Sob o domínio eterno do medo
Ontem o presidente da República fez mais um pronunciamento sobre a urgência de garantir a todos os brasileiros a nutrição que lhes resguarda a sobrevivência.
Não obstante seja louvável o empenho do governo federal em solucionar a premência dos famintos, urge que a atenção presidencial também se firme sobre outros aspectos que põem em risco a vida dos cidadãos, sob pena de tornar-se monotemático e transmitir a impressão de ignorar a existência de outras formas de agressão à integridade física, moral e psicológica da população.
No momento em que Lula falava sobre a fome na Confederação Nacional do Comércio, o Rio de Janeiro ainda vivia os efeitos de mais um dia de terror imposto pelo narcotráfico a partir de ações comandadas de dentro dos presídios.
Deixou passar excelente oportunidade de dar ao País uma palavra, um sinal de que, se não pode se diferenciar do governo anterior na economia, por razões que vão além de sua vontade, na questão da segurança pública o País pode esperar algo mais que declarações de indignação, promessas de providências urgentes e apresentação de soluções superficiais e ineficazes.
Márcio Thomaz Bastos é o enésimo ministro da Justiça a considerar "inadmissível" a situação no Rio, a pôr a Polícia Federal à disposição do Estado e a anunciar a divulgação de uma série de duras medidas para combater a ação do narcotráfico.
Já as autoridades estaduais também não são exatamente novatas no exercício da ênfase de microfone no pedido de "rigor" na apuração dos responsáveis - como se a polícia não conhecesse todos eles, alguns até com inadequada intimidade.
Repetiram-se agora os acontecimentos de setembro último quando, também a poder da força e com distribuição de cartas ameaçadoras ao comércio ordenando o fechamento de estabelecimentos, o tráfico dominou a cidade, da zona norte à zona sul.
O Comando Vermelho assumiu a autoria dos atentados e o secretário de Administração Penitenciária o que fez? Suspendeu os "benefícios" dos líderes do CV nos presídios.
Estarrece, enoja, enfurece a constatação de que traficantes que já demonstraram seu poder de fogo e influência nos escaninhos do aparelho estatal ao instalarem uma central de comunicação dentro de um presídio supostamente de segurança máxima, recebem "benefícios" do poder público.
Foram suspensas visitas, recolhidas as televisões (!). Foi aberta uma sindicância com duração de 15 dias. Depois disso, será decidido se as visitas e as televisões voltam ou não.
E, enquanto isso, as pessoas correm o risco de serem incineradas dentro de ônibus ou explodidas por uma granada à beira-mar.
Fica nítida, pois, a incapacidade e a impossibilidade de o Estado do Rio cumprir sua função constitucional de garantir a segurança de seus cidadãos.
O que se espera do governo federal, numa hora dessa, é que se faça presente e não deixe passar a chance que Fernando Henrique perdeu de lidar com o problema de frente e com a força que o assunto exige.
Não serão palavras indignadas, reuniões burocráticas nem anúncios de planos de repasses de verbas ou criação de grupos de trabalho para isso ou para aquilo que satisfarão a expectativa da Nação.
Quando do primeiro debate entre candidatos à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva recebeu de seu marqueteiro o recado de que as pesquisas telefônicas indicavam a insatisfação dos telespectadores com o fato de o tema segurança pública não ter sido tocado no debate.
Lula então aproveitou o tempo reservado às palavras finais para reclamar dos companheiros o esquecimento e reafirmar sua preocupação com o assunto.
Pois está na hora de mostrar que naquele instante fazia mais do que obedecer a uma orientação de Duda Mendonça: manifestava genuína preocupação e tinha perfeita noção do que fazer, uma vez eleito.
Com formalidades entre instâncias federativas é que não será enfrentado o narcotráfico, pois é com total informalidade no que diz respeito à vida humana que a bandidagem ocupa uma cidade e domina seus habitantes pelo medo, como e quando bem entende.
A criminalidade age à tripa forra e as autoridades ainda quase que comemoram, dizendo que essas ações ocorrem em reação à repressão do Estado.
Ora, se o Estado estivesse na posse de suas prerrogativas, preso de periculosidade máxima não teria regalias nem comandaria ações terroristas de dentro da prisão.
Trata-se de uma obviedade tão exuberante quanto a certeza de que vai acontecer de novo.

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