11.2.03

LUÍS NASSIF


Excluídos com RG

O ministro extraordinário da Segurança Alimentar e Combate à Fome, José Graziano da Silva, foi crucificado por um acerto e poupado por um absurdo. É evidente que a criminalidade dos grandes centros é causada, em grande parte, pelo êxodo rural preponderantemente do Nordeste. É fenômeno social conhecido há 30 anos. Ao mencionar a origem do êxodo, não havia nenhuma conotação de preconceito em suas declarações.

O absurdo foi ter admitido que desconhecia que grande parte das mães de família assistidas por programas sociais é analfabeta e que a maioria dos assistidos não possui documentos. O especialista em excluídos não conhecia duas características básicas de exclusão social: o analfabetismo e a ausência de identidade civil!

Há um vício recorrente dos últimos 20 anos de conferir ao corporativismo acadêmico (para diferenciar do trabalho acadêmico puro) funções executivas. Como a banda acadêmico-corporativista dá pouca atenção à meritocracia e aos resultados, sua postura nos sucessivos governos tem sido recorrentemente a de substituir a equipe anterior (inclusive funcionários de carreira), desqualificar o trabalho anterior (inclusive os pontos positivos) e "refundar" o mundo, montada apenas em conceitos genéricos. A consequência dessa postura tem sido a descontinuidade das ações e o desprezo pelos resultados.

Aos intelectuais -desde que tenham conhecimento da matéria e das limitações impostas pela realidade- cabe definir e conceituar os modelos, jamais o seu desenho e a sua operacionalização, a não ser que somem experiência gerencial.

Graziano não tem histórico de gestão. No plano conceitual, demonstrou não conhecer seu público. Agora se entende, aliás, por que anunciou o controle sobre como vai ser gasto o dinheiro e os recibos escritos por analfabetos e sendo controlados por analfabetos. É possível que já tenha aprendido -mas não se pode garantir- que fome absoluta só existe na periferia das grandes cidades.

Dê-se o devido desconto: o programa Fome Zero não existia até a véspera do primeiro discurso de Luiz Inácio Lula da Silva, depois de eleito presidente. A saída encontrada foi tentar rebatizar os programas anteriores, jogá-los debaixo do guarda-chuva genérico do Fome Zero e anunciar a integração das ações -fácil de falar, complexo de construir.

Por isso são surpreendentes afirmações como a da professora Leva Lavinas, na Folha de quinta, de que, "pela primeira vez, o governo brasileiro dispõe de uma política de segurança alimentar que trata, de forma integrada e coerente, da questão alimentar e nutricional no país, abordando o lado da oferta, da demanda e aspectos de saúde pública e cidadania". Deve ter arrancado boas gargalhadas da própria equipe do Fome Zero.

Aliás, nem dá para condenar a equipe atual pela improvisação. Foram jogados no fogo. A questão é que o PT confiou seu marketing de maior visibilidade a acadêmicos sem experiência de mundo e sem conhecimento básico da matéria. Faria melhor o governo pesquisar gestores de fato em seus quadros, ou nos da administração, que possam conferir ao programa resultados mais concretos do que as declarações da professora Lavinas e de frei Betto. Não se pode arriscar colocar todas as políticas sociais em mãos tão inexperientes.