2.4.03

JANIO DE FREITAS

O som e o silêncio

Tudo é muito deprimente na guerra contra o Iraque, supõe-se que, a esta altura, até mesmo para os chefões civis e militares de americanos e ingleses. Mas o contraponto ao som das explosões e à voz dos sofrimentos é um silêncio aterrador: o silêncio das entidades e pessoas representativas da comunidade internacional.

Quem dera fosse o silêncio sórdido da indiferença. É o silêncio do acovardamento, da conveniência, é o silêncio da pusilanimidade. No entanto, à revelia de si mesmo, silêncio fértil, prolífico. Não é o motivador, mas é o fator determinante da mobilização de multidões pelo mundo afora. Multidões que vão às ruas clamar contra a barbárie porque os governantes e as entidades que as representam de direito as traem de fato.

Na fertilidade do silêncio ignóbil está, também, a contribuição da chamada comunidade internacional para a continuidade da guerra. Se a decisão desvairada de fazê-la foi de uns poucos, é a absoluta falta de reação diplomática e política do conjunto das nações não-envolvidas que funciona como carta branca para a barbárie.

A ilusão americana -há sempre uma ilusão- levou-os à suposição de que poderiam, desta vez, ser convenientemente menos ferozes. Constatado o erro primário das previsões, já os ataques a mercados, a shoppings, universidade e bairros residenciais não podem ser debitados a acasos desastrosos. Assim como Sérgio Dávila, da Folha, esteve entre os que encontraram marcas americanas em restos de mísseis lançados em centros civis, Carlos Fino, excelente repórter da RTPi, a TV portuguesa internacional, descobriu, nas áreas cultivadas à volta de Bagdá, que até as casas de pobres lavradores estão sendo estraçalhadas por caças americanos. Está claro: encontrada resistência, as forças dos Estados Unidos voltam à tática que consagraram para si na Segunda Guerra e adotaram no Vietnã. A tática da terra arrasada, de devastação pela artilharia e pela aviação para posterior entrada tranquila das tropas. Os anais da Segunda Guerra registram a destruição de cidades inteiras, enormes, históricas e lindas, como a alemã Colônia de que só a catedral ficou inexplicavelmente de pé.

Oficiais americanos disseram a jornalistas, desmentindo seus comandantes militares e chefes políticos: as tropas deixam de tentar o avanço difícil e aviação e artilharia vão agir à sua maneira durante algumas semanas. A terra arrasada.

No resto mundo, o silêncio das pessoas e entidades representativas da comunidade internacional. Diante da TV, testemunhando, horrorizadas e inertes, a barbárie que leva também a sua assinatura.