LUÍS NASSIF
A irracionalidade econômica
Nos anos 60 e 70, o apego excessivo à econometria emburreceu a análise econômica. Julgou-se que os agentes econômicos se moviam de acordo com expectativas racionais. Com informação abundante e aprimoramento das análises econômicas, a racionalidade imperaria, com o confronto de opiniões que seria arbitrado pelo mercado por meio de processos livres de formação de preço.
Vamos tentar situar o quadro atual da discussão econômica, no âmbito dos movimentos de massa e de formação da opinião pública. A moderna opinião pública surge nos anos 20 e 30. Percebem-se, nesse movimento, sinais de um irracionalismo atroz, de um comportamento de manada que resulta nos movimentos fascistas do período.
Em geral, as políticas econômicas não se submetiam às demandas da opinião pública. Ocorreu -inúmeras vezes- de a política econômica se subordinar ao populismo político, resultando invariavelmente em grandes desastres. Mas nunca ocorrera o oposto: de a ortodoxia econômica ser influenciada pelos movimentos da opinião pública.
A partir dos anos 70 começa a ocorrer uma mudança no jogo, com a chamada "teoria das expectativas racionais". Por ela, as empresas reagem de forma racional às expectativas geradas por atos de governo, apostando a favor ou contra, dependendo da consistência da política econômica. A importância de saber o que o agente econômico pensava produziu um efeito perverso. O palpite, a impressão passaram a ter relevância, porque formadores de expectativas. A discussão econômica ganhou enorme espaço na mídia -principalmente com a expansão do jornalismo financeiro. Temas econômicos passaram a ser banalizados, se transformaram em assunto de mesa de bar.
A influência do analista deixou de ser decorrência de seu conhecimento superior para ser razão direta do espaço obtido na mídia. E o critério da mídia é o da glamourização da notícia. É isso que explica o aparecimento de empresas de consultoria que cresceram e enriqueceram embora errando todas as grandes análises econômicas dos últimos anos. Ou os erros continuados de política econômica no governo FHC, com todas as decisões tendo em vista satisfazer o mercado.
Dia desses, meu neurologista e filósofo preferido, Danielle de Riva, me proporcionou aula-consulta sobre as modernas teorias sociológicas, constatando que o homem, principalmente quando atua em conjunto, é basicamente irracional. A racionalidade não é a regra.
Antes, o economista possuía como arma o suposto conhecimento técnico. Agora, esse instrumento foi destruído pela falta de critério, que permitiu o aparecimento do economista de papel -aquele que só acontece na mídia. À esquerda e à direita, os embusteiros ganharam pós-graduação nas manchetes de jornais. Isso vai dificultar, em muito, o aparecimento de uma geração racional na economia, como foi a dos anos 60.
A crítica técnica aos desmandos do fechamento da década de 80 foi substituída pela caricatura fatal de política econômica do Plano Real. Agora, a crítica técnica ao Real pode ser substituída pela volta do pêndulo, das viúvas dos anos 80.

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