Boa Vista: fome zero na prática
Capital de Roraima tem bons programas sociais como a criação de hortas urbanas e o aproveitamento de lixo
?Lembre-se de que isto aqui também é Brasil?, disse-me a prefeita Teresa Jucá, ao se despedir ao fim de minha primeira visita a Boa Vista, há um ano. A frase podia ter duas interpretações: exprimir a sensação de isolamento da comunidade nacional de quem vive tão longe mas mantém aceso o sentimento de brasilidade, ou o orgulho pelo trabalho realizado no ordenamento social de uma capital de 208 mil habitantes, que concentra 62% da população de Roraima. Ambas as interpretações são válidas.
BOA VISTA ? Roraima é realmente um rincão esquecido pela grande mídia nesse nosso vasto território. Só comparece ao noticiário nacional quando acontece algum fato grave, negativo, como a invasão em massa de garimpeiros nas reservas ianomâmis ou, mais recente, quando o cerrado e a floresta arderam em chamas, num incêndio que só as chuvas puderam extinguir, apesar da bravura de bombeiros saídos de diversos pontos do país. É uma miopia nossa, jornalistas dos grandes centros, que não acreditamos que possa haver em lugar tão remoto programas de desenvolvimento e de incorporação social dos excluídos tão bons ou melhores que os de São Paulo e do Rio.
No entanto, alguns dos programas em implantação em Boa Vista deveriam ser estudados e copiados no Brasil inteiro, principalmente agora, quando o governo Lula declara ser a sua máxima prioridade política a erradicação da fome no país.
Agricultura urbana
Em maio de 2002, participei da inauguração das duas primeiras estufas para a produção de hortigranjeiros num subúrbio rural de Boa Vista. As estufas têm 50 metros de comprimento por sete de largura e seus canteiros são irrigados por gotejamento, método que poupa muita água. Cada estufa foi atribuída pela Secretaria de Qualidade de Vida a uma família de origem rural, em troca do compromisso de seguir as instruções técnicas da Secretaria de Agricultura e obedecer ao rodízio de produção recomendado pelos funcionários, com base num estudo de mercado destinado a obter os melhores preços sazonais para cada produto e evitar a saturação do mercado local. O preço de cada estufa, que gera no mínimo dois empregos e quase sempre cria mais, é de R$ 5.750, o que possivelmente seja o emprego mais barato da economia brasileira.
Uma singularidade de Roraima: as famílias contempladas já eram todas proprietárias de seus lotes, em virtude do baixíssimo preço da terra no estado. Lá, é possível se comprar um hectare de terra por apenas R$ 150. O dinheiro para a construção das estufas saiu da Suframa e do Ministério da Ação Social. As duas estufas originais são hoje 88, em plena produção, e há mais 120 prontas a serem distribuídas. Hortaliças e legumes que eram antes importadas de São Paulo e da serra do Espírito Santo são agora produzidos localmente, abastecem a cidade e começam a ser vendidas em Manaus, que fica a dez horas de viagem pela BR-174, que liga a Venezuela à capital amazonense.
As estufas de alta renda
As atividades econômicas produzem sempre campeões vencedores e participantes menos eficientes. Há, entre as famílias de cultivadores, quem consegue uma média de R$ 2.000 por mês e outros que, por teimosos na recusa a seguir as recomendações da secretaria, têm de se contentar com R$ 400. E há dois casos excepcionais, de sitiantes que já estavam no ramo antes do programa da prefeitura e conseguem uma renda de executivo de grande empresa: o casal Dora e Domingos, paranaenses que se dedicam à produção de alfaces, agrião, rúcula, cheiro verde, cebolinha e outras folhas, por hidroponia, ou seja, em canteiros plantados em tubos de plástico partidos ao meio. Eles tiram uma média de R$ 16 mil mensais, sendo que cerca de R$ 11 mil só com alfaces. Quando aparece um problema inesperado, Dora liga para um amigo, grande produtor em São Paulo, e geralmente resolve o assunto.
Dora é baixinha e gordota, mas é ágil para pular por cima das canalizações que passam de um canteiro a outro. Quando a visitei, comemorava a perfuração do último metro de um poço artesiano de 18 metros de profundidade, que iria afastar o risco da falta de água, mortal para quem vive de hidroponia. Dora e o marido Domingos conseguiram formar os dois filhos e deram uma estufa para cada um. O caçula, formado em administração, é o secretário de comercialização da cooperativa recém-formada e que tem parceria com a supercooperativa Aurora, de Santa Catarina, que se encarregará de distribuir seus produtos em Manaus, já a partir do inverno, a estação das chuvas ao norte do Equador, que começa agora.
O maior produtor de Boa Vista é José Brock. Gaúcho de Erechim, presidente da cooperativa de produtores de legumes e hortaliças. Não esperou ninguém para entrar no negócio. Escolheu a cidade para viver logo que passou para a reserva do Exército, há 20 anos. Formado numa escola agrícola de sua cidade natal, percebeu as oportunidades que Roraima oferecia, com suas terras planas e baratas de cerrado, e realizou logo o primeiro sonho de filho de uma família de colonos de origem alemã: comprou 700 hectares de terra, o que, diz, jamais teria podido fazer no Rio Grande do Sul. Possui hoje 13 estufas e fornece regularmente para os três maiores supermercados da cidade. Calcula que o lucro de cada pé de alface esteja por volta de 75% do preço de venda e, no seu caso, somadas ao resto que produz, isso significa R$ 30 mil limpos por mês. Aposta firme no crescimento da cooperativa, que já tem 208 sócios, e no mercado de Manaus, principalmente no inverno, quando as chuvas impedem o cultivo a céu aberto.
Outro agricultor bem-sucedido é um paranaense tamanho família, mais de 1,90 metro de altura, o secretário de Agricultura do município de Boa Vista. Eugênio Thomé era jornalista em Curitiba e foi designado para a cobertura de uma visita do presidente Figueiredo. Foi e não voltou até hoje. Filho de uma numerosa família de origem italiana de Guaíra, viu no estado a chance de prosperar. Ainda tentou um emprego de jornalismo, mas o salário que lhe foi oferecido mal pagava a gasolina do carro. Juntou as economias e comprou um sítio a 12 quilômetros de Boa Vista. Ao longo dos anos, transformou-o no seu Shangri-Lá particular. Tem plantações variadas, inclusive de palmito pupunha, e cria, nos lagos que formou, tambaquis, tucunarés, matrinxãs e, diz, alguns pirarucus que chegam a 60 quilos de ceva em ano e meio. Thomé aprendeu a criar pirarucus numa fazenda fluvial do Rio Negro, no Amazonas. Lá, os filés do peixe são salgados e exportados para Portugal, onde se transformam em bacalhau. Como Thomé gosta de cozinhar ? e posso testemunhar que é capaz de fazer na brasa uma costela de tambaqui no ponto perfeito ? abre o sítio ao público nos fins de semana e o transforma num restaurante informal. Pretende aproveitar a experiência, adquirida no pequeno hotel que a família tem em Guaíra, para fazer uma pousada com chalés nas cinco ilhas que prepara no meio do lago de criação de peixes.
Enquanto isso, Thomé visita regularmente os produtores das estufas e o centro de comercialização da cooperativa que funciona num amplo mercado que estava abandonado e foi construído para comercializar produtos de produtores familiares. O mercado foi agora recuperado. Esse centro de comercialização tem uma câmara de resfriamento e uma câmara frigorífica, dois equipamentos caros que estavam desperdiçados. Pelo convênio da cooperativa com a Aurora, a cooperativa catarinense tem o direito de utilizá-los para armazenar e distribuir as carnes que produz.
Guerreiras amazonas
A prefeitura de Boa Vista é a maior fortaleza feminina num Executivo no país. A prefeita Teresa Jucá convidou para seis das secretarias mais importantes, as que lidam com a população e a integram no governo participativo, mulheres com quem trabalhou ou conheceu em Brasília, quando foi funcionária do Ministério do Desenvolvimento Agrário, entre dois mandatos. Até criou a Secretaria de Gestão Participativa e Cidadania para uma delas, Mira Cunha, uma das raras roraimenses de nascimento, que é uma espécie de banco de dados ambulante. Tem os números da cidade na cabeça, sobretudo os dos programas sociais em curso, alguns dos quais já levaram para Boa Vista prêmios de gestão eficiente e, para Teresa, o título de prefeita amiga da criança da Fundação Abrinq e da Unicef.
Boa parte do sucesso da administração de Boa Vista é resultado da mania que Teresa tem de contar. Há dois anos, no inicio de sua gestão, comprou em São Paulo um programa de informática que lhe permitiu fazer um censo detalhado das condições de vida de seus 208 mil munícipes e colocar os dados num laptop que carrega para todo lado. O censo, que será renovado este ano, lhe permite conhecer, rua por rua, as condições de vida dos moradores: se a casa é de madeira ou de alvenaria, quantos cômodos tem, quantas pessoas e de que idade ocupam cada um, qual a renda familiar e de cada habitante, se tem ou não tem banheiro, o que faz do lixo. Essas informações detalhadas permitem focar com precisão as políticas sociais e estão na origem do mais premiado programa da prefeitura, o programa Crescer.
O Crescer nasceu da constatação de que havia na cidade 1.490 jovens entre 15 e 24 anos que não trabalhavam nem estudavam. Esses jovens eram a sementeira da violência, através das gangues de bairros em guerra permanente e da prostituição juvenil. Para ocupá-los e abrir-lhes perspectivas de vida, foram criadas 11 oficinas profissionalizantes, que já contam com a participação de metade da população em risco social. São oficinas de ofícios, como as de serralheria, de marcenaria, de padaria. A padaria-escola que conheci há um ano foi transferida para o horto florestal e o seu local primitivo transformado em cyber café, onde os jovens têm aulas de informática e podem entrar na internet por um aluguel de R$ 1 a hora.
Ao chegar ao aeroporto, Teresa Jucá me apresentou a dois jovens do projeto Crescer, selecionados para representar a cidade num seminário sobre programas em benefício da infância e da adolescência. Cumprimentaram-me empertigados, como cadetes de escola militar. Um deles, Walbert, um jovem negro, coisa rara em Roraima, tinha o apelido de Pé de Onça e chegou ao Crescer envolvido com drogas, alcoolismo, brigas de galeras e um temperamento explosivo. Seus companheiros o escolheram como assistente, servindo de ponte entre a equipe técnica da oficina de teatro e a rapaziada. Nessa função revelou-se responsável e dedicado, exercendo uma influência positiva sobre os colegas. Destacou-se nas pesquisas e discussões do I Fórum dos Direitos da Criança e do Adolescente e agora iria fazer a sua primeira viagem aérea. Viajaria em companhia de Marco Antonio Santos, que chegara ao Crescer com problemas de família e de alcoolismo. Apaixonado pela informática, fez um curso de especialização no Senac e, aprovado, foi contratado como instrutor na oficina de Teatro.
O Crescer e os projetos de esportes de noite fizeram diminuir consideravelmente a violência entre os jovens, embora não a tenha eliminado. Há tempos dois considerados, que é como chamam os líderes de gangues, armaram uma briga na ante-sala do gabinete da prefeita e um esfaqueou o outro. No entanto, uma medida do decréscimo das violências foi o carnaval deste ano, quando não houve, como no passado, nenhum assassinato.
As famílias
do lixão
É difícil para um cidadão urbano normal imaginar que famílias que vivem da exploração do que há de vendável num lixão, onde a maioria vive em tempo integral, possam preferir continuar no meio dessa sujeira infecta, respirando o ar poluído pela queima de resíduos, que optar por outro tipo de atividade econômica e de moradia mais salubre. No entanto, foi o que aconteceu no lixão de Boa Vista, explorado em três turnos por 223 pessoas de 57 famílias. A maioria, em tese, tinha moradias fora do lixão mas, na verdade, nele passava as noites, em abrigos improvisados, guardando de possíveis ladrões o material vendável que haviam coletado.
A iminência de se transferir o despejo dos caminhões de lixo para um aterro sanitário, calculado para durar 20 anos, fez com que os catadores aceitassem formar uma cooperativa, que utiliza como área de triagem um amplo terreno cedido pela prefeitura, onde foi construído um barracão para reuniões e, luxo inusitado, banheiros coletivos. No entanto, são muitas as queixas sobre a baixa rentabilidade do trabalho coletivo. Perguntei aos cooperados, que realizavam sua reunião semanal, quantos ganhavam menos com a cooperativa do que no antigo trabalho individual. Quase todos levantaram as mãos. É que havia famílias que conseguiam até R$ 600 por mês, ainda que a média fosse de R$ 30 a R$ 100 por semana. Dora, a líder da cooperativa, uma índia macuxi da Guiana que melhor fala inglês que português, explicou que há um ressentimento grande contra o aterro, onde o lixo é jogado sem triagem, enterrando as latas de alumínio, que foram uma das principais fontes de renda da comunidade.
? O pessoal acha que estão enterrando o nosso tesouro ? disse.
A maioria das famílias saídas do lixão é indígena e chefiada por mulheres, sendo 21,6% analfabetas. Apesar disso, apostam na educação dos filhos e se dispõem a trabalhar até de noite para ganhar o dinheiro necessário à compra de material escolar e uniformes, recursos que complementam a bolsa do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti) que recebem do Ministério do Trabalho.
Qualidade
de vida
Mira Cunha também tem a mania de contar as coisas. Entregou-me um levantamento do trabalho feito no bairro de Silvio Botelho: população: 4.879 pessoas, de 1.185 famílias, quatro ruas asfaltadas, 80 banheiros construídos, uma creche para 150 crianças, 748 famílias atendidas, com 731 crianças ou jovens.
Tudo em Boa Vista é assim: contado na ponta do lápis, ou melhor, nas batidas do computador. Planejam adotar um cartão magnético de cidadania, que incluiria todos os benefícios que cada um recebe da prefeitura. É o que permite estabelecer parcerias com empresas privadas e até com o governo do Japão. No entanto, a parceria maior é com ministérios e repartições do governo federal. O orçamento mensal da prefeitura é de R$ 9 milhões e a contribuição federal, garimpada nos orçamentos pelo senador Romero Jucá, marido de Teresa, é de R$ 40 milhões. É esse dinheiro que permite os múltiplos investimentos e programas da prefeitura. É o dinheiro federal que banca até mesmo o programa de ginástica laboral, que existe em todas as repartições diariamente dentro dos locais de trabalho, ou em espaços ao ar livre.
A mais importante lição de Boa Vista é que seus programas podem ser facilmente reproduzidos em outras cidades. Os encarregados do Fome Zero ganhariam muito se mandassem alguém conhecer o programa das estufas.
E, para quem só pensa na próxima eleição, outro número: segundo as pesquisas mais recentes, a prefeita Teresa Jucá tem 89% de aprovação.

0 Comments:
Postar um comentário
<< Home