7.2.03

JANIO DE FREITAS


Ainda distante


O Nordeste pobre está sendo reincorporado ao Brasil, ao menos, por ora, no forçado contato visual de alguns ministros com a pobreza e, de modo ainda mais amplo, na fartura de discursos e entrevistas que tem sido, também, uma forma de continuísmo, mais que de esclarecimento e serviço à população. Falta agora que alguém leve o próprio presidente e os ministros para conhecerem os outros Nordestes: o da cultura, seja qual for o sentido dado à palavra, e o da riqueza.

O Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social não pretende ser representativo da sociedade, será uma assessoria especial do Executivo, cuja composição, no dizer sulino do seu coordenador Tarso Genro, "foi parelha". Ou, cá pra nós, equilibrada, equitativa. Representativo da sociedade é o Congresso, ao que afirma, lá por sua conta, a teoria política.

São 82 os selecionados no país por Luiz Inácio Lula da Silva, presume-se que ajudado por alguns palpites assessórios, para compor o conselho. Na seleção equilibrada, equitativa, "parelha", o presidente e sua equipe incluíram três pessoas do Nordeste. E 51 de São Paulo, contando-se também os que representarão o governo no conselho, como Lula.

Nada de desfazer de São Paulo e nem mesmo dos paulistas selecionados. Mas soa quase como um desaforo ao Nordeste que apenas três pessoas sejam consideradas capazes de prestar, pela inteligência e pela experiência, colaboração à altura dos demais selecionados. Em um conselho que vai discutir questões de Direito, de reordenação social, de conceituações administrativas, relegar a criatividade da inteligência e do saber depositados no Nordeste é uma triste indicação.

Visto sem microscópio, o governo é um conjunto paulista com infiltrações gaúchas. As quais são insuficientes para negar que a composição do governo seja mais uma forma de continuísmo.

Em todo caso, o governo está preocupado com o Nordeste. E anuncia que apelar à contribuição dos empresários ricos. Onde? Na Federação das Indústrias de São Paulo. Não seria hora, afinal, de começar a cobrança de mobilização da riqueza de nordestinos, altamente concentrada, em socorro ao Nordeste que os enriqueceu? Empresários de São Paulo vão colaborar com o Fome Zero e com todo programa social que o governo lance, mas imaginar que sua contribuição será constante, disposta a eliminar problemas distantes, é uma hipótese de boa-fé e mau realismo. Não é à toa que São Paulo é, com sua periferia, a maior cidade nordestina pobre.

Assédio

O lobby da Transbrasil é o primeiro a se lançar sobre o governo. Com penetração já comprovável.