3.2.03


VINICIUS TORRES FREIRE

Tragédias e horrores sublimes

SÃO PAULO - "A tragédia da Columbia juntou um jorro de más notícias às ansiedades nacionais e globais que têm deixado os americanos cada vez mais pessimistas e inseguros... Apesar da perda, os EUA permanecem esmagadoramente superiores na corrida espacial global". Assim começava a reportagem principal do diário financeiro "The Wall Street Journal" de ontem: "Tragédia torna mais sombrio o ânimo nacional".

Mas o que é uma tragédia? Numa acepção antiga, era a punição desmesurada de um erro do qual se desconhecia a dimensão, como no caso do andarilho que mata um homem numa discussão, homem que ele não sabe ser seu pai, e que por isso e inadvertidamente leva imensa desgraça à sua família e à sua cidade: Édipo.

A punição ruinosa da inconsciente arrogância humana é uma tragédia. O desastre espetacular seria antes sublime: o deleite diante da idéia de dor e perigo. Deleite de espanto e terror diante de algo imenso, que congela a compreensão, que nos tempos do romantismo era representado por tempestades e mares revoltos, e que hoje aparece como filmes-catástrofe, naves desintegradas, aviões que detonam torres de edifícios.

Por que aquele naufrágio obscuro que mata dezenas de indonésios e que vira nota de jornal não parece tão chocante como a morte horrível dos sete astronautas? Por que 3 mil pessoas tão cruelmente assassinadas em Nova York como 800 mil tutsis em Ruanda merecem mais manifestações de luto mundial?

Não só porque tutsis são tão diferentes da clientela básica da mídia ocidental. Não também só por causa do sublime. Mas porque se trata de um espetáculo também, um show que se destina a prender a atenção dessa clientela às dores, humores e poderes do Império, como nos lembra o "Wall Street". Como dizia Guy Debord, o espetáculo não é um show de imagem, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens. Um show político.