31.3.03

Imprensa americana acrítica é vitória de Rumsfeld, diz Gay Talese

ROBERTO DIAS
DE NOVA YORK

Para o escritor e jornalista Gay Talese, o Pentágono alcançou o seu objetivo: barrou eventuais críticas da mídia americana.
"Eles estão "embedded'", ironiza Talese, 71, numa referência ao termo em inglês que designa os jornalistas que viajam junto com as tropas americanas, uma estratégia de cobertura colocada em ação nesta guerra.
Talese é autor do livro "O Reino e o Poder", que conta a história e os bastidores do jornal "The New York Times", onde trabalhou. Ele concedeu uma rapidíssima entrevista à Folha na noite da última quinta-feira, após terminar uma sessão de autógrafos em um livraria de Nova York.

Folha - Gostaria de falar sobre a cobertura que a imprensa americana faz da guerra....
Gay Talese - Eu esperava mais reportagens como as que havia na época do Vietnã, como o que fazia, por exemplo, David Halberstam. Não gosto do jeito que mostram hoje, acho que deveria ser feito de maneira diferente. O jornalismo está "embedded" [a tradução mais próxima seria algo como "embutidos"".

Folha - Aliás, o que sr. acha desse termo, "embedded"?
Talese - [Balança a cabeça e agita a mão em sinal de reprovação." Acho que Rumsfeld conseguiu o que ele queria. Mas ainda penso que as coisas podem melhorar mais para a frente.

Folha - Sobre a posição da mídia dos EUA em relação a esta guerra: mesmo os ingleses têm dito que estão mais críticos que os americanos. O sr. concorda?
Talese - Digo uma coisa: mesmo estando aqui nos EUA, eu hoje vejo apenas a BBC. Não assisto à TV americana

27.3.03

Massacre em Bagdá



SÉRGIO DÁVILA
ENVIADO ESPECIAL A BAGDÁ

Ao se chocar contra o solo, numa calçada de terra não muitos metros distante de um ponto de ônibus, um dos mísseis lança uma onda de fogo e ar que destrói a fachada de dois conjuntos comerciais e pelo menos oito veículos num raio de 50 metros.

Com o impacto, dois dos carros viram de ponta-cabeça no ar, para caírem carbonizados e completamente destruídos quase no mesmo lugar em que estavam. A explosão atinge mais diretamente um pequeno restaurante e uma mecânica e as casas que ficavam sobre estes estabelecimentos.

Do outro lado da rua, onde caiu o outro míssil, parte dos prédios vem ao chão, enquanto as janelas e portas voam primeiro para dentro, depois para fora, esmigalhando todos os móveis que encontram no caminho. No trajeto, destroem também as pessoas.

Seriam 15 mortos, segundo números do governo iraquiano, entre eles mulheres e crianças. Os que não morreram carbonizados tiveram o corpo despedaçado pelo impacto. A reportagem da Folha chegou no momento em que os bombeiros apagavam os últimos focos de incêndio e as ambulâncias recolhiam os últimos pedaços encontrados no chão.

Alguns restos humanos, no entanto, ficaram para trás. Em frente ao restaurante, num monte de tijolos quase picados, jazia um punho direito com a palma da mão e os cinco dedos fechados.

Poucos metros à esquerda, na entrada de um dos edifícios destruídos, um cérebro humano quase inteiro parecia esquecido perto do rodapé, ladeado por três galinhas brancas estufadas que se embolavam perto da guia da rua e foram mortas pelo ar. Do outro lado da rua, outra mão decepada.

O horror, o horror.

Perto das 11h30 (5h30 de Brasília) de ontem, o que o Iraque disse ter sido dois mísseis "inteligentes" da coalizão anglo-americana atingiram as duas calçadas da rua Abi Talib, em Al Shaab, uma rua movimentada de comércio de um dos principais bairros residenciais no norte de Bagdá, no maior ataque a atingir civis na capital desde o início do conflito, há uma semana. A tragédia causou revolta na população local e juntou uma pequena multidão de militares e civis armados em protestos que duraram a tarde inteira.

Se o engano for confirmado, será uma das principais dores-de-cabeça para as forças dos Estados Unidos e do Reino Unido. Com os bombardeios chegando à casa dos 5.000 só em Bagdá, o número de civis mortos no país todo pode estar perto dos 7.000, segundo o Crescente Vermelho, a Cruz Vermelha nos países muçulmanos.

Na Guerra do Golfo (91), um míssil atingiu por erro um abrigo civil em Bagdá, matando 314. Na época, porém, apenas 10% das bombas e mísseis eram "inteligentes", contra 90% de agora.

"Só Deus! Só Deus!"

"Procure bem, só temos comércio por aqui", gritava Ali Benayam Gatt, 55. A oficina de reparo de automóveis era dele, e o ataque deixou um parente morto e outro gravemente queimado. "Agora, todos estamos pensando que nada impede que a próxima bomba caia na sala de nossa casa."

O prédio militar mais próximo fica a pelo menos um quilômetro do lugar, segundo o governo. De acordo com Haneed Dulaimi, soldado da defesa civil, o ataque deixou ainda 45 feridos.

"Meu primo estava dentro do restaurante e morreu em pedaços", dizia, resignado, Faris Rashid Ismail, 37, que mora próximo da rua em que os mísseis caíram e correu para o local quando ouviu um barulho de avião seguido de dois estouros consecutivos.

"Mas estou me sentindo consolado, pois sei que ele foi um mártir do islã." Ao seu lado, dezenas de pessoas abraçadas gritavam "Só Deus! Só Deus", pulando sobre a carcaça de um dos carros destruídos e apontando seus fuzis e pistolas para o alto.

O céu parecia colaborar com o que se via em terra -no segundo dia da maior tempestade de areia a atingir Bagdá em cinco anos, estava de cor vermelho-sangue.

Momentos depois, a chuva viria piorar tudo, fazendo do chão uma mistura de sangue, água, areia e partículas do petróleo queimado que o governo iraquiano vem lançando ao ar desde o fim de semana para atrapalhar os aviões da coalizão.

De repente, um soldado apoiou seu fuzil na lama, arranca dos escombros uma das mãos decepadas e pulou num dos buracos feitos pela explosão na calçada. A mão que suas mãos carregavam era a mais impressionante, tendo perdido todo o resto do membro, à exceção dos cinco dedos, que se mantinham unidos por algum motivo.

O soldado dentro da cratera ergue o resto humano e começa a orar, de cabeça baixa. Em sua volta, na superfície, estão outros bagdalis armados, igualmente de cabeça baixa, também orando.

Acabada a reza, ele enterra nas cinzas do buraco a mão arrancada, ergue novamente seus braços e canta. Os outros fazem o mesmo: "Sacrificarei minha alma e meu sangue por Saddam".

Se essa guerra é no fundo a batalha que travam George W. Bush e Saddam Hussein pelos corações e mentes dos iraquianos, Al Shaab pode vir a ser o Waterloo norte-americano.

DIÁRIO DE BAGDÁ

De bombas, tempestades e frutas frescas


JUCA VARELLA E SÉRGIO DÁVILA
ENVIADOS ESPECIAIS

COMÉRCIO REABRE AS PORTAS


Aos poucos, o comércio voltou a abrir as portas em Bagdá. A porcentagem de lojas funcionando ainda é pequena, segundo o governo, mas dobrou dos 5% dos últimos dias para 10% ontem.
Paradoxalmente, era nas regiões mais afastadas do centro que os negócios eram feitos, caso do tradicional mercado Shorga. Casas de câmbio, fruteiros, padarias e lanchonetes arriscaram subir as portas de aço naquela região, para receber uma clientela que estava cansando de esperar.
Foi o caso de Hassan Hussein Mohammed Ali, que vendia aos berros bananas, laranjas e outras frutas. O comerciante, que diz ter 45 anos mas aparenta pelo menos 15 anos mais, afirma que é casado com duas mulheres e tem oito filhos e colocou todos para trabalhar para ele. Não tem medo da guerra e pretende ficar aberto todos os dias daqui para a frente.
"As bombas e as guerras vão e vem, mas as frutas continuam chegando em minha porta e têm de estar sempre frescas", filosofa. Indagado sobre se aumentou os preços por conta do conflito, reluta e acaba dizendo que não.
"Esta banana, por exemplo, custa os mesmo 250 dinares de antes", afirma. O repórter compra uma, o que leva as pessoas em volta a exigirem o mesmo preço. "Para ele é 250, mas para vocês continua sendo 750 dinares."

No ar, areia, chuva e petróleo
*
Há algo nos céus de Bagdá além da chuva de mísseis. Meteorologistas ouvidos dizem que as partículas vieram até do Egito e da Jordânia. A olho nu, é claro que não é possível fazer a distinção. Mas, desde que a tempestade de areia tomou a cidade, anteontem, o ar de Bagdá ficou tão denso e poluído que está virando quase palpável.
"Não vejo um tempo assim desde que os meus sete anos de idade", disse à Folha o bagdali Sabbah Abdul Kadyr, 39.
Bagdá amanheceu ontem coberta por uma camada fina de poeira bege, que deixou a paisagem monocromática. No fim da manhã, o sol chegou a sair, mas a tempestade voltou com força redobrada na hora do almoço, seguindo a mesma paleta de anteontem. Primeiro, deixando o ar amarelo-ouro. Depois, laranja. Por fim, vermelho. Com isso, as luzes artificiais, como os faróis dos carros e os postes, ganhavam uma estranha cor azul. A visibilidade nas ruas era de menos de cinco metros. Então, choveu.
Para complicar, o governo seguiu com sua tática militar altamente questionável de queimar petróleo para que a fumaça preta confunda mísseis e aviões da coalizão anglo-americana. O método é inócuo para armamentos guiados a laser e satélite.
*
Água suja, poeira e a cara do Taleban

Todos os dias, os cerca de 150 jornalistas em Bagdá são obrigados a passar na sede do Ministério da Informação, onde acontecem as principais entrevistas coletivas e de onde saem as autorizações para andar pelas ruas. Acontece que o prédio é um provável alvo militar, a se levar em conta o padrão dos ataques até agora.
*
O resultado é que pelo menos uma vez por dia o edifício é espontaneamente evacuado pela própria imprensa.
*
Começa assim: alguém da equipe da agência de notícias Reuters ou da emissora britânica BBC ouve de "fonte fidedigna" que o ministério será bombardeado em cinco minutos. Em três, todo o mundo foi embora.
*
A área em que se encontra o ministério foi uma das mais visadas pelas forças anglo-americanas na primeira fase do conflito, até sexta, e voltou a ser atacada no começo da semana. Próximos do local estão pelo menos dois palácios presidenciais, um já atingido, e a sede do Escritório de Segurança da região, também atingida.
*
Ontem, foi a vez da vizinha sede da rádio e TV iraquiana levar uma saraivada de mísseis que a destruíram quase totalmente.

Além disso, a relação entre governo e imprensa anda tensa desde que a equipe da CNN foi expulsa do país. Outro jornalista, da agência France Presse, também foi expulso por ter prestado trabalhos para a emissora de Atlanta depois da expulsão desta.
*
Mais: também nos últimos dias membros da polícia secreta iraquiana deram batidas em quartos de jornalistas em busca de telefones por satélite. Cinco deles foram apreendidos recentemente.
*
É que o uso dos telefones e dos links por satélite só é permitido dentro da sede do ministério. Mas o horário de funcionamento ali é limitado.
*
Some a isso as bombas, que continuam caindo, o ar, que continua irrespirável e seco, e a água, que sai suja das torneiras e deixa todos com a cara e o cabelo do Taleban americano quando este foi capturado, e eis o quadro geral do jornalista médio em Bagdá.
*
Ontem de manhã, enquanto visitávamos uma área civil atingida, fomos sacudidos do chão por outras duas bombas consecutivas que caíram a centenas de metros. Um jornalista europeu se surpreendeu: "Ainda tem perigo?".
Ainda tem, e terá cada vez mais.
*
Enquanto isso, vai se percebendo que a burocracia brasileira veio dos colonizadores portugueses, sim, mas estes a herdaram dos invasores árabes. Nada em Bagdá é resolvido sem que pelo menos quatro barnabés bagdalis estejam diretamente envolvidos.
Chega a ser cômico: para carimbar um documento ou pagar uma taxa, no mínimo quatro funcionários públicos são mobilizados. E não há salinha de repartição que não conte com quatro iraquianos sentados, um em ação, os outros três olhando.
*
Para piorar, você descobre que no Iraque, com exceção dos comerciantes e mascates, todos são funcionários públicos.

DIÁRIO DE BAGDÁ

De bombas, tempestades e frutas frescas


JUCA VARELLA E SÉRGIO DÁVILA
ENVIADOS ESPECIAIS

COMÉRCIO REABRE AS PORTAS


Aos poucos, o comércio voltou a abrir as portas em Bagdá. A porcentagem de lojas funcionando ainda é pequena, segundo o governo, mas dobrou dos 5% dos últimos dias para 10% ontem.
Paradoxalmente, era nas regiões mais afastadas do centro que os negócios eram feitos, caso do tradicional mercado Shorga. Casas de câmbio, fruteiros, padarias e lanchonetes arriscaram subir as portas de aço naquela região, para receber uma clientela que estava cansando de esperar.
Foi o caso de Hassan Hussein Mohammed Ali, que vendia aos berros bananas, laranjas e outras frutas. O comerciante, que diz ter 45 anos mas aparenta pelo menos 15 anos mais, afirma que é casado com duas mulheres e tem oito filhos e colocou todos para trabalhar para ele. Não tem medo da guerra e pretende ficar aberto todos os dias daqui para a frente.
"As bombas e as guerras vão e vem, mas as frutas continuam chegando em minha porta e têm de estar sempre frescas", filosofa. Indagado sobre se aumentou os preços por conta do conflito, reluta e acaba dizendo que não.
"Esta banana, por exemplo, custa os mesmo 250 dinares de antes", afirma. O repórter compra uma, o que leva as pessoas em volta a exigirem o mesmo preço. "Para ele é 250, mas para vocês continua sendo 750 dinares."

No ar, areia, chuva e petróleo
*
Há algo nos céus de Bagdá além da chuva de mísseis. Meteorologistas ouvidos dizem que as partículas vieram até do Egito e da Jordânia. A olho nu, é claro que não é possível fazer a distinção. Mas, desde que a tempestade de areia tomou a cidade, anteontem, o ar de Bagdá ficou tão denso e poluído que está virando quase palpável.
"Não vejo um tempo assim desde que os meus sete anos de idade", disse à Folha o bagdali Sabbah Abdul Kadyr, 39.
Bagdá amanheceu ontem coberta por uma camada fina de poeira bege, que deixou a paisagem monocromática. No fim da manhã, o sol chegou a sair, mas a tempestade voltou com força redobrada na hora do almoço, seguindo a mesma paleta de anteontem. Primeiro, deixando o ar amarelo-ouro. Depois, laranja. Por fim, vermelho. Com isso, as luzes artificiais, como os faróis dos carros e os postes, ganhavam uma estranha cor azul. A visibilidade nas ruas era de menos de cinco metros. Então, choveu.
Para complicar, o governo seguiu com sua tática militar altamente questionável de queimar petróleo para que a fumaça preta confunda mísseis e aviões da coalizão anglo-americana. O método é inócuo para armamentos guiados a laser e satélite.
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Água suja, poeira e a cara do Taleban

Todos os dias, os cerca de 150 jornalistas em Bagdá são obrigados a passar na sede do Ministério da Informação, onde acontecem as principais entrevistas coletivas e de onde saem as autorizações para andar pelas ruas. Acontece que o prédio é um provável alvo militar, a se levar em conta o padrão dos ataques até agora.
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O resultado é que pelo menos uma vez por dia o edifício é espontaneamente evacuado pela própria imprensa.
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Começa assim: alguém da equipe da agência de notícias Reuters ou da emissora britânica BBC ouve de "fonte fidedigna" que o ministério será bombardeado em cinco minutos. Em três, todo o mundo foi embora.
*
A área em que se encontra o ministério foi uma das mais visadas pelas forças anglo-americanas na primeira fase do conflito, até sexta, e voltou a ser atacada no começo da semana. Próximos do local estão pelo menos dois palácios presidenciais, um já atingido, e a sede do Escritório de Segurança da região, também atingida.
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Ontem, foi a vez da vizinha sede da rádio e TV iraquiana levar uma saraivada de mísseis que a destruíram quase totalmente.

Além disso, a relação entre governo e imprensa anda tensa desde que a equipe da CNN foi expulsa do país. Outro jornalista, da agência France Presse, também foi expulso por ter prestado trabalhos para a emissora de Atlanta depois da expulsão desta.
*
Mais: também nos últimos dias membros da polícia secreta iraquiana deram batidas em quartos de jornalistas em busca de telefones por satélite. Cinco deles foram apreendidos recentemente.
*
É que o uso dos telefones e dos links por satélite só é permitido dentro da sede do ministério. Mas o horário de funcionamento ali é limitado.
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Some a isso as bombas, que continuam caindo, o ar, que continua irrespirável e seco, e a água, que sai suja das torneiras e deixa todos com a cara e o cabelo do Taleban americano quando este foi capturado, e eis o quadro geral do jornalista médio em Bagdá.
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Ontem de manhã, enquanto visitávamos uma área civil atingida, fomos sacudidos do chão por outras duas bombas consecutivas que caíram a centenas de metros. Um jornalista europeu se surpreendeu: "Ainda tem perigo?".
Ainda tem, e terá cada vez mais.
*
Enquanto isso, vai se percebendo que a burocracia brasileira veio dos colonizadores portugueses, sim, mas estes a herdaram dos invasores árabes. Nada em Bagdá é resolvido sem que pelo menos quatro barnabés bagdalis estejam diretamente envolvidos.
Chega a ser cômico: para carimbar um documento ou pagar uma taxa, no mínimo quatro funcionários públicos são mobilizados. E não há salinha de repartição que não conte com quatro iraquianos sentados, um em ação, os outros três olhando.
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Para piorar, você descobre que no Iraque, com exceção dos comerciantes e mascates, todos são funcionários públicos.

26.3.03

DIÁRIO DE BAGDÁ

Passat, o "Brazíli", um caso de amor


SÉRGIO DÁVILA e JUCA VARELLA, ENVIADOS ESPECIAIS

O iraquiano vive um caso de amor com o Passat. Não o modelo importado atual, que é sonho de consumo da nova geração, mas o carro brasileiro que reinou nas ruas e estradas do país nos anos 80. É dessa época a primeira leva de exportação do automóvel para o Iraque. Como nos vidros traseiros os veículos traziam o adesivo "Made in Brazil", desde então o Passat é conhecido por aqui como "Brazíli".
*
Pois o Brazíli é muito querido. Primeiro, me dizem os motoristas, porque é barato para comprar e para manter. Um modelo em bom estado, ano 1988, o último a ser exportado para cá, pode custar até US$ 4.000. Segundo, porque os mais antigos são o sonho possível da classe média de ter um carro próprio.
*
A Volkswagen brasileira exportou 170 mil Passats para o Iraque entre 1983 e 1988, todos quatro portas. Numa iniciativa inédita então, trocavam os carros por petróleo, que era revendido depois à Petrobrás. Há Brazílis em todos os lugares, de todas as cores e jeitos. Criativo, o iraquiano pintou o carro de maneiras, digamos, mais alegres do que as de fábrica.
*
O Brazíli é amado ainda por ser econômico. Não que combustível seja exatamente problema para os iraquianos. Três dólares compram cem litros de gasolina especial; o valor cai à metade na comum.
*
Você leu direito. Estou falando de um povo que usa gasolina azul para lavar a calçada de casa e para tirar manchas de roupa. É verdade. Quando falei do preço brasileiro para um motorista, ele riu.
*
Enquanto isso, os escudos humanos continuam em ação nos supostos alvos civis de Bagdá. "Eu peço desculpa por meu país", começou Faith Fepencis, aos 62 anos a mais velha a vir para o Iraque para protestar contra a guerra. "Sou norte-americana, da região de George W. Bush, mas não posso concordar com esta situação." Ela está lotada na refinaria de petróleo de Al Dhoura. A seu lado, a faixa "No blood for oil". Enquanto dava entrevista, duas bombas caíram perto do complexo petrolífero. Medo.
*
No encontro, o ministro do Petróleo negou que o Iraque tivesse incendiado poços pelo país. "Repare como a CNN mostra sempre o mesmo poço, que foi bombardeado pelos próprios americanos, como sendo incendiado por nós", disse Amen Rashid. "Temos milhares de poços. Por que incendiaríamos apenas um?"
*
Nas ruas da cidade, com o feriado não-oficial dos serviços públicos, Bagdá está cada vez mais suja. O lixo se acumula nas guias, e as moscas começam a se proliferar.
*
No chão da entrada do Hotel Al Rasheed, a pintura de George Bush, o pai, que ficou famosa na Guerra do Golfo, foi coberta um mês antes de iniciado o atual conflito. Um tapete persa esconde a provocação. Política de boa vizinhança preventiva?
*
Segundo a crença local, o míssil Tomahawk que atingiu o Al Rasheed em 1998, durante a Operação Raposa do Deserto, teria a pintura como alvo. Na época, os EUA disseram ser engano. Os iraquianos pensam diferente. Contam inclusive que um segundo míssil teria atingido a casa da autora do retrato, que morreu.
*
A boa vizinhança, porém, tem limites. Nas entrevistas, o ministros-generais se referem à sede do governo norte-americano como "Black House", que abriga a "gangue de Washington".
*
Todo jornalista que trabalha em Bagdá é obrigado a sair com um motorista (que informa as atividades ao Ministério da Informação) e um guia (que trabalha diretamente para o órgão), caso contrário não pode sequer deixar o hotel. Nosso guia é a cara do Freddie Mercury, o famoso vocalista do Queen, já morto. Dissemos isso a ele, que não sabia nem o que era Queen nem quem era Freddie Mercury.
*
"Mas gosto do ABBA", confessou.





25.3.03

LUÍS NASSIF

O pêndulo e Bush


As análises atuais sobre a guerra dos Estados Unidos contra o Iraque padecem de algum imediatismo. Argumenta-se, corretamente, que a decisão de George W. Bush significou a implosão da ordem diplomática internacional, que os EUA deixam de ser potência hegemônica para se converter em potência imperial, a exemplo da Roma de Júlio César, após a travessia do Rubicão.

A questão a discutir é se a posição de Bush representa o pensamento norte-americano daqui para a frente ou se é um momento de truculência irracional que tende a ser superado e jogado na lata de lixo da história. É mais razoável acreditar no fim político de Bush filho, a médio prazo, do que na manutenção da grande noite mundial.

Os Estados Unidos são uma sociedade complexa, com muitos interesses em jogo e com agentes políticos influentes e inimagináveis na época de Roma imperial. Neste momento tem-se uma guerra cruel, um índice de 75% de aprovação interna à ação militar e os Estados Unidos entregues a forças retrógradas e isolacionistas. Porém é o auge do prestígio de Bush filho, impulsionado pelo trauma de 11 de setembro e pela promessa de uma guerra "limpa", sem perdas substantivas do lado norte-americano e com respeito aos civis iraquianos.

Esses fatores tendem a se diluir rapidamente, e outros fatores entrarão em cena:

1) o movimento pacifista é uma realidade latente, disseminada por todo o mundo desde a Guerra do Vietnã. A manifestação de artistas contra a guerra na cerimônia de entrega do Oscar demonstra que não há espaço para uma recidiva do macarthismo. Apenas uma guerra extremamente rápida poderia impedir o crescimento de manifestações internas contra a guerra;

2) a visão imperial de mundo, da "doutrina Bush", é incompatível com a visão de hegemonia econômica, dado o grau de interligação das economias nacionais. Portanto entra em choque com os interesses das suas multinacionais, segundo grupo que começará, em breve, a investir contra a guerra;

3) uma das dificuldades de impor a racionalidade econômica é a distância entre os eventos e suas consequências econômicas. Se a guerra aumentar o déficit público norte-americano e impedir a recuperação da economia nacional e mundial, Bush filho será fritado como foi Bush pai;

4) sem que nenhuma reunião adicional tenha sido feita, pode-se dizer que o sentimento brasileiro ficou muito mais pró-União Européia do que pró-Alca. A manifestação do poder imperial norte-americano será forte fator de mobilização dos países e regiões para acordos comerciais que os fortaleçam contra o império;

5) o governo Bush padece de escândalos potenciais para oposição nenhuma botar defeito. Há os interesses comerciais pouco transparentes dos auxiliares de Bush e indícios sobre manipulação de informações pela CIA visando encontrar uma desculpa para a invasão. Todas as informações que estão sendo sonegadas hoje pela mídia norte-americana estão devidamente arquivadas para o momento em que o pêndulo da opinião pública começar a se voltar contra Bush filho.

REUNIÃO

Representantes discutiram em voz alta e trocaram ameaças no Cairo (capital do Egito)


Confusão marca encontro de árabes

RICARDO SETYON
FREE-LANCE PARA A FOLHA, DO CAIRO

Discussões em voz alta, cenas teatrais, ameaças e muita confusão. É outra reunião da Liga das Nações Árabes. Mas esta, realizada ontem, no Cairo, teve um final diferente. Ao contrário da última vez, quando líderes árabes se reuniram, dias antes do início da guerra no Iraque, e o mundo assistiu pela TV a ofensas mútuas, principalmente por parte dos representantes do Iraque e do Kuait, ontem, os ministros conseguiram dar um passo firme em direção a uma posição mais clara desta que é a mais poderosa e importante entidade do mundo árabe.

Mesmo com grandes confrontos durante a reunião, Amr Moussa, ex-ministro das Relações Exteriores do Egito, conseguiu trazer a público um documento quase unificado. Quase, porque mesmo com a dramática situação vivida por um dos membros da liga, o Iraque, os representantes árabes não conseguiram demonstrar uma unidade. Outro fator que "auxiliou" a falta de união foi a pressão exercida pela população em quase todos os países árabes, esta praticamente fora de controle. Colin Powell, secretário de Estado americano, ligou para vários ministros da liga, mas, como disse o representante do Bahrein, "a opinião pública árabe está fervendo".

Na reunião antes da guerra, o ministro iraquiano chamou o representante do Kuait de "falso, destruidor da honra e da terra sagrada muçulmana". Os líderes árabes já sabiam que, em caso de guerra, o mundo islâmico no Oriente Médio não conseguiria enfrentar a raiva popular. "Está dissolvida totalmente a união árabe", explicava um alto oficial da Tunísia naquela oportunidade. "Agora só nos resta orar a Allah que nos guie porque os únicos que perderão serão os árabes!".

Desta vez, os ministros das Relações Exteriores foram convocados. Logo de cara, o presidente da sessão, o ministro libanês Mahmoud Hammoud, exigiu "o fim das atividades bélicas anglo-americanas no Iraque, imediatamente, sem discussão e sem um dia mais de combates!". O ministro representante do Qatar, Hamad Bin Hassem Al-Thani, decidiu unilateralmente abandonar a reunião. Seus assessores tentavam desculpar-se, dizendo que isso era "devido a compromissos importantes".

No decorrer da reunião, ficava clara a total divisão de posições entre os paises. A apresentação de países como Iraque, Síria, Líbano e, principalmente, Líbia tiravam aplausos. Na sala principal, os representantes tentavam encontrar o texto final para o documeto que seria exibido ao fim do dia e enviado ao Conselho de Segurança da ONU. Qatar, Kuait e Bahrein pareciam pertencer a outra galáxia.

Após o ministro libanês, foi a vez do mais explícito e radical dos representantes falar: Ali Tikri, secretário de negócios africanos deste pais. Tikri, ao ver que levantava os ânimos na sala, não se conteve com suas palavras de abertura em apoio ao Iraque, e foi mais longe: "Temos que aplaudir a heróica resistência do povo e Exército do Iraque. Quero dizer aos nossos irmãos do Iraque que os apoiamos e não os abandonaremos. Esse heroísmo iraquiano já faz parte da história". "Temos que levantar nossas cabeças bem alto e saudar os heróis do Iraque, capazes de enfrentar a potência arrogante estrangeira. Desde esta reunião, dizemos aos irmãos iraquianos: estamos com vocês!", afirmou.

"A guerra no Iraque é uma agressão ilegal", diz o documento final.

PRISIONEIROS

Veículos impressos imitam TV e também escondem imagens de soldados aprisionados

Mídia americana adota autocensura

ROBERTO DIAS
DE NOVA YORK

A imprensa americana adotou ontem autocensura semelhante à das televisões do país e escondeu as imagens, divulgadas no domingo pela TV iraquiana, de soldados dos EUA mortos e mantidos com reféns de guerra.

Dos cinco jornais de maior circulação, só o "Los Angeles Times" reproduziu as cenas exibidas pelo canal de Saddam Hussein. Os jornais "USA Today", "The Wall Street Journal", "The New York Times" e "The Washington Post" não trouxeram as imagens. "Decidimos não publicar as fotos dos soldados mortos ou capturados porque há questões não respondidas sobre as condições em que foram feitas e as identidades dos soldados", disse Toby Usnik, diretor de relações públicas do "The New York Times".

Para o ombudsman do "The Washington Post", Michael Gleter, "algumas das fotos talvez não devessem ser publicadas". Procurado, o relações-públicas do "Los Angeles Times", David Garcia, não havia explicado até o fechamento desta edição os motivos para o jornal omitir as fotos.

"São imagens que nossos inimigos nos mostram. Não temos de vê-las", afirmou Tim Graham, diretor de análise do Media Research Center, instituição autointitulada "a líder em documentar, expor e neutralizar o viés da mídia liberal". Para ele, "quando começa uma guerra, há sempre a discussão de que as pessoas não entendem o que acontece, mas elas sabem o que é uma guerra".

Robert Jansen, professor de jornalismo da Universidade do Texas, diz que a mídia dos EUA deve até divulgar imagens negativas de seus soldados, mas não será o padrão. "Haverá resistência em publicar fotos que mostrem soldados em posição de fraqueza. É um nacionalismo errado."

Pedido

No domingo, pro meio de um comunicado, o Departamento de Defesa solicitou à mídia americana que não reproduzisse as imagens, alegando que precisava primeiro contatar as famílias dos soldados mortos e tidos como reféns. Antes de a discussão explodir, no domingo, a imprensa publicara imagens de soldados iraquianos presos pelos EUA.

A autocensura entre os jornais de maior prestígio, porém, não foi acompanhada pelos tablóides. Em Nova York, por exemplo, o "Daily News" e o "New York Post" trouxeram na capa reproduções das fotos de americanos mortos ou capturados, sob as manchetes "Ultraje" e "Selvagens", respectivamente.

Mesmo sem as imagens, os principais jornais americanos trouxeram ontem reportagens sobre a discussão pública travada pelas redes de TV no domingo. Na televisão, o debate continuou ontem. A CNN anunciou que seguiria a orientação do Pentágono. "Mas mostraremos trechos dos depoimentos dos soldados", disse a âncora Paula Zahn.


21.3.03

De volta à Idade Média

NICOLAU SEVCENKO
ESPECIAL PARA A FOLHA

Em meio ao oceano de cartazes na marcha de um milhão por Londres (número oficial; extra-oficial: dois milhões), uma das placas dizia: "Bush quer bombardear a lei"; outra anunciava: "Os EUA estão criando as Nações Desunidas"; outra clamava: "Salvem a Terra, mandem Blair e Bush a uma missão em Netuno".

Afora os slogans pacifistas que a ocasião exigia, a passeata pululava de mensagens alertando que, para além dos horrores da guerra, pairam as ameaças de uma ruptura irreversível das instituições multilaterais. Depois da desregulamentação dos mercados e das garantias da legislação social, estaríamos assistindo agora à desestruturação da ordem internacional. Soem os alarmes!

De fato há muito mais em jogo do que se encontra circunscrito pelas fronteiras do Iraque. Livro recente do historiador Michael Howard, ex-professor de Oxford e Yale e um dos fundadores do International Institute for Strategic Studies, ajuda a refletir sobre a questão. O título é esclarecedor, "The Invention of Peace and the Reinvention of War" (Profile Books, 2002). Parte de conclusão surpreendente de Sir Henry Maine, em seu clássico sobre direito internacional (1888), de que "a guerra parece ser tão antiga quanto a humanidade, mas a paz é uma invenção moderna".

Nos tempos antigos e medievais, para governantes e elites de orientação belicosa, os breves períodos de paz é que pareciam anomalia. A guerra lhes era tão natural quanto as tempestades, predatórias, mas também inevitáveis. Só com os filósofos iluministas surgiria a idéia de que os confrontos militares são catástrofes provocadas pela cobiça dos poderosos. A gestão racional das sociedades deveria portanto restringir as causas, o impacto e o efeito das guerras. A idéia seria criar tribunais internacionais autônomos para a resolução dos conflitos, dotados de mecanismos de consenso e estabilização.
Foi Kant quem concebeu a idéia de uma Liga das Nações. A longo prazo, o objetivo era erradicar a guerra, como uma obsolescência típica de tempos primitivos.

Se nesse sentido a paz foi deveras uma invenção moderna, sua implementação porém levou mais tempo. Os acordos de Versalhes, após a Revolução e as guerras napoleônicas, criaram um sistema informal de consultas entre governos que pacificou a Europa por um século até a Grande Guerra. O fim do conflito em 1918 assinalou o declínio europeu e a ascensão dos EUA como potência mundial. O país foi o primeiro a ter constituição e aparato institucional inspirados nos preceitos iluministas. Não surpreende que tenha encabeçado a criação da liga após a Primeira Guerra e a Organização das Nações Unidas após a segunda. Malgrado seus defeitos, não há como negar que a ONU funcionou como câmara de descompressão de tensões internacionais na turbulenta segunda metade do século 20.

Por mais insatisfeitos que estivéssemos com os limites da ONU, agora, vislumbrando a possibilidade do seu declínio, sentimos como é apavorante encarar um mundo sem instância com autoridade para gerar mediação, consenso e concórdia. O que aponta parece ser a reinvenção da guerra como componente intrínseco de uma nova ordem, em que uma cultura bélica recoberta de simbolismos religiosos e preconceitos inconfessáveis se sobrepõe à herança do iluminismo. De volta à Idade Média, prenunciada pela volta da caça às bruxas.

Esse retrocesso cultural ou essa manobra reacionária, como quer que se a conceba, tem fonte clara. Dentre os vários "thinking tanks" que vicejaram nos meios conservadores, empenhados no impeachment de Bill Clinton, ganhou destaque o núcleo duro chamado Project for the New American Century.

Sediado em Washington, reunia conselheiros políticos que se destacaram no círculo áulico da administração Bush sênior. Gente como Dick Cheney, Donald Rumsfeld, Jeb Bush, Richard Perle, Paul Wolfowitz, que viriam a se tornar, como se sabe, homens-chaves do governo Bush junior. Um dos membros era Zalmad Khalilzad, articulador das lideranças iraquianas no exílio e um dos principais candidatos ao suposto governo de transição no Iraque libertado.

O objetivo básico dessa corrente é a construção do que chamam de "dominação de espectro pleno". Ou seja, a idéia de que no século 21 os EUA se tornem militarmente invencíveis. Daí a iniciativa de levar adiante o projeto "Guerra nas Estrelas" e o empenho em desenvolver uma nova geração de armas nucleares, com tecnologia de exclusivo domínio americano. Levado às últimas consequências, esse projeto deixaria os EUA na posição de ditar a política mundial pela convicção da superioridade inquestionável de seu destino manifesto e pelo seu ilimitado poder de coerção.

Para parte significativa dos americanos e para a população mundial, esse projeto revela os riscos impensáveis do unilateralismo e a necessidade de se reajustar os desequilíbrios de poder atualmente vigentes na ONU e no Conselho de Segurança.

O que essa crise revela é tão medonho, que faz soar o alarme. Em tempos sombrios como estes, as maiorias que amam a vida, a liberdade e a paz entendem e atendem ao apelo das luzes.

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Nicolau Sevcenko é professor de história da cultura na USP

20.3.03

LUÍS NASSIF


A vitória do homem-massa


O comportamento da imprensa norte-americana na guerra contra o Iraque traz à tona reflexões preocupantes sobre o papel da mídia nas modernas democracias. Cada vez mais, não deu manchete, não aconteceu. O avanço da democracia tornou a opinião pública uma referência cada vez mais relevante.

A agilidade do mundo moderno e a busca de resultados rápidos acabaram reduzindo o peso das instituições tradicionais, como o Parlamento e o Judiciário. Fora do período eleitoral, as pesquisas de opinião acabam por condicionar o comportamento das autoridades.
Além disso, a partir do episódio Watergate, a manipulação de denúncias tornou-se elemento corrente no jogo político, ampliando ainda mais a influência da mídia.

De seu lado, a mídia tornou-se cada vez mais um produto de marketing, prisioneira de suas próprias pesquisas de opinião e -por causa da crise internacional do setor- muito mais temerosa de ir contra o que considera pensamento majoritário de seus leitores.

Mais que isso, a crise atual da mídia não pode ser encarada como um movimento conjuntural. A mudança é estrutural. Ampliaram-se desmedidamente as fontes de divulgação, pulverizaram-se as verbas publicitárias, enfraquecendo e/ou tornando superficial a mídia tradicional, que era referência de opinião. Criou-se, aí, um cadinho perigoso, que acabou provocando esse paradoxo: em plena época da informação, em pleno século 21, uma manipulação do noticiário na nação mais poderosa do planeta.

Não apenas isso. Hoje em dia, há uma ampla pobreza na discussão econômica, na discussão de projeto de país, uma enorme dificuldade para discutir políticas tecnológicas, de saúde. Por vezes fica-se pensando que nossa geração é intelectualmente pobre, não gerou um Eliezer Baptista, um Roberto Campos, um Celso Furtado. Mas, às vezes, baixa o temor de que a superficialidade seja inerente ao mundo contemporâneo.

A televisão não comporta mais do que duas frases articuladas. As revistas têm espaço restrito e, pelo menos desde os anos 70, as reportagens são planejadas antes que o conteúdo seja apurado, na velha receita do "Times". Os jornais têm espaço para os chamados artigos de fundo, mas o que conta e influencia são as manchetes. E todas elas são condicionadas pelo que se pensa que o leitor queira receber, simplificando sempre para não atrapalhar o produto. Esses movimentos acabam se impondo sobre o Parlamento e, muitas vezes, condicionando ações do Judiciário.

Não surpreende, pois, o comportamento de manada tomando conta da mídia, os linchamentos, a mediocrização das fontes privilegiando sempre aquela que traz obviedades sem risco. É esse modelo que faz com que, na pátria dos direitos individuais, em pleno século 21 se tenha o retorno ao macartismo.

Ao ver o destino da humanidade nas mãos de uma pessoa como George W. Bush, a maneira extremamente fácil com que se manipulam informações, com que se investe contra a racionalidade, há que pensar que, em vez da nova Renascença, o futuro nos reserva a vitória final do homem-massa sobre a razão e o bom senso.

Governo e empresas tentam reduzir prejuízo da mídia com a guerra

DE WASHINGTON

Empresas de comunicação e o governo dos EUA estão trabalhando em conjunto para reduzir os efeitos da guerra contra o Iraque no faturamento da mídia americana. A estratégia foi montada após análise da perda publicitária que as empresas sofreram durante a Guerra do Golfo (1991).
A estratégia do Pentágono para a mídia foi batizada como "embedded with troops" (na cama com as tropas). Estimulados até pelo nome, críticos afirmam que o governo estaria "retribuindo" um clima pró-guerra que as principais emissoras, e alguns dos maiores jornais americanos, vêm adotando há alguns meses.

A "simbiose" entre os meios e os militares deve resultar em uma cobertura maciça da guerra, com centenas de jornalistas acompanhando as tropas. Visa minimizar perdas na receita publicitária e reduzir os custos da cobertura. "Temos de ver como isso vai funcionar", disse à Folha Michael Getler, ombudsman do "Washington Post". Há um mês, o jornal publicou editorial de meia página para se defender da acusação de leitores de que estaria agindo a favor da guerra.

Em fevereiro, o Pentágono tinha a expectativa de levar 500 jornalistas para a região do Golfo. Na semana passada, a lista foi ampliada para 600 pessoas.
A estratégia das emissoras e jornais é criar um clima mais "amigável" com seu público a partir do local do conflito. Isso diminuiria, por exemplo, o risco para as TVs de contar apenas com imagens cedidas pelos militares.

Em 91, as três maiores emissoras de TV dos Estados Unidos, ABC, NBC e CNN, tiveram prejuízos estimados de US$ 25 milhões (R$ 85 milhões) ao dia com o cancelamento de anúncios de clientes que não quiseram ter produtos vinculados à guerra.

Para a mídia impressa, o resultado foi semelhante. Nos primeiros dias da guerra, peças de grandes anunciantes simplesmente desapareceram das páginas de jornais e revistas.

Ao mesmo tempo, os custos para a cobertura do conflito aumentaram da noite para o dia. Para cobrir esta guerra, a CNN reservou um orçamento de US$ 35 milhões -contra os US$ 25 milhões gastos no primeiro conflito.

O cenário hoje é mais sombrio pelo fato de grande parte da mídia norte-americana estar endividada após pesados investimentos feitos durante a chamada "bolha tecnológica". Há dois anos, houve pesados aportes em produtos e serviços voltados à internet que não resultaram lucrativos até agora.
Para evitar o estrago de 91, a vice-presidente de comunicações do "The New York Times", Catherine Mathis, diz que o jornal deverá separar toda a cobertura da guerra em um caderno específico para desvincular o noticiário bélico da publicidade. (FERNANDO CANZIAN)

19.3.03

EM CAMPNHA CONTRA MINORITÁRIOS DO PT, O GLOBO
USA ADJETIVO RADICAL 12 VEZES EM UMA SÓ PÁGINA


Cláudia Santiago


Qualquer um que saiba minimamente como funcionam as redações dos jornais comerciais consegue imaginar as orientações recebidas pelos repórteres que fazem a cobertura do PT. "Vá lá e consiga alguém da Articulação para dizer que os "radicais" serão expulsos a qualquer sinal de descontentamento. E arranque do deputado Babá (PA) ou da senadora Heloísia Helena (AL) alguma declaração bombástica contra a política econômica do governo Lula'. E alguns repórteres, como "cães de guarda" bem treinados, vão lá e cumprem esse papel sujo. Foi isso o que se viu na cobertura da reunião da direção do Diretório Nacional do PT no dia 15 de março, feita pelo jornal O Globo. O adjetivo radical é usado 12 vezes em uma só página na edição de domingo, dia 16/3.

Não conseguindo nada de Babá ou Heloísa apelaram para a deputada Luciana Genro (RS) que nada mais fez do que exercer o seu direito de dizer que não fora convencida pela explanação do ministro da Fazenda, Antônio Palocci. Espera-se que repórteres destacados para cobertura de uma atividade desta importãncia, conheçam o PT. Não é o caso. Ao classificar Luciana como participante da DS, mostraram total ignorância sobre a política no Rio Grande do Sul.

Do lado do campo majoritário também tiveram dificuldades. Nesta reunião, nenhuma declaração de Lula, Genoíno ou José Dirceu deixaram transparecer animosidades para com as correntes minoritárias do partido, segundo fica evidante no próprio jornal. Ao contrário: as palavras usadas foram unidade, tranquilidade interna e franqueza. O chefe da Casa Civil e ex-presidente nacional do PT chegou a afirmar que "é preciso humildade para ouvir os companheiros e corrigir os erros". Por isso, a sua fala não serviu para ser destacada. Preferiram o presidente da Câmara João Paulo Cunha. O texto com o deputado é intriga pura. Diz que João Paulo desafiou e se irritou.

Na edição de segunda-feira, enfim, uma vitória da redação de O Globo. Sob o título de "Enquadramento radical" os repórteres conseguiram ouvir a prefeita de São Paulo Marta Suplicy dizer que o campo minoritário, composto por pessoas como Chico Alencar do Rio de Janeiro, Valter Pomar, Raul Pont, Ivan Valente e o ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rosseto, entre tantos outros não vão para o PSTU porque lá não teriam holofotes. Esquece-se a prefeita que eles estão no PT desde o tempo em que os holofotes eram completamente negados aos que se dedicam às lutas da classe trabalhadora.

Na edição de segunda, o termo descontentes substitui radicais. Pode ser que os autores da matérias tenham sido chamados à atenção por terem abusados do adjetivo radical na edição de domingo. Na segunda, o mantiveram no título, mas o que abundou no corpo da matéria foi o também adjetivo descontente.

O que quer o jornal O Globo?

A pergunta que precisa ser respondida é mais velha do que andar para frente. A quem interessa incentivar a luta interna dentro do Partido dos Trabalhadores, o partido do Presidente da República? A quem interessa jogar a sociedade contra as correntes políticas do campo minoritário do partido? A quem interessa afastar os movimentos sociais do governo Lula? A quem interessa deturpar o sentido da palavra radical? A quem interessa fazer a sociedade acreditar que as exigências do FMI são ótimas e que elas desagradam apenas a um punhado de radicais? Cada um que busque suas respostas. Para mim é simples. Interessa aqueles que acham que povo é feito para morrer, pouco importa se de AIDS, na África, de bomba no Iraque ou de tiro ou fome nas favelas do Brasil.


O 18 de Brumário de Bush

MICHAEL HARDT
ESPECIAL PARA A FOLHA

Hegel comenta em algum lugar que todos os fatos e personagens de grande importância na história mundial ocorrem duas vezes, por assim dizer. Ele esqueceu de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda, como farsa." Karl Marx

Parecemos condenados à repetição histórica. Há um excesso de fantasmas do passado vagando por nosso atual cenário. É preciso afastar os falsos espectros e ver quais grandes eventos e figuras históricas estão se repetindo hoje.

Sob alguns aspectos, a guerra contra o Iraque e a atual missão global do governo americano parecem repetir os antigos projetos imperialistas europeus. Os atuais esforços não apenas para impor novos regimes no Afeganistão e no Iraque, mas também, de modo mais geral, para refazer a paisagem política no Oriente Médio e até "remodelar o ambiente global" são concebidos e apresentados usando-se os antigos termos da missão civilizadora das potências européias. O presidente Bush poderia se imaginar vestindo o manto dos grandes e nobres imperialistas que educaram os selvagens e levaram a civilização ao mundo. Devemos ter a coragem de ajudá-los, ele diz, e eles nos agradecerão mais tarde. Ou, em um aspecto mais venal, as iniciativas para controlar os vastos campos de petróleo no Iraque e no Oriente Médio certamente lembram diversas guerras imperialistas para acumular riqueza, como as tentativas britânicas um século atrás, na Guerra dos Bôeres, de assumir o controle das grandes minas de ouro da África do Sul.

Apesar dessas semelhanças, porém, os antigos imperialismos não nos ajudam a compreender o que é fundamental em nossa situação contemporânea. Essas comparações realmente não passam de roupas mal ajustadas que disfarçam o que está acontecendo por baixo. A verdadeira repetição histórica está muito mais perto de casa. Poderíamos dizer que os EUA estão repetindo hoje a Guerra do Golfo, de 1991, mas isso é na verdade apenas um elemento de uma repetição histórica muito mais importante: o golpe de Estado no sistema global - um novo 18 de Brumário, desta vez uma repetição de pai e filho, em vez de tio e sobrinho [como Napoleão]. Por golpe de Estado quero dizer aqui a usurpação de poder dentro da ordem governante pelo elemento monárquico unilateral e a correspondente subordinação das forças aristocráticas multilaterais.

O golpe de Estado de Bush pai foi concebido na época como a criação de uma nova ordem mundial. Pouco depois da queda do Muro de Berlim e do colapso da ordem bipolar da Guerra Fria, a primeira Guerra do Golfo ajudou a definir os termos da nova estrutura de poder global. Os EUA, como única superpotência restante, teriam precedência sobre todas as outras, mas não governariam o mundo sozinhos. O papel dos EUA no Primeiro Império trilhou um caminho que combinava superioridade e colaboração. Exerceriam poderes monárquicos, especialmente em questões militares, mas ao mesmo tempo colaborariam em um amplo sistema de poder global constituído por uma rede de potências de diversas capacidades e formas, incluindo os outros países dominantes, juntamente com grandes corporações capitalistas, organizações transnacionais como a ONU e o FMI e muitas outras. A característica essencial do Primeiro Império é que a superioridade dos EUA não contradiz ou impede a participação das outras forças.

O golpe de Estado de Bush filho, que muitas vezes recebe o nome de unilateralidade, vai um passo além na concentração do poder global. O que está claro na nova doutrina americana de ataques preventivos e reestruturação política global é que o país está tentando subordinar todas as potências aristocráticas. Os EUA acreditam que podem governar o mundo sozinhos ou com a mera ajuda de vassalos passivos. Outras potências são aconselhadas a seguir sua liderança, não tanto porque sejam necessárias, mas para não se tornarem irrelevantes.

Enquanto Bush filho interpreta o jovem Bonaparte, a ONU e os países-estados europeus, especialmente França e Alemanha, encontram-se na posição dos partidos parlamentares burgueses da França no século 19, insistindo na multilateralidade contra a unilateralidade do imperador. Essa é a repetição histórica. A luta entre os EUA e a ONU, os esforços americanos para dividir e enfraquecer a Europa e os conflitos na Otan estão muito mais perto da essência dos atuais desenvolvimentos que a própria guerra contra o Iraque. É aí que a hierarquia do Segundo Império - nova ordem mundial 2 - está sendo definida hoje.

Mas toda repetição histórica tem uma diferença. O golpe de Bush filho lembra o do pai na medida em que ambos buscam concentrar mais poder nas mãos dos EUA. No Primeiro Império, porém, o papel monárquico dos EUA na nova ordem mundial foi equilibrado por uma ampla participação aristocrática em uma rede de numerosas potências. Hoje essa natureza dupla do Império - superioridade americana mais ampla colaboração - parece ter sumido. A Europa, a ONU e outras potências multilaterais ameaçam representar uma alternativa eficaz aos EUA. O Segundo Império de Bush filho tenta separar os EUA de todas as outras potências e tornar desnecessária sua colaboração. Podemos ver que a concórdia das potências dominantes do Primeiro Império ruiu.

Em reação ao golpe de Estado bonapartista e à formação do Segundo Império na França do século 19, quando as forças da revolução tinham minguado, Marx procurou motivos de otimismo. Ele não defendeu que se assumisse o lado dos partidos burgueses multilaterais contra o imperador unilateral. Ele viu os conflitos entre as potências dominantes como uma passagem pelo purgatório, em que as forças revolucionárias aparentemente inexistentes estavam apenas cavando túneis no subsolo, esperando o momento para se manifestar. Nós também não temos a intenção de assumir o lado de qualquer das forças que lutam pelo poder no topo da hierarquia global. Hoje, porém, as forças da revolução estão trabalhando em plena vista. Os diversos movimentos que há vários anos vêm protestando contra a atual forma de globalização são centrais nos atos contra a guerra e hoje são cada vez mais reconhecidos como uma "opinião pública global". Essa voz alternativa existente talvez seja a diferença mais importante hoje, que pode nos libertar do trágico ciclo da repetição histórica.


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Michael Hardt é professor de literatura da Universidade Duke (EUA) e co-autor, com Antonio Negri, de "Império".

18.3.03

LUÍS NASSIF

Para salvar o Fome Zero


A última reunião, melhor dizendo, assembléia do Consea, o Conselho do Fome Zero, durou nove horas. Houve momentos de puro transe, quando a preclara ex-senadora Maria Emília ocupou precisos 21 minutos para discutir qual a data ideal para comemorar o Dia da Mulher, além de conclamar uma mudança na língua, para interromper o predomínio das expressões genéricas do gênero masculino.

Depois, outras dezenas de minutos para dom Mauro Morelli desancar frei Betto. E outro tanto para frei Betto brilhar. Sem contar as dezenas de intervenções de dona Zilda Arns distribuindo reprimendas a torto e a direito, além de uma inútil discussão sobre a safra de 2003.

Resultado geral do comício, perdão, da assembléia, perdão, do conselho: um festival de vaidades em busca de um palanque, e sem nenhuma conclusão objetiva. Na outra ponta, doações não podendo ser utilizadas por falta de aparato legal, federações, empresas, órgãos públicos, um amplo voluntariado à disposição, sem poderem ser aproveitados por excesso de burocracia e falta de planejamento.

A saída para o Fome Zero passa, inicialmente, por mudar a estrutura institucional. O Fome Zero precisa se tornar uma organização social, com participação do governo e da sociedade civil, para não emperrar na burocracia pública.

A OS serviria também para o governo aproveitar e mudar a conformação do Consea. É preciso parar com essa história de criar conselhos numerosos para estudar problemas e apresentar soluções. Isso não existe. Os conselhos podem ter o papel político e de marketing de convalidar ou, no máximo, aprimorar idéias já definidas por técnicos. Jamais de montar um plano de ação.

O passo seguinte seria buscar gestores, especialistas em planejamento, que definissem um modelo lógico de atuação de todas as partes envolvidas, além de indicadores de acompanhamento. Para ser eficiente o programa não pode ter a abrangência pretendida. Ou, então, precisa ter um modelo institucional que possa ser replicado em qualquer ponto do país.

Tome-se como exemplo o Alfabetização Solidária. No programa, primeiro definiram-se as cidades com maior índice de analfabetismo. Depois, o MEC ia lá e, junto com a prefeitura, identificava pessoas que poderiam dar aulas para os adultos. Essas pessoas eram trazidas para universidades voluntárias, que as acolhiam e ministravam cursos de duas semanas. Depois, encontrava-se uma empresa privada para patrocinar a cidade. A empresa entrava com a mesma quantidade do governo federal, valor pequeno, mas -importante- era incumbida de fiscalizar a aplicação do dinheiro e medir os resultados.

Quando se fala em um modelo assim, tudo clareia. É só pegar a receita e replicar em qualquer cidade. Hoje em dia, já existem ONGs que definiram modelos de atuação, criaram manuais e indicadores e passaram a distribuir "franquias sociais". Quem quiser repetir o trabalho em sua comunidade, é só entrar em contato com elas e requerer o manual e o treinamento.

O papel do Fome Zero deve ser esse: o de definir padrões de atuação, convocar os personagens, avaliar os resultados e propor aprimoramentos.

13.3.03

ELIANE CANTANHÊDE


Fome e vontade de comer


BRASÍLIA - Os dias no governo do ministro José Graziano, do Fome Zero, estão contados?

Aparentemente, sim. Porque há petista discutindo até nomes de substitutos. E -pasme!- o mais cotado não é de nenhum deles. Quer dizer, de nenhum petista. Muito pelo contrário. É o de Abílio Diniz.

Poderoso da cadeia Pão de Açúcar, Diniz acaba de se afastar da gerência direta dos negócios e está aí, cheio de experiência para dar. Principalmente de distribuição de alimentos, uma das chaves do Fome Zero.

A alternativa Graziano versus Diniz (ou alguém com o perfil de Diniz) é exatamente a alternativa entre o afetivo e o pragmático. Lembremos que Lula é muito afetivo em essência, mas tem procurado ser pragmático como presidente.

Graziano é um belo sujeito, velho petista, ligado a Lula, com perfil intelectual e cheio de boas idéias e boas intenções. À sua imagem e semelhança, o Fome Zero -menina dos olhos de Lula- se transformou num amontoado de belos projetos isolados que não configuram um todo. Em defesa dele, são só 70 dias. Até agora, ninguém sabe de conta para depósito, não há onde estocar, quem quiser enviar pequenas quantias do exterior não tem como. O símbolo da falta de praticidade: os R$ 50 mil da Gisele Bündchen, tão badalados, nunca passaram de gorjeta não depositada. Ou seja, de não-gorjeta.

Ao contrário, Diniz é um homem sobretudo prático e de um mundo hiperprático, capaz de desenhar rapidamente um projeto sistematizado, com cronologia: com início, meio e fim, aproveitando recursos, cadastros e equipes existentes. E, como homem do capital, é ótimo ímã para atrair verbas para a empreitada.
Agora, é saber se Lula topa mesmo a mudança e prever como reagiriam não só Heloísa Helena, Luciana Genro e Babá, mas aquela boa parte de petistas que considera a cota capitalista já esgotada com Meirelles, Furlan e Roberto Rodrigues.

A questão, portanto, é entre coração e mente, entre criador e criatura. Com a palavra, Lula.


12.3.03

LUÍS NASSIF


A conceituação do Fome Zero


O Fome Zero era uma idéia à procura de um conceito. Agora, é um conceito à procura de um modelo institucional inovador. Em uma hora de conversa franca, o ministro extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome, José Graziano, expôs à coluna os próximos passos do programa.

O Fome Zero é um programa "transversal", para coordenar ações de vários setores do governo. No governo, seu poder será o de livrar do contingenciamento os programas de outros ministérios que entrem debaixo do seu guarda-chuva. Nos setores não-governamentais, o fato de ser um poderoso incentivador de ação voluntária.

Pelo seu diagnóstico, os dois principais fatores de perpetuação da miséria são a falta de organização social e de infra-estrutura. Sua estratégia será, primeiro, organizar as famílias por meio de assistencialismo.

O cartão será o ponto de partida por gerar demanda local. E também por ser o mecanismo que permitirá a afirmação das redes de conselhos estaduais e municipais. Graziano admite que obrigar os beneficiados a prestar contas de seus gastos ao conselho é tutela. Mas é essa tutela que garantirá poder político ao conselho para enfrentar o poder do prefeito em regiões não-organizadas.

Paralelamente à distribuição do cartão, haverá um conjunto de ações de cunho social, mas com reflexos políticos, visando reduzir a influência da indústria da seca. O cartão evitará a cesta básica, e o projeto Cisternas (que permite recolher água da chuva no inverno) evitará o carro-pipa, as duas principais armas da indústria da seca.

Cada Estado será obrigado a constituir um conselho e um órgão executor de políticas sociais, que poderá ser a Secretaria de Promoção Social ou da Agricultura. O que importa é ter um interlocutor. O passo seguinte será o treinamento de multiplicadores, como foi feito em Guariba (PI). Em cada Estado o modelo será implantado inicialmente em 20 municípios.

Para evitar manipulação política, as políticas estaduais serão acompanhadas por um representante do Fome Zero e um funcionário de carreira da Conab. Os multiplicadores serão técnicos ligados à Embrapa, Pastoral, Ministério da Educação. Graziano admite que o viés maior dos conselhos será de petistas e padres das comunidades de base, mais atuantes pela própria formação. Mas se diz surpreendido com a adesão dos evangélicos.

O diferencial será a tentativa de articular outros órgãos -públicos e privados- para ajudar a criar mercado e desenvolvimento auto-sustentado nas regiões de pobreza absoluta.

O ponto de partida será um estudo preparado pelo IFC, mapeando as maiores carências em mil cidades. Com base nesse diagnóstico, se tentará articular ONGs, empresas e governo. Em Guariba, por exemplo, as ações de sustentabilidade serão o programa da Conab, de compra antecipada de safra da agricultura familiar, e a implantação do seguro-safra especificamente para agricultura familiar no Nordeste. Em Acuan, será um projeto turístico desenvolvido pelo Ministério do Turismo com apoio do Banco Mundial.

O conceito está amadurecido. Lembro apenas que, para que a coordenação seja eficaz, será necessário ao Fome Zero montar um modelo inovador de ação institucional -do mesmo modo que foi feito no Alfabetização Solidária.


JANIO DE FREITAS


De poder para poder


As instruções de Fernandinho Beira-Mar a seus competentes advogados sobre a insegurança pública são mais eloquentes do que tudo o que a respeito se tenha dito antes. Os advogados, segundo eles próprios, foram instruídos a agir em duas vias para a volta de seu cliente ao Rio: a judicial e a que chamaram de política, esclarecido que se trata de entendimentos com o governo fluminense.

Que entendimentos poderiam ser esses, estando o casal de governadores fluminense aturdido com o ataque contínuo ao Rio por parte dos subordinados ou aliados de Fernandinho Beira-Mar, este aturdido com suas novas condições de presidiário distanciado -como dizem em política, já que se trata disso- das suas bases?

Os governadores Garotinho, Rosinha e Anthony, rejeitaram a proposta inicial do governo Lula, definindo-a, não de todo sem razão, como uma forma de intervenção branca. Não há como avaliar a proposta, que não foi divulgada plenamente e, muito menos, explicada em suas fundamentações e finalidades práticas.

Do que foi exposto, nada evidencia criatividade nem suscita a impressão de que se mostraria certamente eficaz. Antes lembra muito as elaborações do antropólogo Luiz Eduardo Soares, hoje na Secretaria Nacional de Segurança, quando se ocupou de reformular a segurança no governo Anthony Garotinho, sem chegar, por falta de tempo ou não só de tempo, a algum resultado.

O governo federal nem está em condições muito melhores que o estadual na crise aguda de violência que se manifesta no Rio há duas semanas. No dia de ataque mais intenso, tratava-se de ação do tráfico, que é um dos chamados crimes federais. O ataque se fez com armas privativas das Forças Armadas, umas roubadas de quartéis e outras contrabandeadas -mais dois dos chamados crimes federais. E onde estava a Polícia Federal naquele dia? Como a já idosa Conceição, ninguém sabe, ninguém viu.

Dezessete dias depois daquela ofensiva, a situação do Rio é exatamente igual à de antes da investida. Nem os recrutas do Exército mudaram alguma coisa para melhor, como provam os continuados ataques, inclusive a delegacias e a carros da polícia. Mas Rosinha Garotinho repeliu a proposta federal com a afirmação de que o governo fluminense resolverá sozinho o problema.

Volte-se a Fernandinho Beira-Mar e à missão dita política dos seus advogados. No governo passado, de Garotinho marido, certa redução na violência foi atribuída por muitos, entre os quais alguns criminosos entrevistados, a acordos entre autoridades estaduais e chefes do tráfico de drogas. Não apareceram provas do acordo, mas a troca de autoridades estaduais, decorrente da substituição de Garotinho por Benedita da Silva, foi acompanhada de repentina e forte onda de violência nas ruas e de rebeliões nos presídios.

A instrução de Fernandinho Beira-Mar lançou uma interrogação onerosa sobre Rosinha Garotinho e sua promessa de solução solitária. Por mais desejada que seja, até a calmaria, se não provier de medidas muito evidentes, será vista como prova de que a solução não foi solução, mas um reconhecimento mútuo de poderes. Ou melhor, a oficialização de um poder já de fato por um poder de direito posto em questão.

As causas da guerra de Bush


DEMÉTRIO MAGNOLI

A decisão da administração Bush de derrubar Saddam Hussein e impor um protetorado sobre o Iraque tem um custo desastroso para o sistema internacional e para os Estados Unidos. A coesão das potências que têm direito a veto no Conselho de Segurança foi reduzida a poeira e a credibilidade dos mecanismos de segurança coletiva da ONU está em frangalhos. A Aliança Atlântica enfrenta crise inédita, pois França e Alemanha seguem um curso de ruptura aberta com a política externa da Casa Branca. Além disso, a guerra no Iraque esfria as relações americanas com a Rússia, desestabiliza o delicado equilíbrio interno da Turquia e enfrenta a oposição ativa das massas árabes e muçulmanas, do Egito à Indonésia.

Por que Bush aceita pagar esse preço, se o Iraque representa um risco militar insignificante para a segurança americana? A resposta convencional -a sede americana de petróleo- é verdadeira, mas carece de força explicativa. Afinal, o petróleo já estava lá durante a Guerra do Golfo, em 1991, quando Bush sênior preferiu conservar Saddam no poder, e em 1998, quando Clinton assistiu impassível à expulsão iraquiana dos inspetores da ONU. O que precisa ser explicado é a conexão entre a "guerra ao terror" e a operação de derrubada de Saddam. No centro dessa conexão está a crise política da Arábia Saudita.

A Arábia Saudita detém quase um quarto das reservas petrolíferas mundiais e desempenha papel decisivo na política mundial do petróleo. Seu interesse consiste em estabilizar os preços, evitando quedas abruptas ou altas exageradas, que estimulariam o desenvolvimento de fontes energéticas alternativas. Sua arma é a enorme capacidade ociosa de extração: atualmente o país coloca no mercado cerca de 7,5 milhões de barris por dia, mas pode produzir perto de 10,5 milhões. Manipulando essa capacidade ociosa, a Arábia Saudita, tradicional aliada dos Estados Unidos, assegura um fluxo constante de petróleo a preços razoáveis no mercado internacional. Mas a crise da monarquia saudita ameaça todo esse mecanismo de regulação do mercado.

O Estado saudita foi fundado em 1902, por Abdul Aziz ibn Saud, sobre o alicerce da aliança entre o clã guerreiro e a seita islâmica puritana dos Wahabitas. A Casa de Saud governa com poderes absolutos, mas deve respeito à lei corânica (a "sharia") e assegura aos Wahabitas o controle sobre a religião, a educação e as comunicações.

Nos anos 60, o Egito de Nasser reprimiu duramente os fundamentalistas da Irmandade Muçulmana. Seus líderes exilaram-se na Arábia Saudita, politizando o fundamentalismo Wahabita. A monarquia saudita, sentindo-se ameaçada pelo pan-arabismo modernizante egípcio, pretendia utilizar o apelo do islã para projetar a sua influência no mundo árabe e muçulmano.

O islã político não parou de crescer. Na Palestina ocupada surgiu o Hamas, inicialmente sob o beneplácito de Israel, para rivalizar com a OLP. No Afeganistão, o dinheiro saudita e as armas americanas patrocinaram as guerrilhas fundamentalistas que combatiam a ocupação soviética. Milhares de árabes participaram da "guerra santa" (a "jihad") nas montanhas afegãs. Foi lá que o saudita Osama bin Laden, com o apoio da CIA, fez seu batismo de fogo.

O gênio, liberto da garrafa, fugiu ao controle de seus amos originais. A ruptura aconteceu na Guerra do Golfo, quando a monarquia saudita recusou o pedido de Osama bin Laden de combater Saddam Hussein e forneceu bases militares permanentes para os Estados Unidos. Então, bin Laden acusou a Casa de Saud de unir-se aos infiéis e conspurcar a Terra Santa, transferiu-se para o Afeganistão, organizou a Al Qaeda e conclamou a "jihad" contra os Estados Unidos. Um acordo entre a Casa de Saud e os Wahabitas definiu os limites da ação dos "guerreiros da fé": a monarquia faria vistas grossas para o financiamento da Al Qaeda, mas o grupo respeitaria o regime saudita.

Os atentados de 11 de setembro minaram as bases desse acordo. Washington passou a exigir da monarquia saudita o corte dos fluxos financeiros que irrigam os grupos fundamentalistas. A exigência americana só poderia ser atendida através da repressão contra os Wahabitas e da completa subordinação da família real, que compreende cerca de 25 mil integrantes, entre os quais 5.000 príncipes. O nome disso é guerra civil.

Atrás da guerra contra o Iraque está o terremoto que abala os alicerces do Estado saudita. O pesadelo que atormenta Washington consiste na manutenção do poder de Saddam Hussein em Bagdá enquanto se processa a implosão da monarquia saudita. Nesse cenário, as fontes de petróleo do Golfo Pérsico ficariam reféns da turbulência política na Arábia Saudita, empurrando os mercados financeiros globais e a economia americana para o abismo.

O estabelecimento de um protetorado americano no Iraque e o controle das fontes de petróleo do país não são os objetivos finais da operação geopolítica deflagrada por Bush há um ano, no discurso do "eixo do mal". São, isso sim, a plataforma indispensável para uma reinvenção do Estado saudita, com a supressão da influência política dos Wahabitas e o alinhamento completo da monarquia à política de Washington.

Demétrio Magnoli, 44, doutor em geografia humana pela USP, é editor do jornal "Mundo Geografia e Política Internacional".

11.3.03

CLÓVIS ROSSI

Chega de falar, vamos jogar

SÃO PAULO - Mais uma oportunidade foi jogada fora para pelo menos começar a enfrentar a guerra civil disfarçada que o país vive.
Os governos do Rio e federal não conseguiram entender-se sobre nenhum plano de segurança, mínimo que fosse, nem mesmo sob a pressão dos acontecimentos prévios ao Carnaval, em que o descontrole da situação de segurança pública tornou-se ainda mais escancarado.

Não foram apenas os dois governos que saíram pela tangente. Uma das melhores cabeças do país, o antropólogo Rubem César Fernandes, também negou-se a chegar a algum ponto concreto na entrevista que esta Folha publicou ontem.

Não que suas idéias sejam ruins. Apenas não vão ao ponto. Exemplo: Rubem César diz que "um pacto é vital para que a questão da violência seja superada. Sem um pacto efetivo, em que entrem sociedade civil, mundo empresarial, prefeituras, governo do Estado, governo federal, tudo é muito complicado".

Meu Deus do céu, se não houve "pacto" nem entre apenas dois agentes (os governos do Rio e da União), como é possível acreditar que se possa chegar a um pacto, qualquer pacto, na hora em que forem ouvidos também os demais agentes?

O ponto, agora, é simples. Há uma porção de questões que têm de ser enfrentadas na área social, gerencial, organizacional, o diabo. Mas, antes de tudo, é preciso devolver ao poder público o monopólio do uso da força. Ponto. É assim que são as coisas nos países civilizados.

Nesse capítulo, a sociedade civil, os empresários e os cidadãos têm muito pouco a fazer. No máximo podem entregar suas próprias armas, o que seria bom e reduziria o número de mortes digamos acidentais (brigas de trânsito, de botequim etc). Mas não reduziria as mortes buscadas pelo crime organizado.

Esse é um jogo para cachorro grande. Enquanto o poder público não se decidir a jogá-lo, a criminalidade continuará tendo tudo dominado.

9.3.03

Questioning Terror Suspects in a Dark and Surreal World

By DON VAN NATTA Jr.


This article was reported by Raymond Bonner, Don Van Natta Jr. and Amy Waldman and written by Mr. Van Natta.


CAIRO, March 8 ? The capture of Khalid Shaikh Mohammed provides American authorities with their best opportunity yet to prevent attacks by Al Qaeda and track down Osama bin Laden. But the detention also presents a tactical and moral challenge when it comes to the interrogation techniques used to obtain vital information.

Senior American officials said physical torture would not be used against Mr. Mohammed, regarded as the operations chief of Al Qaeda and mastermind of the Sept. 11 attacks. They said his interrogation would rely on what they consider acceptable techniques like sleep and light deprivation and the temporary withholding of food, water, access to sunlight and medical attention.

American officials acknowledged that such techniques were recently applied as part of the interrogation of Abu Zubaydah, the highest-ranking Qaeda operative in custody until the capture of Mr. Mohammed. Painkillers were withheld from Mr. Zubaydah, who was shot several times during his capture in Pakistan.

But the urgency of obtaining information about potential attacks and the opaque nature of the way interrogations are carried out can blur the line between accepted and unaccepted actions, several American officials said.

Routine techniques include covering suspects' heads with black hoods for hours at a time and forcing them to stand or kneel in uncomfortable positions in extreme cold or heat, American and other officials familiar with interrogations said. Questioners may also feign friendship and respect to elicit information. In some cases, American officials said, women are used as interrogators to try to humiliate men unaccustomed to dealing with women in positions of authority.

Interrogations of important Qaeda operatives like Mr. Mohammed occur at isolated locations outside the jurisdiction of American law. Some places have been kept secret, but American officials acknowledged that the C.I.A. has interrogation centers at the United States air base at Bagram in Afghanistan and at a base on Diego Garcia in the Indian Ocean.

Qaeda operatives, including Ramzi bin al-Shibh, a suspect in the planning of the Sept. 11 attacks, were initially taken to a secret C.I.A. installation in Thailand but have since been moved, American officials said.

Intelligence officials also acknowledged that some suspects had been turned over to security services in countries known to employ torture. There have also been isolated, if persistent, reports of beatings in some American-operated centers. American military officials in Afghanistan are investigating the deaths of two prisoners at Bagram in December.

American officials have guarded the interrogation results. But George J. Tenet, the director of central intelligence, said in December that suspects interrogated overseas had produced important information.

Secretary of State Colin L. Powell and Defense Secretary Donald H. Rumsfeld have said that American techniques adhere to international accords that ban the use of torture and that "all appropriate measures" are employed in interrogations.

Rights advocates and lawyers for prisoners' rights have accused the United States of quietly embracing torture as an acceptable means of getting information in the global antiterrorism campaign. "They don't have a policy on torture," said Holly Burkhalter, the United States director of Physicians for Human Rights, one of five groups pressing the Pentagon for assurances detainees are not being tortured. "There is no specific policy that eschews torture."

Critics also assert that transferring Qaeda suspects to countries where torture is believed common ? like Egypt, Jordan and Saudi Arabia ? violates American law and the 1984 international convention against torture, which bans such transfers.

Some American and other officials subscribe to a view held by a number of outside experts, that physical coercion is largely ineffective. The officials say the most effective interrogation methods involve a mix of psychological disorientation, physical deprivation and ingratiating acts, all of which can take weeks or months

"Pain alone will often make people numb and unresponsive," said Magnus Ranstorp, deputy director of the Center for the Study of Terrorism and Political Violence at St. Andrews University in Scotland. "You have to engage people to get into their minds and learn what is there."

About 3,000 Qaeda and Taliban suspects have been detained since the fall of 2001. Some have since been freed. The largest known group, about 650, is being held at Guantánamo Bay, Cuba. American officials said the detainees at Guantánamo and similar military-run centers were not regarded as having valuable information.

Senior Qaeda members, however, are interrogated by specially trained C.I.A. officers and interpreters. F.B.I. agents submit questions but do not generally take part, American officials said.


Starving the Senses
Deprivation And Black Hoods


Omar al-Faruq, a confidant of Mr. bin Laden and one of Al Qaeda's senior operatives in Southeast Asia, was captured last June by Indonesian agents acting on a tip from the C.I.A. Agents familiar with the case said a black hood was dropped over his head and he was loaded onto a C.I.A. aircraft. When he arrived at his destination several hours later, the hood was removed. On the wall in front of him were the seals of the New York City Police and Fire Departments, a Western official said.

It was, said a former senior C.I.A. officer who took part in similar sessions, a mind game called false flag, intended to leave the captive disoriented, isolated and vulnerable. Sometimes the décor is faked to make it seem as though the suspect has been taken to a country with a reputation for brutal interrogation.

In this case, officials said, Mr. Faruq was in the C.I.A. interrogation center at the Bagram air base. American officials were convinced that he knew a lot about pending attacks and the Qaeda network in Southeast Asia, which Mr. bin Laden sent him to set up in 1998.

The details of the interrogation are unknown, though one intelligence official briefed on the sessions said Mr. Faruq initially provided useless scraps of information.

What is known is that the questioning was prolonged, extending day and night for weeks. It is likely, experts say, that the proceedings followed a pattern, with Mr. Faruq left naked most of the time, his hands and feet bound. While international law requires prisoners to be allowed eight hours' sleep a day, interrogators do not necessarily let them sleep for eight consecutive hours.

Mr. Faruq may also have been hooked up to sensors, then asked questions to which interrogators knew the answers, so they could gauge his truthfulness, officials said.

The Western intelligence official described Mr. Faruq's interrogation as "not quite torture, but about as close as you can get." The official said that over a three-month period, the suspect was fed very little, while being subjected to sleep and light deprivation, prolonged isolation and room temperatures that varied from 100 degrees to 10 degrees. In the end he began to cooperate.

Mr. Faruq began to tell of plans to drive explosives-laden trucks into American diplomatic centers. A day later, embassies in Indonesia and more than a dozen other countries in Southeast Asia were closed, officials said. He also provided detailed information about people involved in those operations and other plots, writing out lengthy descriptions. He held out longer than Mr. Zubaydah, who American officials said began to cooperate after two months of interrogation.

American intelligence knows a great deal about Mr. Mohammed, who has been sought since the mid-1990's. That knowledge, an expert said, can provide leverage. "The important thing is to construct the suspect's personal history and learn about the person before you interrogate them," a European counterterrorism official said. "Shock is a great technique. When we can show someone that we already know a lot about them, including intimate personal details, they are shocked and more likely to start talking."


The Centers

Details Emerge From the Shadows


The secret C.I.A. center at Bagram where Mr. Faruq probably remains is near the two-story detention center where lower-level suspects are being held. Both sites are off limits, even to most military personnel. The only descriptions of life inside have come from released detainees.
American officials at the base say that all detainees are treated according to international law and are held under humane conditions. Still, the Americans expressed reluctance to describe details of the conditions because, as Col. Roger King, spokesman for the American-led force in Afghanistan, put it: "Every detail we give you about how we run the facility provides information to the enemy about how to be more successful in resisting if captured." But he did provide some information that both complemented and contradicted the descriptions given by former detainees.

In a typical prison, where punishment is the aim, routine governs life. At Bagram, where eliciting information is the goal, the opposite is true. Disorientation is a tool of interrogation and therefore a way of life.

To that end, the building ? an unremarkable hangar ? is lighted 24 hours a day, making sleep almost impossible, said Muhammad Shah, an Afghan farmer who was held there for 18 days.

Colonel King said it was legitimate to use lights, noise and vision restriction, and to alter, without warning, the time between meals, to blur a detainee's sense of time. He said sleep deprivation was "probably within the lexicon."

Prisoners are watched, moved and, according to some, manhandled by military police officials. Most detainees live on the hangar's bottom floor, a large area divided with wire mesh into group cells holding 8 to 10 prisoners each. Some are kept on the top floor in isolation cells.

Former detainees have given disparate accounts of their treatment, with the harshest tales, predictably, emerging from the isolation cells. Those who have probably been subjected to the most thorough interrogations, and the greatest duress, have probably not been released.

Colonel King said that an American military pathologist had determined that the deaths of two prisoners in December were homicides and that the circumstances were still under investigation.

Two former prisoners said they had been forced to stand with their hands chained to the ceiling and their feet shackled in the isolation cells.

One said he was kept naked except when he was taken to interrogation room or the bathroom.

Mr. Shah, who was never in an isolation cell, said neither his hands nor feet were ever tied, but he had seen prisoners with chains around their ankles.

Colonel King said that the building was heated and that the prisoners were fed a balanced diet under which most gained weight. Mr. Shah said he had received plentiful food ? bread, biscuits, rice and meat ? three times a day.

The center holds fewer than 100 people, so detainees are regularly released or transported elsewhere to make room for more. Most probably spend two to three months there, Colonel King said.

Mr. Shah said his interrogators used the threat of moving him to Guantánamo Bay to try to force cooperation, warning him conditions there would not be as pleasant.


Guantánamo Bay

Order Obscures Signs of Distress


At Guantánamo Bay in Cuba, American military officials said the population, now relatively steady at about 650, was sorted into varying categories of dangerousness, a change from the early days when prisoners were treated equally, each isolated in an individual cell.

This month the military command opened a new medium- security section called Camp Four where selected prisoners live in dormitory-style housing, congregate, shower regularly, play board games and are able to write more frequent letters to family members. About 20 prisoners moved in this week, and when construction is completed as many as 200 prisoners could be housed there.

"This is designed to house people who are deemed to be less of a security risk," said Lt. Col. Barry Johnson, a military spokesman at the base.

But underlying the superficial orderliness are signs of deep psychological distress among the population. There have been 20 reported suicide attempts involving the prisoners, an extraordinarily high number compared with other prison populations, said Dr. Terry Kupers, an Oakland psychiatrist who is an authority on mental health in prisons.

[Another suicide attempt took place on Friday, The Associated Press said today.]


Except for those who are recently promoted to Camp Four, the regime for most prisoners has been isolation in single cells. They are permitted out of the cells twice a week, for 15 minutes each time, to shower and exercise in the yard. They are not permitted to have physical contact with one another.

Lt. Cmdr. Barbara Burfeind, a Pentagon spokeswoman, said guards were trained to recognize signs of deep depression and had managed to prevent suicides.

Foreign Soil

Many Definitions Of `Acceptable'


Far less is known about the conditions for the suspected Qaeda members who have been turned over to foreign governments, either after the United States finished with them or as part of the interrogation procedure. Even the numbers and locations are a mystery.

American and foreign intelligence officials have acknowledged that suspects have been sent to Jordan, Syria and Egypt. In addition, Moroccan intelligence officials have questioned suspects and shared information with their American counterparts.

In one case in Morocco, lawyers for three Saudis and seven Moroccans accused of plotting to blow up American and British ships in the Strait of Gibraltar last summer said their clients were tortured. Moroccan officials denied that physical torture was used but acknowledged using sleep and light deprivation and serial teams of interrogators until the suspects broke.

"I am allowed to use all means in my possession," a senior Moroccan intelligence official said. "You have to fight all his resistance at all levels and show him that he is wrong, that his ideology is wrong and is not connected to religion. We break them, yes."

In Cairo, leaders of several human rights organizations and attorneys who represent prisoners said torture by the Egyptian government's internal security force had become routine. They also said they believed that the United States had sent a handful of Qaeda suspects to Egypt for harsh interrogations and torture by Egyptian officials.

"In the past, the United States harshly criticized Egypt when there was human rights violations, but now, for America, it is security first ? security, before human rights," said Muhammad Zarei, a lawyer who had been director of the Cairo-based Human Rights Center for the Assistance of Prisoners.

Egyptian officials denied that any Qaeda members or terror suspects had been moved to Egypt. An Egyptian government spokesman, Nabil Osman, blamed rogue officers for abuses and said there was no systematic policy of torture.

"Any terrorist will claim torture ? that's the easiest thing," Mr. Osman said. "Claims of torture are universal. Human rights organizations make their living on these claims. Their job is not to talk about the human rights of the victim but of the human rights of the terrorist or those in jail."

Mr. Osman declined to say whether Egypt had assisted with interrogations of Qaeda suspects at the request of the Americans. He would say only that both governments had cooperated in sharing information about terrorists and potential terrorist activities.

"We are providing them with a wealth of information," he said.

He said many of Egypt's antiterrorism initiatives, like military tribunals, had been imitated by the Untied States. "We set the model," he said, "for combating terrorism."

7.3.03

"Vem ser prefeito"

NELSON DE SÁ
EDITOR DA ILUSTRADA

Chico Pinheiro começou como sempre faz, afável, à tarde na Globo.
- Prefeita, boa tarde.
E contestou como sempre faz, com aberta simpatia, jamais com antagonismo à prefeita Marta Suplicy:
- Prefeita, quando os empresários sentaram à mesa com a prefeitura, conseguiram foi aumentar a tarifa. Prestam péssimo serviço. Buscam ônibus sucateado no Rio.
E tentou, mas não mais falou. Marta, como no debate em que mandou um adversário se calar, calou o âncora:
- Não é justo, Chico. Não é justo você falar isso não. Você fica falando como se a culpa fosse nossa. Não é. Nós temos sido muito duros com eles.
Tudo isso foi aos trancos, enquanto Chico Pinheiro tentava retomar a palavra. Só fez angustiar mais a prefeita, que partiu para os brados:
- Vem ser prefeito para ver o que que é! Seja o prefeito! É muito fácil ficar aí dizendo "fez isso, aquilo, aumentou tarifa".
E tome justificativas sobre o aumento da tarifa, até perder de novo o controle:
- Nós estamos lutando para melhorar esse transporte que é uma porcaria! E o povo falou pouco ainda.
É ainda mais "porcaria" do que o povo diz. E Marta, pelos gritos, já percebeu que passou da metade do mandato.
***
As campanhas publicitárias petistas, inclusive a da prefeita, denunciam o embotamento precoce da esperança.
Vem Franklin Martins e comenta que, com o fim da trégua do MST, "o governo topa pela frente com a primeira pressão dos movimentos sociais".
Vem Boris Casoy e informa que "um ladrão levou o carro do ministro da Justiça em São Paulo", enquanto "o Planalto não toma posição" sobre o que fazer com a violência no Rio.
Vem até Leonel Brizola e, nos intervalos, ataca a reforma da Previdência.
Lula está na trilha de Marta.

6.3.03

LUÍS NASSIF


O caminho da TV digital

O Brasil tem que anunciar a intenção de fazer o seu padrão de TV digital, capacitar técnicos para isso, mas não cometer a imprudência de sair da intenção para os atos. A proposta de montar o padrão brasileiro de TV digital deve ser um meio para alcançar um objetivo de longo prazo muito mais relevante: tornar o país parceiro no desenvolvimento de propriedade intelectual e softwares para o próximo padrão de TV digital escolhido, seja ele o norte-americano, o europeu ou o japonês.

Em um país que jamais pensou em estratégias de desenvolvimento de longo prazo, é conveniente que o ministro das Comunicações, Miro Teixeira, preste atenção na proposta. Sua implementação exigirá uma estratégia concertada dentro do governo Lula e poderá se constituir na primeira tentativa bem-sucedida de colocar o país em linha com o estado da arte da tecnologia mundial.

Essa proposta de definição da estratégia de implantação da TV digital foi desenvolvida por especialistas do Cesar (Centro de Estudos e Sistemas Avançados de Recife), uma ONG sem fins lucrativos que se transformou na mais bem-sucedida experiência de integração das pesquisas acadêmicas em informática ao mercado, tornando a Universidade Federal de Pernambuco um dos pólos de excelência na área de computação. Para eles, o processo é mais importante do que o resultado imediato. Seja qual for o padrão, a proposta é absorver agora o conhecimento para embarcar na próxima geração de TV digital.

O Brasil não possui nenhuma condição, nem técnica nem financeira, de desenvolver um padrão de TV digital capaz de concorrer com os três existentes. O país não dispõe sequer de pessoal para integrar os comitês de padronização tecnológica na área de telecomunicações ou de software.
No entanto, com seus 60 milhões de televisores, o Brasil é um mercado relevante. Se eventualmente vier a se associar à China e à Índia na definição de um padrão, tornar-se-á mais relevante ainda.

O primeiro passo será anunciar a intenção de criar um padrão próprio e investir na capacitação dos técnicos brasileiros. Não se perde nada. Essa capacitação será fundamental para nossos técnicos estarem aptos a dominar o padrão a ser adotado, seja qual for ele.

Com a ameaça de criação de um padrão próprio, mais a capacitação de técnicos resultante desse desenvolvimento, o país teria condições de entrar na mesa de negociações com os três padrões existentes, apresentando uma proposta de largo espectro. Seria adotado o padrão capaz de permitir ao Brasil tornar-se parceiro no desenvolvimento de software da próxima geração de TV digital daquele padrão.

Nas negociações, se exigiria do padrão vencedor a instalação de centros de desenvolvimento no país, com a formação de engenheiros brasileiros, a inclusão de empresas e da universidade no desenvolvimento do próximo padrão.

Os técnicos do Cesar consideraram perigosa qualquer tentativa do país de colocar o interesse no hardware (o aparelho de TV) à frente do software (os programas que serão desenvolvidos). Seria reeditar os erros da reserva de mercado da informática, que privilegiou as máquinas e jogou para segundo plano a vocação brasileira de software.