7.2.03

LUÍS NASSIF


A reprivatização e os fundos sociais

O novo governo precisa tomar cuidado com esse tema da reestruturação das dívidas das empresas privatizadas. Na primeira fase da privatização, perdeu-se a possibilidade de utilizar as empresas em um modelo de capitalização dos fundos sociais. Tem-se a segunda rodada, agora, com o "default" de muitas empresas privatizadas e corre-se o risco, novamente, de permitir ganhos a grupos, em detrimento dos cotistas dos fundos sociais.

Dois diretores do Banco Opportunity estavam ontem em Arlington, sede da AES, para tentar convencê-los a dar de presente metade da participação que tem na SEB (Southern Electric Participações Ltda.), empresa que detém 33% do capital votante da Cemig. O controle da SEB está dividido entra a AES (64%), a Myrant (antiga Southern, 26%) e o Opportunity (10%). Se vingar a proposta, o Opportunity ficará com 42% dos 33% de capital votante da Cemig. No total, 13,86% do capital, ou US$ 100 milhões pela cotação da Bolsa de Nova York. Tudo de graça, já que os primeiros 10% corresponderam à comissão pela montagem da operação inicial. Essas ações da Cemig garantem um empréstimo de US$ 500 milhões (são a única garantia) da SEB no BNDES, já vencido sem pagamento de principal e juros há dois anos. O que o Opportunity oferece em troca é apenas a possibilidade de equacionar a dívida da AES com o banco.

Por seu lado, a AES contratou José Pio Borges como consultor para equacionar a divida da Eletropaulo com o BNDES. Na condição de presidente do BNDES, Pio Borges fez os empréstimos à AES. Hoje em dia, as garantias não cobrem 10% do crédito e não têm o aval da controladora. Trata-se de um mico-leão gigante de US$ 1,6 bilhão em um só grupo. E esse valor não ajudou a aumentar em nenhum quilowatt a produção de energia elétrica no país.

Que tal o governo Lula começar a descobrir que distribuição de renda não é apenas o Fome Zero, mas a criação de um capitalismo popular no país?

Pingue


De José Luiz Osório, ex-presidente da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), sobre seu sucessor, Luiz Cantidiano, acusado de conflito de interesses por ter sido advogado do Opportunity Fund, que está sendo investigado pela própria CVM: "Cantidiano não é sério, é seríssimo. Quando transferi o cargo para ele, mostrei os pepinos pendentes e ele me informou que, quando o caso Opportunity chegasse ao colegiado da CVM, ele se declararia impedido de votar. Em dezembro passado criou mecanismos que deram mais liberdade aos fiscais, impedindo a participação do colegiado".

Pongue


De Rubens Glasberg, do Teletime, que tem criticado o que julga falta de isenção de Cantidiano: "Por que a CVM não investigou dois casos absurdos, como o iG e o Pégasus, em que empresas dos sócios controladores da Telemar foram salvas com o dinheiro dos minoritários da operadora de telefonia fixa? Por que um fundo mútuo como o Opportunity Fund, que negocia diariamente ações em Bolsa, participa do grupo de controle de empresas abertas ao lado do fundo de private equity CVC Opportunity? O Opportunity Fund não está assim capacitado a operar em Bolsa com informações privilegiadas?".