combate. Essa é, segundo ele, a quarta guerra mundial que estamos vivendo. Um conflito alimentado por uma nova Guerra Fria, provocada pela obsessão de seguridade imposta pela ameaça terrorista.

No próximo mês, o filósofo desembarcará no Brasil, na Bienal do Livro do Rio, para o lançamento da edição brasileira de "Power Inferno" (ed. Sulina), uma reunião de três textos escritos em 2002: "Réquiem para as Torres Gêmeas", "Hipóteses sobre o Terrorismo" e "A Violência do Mundial". Outra de suas obras, "Telemorphose" (2001), também está com lançamento previsto para este ano no país.

No seu apartamento em Paris, próximo ao Jardim de Luxemburgo, Jean Baudrillard recebeu a Folha para expor seu pensamento sobre os acontecimentos e não-acontecimentos mundiais deste turbulento início de século.


Folha - Que relação o senhor vê entre os atentados de 11 de setembro e a guerra contra o Iraque?
Jean Baudrillard - Há, evidentemente, uma lógica na estratégia, no acontecimento político e militar. Há um tipo de encadeamento, mas também uma antinomia. Para mim, isso é o mais importante. O único e verdadeiro acontecimento foi o 11 de setembro, e a guerra é o não-acontecimento, algo que foi feito para eliminar o primeiro. A relação entre os dois não é lógica, mas é uma contratransferência. A guerra é uma reação, um meio de vencer um desafio. É uma guerra à imagem do conflito do Golfo, são quase guerras clonadas. Elas não têm sentido, são injustificáveis, mas isso já é outra coisa. A questão não é "a favor ou contra", mas saber o que significa essa guerra.


Folha - E qual é o significado?
Baudrillard - Ela existe por outra coisa, não tem sentido nela mesma e nem mesmo tem um objetivo direto. Saddam Hussein não era mais do que a sombra de um fantasma, ao contrário de Bin Laden, que tem uma outra dimensão. Há, inclusive, essa história sobre a estátua de Saddam derrubada na praça no centro de Bagdá: foi dito que era a estátua de um sósia de Saddam. Gosto muito dessa história, pois é a imagem de todo o resto, tudo é sósia, tudo é artefato. Foi um acontecimento truncado. O 11 de setembro foi algo simbólico no sentido mais forte. Já a guerra é algo no qual tudo foi encenado, programado e mesmo vencido de antemão. Foi um acontecimento sem surpresa. Mesmo assim, houve um pequeno momento no qual se pensou que o Iraque iria resistir, e o não-acontecimento estava quase se tornando um acontecimento.

Folha - Num recente debate com o filósofo Jacques Derrida, o sr. teve sua teoria questionada. Como dizer que uma guerra é virtual quando há milhares de mortos reais?
Baudrillard - Derrida dizia que os mortos iraquianos, o petróleo, tudo isso não é virtual, é real. Acho um erro. Se começamos a debater baseados no argumento das vítimas etc, não há discussão, não há mais nada a dizer. Mas o que eu quero é compreender - é ainda um direito do homem, não? Não quero ser enganado. E nesse caso há um mistificação.
Também sou contra essa superpotência mundial, mas não nessa forma antiglobalização. Sou radicalmente contra, mas quero saber de que ponto de vista podemos realmente combatê-la. Se deploramos as vítimas do World Trade Center, do Iraque e nos detemos nessa moralização, acabou. O problema, infelizmente, se tornou muito mais simples, mais violento e mais radical. E minha teoria é a de que a análise seja também mais violenta e mais radical. E nesse momento, evidentemente, ela se torna tão inaceitável quanto o acontecimento. Mas, num sentido, ela faz parte do acontecimento, como as imagens. Ela participa um pouco do mal.
Hoje, os movimentos antiglobalização, no fundo, querem ser mais moralistas do que o sistema, mais humanos. Tudo muito respeitável, mas creio que estrategicamente, politicamente não serve. Hoje, não há nada mais a fazer senão colocar o problema a partir do terrorismo. É o único contraponto. E o terrorismo não é forçosamente violento. Certamente, há formas violentas. Mas há um terrorismo "soft", mesmo no nível dos indivíduos e dos grupos. Ainda precisa ser feita uma genealogia da violência. Há a violência nos subúrbios, os carros incendiados e tudo mais. Pode-se dizer que, se eles tivessem o que comer, tudo seria tranqüilo. Não é verdade. Há os que têm o que comer, o conforto absoluto, mas, numa determinada hora, há um tipo de recusa, de negação de uma situação que se tornou insuportável. Se vamos longe demais no conforto, na superabundância, num dado momento ocorre algo de perverso.

Folha - Como o senhor acompanhou a guerra?
Baudrillard - Somos tomados pelas imagens e forçados a saber o que acontece. É algo espetacular, mas bastante abjeto, obsceno, aterrorizante pelo lado da superpotência americana e pelo outro lado, no qual não há inimigo, não há confrontos. A guerra foi um objeto perdido, não se sabe o que fazer dela. No imaginário, estamos sempre ao lado das vítimas, mas, objetivamente, estamos do lado da superpotência que ataca, e é uma situação insolúvel.
Para os americanos, não há inimigo, mas sim um terrorismo fantasma a ser eliminado, dentro da estratégia da prevenção. É o caso do filme "Minority Report", que trata da prevenção do crime antes que ele ocorra e, portanto, não se saberá nunca se ele existirá. A guerra é algo programado à repetição, ela não começa verdadeiramente, mas também não terminará. É interminável. Já o acontecimento é totalmente imprevisível e, quando ocorre, termina, e ele é, de uma certa maneira, indestrutível. Nesse confronto, há um antagonismo no qual o terrorismo é, ao mesmo tempo, agente e metáfora. E não é somente o terrorismo islâmico, mas tudo o que resiste, toda singularidade, toda recusa a essa espécie de império unilateral. A verdadeira guerra é essa, e não o confronto que se viu no Iraque.
Essa é a quarta guerra mundial. Nunca houve um verdadeiro front de guerra islâmico. Bin Laden e todo o resto não são um front. Não há uma verdadeira solução para essa guerra. Os americanos não têm verdadeiros inimigos, pois não há um face a face, não há combates. Ao mesmo tempo, eles são perdedores, pois o inimigo desapareceu, e isso é o pior que poderia ter acontecido.

Folha - O sr. coloca a verdadeira vitória do terrorismo na imposição ao Ocidente de uma obsessão pela segurança e fala de uma nova Guerra Fria.
Baudrillard - O terrorismo de seguridade é uma Guerra Fria estendida a todos os países, a todas as populações. Veja o que ocorreu no teatro de Moscou, quando o poder se voltou contra sua própria população para exterminar os terroristas e os reféns ao mesmo tempo. Essa é a verdade da situação em que vivemos. O terrorismo que está aí é, ao mesmo tempo, o produto e o contraproduto da situação atual. Ele não é o anarquismo do passado, nem também o terrorismo palestino. Não é o terrorismo suicida perdedor. Ele coloca a contestação, também pela morte, mas não tem os meios, pela globalização, de combater a superpotência segundo sua própria lógica.

Folha - O choque de civilizações é uma teoria que já teria nascido ultrapassada?
Baudrillard - Não são as civilizações que estão em questão, nem as culturas ou as religiões. Há um choque, mas é um "choque e pavor", como dizia o outro. Nesse choque, há um só conjunto, que é a globalização. Não se trata de um choque entre duas coisas. Mas é a superpotência em si que se desfaz e se desintegra. O terrorismo é o agente, o operador dessa desintegração interna da superpotência. Isso é o importante, e sem isso não compreendemos nada.
Hoje não há mais duas superpotências adversas. Já há muito tempo os americanos estudam estratégias da guerra assimétrica, na qual os dois inimigos não estão no mesmo plano. A chave da situação é que toda superpotência globalizada não pode mais lutar, na falta de inimigos, de adversidades, de alteridade. Dizer que o terrorismo tem uma causa, seja da violência histórica, do islamismo, é menos grave do que dizer que, no fundo, o terrorismo é a autodestruição da superpotência mundial.

Folha - O sr. diz que o terror está no ar e que o terrorismo não faz mais do que cristalizar partículas em suspensão.
Baudrillard - A situação do império deflagra, não só no Islã, uma reação. Daí essa espécie de júbilo, de fascinação em relação ao 11 de setembro. Podemos nos sentir espantados, transtornados, mas isso não impede essa coexistência no nosso imaginário do transtorno e do júbilo, mesmo naqueles que depois fizeram todo tipo de considerações morais. Não é racional, mas é algo profundo da ambivalência das coisas.
As imagens do 11 de setembro são midiáticas. Elas fazem parte do acontecimento. É um momento, como o ato em si, instantâneo e terá quase uma repercussão viral. E agora vemos o vírus asiático, as catástrofes, os acidentes, tudo isso, objetivamente, é terrorismo. Mesmo uma catástrofe natural é terrorismo. A natureza é destruída, domesticada, explorada e, de vez em quando, se vinga. Racionalmente, isso não tem sentido. Mas, simbolicamente, sim.
O terrorismo apanha tudo, é epicentral. E, depois, tudo o que se produz e que desestabiliza um poder qualquer se torna terrorismo. O próprio poder faz essa dedução, pois tudo que o ataca é designado como terrorismo. Em vez de se dizer que é uma contestação política ou algo parecido, é mais simples definir como terrorismo.
Fala-se em eixo do mal, quando as coisas são bem mais complicadas. Não há um eixo, mas um paraeixo, o eixo que passa mesmo no centro da superpotência. Não é mais um eixo, mas uma nebulosa terrorista, uma nebulosa do mal. É preciso exterminar tudo se se quer resolver o problema.

Folha - Os valores universais, segundo o sr., tiveram sua chance histórica, mas a perderam.
Baudrillard - Os valores universais, na esfera da modernidade, foram dizimados, aniquilados. Não há mais valores de transcendência, estamos num funcionamento total, operacional, estratégico. Valores como a democracia ou direitos humanos são instrumentalizados a serviço da própria superpotência, que age em contraponto ou mesmo em contradição com seus próprios valores.
O problema é que todas as soluções apresentadas ao terrorismo e à violência recorrem a esses valores universais. Prega-se a volta à política no sentido tradicional, aos valores morais. Não tenho ilusões em relação a isso. Nessa guerra, por exemplo, vimos Jacques Chirac e a ONU proferirem seus discursos morais, que foram logo varridos de cena.

Folha - Vivemos hoje uma confusão de valores?
Baudrillard - O que está em questão é a modernidade. A modernidade como progresso contínuo, como história. Com o pós-moderno, já temos um questionamento da modernidade, já é uma passagem além do "tudo é aceitável", do "não há mais valores absolutos", os grandes ideais acabaram. Já é uma decomposição da modernidade. Hoje, o global talvez seja também uma ruptura. Não é o contrário, mas uma outra coisa. É algo instável e que joga com a instabilidade. Não há mais meios de encontrar uma ética qualquer. Tenta-se encontrá-la no nível genético e outros, mas não se consegue. Não se consegue saber onde está o limite do humano.
Não conseguimos mais definir nem mesmo os direitos humanos. Há direitos para todo mundo hoje. Há o direito da vítima e do carrasco, o direito do bebê de não nascer. Chegamos a uma espécie de confusão, não há mais demarcações. Não sabemos onde estamos na questão do verdadeiro e do falso, do bem e do mal. Hoje há, novamente, uma tentativa desesperada de fazer com que existam o bem e o mal. Uma tentativa também dos que estão no poder nos EUA, os falcões americanos. É uma tentativa de recriar valor, reencontrar o real depois de toda essa realidade virtual, "Matrix" e tudo mais. Refazer o real e dizer "isso é real".

Folha - Ouvindo o sr. falar, é difícil vislumbrar uma saída para esse impasse deste início de século.
Baudrillard - No momento, efetivamente, estamos numa situação insolúvel. É uma boa coisa que essa grande superpotência mundial seja radicalmente questionada por algo que a atinja realmente, que a deslegitimize, que seja provado que ela não é invencível. É a única chance de se poder tentar pensar em outra coisa. Em relação aos atentados do 11 de setembro, aos terroristas, certamente suas razões e motivações são más e não são aceitáveis, mas não se deve levar isso em conta, e sim o acontecimento em si mesmo.
Quando meu amigo Paul Virilio [pensador francês" fala de uma guerra civil planetária, ele não está errado. Há uma desintegração interna. O poder elimina seu próprio objeto. O objeto sobre o qual ele vai exercer um poder, ele também o extermina

24.4.03

Garotinho aposta futuro político em ato extremo


MARCELO BERABA
DIRETOR DA SUCURSAL DO RIO

A nomeação do ex-governador Anthony Garotinho (PSB) para a Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro é uma medida extrema para salvar o governo de sua mulher, Rosinha Matheus.

A decisão tem o objetivo claro de tentar demonstrar publicamente a vontade política do governo fluminense de inverter o quadro de descontrole na área de segurança. Mas é uma incógnita para o próprio governo o efeito da manobra.

O agravamento da crise de segurança ocorre simultaneamente a duas outras crises: uma, de origem política, provocada pelas denúncias de corrupção na Secretaria de Fazenda durante a gestão do ex-governador (1999 a abril de 2002); a outra, de natureza econômica, com o Estado sem recursos para pagar suas dívidas e sem fôlego para investimentos.

A combinação desses três fatores praticamente paralisou a administração estadual. O desgaste da governadora ficou constatado na pesquisa Datafolha realizada no início de abril: 36% da população considerou sua gestão ruim ou péssima, contra 22% que a consideraram boa ou ótima.

Soma-se a esse quadro extremamente adverso um enfrentamento permanente do casal com o governo Lula. Ao chamar para si a responsabilidade de gerir a política de segurança, Garotinho tenta afastar de vez o fantasma de uma intervenção formal ou branca do governo federal no Rio.

Há um consenso hoje de que as grandes cidades brasileiras não conseguirão enfrentar as ações cada vez mais ousadas dos bandos do narcotráfico e do crime organizado apenas com as forças estaduais. O entrosamento entre as várias polícias e a disponibilização de recursos federais são condições indispensáveis para um trabalho produtivo.

O modelo de cooperação que está sendo testado pelo governo federal no Espírito Santo -que deve se estender em breve para outros Estados- estava inviabilizado no Rio por causa das incompatibilidades entre as figuras-chaves desse processo, Luiz Eduardo Soares, secretário Nacional de Segurança Pública, em Brasília, e Josias Quintal, no Rio.

Os dois trabalharam juntos no governo Garotinho na área de segurança e se tornaram inimigos a partir de março de 2000, quando Soares foi demitido pelo então governador. O ex-assessor havia denunciado a existência de uma "banda podre" na polícia fluminense.

A nomeação de Garotinho contraria a lógica de que o governo estadual deveria procurar um nome de sua confiança, mas de trânsito fácil no governo federal. O novo secretário não ajuda a desobstruir os canais entre o Planalto e o Guanabara. Além do conflito com Luiz Eduardo, Garotinho tem uma candidatura presidencial colocada para a sucessão de Lula. A discussão sobre política de segurança continuará fatalmente contaminada pelas diferenças partidárias e eleitorais.

Duas vezes prefeito de Campos (de 1989 a 1992 e de 1997 a 1998), governador do Rio de 1999 a 2002, candidato a presidente da República na última eleição e hoje o principal quadro do PSB nacional, Garotinho joga nessa indicação sua cartada mais arriscada. Está em jogo não apenas o futuro do governo de sua mulher, mas seu próprio projeto presidencial. Como definiu um de seus colaboradores próximos, é um jogo de tudo ou nada.

Bom exemplo, garoto

SONINHA
COLUNISTA DA FOLHA

Mais uma história é revelada, entre muitas que ficam escondidas: Kléber, jogador do São Paulo, resolveu contar que cometeu alguns delitos na adolescência. A uma certa altura, vendo claramente que a barca era furada, renunciou a essa vida e passou a se dedicar só ao futebol. A ajuda de uma psicóloga, da família, a confiança na sua igreja e o fato de ter uma boa opção -a chance palpável de ser profissional- foram fundamentais para que tivesse o sucesso na mudança.

Kléber não era rico, mas não "passava precisão". Por que roubava? O (ainda) garoto foi honesto: por ambição, sonhos de consumo. Ele queria ter mais do que conseguiria por meios "normais".

Essa praga está na raiz dos nossos males. Quem não quer ter uma roupa nova, um tênis bacana, um carro da hora, um baita som e uma TV? Inclusive quem não tem condições para isso (quanto mais os adolescentes!). E somos nós (a mídia e o mundo todo) que vendemos essa idéia nada educativa de que você precisa ter algumas coisas para ser alguém, para ser respeitado e feliz. Quantas propagandas ridicularizam o dono do carro velho, o sujeito feioso e mal vestido, a menina gordinha que não faz academia e exaltam o motorista prepotente do carro importado, a mulher mentirosa e insaciável, como se fossem modelos a se imitar, os exemplos de gente bem-sucedida?

A rapaziada da periferia pode não ter o sonho de se realizar em uma profissão, de viajar e conhecer o mundo, de encontrar alguém especial e ter conforto em uma casa simples com uma família legal. Muitos adolescentes não sabem responder o que querem fazer da vida; às vezes não têm nem o sonho-chavão de querer ser artista famoso ou jogador de futebol. Mas o sonho do consumo eles têm. Querem ter dinheiro para comprar o que não precisam.
Quem não tem emprego e dificilmente vai ter, quem não teve infância e nunca terá, quem não tem boas perspectivas na vida pode fazer bobagens para conseguir seus prazeres. Adolescentes bem-nascidos e bem-criados o fazem, imaginem os outros. Com metas ambiciosas e chances ínfimas de alcançá-las decentemente, muitos trocam o salário infame (quando houver) por uma boa grana para trabalhar com a bandidagem.

Kléber é um bom exemplo de alguém que abriu mão dos desejos bestas por algo mais correto, mais seguro e mais justo. Todo mundo tem a possibilidade de reagir a qualquer pressão, sugestão ou influência. Mas, como ele contou, dos nove garotos que foram levados um dia para um teste no São Paulo, só ele ficou. E os outros? Será que têm a mesma estrutura e fé para seguir um caminho correto?

Ele cobra providências das autoridades e tem razão. O governo deve oferecer educação e os outros direitos fundamentais e criar condições para geração e redistribuição de renda. E nós? Não devemos educar, transferir, redistribuir?

Kléber ajuda um time de garotos lá no seu pedaço -conversa, acompanha os treinos, compra-lhes tênis e bolas. Taí: exemplo para eles, exemplo para nós.

20.4.03

Tale of Two Fridays

By MAUREEN DOWD

WASHINGTON - The Pentagon, a k a the International Trust for Historic Preservation, has once more shown the world its deep cultural sensitivity. Franklin Graham, the Christian evangelist who has branded Islam a "very wicked and evil" religion, was the honored speaker at the Pentagon's Good Friday service.

After Kenna West, a Christian singer, crooned "There is one God and one faith," Mr. Graham told an auditorium of soldiers in camouflage, civilian staffers and his son, a West Point cadet: "There's no other way to God except through Christ. . . . Jesus Christ is alive because he is risen, and friends, he's coming back, and I believe he's coming back soon."

When Muslim groups complained that the Pentagon was "endorsing" his attacks on Islam, Mr. Graham asked for a photo op with Muslim Pentagon employees. They declined. Muslims suspicious that America is on a crusade against Islam were inflamed to learn that Mr. Graham is taking his
missionary act to Iraq. They are still scorched by his remarks to NBC News after 9/11: "It wasn't Methodists flying into those buildings, and it wasn't Lutherans. It was an attack on this country by people of the Islamic faith." He wrote in his last book that Christianity and Islam were "as different as lightness and darkness," and recently told the Sunday Times of London, "The true God is the God of the Bible, not the Koran."

Workers from Mr. Graham's Christian relief organization, Samaritan's Purse, were in Jordan, waiting to inveigle Iraqi infidels with a blend of kitchen pantry and Elmer Gantry. Treating Operation Iraqi Freedom as a lucky break for Jesus, Mr. Graham told the religious Web site Beliefnet: "We are there to reach out to love them and to save them, and as a Christian I do this in the name of Jesus Christ."

The 50-year-old son of Billy Graham has close connections to the president, who was in charge of evangelical outreach during his father's '88 campaign and who pressed war in Iraq by calling liberty "God's gift to humanity." Both scions "recommitted" to Jesus Christ after periods of
rebellion. Franklin Graham gave the prayer at W.'s inaugural. The president said Billy Graham "planted a seed in my heart" to stop drinking and embrace Jesus.

In Baghdad, it was Bad Friday. On the Islamic holy day, thousands of Iraqis marched through downtown, shouting for America to "leave our country." Looters, continuing their rampage, stole vials of polio virus from a public health laboratory and set the Information Ministry on fire.

Mullahs were happy to talk - and balk - after suffocating under Saddam. "You are masters today," Sheik Ahmed al-Kubeisy lectured America in one Baghdad mosque. "But I warn you against thinking of staying. Get out before we force you out." (Isn't this how Osama got started?)

Back here, the neo-cons and war planners were too busy gloating to worry about the ambient sound of civilizations clashing.

Rummy, once a Bechtel Iraqi pipeline booster and now busy planning to load American military bases into Iraq, seemed almost perversely determined to act as though the vandalizing of relics of the birth of civilization was insignificant, something only sissies could cry over. "It's the same picture of some person walking out of some building with a vase," he said, "and you see it 20 times and you think, my goodness, were there that many vases? Is
it possible that there were that many vases in the whole country?"

The Pentagon could easily have saved the national museum and library if they had redeployed the American troops assigned to guard Ahmad Chalabi, the Richard Perle pal, Pentagon candidate and convicted embezzler who is back in Iraq trying to ingratiate himself with the country he left 40 years ago.

Instead of hectoring those who expressed any doubt about the difficulty of occupying Iraq, the conservatives should worry about their own self-parody: pandering to the base by blessing evangelical Christians who want to proselytize Muslims; protecting their interests by backing a shady expat puppet; pleasing their contributors by pre-emptively awarding rebuilding contracts to Halliburton and Bechtel; and swaggering like Goths as Iraq's cultural heritage goes up in flames.

17.4.03

BRASIL PROFUNDO

Em 92, a taxa era de 19,6%; apesar da diminuição, 5,48 milhões de crianças ainda trabalham no país
Trabalho infantil no Brasil cai para 12,7%

SABRINA PETRY
DA SUCURSAL DO RIO

A urbanização, aliada a programas sociais, tem contribuído para a queda do trabalho infantil no Brasil, mas 5,48 milhões de crianças ainda trabalham no país.

A redução da ocupação entre crianças e adolescentes de 5 a 17 anos é um dos resultados da pesquisa suplementar da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2001 sobre trabalho infantil, divulgada ontem pelo IBGE (Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Segundo o levantamento, 12,7% das pessoas nessa faixa etária trabalham no país, o que significa um total de 5.482.515 crianças. Em 1992, eles eram 19,6%.

Para Sônia Rocha, pesquisadora da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e especialista em trabalho infantil, além dos projetos sociais e da fiscalização do Ministério do Trabalho, "a urbanização tem contribuído para sua redução, uma vez que o trabalho infantil está concentrado na área rural".

A secretária-executiva do Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil, Isa Oliveira, diz que esse número pode ser maior porque não são pesquisadas as zonas rurais de seis Estados da região Norte nem a população infantil de rua.

"Nós temos uma população que não está nos domicílios, mas nas ruas vendendo balas, nos lixões, além daquelas crianças que estão na área rural do Norte e que estão fora da pesquisa."

Um dado que chama a atenção é o percentual de crianças trabalhando no Sul, que costuma ter bons indicadores sociais: 15,1% -próximo dos 16,6% do Nordeste, que tem a pior taxa.

Especialistas dizem que isso se deve ao fato de as duas regiões terem as maiores áreas agrícolas do país -o setor agrícola é o que mais absorve mão-de-obra infantil: 43,4%- mas alertam para as diferenças do trabalho.

"Isso acontece por causa da alta incidência da agricultura familiar no Sul. Lá, essa ocupação é feita em melhores condições para as crianças, porque a renda familiar é mais alta", diz Armand Pereira, diretor da Organização Internacional do Trabalho no Brasil.

Por ser mais pobre, a criança no Nordeste tem maiores dificuldades de conciliar a escola com o trabalho. Também o tipo de trabalho é mais penoso. Muitas estão na lavoura de cana e de sisal, na extração mineral ou na fabricação de carvão vegetal.

Um terço das crianças e adolescentes que trabalham (1,83 milhão) cumpre jornada integral, de 40 horas ou mais por semana.

A pesquisa não detalha os piores tipos de trabalho infantil, mas pode-se ter uma idéia combinando os índices de jornadas semanais com o de uso de ferramenta, máquina ou instrumento e produto químico na atividade. Esses equipamentos vão desde um sabão ou uma vassoura até pesticida ou um machado. "Pode-se dizer que uma criança que trabalha 40 horas semanais e usa uma ferramenta cortante, como um machado nos babaçuais, tem um dos piores tipos de trabalho", diz Vandeli Guerra, consultora do Departamento de Emprego e Rendimento do IBGE. Segundo o estudo, 51,2% das crianças que trabalham no Brasil usavam ferramenta ou produto químico no trabalho.

O pior

O Maranhão é o Estado com o maior percentual de crianças e adolescentes trabalhando: 22,2%. A principal atividade das crianças está nos babaçuais. Aos 5 anos, os filhos já são levados pelas mães para carregar cocos da palmeira de babaçu. Nas regiões de pesca, as crianças trabalham, como adultos, com redes e anzóis e catam caranguejos nos manguezais. Nas olarias, elas embalam tijolos e colocam lenha na fornalha. Nas serrarias, transportam lascas de madeira. Nas carvoarias, enchem os fornos de madeira para transformá-la em carvão, correndo o risco de sofrer queimaduras.

16.4.03

DIÁRIO DE BAGDÁ

BUSCAS

Soldados procuravam "armas e pessoas não-amigáveis em relação aos EUA" em hotel de Bagdá

Marines invadem quartos de repórteres

JUCA VARELLA E SÉRGIO DÁVILA
ENVIADOS ESPECIAIS

No dia em que a tomada de Bagdá completou sua primeira semana, os marines norte-americanos baseados na capital iraquiana invadiram alguns quartos do 9º e do 17º andares do hotel Palestine, onde está hospedada a maioria dos jornalistas estrangeiros e onde fica o comando militar provisório da capital -além dos próprios marines.

Em alguns casos, entraram chutando e arrombando a porta. Em outros, bateram primeiro. Em todos, o hóspede tinha de ficar agachado e com as mãos na cabeça enquanto eles revistavam o lugar. Os soldados procuravam "armas e pessoas não-amigáveis em relação aos Estados Unidos", segundo disse depois um dos comandantes. A maior parte dos apartamentos invadidos era ocupada por jornalistas.

Teriam prendido três homens, cujos dados não foram divulgados. As acusações sob as quais foram presos também não foram fornecidas para a imprensa.
O Palestine é o mesmo hotel cuja fachada foi atingida por um tiro de canhão norte-americano na terça-feira da semana passada, matando dois cinegrafistas e ferindo outros quatro profissionais de imprensa.

Um dos quartos invadidos foi o do repórter português Carlos Fino, da emissora RTP. Indagado sobre "armas escondidas", ele mostrou sua caneta, seu bloco de anotações e a câmera de seu cinegrafista."Estas são as armas neste hotel. É por isso que, de vez em quando, vocês dão tiros de tanque em nós", disse ele. Fino foi o primeiro jornalista de todo o mundo a noticiar o começo da guerra na televisão. Por coincidência, estava transmitindo ao vivo da varanda de seu apartamento no exato momento em que o primeiro míssil atingiu o primeiro prédio em Bagdá, na madrugada de 20 de março.

Folhetos

Ontem ainda os soldados norte-americanos distribuíram folhetos em inglês e árabe em que exortavam a população bagdali a não sair de casa depois da oração noturna e antes da matinal -ou seja, enquanto estiver escuro na cidade. "Durante esse período, forças terroristas associadas ao antigo regime de Saddam Hussein, assim como vários elementos criminosos, movimentam-se pela região e realizam atos hostis", dizia o comunicado.

Realmente, a maior parte dos embates entre a coalizão e a resistência acontece à noite. Ontem mesmo, pelo menos dois tiros de tanque foram disparados perto das 20h locais (13h do Brasil).

O panfleto dava também instruções sobre como não ser confundido com um dos "elementos criminosos". "Aproxime-se das forças com extrema cautela. Deixe o mais evidente possível que você não representa uma ameaça. Evite carregar qualquer objeto que possa ser confundido com uma arma." Ordenava: "Ao ver um comboio militar se aproximando, tire seu carro da pista". E concluía: "Nós estamos cientes de que somos convidados em seu país e faremos de tudo para manter sua confiança".

No mesmo dia, os marines e os manifestantes civis tiveram o atrito mais forte desde a chegada das tropas à capital. Dezenas de iraquianos tentaram forçar a entrada no hotel e foram contidos por fuzileiros, que chegaram a ferir e deter os mais exaltados. Como consequência, os soldados decidiram dificultar o contato dos jornalistas com os manifestantes. Agora, a imprensa entra por um lado e os bagdalis ficam do outro. "Tivemos de colocá-los mais para trás, pois as pessoas só se manifestam porque vocês estão olhando", disse o coronel Zarcone.

10.4.03


Follow the money.

By BOB HERBERT

Former Secretary of State George Shultz is on the board of directors of the Bechtel Group, the largest contractor in the U.S. and one of the finalists in the competition to land a fat contract to help in the rebuilding of Iraq. He is also the chairman of the advisory board of the Committee for the Liberation of Iraq, a fiercely pro-war group with close ties to the White House. The committee, formed last year, made it clear from the beginning that it sought more than the ouster of Saddam's regime. It was committed, among other things, "to work beyond the liberation of Iraq to the reconstruction of its economy."


War is a tragedy for some and a boon for others. I asked Mr. Shultz if the fact that he was an advocate of the war while sitting on the board of a company that would benefit from it left him concerned about the appearance of a conflict of interest. "I don't know that Bechtel would particularly benefit from it," he said. "But if there's work that's needed to be done, Bechtel is the type of company that could do it. But nobody looks at it as something you benefit from."

Jack Sheehan, a retired Marine Corps general, is a senior vice president at Bechtel. He's also a member of the Defense Policy Board, a government-appointed group that advises the Pentagon on major defense issues. Its members are selected by the under secretary of defense for policy, currently Douglas Feith, and approved by the secretary of defense, Donald Rumsfeld. Most Americans have never heard of the Defense Policy Group. Its meetings are classified. The members disclose their business interests to the Pentagon, but that information is not available to the public. The Center for Public Integrity, a private watchdog group in Washington, recently disclosed that of the 30 members of the board, at least 9 are linked to companies that have won more than $76 billion in defense contracts in 2001 and 2002.


Richard Perle was the chairman of the board until just a few weeks ago, when he resigned the chairmanship amid allegations of a conflict of interest. He is still on the board. Another member is the former C.I.A. director, James Woolsey. He's also a principal in the Paladin Capital Group, a venture capital firm that, as the Center for Public Integrity noted, is soliciting investments for companies that specialize in domestic security. Mr. Woolsey
is also a member of the Committee to Liberate Iraq and is reported to be in line to play a role in the postwar occupation.

The war against Iraq has become one of the clearest examples ever of the influence of the military-industrial complex that President Dwight Eisenhower warned against so eloquently in his farewell address in 1961. This iron web of relationships among powerful individuals inside and
outside the government operates with very little public scrutiny and is saturated with conflicts of interest. Their goals may or may not coincide with the best interests of the American people. Think of the divergence of interests, for example, between the grunts who are actually fighting this war, who have been eating sand and spilling their blood in the desert, and the power brokers who fought like crazy to make the war happen and are profiting from it every step of the way. There aren't a lot of rich kids in that desert. The U.S. military is largely working-class. The power brokers homing in on $100 billion worth of postwar reconstruction contracts are not.

The Pentagon and its allies are close to achieving what they wanted all along, control of the nation of Iraq and its bounty, which is the wealth and myriad forms of power that flow from control of the world's second-largest oil reserves. The transitional government of Iraq is to be headed by a retired Army lieutenant general, Jay Garner. His career path was typical. He moved effortlessly from his military career to the presidency of SYColeman, a defense contractor that helped Israel develop its Arrow missile-defense system. The iron web.

Those who dreamt of a flowering of democracy in Iraq are advised to consider the skepticism of Brent Scowcroft, the national security adviser to the first President Bush. He asked: "What's going to happen the first time we hold an election in Iraq and it turns out the radicals win? What do you do? We're surely not going to let them take over."

A força do nacionalismo

DEMÉTRIO MAGNOLI
ESPECIAL PARA A FOLHA

Nos próximos dias, o Iraque se tornará um protetorado militar americano. O regime de protetorado estará disfarçado pelo arremedo de um governo títere iraquiano e, talvez, pela partilha de tarefas administrativas e humanitárias com a ONU. O poder de fato, todos sabem, ficará nas mãos de Washington.

Os neoconservadores que controlam a política externa da administração Bush prometem um Iraque democrático, que serviria de exemplo para uma "revolução democrática" no mundo árabe.

Acreditam na gratidão do povo iraquiano para com a hiperpotência que traz a democracia na ponta dos fuzis. Parecem pensar que o Iraque conheceu apenas o tribalismo e a ditadura de Saddam Hussein, nunca o nacionalismo. É um modo linear e simplista de interpretar a história do Iraque.

Na Antiguidade, a Mesopotâmia foi o berço das cidades-Estado sumérias, onde floresceram as civilizações acadiana, babilônia e assíria. Sofreu invasões persas e romanas. Mas sua identidade étnica, linguística e religiosa foi moldada pela invasão árabe do século 7º. Bagdá, fundada pela dinastia abácida para substituir Damasco como sede do califado, tornou-se o centro do mundo árabe-muçulmano que se estendia do Magreb ao Afeganistão.

No século 9º, no Iraque, irrompeu a querela de sucessão que originou a dissidência xiita. Sob o califado abácida, o árabe tornou-se uma língua geral dos fiéis do islã, difundindo-se pela África do Norte e grande parte do Oriente Médio. Uma cultura compartilhada assinalou o apogeu do mundo árabe, que contrastava com o atraso, a selvageria européia.

O Império Otomano estabeleceu o seu poder sobre o mundo árabe nos séculos 16 e 17. Bagdá caiu em mãos otomanas em 1534, foi perdida logo depois e reconquistada em 1638.

A estrutura imperial, a maior que se conhecera desde a queda de Roma, conseguiu estabilidade duradoura respeitando a pluralidade de culturas e os privilégios das elites nas diferentes partes do império. Sua lenta decadência, no século 19, abriu caminho para as potências européias, que colonizaram o norte da África.

A 1ª Guerra assinalou o colapso otomano e a fragmentação geopolítica do Oriente Médio. A França estabeleceu mandatos na Síria e no Líbano. O Reino Unido, que tinha declarado protetorado sobre o Egito, tornou-se potência mandatária na Palestina, na Transjordânia e no Iraque.

A Arábia Saudita unificou-se, mas os britânicos, determinados a controlar as fontes e rotas do petróleo, impediram a unidade da península e retalharam a orla do golfo Pérsico em protetorados. Essa é a origem do Kuait, do Qatar, de Barein e dos Emirados Árabes Unidos.

O poder britânico no Iraque sofreu a contestação de uma revolta tribal, com tinturas nacionalistas, em 1920. Londres acomodou as tensões concedendo o autogoverno, sob controle britânico, e coroando Faiçal 1º rei do Iraque. O pai de Faiçal, Husayn, liderara a revolta árabe contra o sultão otomano durante a guerra mundial, lutando ao lado do célebre agente britânico T.E. Lawrence.

Husayn confiou nas palavras do "Lawrence da Arábia", que queria "fazer uma nova nação" e, depois da guerra, liderou uma revolta nacionalista na Síria. Os franceses sufocaram a revolta, contando com a indiferença dos britânicos. A coroação de Faiçal foi o prêmio de consolação de Londres, que desenvolvia uma sinuosa política de sedução das elites árabes.

O nacionalismo monárquico gerou uma independência formal, em 32, e se esgotou no pós-guerra, sob o impacto da emergência do Baath (Ressurreição). O partido surgiu na Síria, como expressão de um pensamento modernizante e laico, amparado nas classes urbanas educadas.
Seu principal teórico, o cristão Michel Aflaq, sustentava a existência de uma única nação árabe, herdeira da tradição cultural do islã, com a convivência de diversas confissões religiosas. Essa nação deveria ter o direito de constituir um Estado unificado.

O baathismo original, mesclado com os elementos da reforma social e do socialismo, difundiu-se pelos países vizinhos. No Iraque, o baathismo inspirou a revolução militar de 1958, que derrubou Faiçal 2º e instalou a República.

O nacionalismo baathista distingue-se do nacionalismo monárquico. O último fazia a nação repousar no direito da dinastia; o primeiro, na unidade do povo. Por isso, nos anos 60 e 70, o poder baathista entrou em conflito com o nacionalismo curdo. Ao mesmo tempo, o Estado forte modernizava o país, promovendo a educação pública, a igualdade política das mulheres, a nacionalização da indústria petrolífera, a dragagem dos pântanos e a irrigação.

Saddam Hussein chefiou o núcleo baathista das coalizões militares que governaram o Iraque na década de 70. Em 79, num golpe palaciano, assumiu a Presidência. Durante a Guerra Irã-Iraque (80-88), estruturou uma ditadura feroz, baseada na fusão do Baath com o aparelho de Estado.

A Guarda Republicana, as milícias paramilitares e os órgãos de segurança interna formaram a espinha dorsal de um regime assentado sobre o clã do presidente, que se origina na cidade de Tikrit.

Ele não deve ser confundido com uma ditadura militar de camarilha, "à la boliviana". É um ramo sangrento do tronco baathista, que sustenta a árvore do nacionalismo iraquiano. O ramo caiu, mas a árvore tem raízes mais profundas do que crêem os neoconservadores de Washington.

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Demétrio Magnoli, 44, é editor do jornal 'Mundo Geografia e Política Internacional'

7.4.03

Luta urbana já apresenta sua face cruel


RICARDO BONALUME NETO
DA REPORTAGEM LOCAL

Bloquear e esperar que caia de podre, ou entrar com tudo? Os primeiros exemplos de guerra urbana que os americanos enfrentaram em Bagdá mostram que o dilema existe e não tem uma solução fácil. Para fazer omelete, quindim ou fios de ovos, é preciso quebrar suas cascas.

Meramente fechar o círculo em torno da cidade deixa o inimigo dentro dela, pronto a vender caro sua pele em cruéis combates urbanos.

O treinamento e equipamento superiores dos soldados e fuzileiros navais dos EUA certamente os faria ter menos baixas que os iraquianos -embora a proporção de quatro baixas para mil, dois mil ou três mil, como teria acontecido no sábado, soe como um exagero de soldados excitados pelo combate.

Não há tropas para um "cerco" completo. Basta lembrar que quando os russos tomaram Berlim em 1945, uma cidade também com vários milhões de habitantes, tinham centenas de milhares de soldados atacando. Os EUA têm uma força de apenas algumas dezenas de milhares de homens.

Penetrar o interior da cidade rapidamente, como uma faca num queijo, buscaria usar esse efeito de choque para derrotar o inimigo. Mas também exigiria mais forças do que as disponíveis hoje, e causaria mais danos à cidade e mortes à sua população.

Bolsões de resistência poderiam existir em vários pontos da cidade e do país, mesmo sem o chamado "comando e controle" por parte de Saddam Hussein sobre suas Forças Armadas.

Os bolsões teriam que ser "varridos", "limpos", "sanitizados" (o jargão militar adora esse tipo de linguagem higiênica) pelas tropas de segunda linha, como os reforços a caminho do Iraque, como a 4ª Divisão de Infantaria Mecanizada.

Assim como a primeira incursão de longa distância dos helicópteros Apache dias atrás encontrou um "ninho de vespas" que derrubou um deles, uma avanço de uma coluna blindada encontrou forte resistência e um tanque foi abandonado.

O tanque americano M1 Abrams abandonado que foi mostrado pelos iraquianos aos jornalistas estrangeiros revela a mesma lição que os russos reaprenderam na Tchetchênia.

Desde a Segunda Guerra Mundial que se sabe que blindados avançando em áreas construídas ficam vulneráveis a armas de curto alcance como os lança-granadas RPG-7, que existem aos milhares em exércitos como o iraquiano.

Uma versão apresentada pelo Comando Central dos EUA afirma que o tanque teria sido abandonado por problemas mecânicos.
É possível que seja verdade, e que os danos no tanque tenham sido feitos depois. Mas mesmo que seja esse o caso, também é um sinal ruim para os americanos.

Depois de um avanço de centenas de quilômetros, o número de problemas mecânicos dos blindados costuma ser alto. Se isso aconteceu em um tanque durante um ataque, é sinal que as tropas americanas continuam tendo problemas nas áreas vitais de suprimento e manutenção.

6.4.03

Boa Vista: fome zero na prática

Capital de Roraima tem bons programas sociais como a criação de hortas urbanas e o aproveitamento de lixo

?Lembre-se de que isto aqui também é Brasil?, disse-me a prefeita Teresa Jucá, ao se despedir ao fim de minha primeira visita a Boa Vista, há um ano. A frase podia ter duas interpretações: exprimir a sensação de isolamento da comunidade nacional de quem vive tão longe mas mantém aceso o sentimento de brasilidade, ou o orgulho pelo trabalho realizado no ordenamento social de uma capital de 208 mil habitantes, que concentra 62% da população de Roraima. Ambas as interpretações são válidas.

BOA VISTA ? Roraima é realmente um rincão esquecido pela grande mídia nesse nosso vasto território. Só comparece ao noticiário nacional quando acontece algum fato grave, negativo, como a invasão em massa de garimpeiros nas reservas ianomâmis ou, mais recente, quando o cerrado e a floresta arderam em chamas, num incêndio que só as chuvas puderam extinguir, apesar da bravura de bombeiros saídos de diversos pontos do país. É uma miopia nossa, jornalistas dos grandes centros, que não acreditamos que possa haver em lugar tão remoto programas de desenvolvimento e de incorporação social dos excluídos tão bons ou melhores que os de São Paulo e do Rio.

No entanto, alguns dos programas em implantação em Boa Vista deveriam ser estudados e copiados no Brasil inteiro, principalmente agora, quando o governo Lula declara ser a sua máxima prioridade política a erradicação da fome no país.

Agricultura urbana

Em maio de 2002, participei da inauguração das duas primeiras estufas para a produção de hortigranjeiros num subúrbio rural de Boa Vista. As estufas têm 50 metros de comprimento por sete de largura e seus canteiros são irrigados por gotejamento, método que poupa muita água. Cada estufa foi atribuída pela Secretaria de Qualidade de Vida a uma família de origem rural, em troca do compromisso de seguir as instruções técnicas da Secretaria de Agricultura e obedecer ao rodízio de produção recomendado pelos funcionários, com base num estudo de mercado destinado a obter os melhores preços sazonais para cada produto e evitar a saturação do mercado local. O preço de cada estufa, que gera no mínimo dois empregos e quase sempre cria mais, é de R$ 5.750, o que possivelmente seja o emprego mais barato da economia brasileira.

Uma singularidade de Roraima: as famílias contempladas já eram todas proprietárias de seus lotes, em virtude do baixíssimo preço da terra no estado. Lá, é possível se comprar um hectare de terra por apenas R$ 150. O dinheiro para a construção das estufas saiu da Suframa e do Ministério da Ação Social. As duas estufas originais são hoje 88, em plena produção, e há mais 120 prontas a serem distribuídas. Hortaliças e legumes que eram antes importadas de São Paulo e da serra do Espírito Santo são agora produzidos localmente, abastecem a cidade e começam a ser vendidas em Manaus, que fica a dez horas de viagem pela BR-174, que liga a Venezuela à capital amazonense.

As estufas de alta renda

As atividades econômicas produzem sempre campeões vencedores e participantes menos eficientes. Há, entre as famílias de cultivadores, quem consegue uma média de R$ 2.000 por mês e outros que, por teimosos na recusa a seguir as recomendações da secretaria, têm de se contentar com R$ 400. E há dois casos excepcionais, de sitiantes que já estavam no ramo antes do programa da prefeitura e conseguem uma renda de executivo de grande empresa: o casal Dora e Domingos, paranaenses que se dedicam à produção de alfaces, agrião, rúcula, cheiro verde, cebolinha e outras folhas, por hidroponia, ou seja, em canteiros plantados em tubos de plástico partidos ao meio. Eles tiram uma média de R$ 16 mil mensais, sendo que cerca de R$ 11 mil só com alfaces. Quando aparece um problema inesperado, Dora liga para um amigo, grande produtor em São Paulo, e geralmente resolve o assunto.

Dora é baixinha e gordota, mas é ágil para pular por cima das canalizações que passam de um canteiro a outro. Quando a visitei, comemorava a perfuração do último metro de um poço artesiano de 18 metros de profundidade, que iria afastar o risco da falta de água, mortal para quem vive de hidroponia. Dora e o marido Domingos conseguiram formar os dois filhos e deram uma estufa para cada um. O caçula, formado em administração, é o secretário de comercialização da cooperativa recém-formada e que tem parceria com a supercooperativa Aurora, de Santa Catarina, que se encarregará de distribuir seus produtos em Manaus, já a partir do inverno, a estação das chuvas ao norte do Equador, que começa agora.

O maior produtor de Boa Vista é José Brock. Gaúcho de Erechim, presidente da cooperativa de produtores de legumes e hortaliças. Não esperou ninguém para entrar no negócio. Escolheu a cidade para viver logo que passou para a reserva do Exército, há 20 anos. Formado numa escola agrícola de sua cidade natal, percebeu as oportunidades que Roraima oferecia, com suas terras planas e baratas de cerrado, e realizou logo o primeiro sonho de filho de uma família de colonos de origem alemã: comprou 700 hectares de terra, o que, diz, jamais teria podido fazer no Rio Grande do Sul. Possui hoje 13 estufas e fornece regularmente para os três maiores supermercados da cidade. Calcula que o lucro de cada pé de alface esteja por volta de 75% do preço de venda e, no seu caso, somadas ao resto que produz, isso significa R$ 30 mil limpos por mês. Aposta firme no crescimento da cooperativa, que já tem 208 sócios, e no mercado de Manaus, principalmente no inverno, quando as chuvas impedem o cultivo a céu aberto.

Outro agricultor bem-sucedido é um paranaense tamanho família, mais de 1,90 metro de altura, o secretário de Agricultura do município de Boa Vista. Eugênio Thomé era jornalista em Curitiba e foi designado para a cobertura de uma visita do presidente Figueiredo. Foi e não voltou até hoje. Filho de uma numerosa família de origem italiana de Guaíra, viu no estado a chance de prosperar. Ainda tentou um emprego de jornalismo, mas o salário que lhe foi oferecido mal pagava a gasolina do carro. Juntou as economias e comprou um sítio a 12 quilômetros de Boa Vista. Ao longo dos anos, transformou-o no seu Shangri-Lá particular. Tem plantações variadas, inclusive de palmito pupunha, e cria, nos lagos que formou, tambaquis, tucunarés, matrinxãs e, diz, alguns pirarucus que chegam a 60 quilos de ceva em ano e meio. Thomé aprendeu a criar pirarucus numa fazenda fluvial do Rio Negro, no Amazonas. Lá, os filés do peixe são salgados e exportados para Portugal, onde se transformam em bacalhau. Como Thomé gosta de cozinhar ? e posso testemunhar que é capaz de fazer na brasa uma costela de tambaqui no ponto perfeito ? abre o sítio ao público nos fins de semana e o transforma num restaurante informal. Pretende aproveitar a experiência, adquirida no pequeno hotel que a família tem em Guaíra, para fazer uma pousada com chalés nas cinco ilhas que prepara no meio do lago de criação de peixes.

Enquanto isso, Thomé visita regularmente os produtores das estufas e o centro de comercialização da cooperativa que funciona num amplo mercado que estava abandonado e foi construído para comercializar produtos de produtores familiares. O mercado foi agora recuperado. Esse centro de comercialização tem uma câmara de resfriamento e uma câmara frigorífica, dois equipamentos caros que estavam desperdiçados. Pelo convênio da cooperativa com a Aurora, a cooperativa catarinense tem o direito de utilizá-los para armazenar e distribuir as carnes que produz.

Guerreiras amazonas

A prefeitura de Boa Vista é a maior fortaleza feminina num Executivo no país. A prefeita Teresa Jucá convidou para seis das secretarias mais importantes, as que lidam com a população e a integram no governo participativo, mulheres com quem trabalhou ou conheceu em Brasília, quando foi funcionária do Ministério do Desenvolvimento Agrário, entre dois mandatos. Até criou a Secretaria de Gestão Participativa e Cidadania para uma delas, Mira Cunha, uma das raras roraimenses de nascimento, que é uma espécie de banco de dados ambulante. Tem os números da cidade na cabeça, sobretudo os dos programas sociais em curso, alguns dos quais já levaram para Boa Vista prêmios de gestão eficiente e, para Teresa, o título de prefeita amiga da criança da Fundação Abrinq e da Unicef.

Boa parte do sucesso da administração de Boa Vista é resultado da mania que Teresa tem de contar. Há dois anos, no inicio de sua gestão, comprou em São Paulo um programa de informática que lhe permitiu fazer um censo detalhado das condições de vida de seus 208 mil munícipes e colocar os dados num laptop que carrega para todo lado. O censo, que será renovado este ano, lhe permite conhecer, rua por rua, as condições de vida dos moradores: se a casa é de madeira ou de alvenaria, quantos cômodos tem, quantas pessoas e de que idade ocupam cada um, qual a renda familiar e de cada habitante, se tem ou não tem banheiro, o que faz do lixo. Essas informações detalhadas permitem focar com precisão as políticas sociais e estão na origem do mais premiado programa da prefeitura, o programa Crescer.

O Crescer nasceu da constatação de que havia na cidade 1.490 jovens entre 15 e 24 anos que não trabalhavam nem estudavam. Esses jovens eram a sementeira da violência, através das gangues de bairros em guerra permanente e da prostituição juvenil. Para ocupá-los e abrir-lhes perspectivas de vida, foram criadas 11 oficinas profissionalizantes, que já contam com a participação de metade da população em risco social. São oficinas de ofícios, como as de serralheria, de marcenaria, de padaria. A padaria-escola que conheci há um ano foi transferida para o horto florestal e o seu local primitivo transformado em cyber café, onde os jovens têm aulas de informática e podem entrar na internet por um aluguel de R$ 1 a hora.

Ao chegar ao aeroporto, Teresa Jucá me apresentou a dois jovens do projeto Crescer, selecionados para representar a cidade num seminário sobre programas em benefício da infância e da adolescência. Cumprimentaram-me empertigados, como cadetes de escola militar. Um deles, Walbert, um jovem negro, coisa rara em Roraima, tinha o apelido de Pé de Onça e chegou ao Crescer envolvido com drogas, alcoolismo, brigas de galeras e um temperamento explosivo. Seus companheiros o escolheram como assistente, servindo de ponte entre a equipe técnica da oficina de teatro e a rapaziada. Nessa função revelou-se responsável e dedicado, exercendo uma influência positiva sobre os colegas. Destacou-se nas pesquisas e discussões do I Fórum dos Direitos da Criança e do Adolescente e agora iria fazer a sua primeira viagem aérea. Viajaria em companhia de Marco Antonio Santos, que chegara ao Crescer com problemas de família e de alcoolismo. Apaixonado pela informática, fez um curso de especialização no Senac e, aprovado, foi contratado como instrutor na oficina de Teatro.

O Crescer e os projetos de esportes de noite fizeram diminuir consideravelmente a violência entre os jovens, embora não a tenha eliminado. Há tempos dois considerados, que é como chamam os líderes de gangues, armaram uma briga na ante-sala do gabinete da prefeita e um esfaqueou o outro. No entanto, uma medida do decréscimo das violências foi o carnaval deste ano, quando não houve, como no passado, nenhum assassinato.

As famílias
do lixão

É difícil para um cidadão urbano normal imaginar que famílias que vivem da exploração do que há de vendável num lixão, onde a maioria vive em tempo integral, possam preferir continuar no meio dessa sujeira infecta, respirando o ar poluído pela queima de resíduos, que optar por outro tipo de atividade econômica e de moradia mais salubre. No entanto, foi o que aconteceu no lixão de Boa Vista, explorado em três turnos por 223 pessoas de 57 famílias. A maioria, em tese, tinha moradias fora do lixão mas, na verdade, nele passava as noites, em abrigos improvisados, guardando de possíveis ladrões o material vendável que haviam coletado.

A iminência de se transferir o despejo dos caminhões de lixo para um aterro sanitário, calculado para durar 20 anos, fez com que os catadores aceitassem formar uma cooperativa, que utiliza como área de triagem um amplo terreno cedido pela prefeitura, onde foi construído um barracão para reuniões e, luxo inusitado, banheiros coletivos. No entanto, são muitas as queixas sobre a baixa rentabilidade do trabalho coletivo. Perguntei aos cooperados, que realizavam sua reunião semanal, quantos ganhavam menos com a cooperativa do que no antigo trabalho individual. Quase todos levantaram as mãos. É que havia famílias que conseguiam até R$ 600 por mês, ainda que a média fosse de R$ 30 a R$ 100 por semana. Dora, a líder da cooperativa, uma índia macuxi da Guiana que melhor fala inglês que português, explicou que há um ressentimento grande contra o aterro, onde o lixo é jogado sem triagem, enterrando as latas de alumínio, que foram uma das principais fontes de renda da comunidade.

? O pessoal acha que estão enterrando o nosso tesouro ? disse.

A maioria das famílias saídas do lixão é indígena e chefiada por mulheres, sendo 21,6% analfabetas. Apesar disso, apostam na educação dos filhos e se dispõem a trabalhar até de noite para ganhar o dinheiro necessário à compra de material escolar e uniformes, recursos que complementam a bolsa do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti) que recebem do Ministério do Trabalho.

Qualidade
de vida

Mira Cunha também tem a mania de contar as coisas. Entregou-me um levantamento do trabalho feito no bairro de Silvio Botelho: população: 4.879 pessoas, de 1.185 famílias, quatro ruas asfaltadas, 80 banheiros construídos, uma creche para 150 crianças, 748 famílias atendidas, com 731 crianças ou jovens.

Tudo em Boa Vista é assim: contado na ponta do lápis, ou melhor, nas batidas do computador. Planejam adotar um cartão magnético de cidadania, que incluiria todos os benefícios que cada um recebe da prefeitura. É o que permite estabelecer parcerias com empresas privadas e até com o governo do Japão. No entanto, a parceria maior é com ministérios e repartições do governo federal. O orçamento mensal da prefeitura é de R$ 9 milhões e a contribuição federal, garimpada nos orçamentos pelo senador Romero Jucá, marido de Teresa, é de R$ 40 milhões. É esse dinheiro que permite os múltiplos investimentos e programas da prefeitura. É o dinheiro federal que banca até mesmo o programa de ginástica laboral, que existe em todas as repartições diariamente dentro dos locais de trabalho, ou em espaços ao ar livre.

A mais importante lição de Boa Vista é que seus programas podem ser facilmente reproduzidos em outras cidades. Os encarregados do Fome Zero ganhariam muito se mandassem alguém conhecer o programa das estufas.

E, para quem só pensa na próxima eleição, outro número: segundo as pesquisas mais recentes, a prefeita Teresa Jucá tem 89% de aprovação.

Uma visão legal do jornalismo tribalista

O lamentável incidente ocorrido entre dois jornalistas conhecidos e relatado pelo meu irmão demonstrou que ambos não conheciam os limites legais de sua profissão (algo que, pelo que o mano me conta, é o mais comum entre os jornalistas). Portanto, seria bom que, além de saber beijar na boca, os profissionais do jornalismo aprendessem algumas noções de direito autoral, quanto mais não seja para escapar de erros crassos como os cometidos por Márcia Peltier e Pedro Dória.

Esta, porém, não é uma tarefa das mais fáceis. Afinal, a seara das leis não é um fast food no qual se pede um número e chega o pedido. É necessário paciência e perseverança para conseguir montar raciocínio legal sobre um tema. No caso em tela há ainda um complicador, pois as leis que regem a imprensa no país - a primeira, de 1953; a segunda, de 1967 - não contemplam a questão do direito de autor. Assim, utilizando a Constituição Federal, que confere responsabilidade a todas as profissões, e a lei que versa sobre aquele direito, vou tentar responder a duas das perguntas elaboradas pelo meu irmão em seu texto da semana retrasada: onde começa e onde termina o direito autoral na internet, e se é necessário crédito ou a referência expressa a uma idéia que não seja original do jornalista.

O direito de autor é regulado pela Lei 9.610/98, que dispõe, no seu artigo 7º, sobre as obras que são protegidas por ela. É interessante notar a preocupação do legislador em não oferecer limitação em algo que a cada dia se transforma:

"São obras intelectuais protegidas pela legislação as criações do espírito, expressas por qualquer meio ou fixadas em qualquer suporte, tangível ou intangível, conhecido ou que se invente no futuro, tais como:"

E vêm em seguida exemplos do que a lei considera obra. São treze incisos com exemplos, sendo o último acrescido de três parágrafos. No inciso XI está dito que são consideradas obras protegidas "as adaptações, traduções e outras transformações de obras originais, apresentadas como criação intelectual nova."
Se formos considerar o caput do artigo e esta alínea, poderemos discernir que:

a) A internet é suporte;

b) as obras descritas no artigo são apenas exemplificativas, podendo uma coluna jornalística ser considerada "criação do espírito" sem maiores problemas;

c) o que se protege são as criações do espírito, mesmo aquelas que originam outras, cujo texto diferente, com estilo e expressão próprias de outro autor, venham a constituir obra nova.

A minha tese é que, não importando o meio de suporte ( livros, internet, revistas, jornais, etc) o jornalista pode utilizar-se de material informativo para formar opiniões próprias, através de um estilo também próprio, devidamente assinado (e se não o for, de responsabilidade do editor). Isso não é novidade. O que não pode é recortar o texto sem nenhuma ou pouca modificação e colá-lo em seu artigo ou reportagem. Isso é pirataria (segundo o artigo 1º do Decreto de 13 de março de 2001, que entende por pirataria a violação ao Direito Autoral de que trata a Lei 9.610, acima citada), incidindo em sanção pesadas de natureza civil, com apreensão da obra, suspensão da divulgação, além da obrigação por parte do pirata de difundir, nos meios que o juiz determinar, o autor original da obra.

Assim, salvo melhor juízo, tanto Márcia Peltier faltou com a transparência e violou a confiança de seus leitores deixando a entender que o texto era seu ( pirataria, sem dúvida) como Pedro Dória cometeu o abuso semelhante, não por copiar informações ipsis litteris, mas por omitir a publicação das fontes consultadas para a confecção de sua obra (ainda que nova).

Um dos pilares de um visão moderna do direito à informação é a oportunidade que se deve dar ao leitor de aprofundar-se ou checar os fundamentos sobre os quais o jornalista criou o seu texto. Esta oportunidade não foi oferecida por nenhum dos dois colunistas. O sigilo da fonte, que poderia ser invocado - a meu ver extemporaneamente - só é permitido para segurança da informação ou do informante e não para constituir vantagem para quem publica.

Para não correr riscos desnecessários, pessoais e coletivos, sugiro a citação das fontes em todos os casos, mesmo que em uma simples nota de rodapé, contendo os dados básicos sobre as fontes de informação utilizadas em casos de análises mais complexas. Essa singela providência confere confiança e dignidade ao jornalistas e traduz lealdade para com seus leitores.


Andréa Alves de Sá - Registro profissional: 15.821 (OAB-BA)

4.4.03

Mídia iraquiana é mais madura que americana, diz editor da Al Jazeera


FABIANO MAISONNAVE
DA REDAÇÃO

Desde o início da guerra, a disputa pela opinião pública mundial entre o presidente George W. Bush e o ditador Saddam Hussein tem sido quase tão importante quanto as batalhas.

No centro desse conflito está a rede de TV estatal Al Jazeera, do Qatar. Responsável pela transmissão de imagens de civis iraquianos mortos, prisioneiros de guerra e corpos de soldados americanos, a emissora mudou a imagem da guerra, principalmente se comparada com a Guerra do Golfo (1991), marcada pelas imagens de luzes verdes nos céus de Bagdá.

A audiência se multiplica junto com seus problemas. Ontem, dois jornalistas da emissora foram proibidos de transmitir da capital por ordem do governo iraquiano. No dia anterior, o hotel de onde a emissora transmitia em Basra, no sul do Iraque, fora atacado por mísseis americanos.

Em entrevista à Folha, Abdulaziz al Mahmoud, 42, editor-chefe do site Aljazeera.net (cuja versão em inglês está fora do ar após ser atacada por hackers), disse que sua empresa é independente e que a mídia iraquiana é mais "estável e madura" do que a americana. A seguir, trechos da entrevista feita por telefone a partir do Qatar.


Folha - O site em inglês da Al Jazeera ficou no ar durante apenas um dia. Um de seus editores acusou o Pentágono pelo ataque. Há alguma evidência disso?
Abdulaziz al Mahmoud - Não, ele não deveria ter afirmado aquilo. Não há nenhuma evidência de quem atacou o nosso site.

Folha - Bush e o premiê Tony Blair reclamaram da cobertura da Al Jazeera. De que forma essas pressões afetam o trabalho diário?
Al Mahmoud - Estamos sob uma enorme pressão, mas a política da Al Jazeera é mostrar a guerra de ambos os lados. Mostramos prisioneiros de guerra iraquianos sendo maltratados por soldados britânicos, corpos mutilados de crianças, mas também mostramos o outro lado da guerra, até mesmo prisioneiros de guerra e soldados americanos mortos.

Folha - Muitos analistas ocidentais consideram que os EUA estão perdendo a "guerra da propaganda" contra o Iraque e que a Al Jazeera tem um papel fundamental nisso. O sr. concorda?
Al Mahmoud - Eu entendo esse ponto de vista. No início do conflito, eles disseram que havia um levante em Basra. Nosso correspondente na cidade entrevistou várias pessoas, andou pelas ruas e não encontrou nada contra Saddam Hussein. Isso mostra que eles mentem.

Folha - Ao se contrapor à estratégia americana, o sr. concorda que isso favorece o Iraque?
Al Mahmoud - Não, se o Iraque mentir, nós mostraremos. Se o Iraque disser que os EUA estão a 100 km de Bagdá, mas estiverem a 50 km, nós mostraremos isso.

Folha - Como o sr. analisa a cobertura da mídia americana?
Al Mahmoud - O patriotismo está em alta nos EUA, veja o que aconteceu com Peter Arnett, despedido depois de conceder entrevista à TV iraquiana, que não é nenhuma área proibida. Se alguém é entrevistado pela CNN ou BBC, também é expulso pelo governo iraquiano? Nesta guerra, a mídia iraquiana está mais estável e madura do que a mídia americana.

Folha - A Al Jazeera pertence ao governo do Qatar, que apóia os EUA. Como é a relação entre a emissora e o governo?
Al Mahmoud - O governo não interfere na emissora, pois sabe que o sucesso da Al Jazeera vem disso.

Jornalista mentiu e me grampeou, afirma ACM

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) divulgou nota afirmando que o jornalista Luiz Cláudio Cunha "não falou a verdade" em seu depoimento no Conselho de Ética. Disse que os diálogos reproduzidos por Cunha foram "fruto de sua imaginação" e o acusou de "falta de responsabilidade profissional".
ACM acompanhou a reunião do conselho pela televisão, de seu gabinete. Seu advogado, José Gerardo Grossi, assistiu a toda a reunião no plenário do conselho. Segundo Grossi, o depoimento de Cunha "teve um conteúdo subjetivo muito grande", porque, na visão do advogado, o jornalista emitiu opiniões e juízo de valor
.
"Os depoimentos têm de se limitar aos fatos. Houve momentos em que ele tentou transmitir a convicção dele [do envolvimento de ACM nos grampos". Por mais político que seja o julgamento do conselho, tem um fator jurídico. Essa prova é contaminada", disse.

Em seu depoimento, Cunha disse que sua conversa com ACM -na qual o senador teria confessado ser o mandante do grampo do deputado Geddel Vieira Lima (PMDB-BA)- teve uma testemunha: Fernando César Mesquita, ex-assessor de ACM.

Mesquita também assistiu a todo o depoimento no plenário do conselho. Ao final, confirmou ter presenciado a conversa entre ACM e Cunha, mas negou ter ouvido do senador a confissão. "Não ouvi isso do senador. E, ao contrário do que o Luiz Cláudio disse, não fui eu que falei para ele passar lá [no gabinete]. Ele que pediu insistentemente para falar com o senador. Ele mentiu quando disse que me ligou, quando quis falar com o senador por telefone. Ele ligou direto [quando gravou"", disse Mesquita.

O depoimento do ex-assessor de ACM não foi pedido pelo conselho. O líder do governo, Aloizio Mercadante (PT-SP), argumentou contra, dizendo que Mesquita não poderia ser forçado a depor porque tem um "dever de lealdade" com o senador.

Leia a seguir a íntegra da nota divulgada por ACM:

"Ficou patente que o senhor Luiz Cláudio Cunha não falou a verdade quando disse que eu grampeei o deputado Geddel Vieira Lima e tenho mais de 200 horas de gravações. Demonstrou no seu depoimento que a sua memória é fraca, porque não se lembrava de episódios do dia de hoje no depoimento. Como então pode -vejam só a contradição- depois de seis dias apresentar uma conversa com diálogos que jamais existiram e foram fruto de sua imaginação e falta de responsabilidade profissional? Até agora, embora se saiba de grampeamentos na Bahia, o único grampo verdadeiramente conhecido é o do senhor Luiz Cláudio Cunha.

O jornalista, da mesma maneira, confessou que tirou cópia não autorizada de documento que recebi, como dezenas de outras pessoas, narrando fatos ligados à política baiana e nacional. Espero, no meu depoimento, restabelecer a verdade, não só em relação a esses episódios como também aos demais fatos até aqui apresentados." (RAQUEL ULHÔA)




Procedimento de jornalista é questionado

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O procedimento profissional do jornalista Luiz Cláudio Cunha, da revista "IstoÉ", que quebrou o compromisso do "off" assumido com o senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), foi objeto de questionamento por parte do Conselho de Ética. "Off the record" é um termo em inglês usado para designar informação de fonte que se mantém anônima.

O senador João Alberto (PMDB-MA) perguntou se Cunha achava que quebrar uma informação dada reservadamente por uma fonte é forma de "um bom jornalista proceder". Lembrou que o repórter relatou que ACM o considerou uma pessoa de "confiança".

Para se justificar, o jornalista disse que abrir o "off" foi uma decisão tomada pela direção da revista, após a PF ter informado sobre um inquérito que investigava um "megagrampo" realizado pela Secretaria de Segurança Pública da Bahia.

"A partir da evolução dos fatos, comprovava-se que aquilo [o relatório que ACM deu a Cunha] era a consumação de um crime com cobertura estatal. O senador deixou de ser fonte, que deve ser preservada, para se transformar em alvo de investigação", afirmou Cunha.

O jornalista disse que, a partir daí, decidiu gravar uma conversa com o senador como precaução, para confirmar ter recebido dele o relatório dos grampos. A fita só seria usada no futuro, caso ACM negasse ter dado as informações.

Segundo Cunha, o mecanismo do "off" surgiu "na época do arbítrio" para que os jornalistas conseguissem informação. "É uma distorção que o arbítrio criou e alguns jornalistas preservam e há um exagero."

Aloizio Mercadante (PT-SP) afirmou que esse episódio trouxe à tona uma questão polêmica, que deverá ser discutida pelo jornalismo. (RU)

3.4.03

JANIO DE FREITAS

Crimes impunes

Assim como a história dos feitos, o julgamento do que neles se passou depende de quem foi o transgressor das leis internacionais.

O bombardeio de populações civis, que em jornais de todo o mundo têm motivado a palavra massacre no noticiário da invasão do Iraque, é crime de guerra. Nos Julgamentos de Nuremberg, que examinaram a culpa potencial das autoridades nazistas que sobreviveram à Segunda Guerra e ao próprio julgamento, o bombardeio de populações civis foi um dos mais fortes componentes na acusação a numerosos réus e em várias das sentenças, inclusive, de morte por enforcamento. Promotores e juízes eram, em grande maioria, americanos.

Os governos dos Estados Unidos e da Inglaterra atacaram e invadiram o Iraque sem declaração de guerra. Como não tiveram delegação da ONU para agir em nome da comunidade das nações, sua iniciativa caracterizou ato de agressão. Crime de guerra.

O governo e os jornalistas americanos que invocaram a Convenção de Genebra, indignados com o vídeo de prisioneiros feitos pelos iraquianos, nos quais não se notou indício nenhum de mau trato, são os mesmos que, como governo, estão mantendo presos em Guantânamo em condições bárbaras, o que está fartamente documentado; como governo e como jornalistas, estão determinando, documentando e divulgando humilhações em civis iraquianos, interrogando-os estirados no chão, o rosto na terra, por nada, ou só por serem iraquianos. Isto, sim, transgride a Convenção de Genebra. É crime de guerra.

Muitos já disseram que não só os nazistas derrotados na Segunda Guerra deveriam estar nos tribunais de Nuremberg, mas também muitos dos aliados. Se por mais não fosse, certamente pelas bombas de Hiroshima e Nagasaki. Caso a primeira tivesse, de fato, o propósito de acelerar o fim da guerra, a segunda, de qualquer modo, seria um crime monstruoso.

Nem a primeira, porém, se justificaria, diante deste fato pouco citado, dada sua inconveniência, mas solidamente documentado: antes mesmo de Hiroshima, os americanos já tinham mensagens japonesas com proposta de rendição, condicionada apenas à preservação do imperador Hiroíto. Condição, aliás, aceita mesmo depois das bombas.

A guerra no Vietnã preencheu todas as possibilidades de crime de guerra previstas nas leis internacionais, não faltando nem o uso de armas químicas, como o napalm lançado sobre vilarejos camponeses (não esqueçamos, jamais, da menina correndo despida, pela estrada, depois de queimada por napalm) e como o "agente laranja", que, passados mais de 20 anos, ainda causa males graves em populações vietnamitas e efeitos indeléveis em soldados americanos atingidos.

A lógica sugere que em breve Bagdá proporcionará mais um espetáculo completo de crimes de guerra -monstruosidades que ficarão impunes, porque sua punição depende de quem foram os criminosos.

Ataque à televisão

NELSON DE SÁ
EDITOR DA ILUSTRADA

Na guerra do Afeganistão, após sofrer críticas por mostrar imagens de civis mortos e vídeos de Osama bin Laden, a Al Jazeera foi bombardeada em Cabul.

A emissora havia informado ao Pentágono onde estava sua equipe, mas não adiantou. O enviado escapou por minutos de seu escritório.
Ontem foi a vez de Basra, no sul do Iraque. De um porta-voz da Al Jazeera:
- O escritório oficial da equipe da Al Jazeera em Basra foi alvo de bombardeio pesado na manhã de quarta.

O escritório é no hotel Basra Sheraton, onde os repórteres são os únicos hóspedes. Quatro bombas atingiram o hotel. Ninguém morreu.

Emendou o porta-voz:
- A Al Jazeera havia informado ao Pentágono sobre os escritórios de seus enviados em Basra, Mosul e Bagdá.

De Basra, a Al Jazeera havia desmascarado um suposto "levante" em favor das forças anglo-americanas.

De Mosul, ontem, deu a morte de 21 civis, inclusive mulheres e crianças -com imagens. A esta altura, a equipe deve estar longe do escritório na cidade.
*
O clipe de Madonna tocou o dia todo, ontem, na MTV Brasil. Opinião da VJ Didi:
- Não achei tão polêmico.

Mas é, apesar de se diluir no supermercado de imagens da indústria musical. Entre tantas, choca a visão de um menino árabe entre cenas de tanques e helicópteros.

Antes do comunicado de anteontem, em que suspendeu a exibição do clipe nos EUA, vale lembrar que Madonna havia distribuído outro comunicado, na semana passada, em resposta às primeiras críticas ao seu "antiamericanismo".

Dizia ela:
- Não sou antiBush. Não sou antiIraque... Eu me sinto grata por ter a liberdade de expressar meus sentimentos.

A liberdade não durou uma semana.
*
O neoconservador Rupert Murdoch, presidente da News Corp., que detém canais como a Fox News, está a um passo de ter o monopólio da TV paga por satélite no Brasil.

Depois de obter o controle da Sky, chegou a vez da DirecTV. A única concorrente que ele enfrentava, para comprar a operadora mundial, hoje controlada pela GM, desistiu.

As ações da News Corp. já subiram. Segundo a "Variety", publicação que cobre o showbiz e a indústria de comunicação, a oferta para a compra da DirecTV mundial deve passar de US$ 4,5 bilhões.


2.4.03

JANIO DE FREITAS

O som e o silêncio

Tudo é muito deprimente na guerra contra o Iraque, supõe-se que, a esta altura, até mesmo para os chefões civis e militares de americanos e ingleses. Mas o contraponto ao som das explosões e à voz dos sofrimentos é um silêncio aterrador: o silêncio das entidades e pessoas representativas da comunidade internacional.

Quem dera fosse o silêncio sórdido da indiferença. É o silêncio do acovardamento, da conveniência, é o silêncio da pusilanimidade. No entanto, à revelia de si mesmo, silêncio fértil, prolífico. Não é o motivador, mas é o fator determinante da mobilização de multidões pelo mundo afora. Multidões que vão às ruas clamar contra a barbárie porque os governantes e as entidades que as representam de direito as traem de fato.

Na fertilidade do silêncio ignóbil está, também, a contribuição da chamada comunidade internacional para a continuidade da guerra. Se a decisão desvairada de fazê-la foi de uns poucos, é a absoluta falta de reação diplomática e política do conjunto das nações não-envolvidas que funciona como carta branca para a barbárie.

A ilusão americana -há sempre uma ilusão- levou-os à suposição de que poderiam, desta vez, ser convenientemente menos ferozes. Constatado o erro primário das previsões, já os ataques a mercados, a shoppings, universidade e bairros residenciais não podem ser debitados a acasos desastrosos. Assim como Sérgio Dávila, da Folha, esteve entre os que encontraram marcas americanas em restos de mísseis lançados em centros civis, Carlos Fino, excelente repórter da RTPi, a TV portuguesa internacional, descobriu, nas áreas cultivadas à volta de Bagdá, que até as casas de pobres lavradores estão sendo estraçalhadas por caças americanos. Está claro: encontrada resistência, as forças dos Estados Unidos voltam à tática que consagraram para si na Segunda Guerra e adotaram no Vietnã. A tática da terra arrasada, de devastação pela artilharia e pela aviação para posterior entrada tranquila das tropas. Os anais da Segunda Guerra registram a destruição de cidades inteiras, enormes, históricas e lindas, como a alemã Colônia de que só a catedral ficou inexplicavelmente de pé.

Oficiais americanos disseram a jornalistas, desmentindo seus comandantes militares e chefes políticos: as tropas deixam de tentar o avanço difícil e aviação e artilharia vão agir à sua maneira durante algumas semanas. A terra arrasada.

No resto mundo, o silêncio das pessoas e entidades representativas da comunidade internacional. Diante da TV, testemunhando, horrorizadas e inertes, a barbárie que leva também a sua assinatura.


1.4.03

LUÍS NASSIF

A exportação de software

Os conflitos religiosos e nacionais na Ásia podem abrir um amplo espaço para a indústria nacional de software substituir parte do fornecimento dos desenvolvedores indianos. Há competência interna, bons grupos que surgiram nos últimos anos, alguns centros de excelência acadêmica, a vantagem do fuso horário e da segurança política. Falta uma política objetiva de governo e setor privado.

Na semana passada, um seminário montado pela Fecap (Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado) trouxe bons subsídios para a discussão de uma política brasileira de software.

Estudos comparativos realizados por pesquisadores da London Business School identificaram Israel como o caso mais bem-sucedido. De 1990 a 2001 a receita do setor saltou de US$ 450 milhões para US$ 4,1 bilhões, sendo 75% exportados.

Segundo Simon Commander, diretor do centro para mercados emergentes da London Business School, o setor público entrou com financiamento até que sentiu que a indústria estava madura. Depois, se retirou.

Mas não basta esse estímulo. O grande problema do software brasileiro é a falta de foco no mercado. Todo o esforço desenvolvido ao longo dos anos 90 pela Softex -um programa oficial de estímulo ao software com pretensões megalomaníacas e resultados pífios- consistiu em oferecer produtos acabados e não serviços que se encaixassem nas necessidades dos clientes.

Pesquisador da London Business School e professor da Fecap, Alfredo Behrens explica que o Brasil adotou caminho inverso ao percorrido pela Índia. No início dos anos 90, o Brasil era um mercado mais maduro, tanto que dispunha de produtos acabados. Mas não tinha foco no cliente.

Hoje em dia, Bangalore, na Índia, é considerado o segundo maior centro produtor de software do mundo, após o Vale do Silício, nos EUA. Nos últimos oito anos até 2001, o setor de tecnologia da informação da Índia cresceu em média 43% ao ano, contra um crescimento anual de 6,2% no PIB.

O feito indiano contou com uma dose inesperada de sorte. Em 1978 muitas multinacionais norte-americanas foram forçadas a deixar a Índia. Nos dez anos seguintes, o país viveu de mainframes soviéticos importados. Quando a nova geração de mainframes começou a ser desenvolvida nos EUA, houve necessidade de atrair especialistas nos velhos sistemas que falassem inglês e não custassem muito caro.

No final dos anos 80, programadores indianos começaram a viajar para os Estados Unidos para serviços de pequeno porte e por curtos períodos de tempo. Além da formação, passaram a criar redes de contatos com empresas norte-americanas que permitiram os primeiros trabalhos.

Na Índia, a proporção de desenvolvedores de software que saem do país para fazer cursos ou especializações fora é quase três vezes superior à do Brasil.

Por isso mesmo, uma política de governo deveria, de um lado, facilitar a busca por estágio em universidades e empresas do exterior e, de outro, atrair especialistas estrangeiros para o país. Há muitos programadores indianos que não estão conseguindo entrar nos EUA, devido ao endurecimento nas regras de migração.

JANIO DE FREITAS

O som e o silêncio


Tudo é muito deprimente na guerra contra o Iraque, supõe-se que, a esta altura, até mesmo para os chefões civis e militares de americanos e ingleses. Mas o contraponto ao som das explosões e à voz dos sofrimentos é um silêncio aterrador: o silêncio das entidades e pessoas representativas da comunidade internacional.

Quem dera fosse o silêncio sórdido da indiferença. É o silêncio do acovardamento, da conveniência, é o silêncio da pusilanimidade.

No entanto, à revelia de si mesmo, silêncio fértil, prolífico. Não é o motivador, mas é o fator determinante da mobilização de multidões pelo mundo afora. Multidões que vão às ruas clamar contra a barbárie porque os governantes e as entidades que as representam de direito as traem de fato.

Na fertilidade do silêncio ignóbil está, também, a contribuição da chamada comunidade internacional para a continuidade da guerra. Se a decisão desvairada de fazê-la foi de uns poucos, é a absoluta falta de reação diplomática e política do conjunto das nações não-envolvidas que funciona como carta branca para a barbárie.

A ilusão americana -há sempre uma ilusão- levou-os à suposição de que poderiam, desta vez, ser convenientemente menos ferozes. Constatado o erro primário das previsões, já os ataques a mercados, a shoppings, universidade e bairros residenciais não podem ser debitados a acasos desastrosos. Assim como Sérgio Dávila, da Folha, esteve entre os que encontraram marcas americanas em restos de mísseis lançados em centros civis, Carlos Fino, excelente repórter da RTPi, a TV portuguesa internacional, descobriu, nas áreas cultivadas à volta de Bagdá, que até as casas de pobres lavradores estão sendo estraçalhadas por caças americanos. Está claro: encontrada resistência, as forças dos Estados Unidos voltam à tática que consagraram para si na Segunda Guerra e adotaram no Vietnã. A tática da terra arrasada, de devastação pela artilharia e pela aviação para posterior entrada tranquila das tropas.

Os anais da Segunda Guerra registram a destruição de cidades inteiras, enormes, históricas e lindas, como a alemã Colônia de que só a catedral ficou inexplicavelmente de pé.

Oficiais americanos disseram a jornalistas, desmentindo seus comandantes militares e chefes políticos: as tropas deixam de tentar o avanço difícil e aviação e artilharia vão agir à sua maneira durante algumas semanas. A terra arrasada.

No resto mundo, o silêncio das pessoas e entidades representativas da comunidade internacional. Diante da TV, testemunhando, horrorizadas e inertes, a barbárie que leva também a sua assinatura.