JANIO DE FREITAS
A regra do aperto
A tergiversante exposição, que não chegou a ser explicação, dos ministros Guido Mantega e Antonio Palocci para o corte de R$ 14 bilhões suscita, à margem de seus discutíveis aspectos técnicos, três observações.
O governo atribui dois terços do corte à necessidade de corrigir o erro de quase R$ 9 bilhões, ora atribuído ao governo passado, ora ao Congresso, no Orçamento para este ano. A chamada proposta de Orçamento foi, porém, discutida com o governo pelo grupo de transição chefiado por Palocci; discutida pela bancada petista no Congresso e, enfim encerrada a fase de emendas, votada favoravelmente pelo PT, segundo a diretriz do já eleito Luiz Inácio Lula da Silva e do Antonio Palocci já ciente de que seria ministro da Fazenda.
Nos últimos meses do ano e no começo do atual, Lula da Silva, Antonio Palocci, Aloizio Mercadante, José Dirceu, José Genoino e muitos outros da relevância petista reclamaram da exiguidade de verbas destinadas a investimentos, no "Orçamento apertado" que o governo anterior montou para o primeiro ano do atual.
Os autores da reclamação, por sinal justa, são os mesmos que agora invocam o erro de R$ 9 bilhões a ser corrigido, mas vão além e cortam (embora alguns daqueles participem por aprovação) mais R$ 5 bilhões do que já era dado como exíguo.
Louve-se, no entanto, a persistente coerência com que a política econômica do governo Lula segue os métodos de Pedro Malan/FMI.
No planeta
Enquanto, em algum lugar do planeta, pessoas "de esquerda" chegam ao poder e passam a agir segundo os moldes herdados de seus opostos, é a um político da direita liberal que o mundo deve a contrariedade à ânsia de guerra do poder americano. É a posição grandiosa da velha França, lançada com imprevisível determinação por Jacques Chirac, que tem dado forças aos governos da Alemanha e da Bélgica para desafiar, também, a ambição imperial.
Esses três mosqueteiros atingiram agora os brios da Rússia e da China e, com isso, criam uma situação nova. Caso iniciasse a guerra apesar da manifestação em contrário da França, no Conselho de Segurança da ONU, Bush estaria desrespeitando um veto individual. Agora, porém, desrespeitaria a deliberação da maioria dos cinco países com poder de veto no Conselho de Segurança: França, Rússia e China, ficando apenas a Grã-Bretanha como aliada dos Estados Unidos de Bush.
Tornou-se ainda mais necessária, para o ataque americano, a comprovação de que o Iraque detém armamentos de destruição em massa que ameaçam, no Oriente Médio, aliados dos americanos.
Enquanto isso, em algum lugar do planeta, vão-se encaminhando, em surdina, aberturas para a montagem da Alca, a Área de Livre Comércio das Américas desejada pelo poder americano.

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